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Durante longos anos, a espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, ideia de João Calvino, e dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a ideia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja.
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Assim, o Papa (séc.16!) estaria no topo da hierarquia da Igreja, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local. O papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como o primeiro da igreja universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer, Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos, papa e sacerdotes, reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona” (como também pretendem ser pastores evangélicos pentecostalistas de hoje). Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (Eucaristia), ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram “procuradores” de Deus, com plenos poderes em questões de Fé e de Culto.
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Os reformadores disseram: só Jesus Cristo por si mesmo nos justifica, e ninguém mais. Jesus pode dizer: “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem…”. O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: “Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa”. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, homens e mulheres, sacerdotes ou leigos. Deus é transcendente, imutável, infinito, inominável, indescritível, como também dizia Karl Barth.
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Deus que conhece o ser humano, porque se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, na busca de elevar seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor… obrigado porque não sou como os pecadores”.

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Deus não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como quem vive a vida de fé — são os fiscais cobradores da Graça como retribuição –, em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade interesseira e do esforço de santidade e avivamento espiritual.
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As respostas poderiam ser estas: “a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às necessidades pessoais”. Oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, dispostos a exigir retribuição pela dedicação, e sempre prontos a recorrer a um “deus-quebra-meu-galho”, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé.

A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido do aflito para que o Senhor nos livra do mal e do sofrimento. Inclusive, nos liberta da presunção e arrogância. Antes, porém, deveríamos “orar com fé”, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos ao Pai: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
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Lutero dizia: “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A gratidão traz paz! Acrescenta Lutero: “na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível de Deus. O crente se reconhece objeto da Graça. Apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho. Não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32).
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Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se, corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a transmissão da fé, no cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana, por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política, nas relações sociais, comerciais, e tudo que cabe à dignidade humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus Cristo.
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O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser ele o que é: Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para rebaixar o Deus a uma divindade qualquer, tornando-O um “deus-quebra-meu-galho” a nosso serviço.

“…Seja feita a tua vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E também demos graças aos reformadores e à Reforma, os quais, dentro do princípio protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a comunidade do povo que Deus elegeu e ama.
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Leituras:
Isaías 62,6-7;10-12 – Yahweh te desposará como a uma virgem
Romanos 3,19-28 – Obra alguma nos justifica diante Dele!
Lucas 18,9-14 – Tem piedade de mim, pecador!

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