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APODERAM-SE DO POVO DE DEUS

Lucas 20, (9-19; 20-26)(27-38) — Com a parábola dos vinhateiros assassinos, Jesus mostra que está plenamente consciente do que está acontecendo, ou vai acontecer em seguida. Os “vinhateiros” são os chefes “vinhateiros” assassinos religiosos do povo. Doutores da Lei, especialistas das Escrituras, chefes políticos e sacerdotes, definiriam os “vinhateiros”. O conceito valeria também para os dirigentes do templo, no judaísmo do momento histórico, e influenciariam o cristianismo apostólico inicial.
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Este evangelho, Lucas, é um escrito datado 85 D.C. (!?), cenário da igreja inicial. A missão de alguns, deles – como compreendiam –, era fazer o povo “produzir para Deus”, transformando a religião em serviço e mercadoria. Usavam o povo religioso em proveito próprio, “eliminando” os oponentes críticos (talvez, os reclamantes de que o “Reino e a sua justiça viriam em primeiro lugar, depois a igreja”).
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Por último, matam também o filho do “patrão”, que é simbolicamente Jesus. E o que vai acontecer? O que fará Deus? Arrancará o seu povo/vinha (cf. Isaías 5,3-7) das mãos desses vinhateiros e o entregará a outros administradores. De agora em diante o povo de Deus vai se reunir ao redor de Jesus. “Eu sou a videira, vós sois os ramos”…
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A história de Lucas é esta: “Certo homem plantou uma vinha, arrendou-a a alguns lavradores e ausentou-se por longo tempo. Na época da colheita, ele enviou um servo aos lavradores, para que lhe entregassem parte do fruto da vinha. Mas os lavradores o espancaram e o mandaram embora de mãos vazias. Ele mandou outro servo, mas a esse também espancaram e o trataram de maneira humilhante, mandando-o embora de mãos vazias. Enviou ainda um terceiro, e eles o feriram e o expulsaram da vinha. Então, o proprietário da vinha disse: “Que farei? Mandarei meu filho amado; quem sabe o respeitarão”. Mas quando os lavradores o viram, combinaram entre si dizendo: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa”. Assim, lançaram-no fora da vinha e o mataram. O que lhes fará então o dono da vinha? Virá, matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros. Quando o povo ouviu isso, disse: Esperemos que isso nunca aconteça!” (Lucas 20:9-16).
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Entre Jesus e as autoridades está o povo, servindo de proteção e escudo (isto se reverterá posteriormente, no julgamento e na condenação de Jesus, quando este mesmo povo [eclesiástico] clamará: “matem-no”!). Novamente percebemos o conflito fundamental, que está entre a proposta do reinado de Deus e o comportamento das autoridades religiosas. Na raiz do conflito temos o fato de que essas autoridades tentam de todos os modos apoderar-se do que pertence a Deus.

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COMBATENDO A OPRESSÃO RELIGIOSA
Lucas 20, 27-38
Outra armadilha para Jesus: Assim, os espiões (do templo) lhe perguntaram: “Mestre, sabemos que falas e ensinas o que é correto, e que não mostras parcialidade, mas ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. É certo pagar imposto a César ou não?” (Lucas 20,21-22). A moeda do tributo era um sinal da dominação econômica e política (20,20-26). É lícito ou não pagar esse tributo? E Jesus responde que sim, ficará desmoralizado como aliado do poder opressor. Se responde que não, será acusado de sedicioso e anarquista.

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O Templo é também o lugar onde o sistema fazendário tem sede. As autoridades do Templo estão encarregadas de repassar aos romanos a parte que lhes cabe da arrecadação dos impostos. Pode-se indagar se o “dízimo”, imposto religioso remanescente do judaísmo formativo, está incluído. Há indicações de que também esse dinheiro era usado para melhorar relações entre o dominador e o dominado (Estado e Religião). Mas Jesus escapa da armadilha.
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A frase “deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” revira totalmente a questão. Jesus reconhece que o Estado tem uma função, mas esta não é a de tomar posse do povo. O povo não deve ser considerado como mercadoria, seja nas mãos do Estado nacional, seja nas mãos do Estado estrangeiro. Trata-se de um dilema do qual não se possa escapar. Uma questão capciosa. Posto entre a espada e a parede, terá que fazer uma declaração que o comprometeria gravemente ante as autoridades romanas. De fato, o tema do tributo soará no processo perante Pilatos (Lc 23,2).
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O dilema da autoridade imperial romana se coloca no terreno econômico, que todos sentem, e não deixa saída. O judaísmo político religioso, atrelado, subserviente, é levado em consideração. A adulação serve de entrada (Pr 6,24; 26,28). Podem insinuar que Jesus se apresente com imparcialidade entre o povo judeu – primeiros cristãos e judaítas contemporâneos que servem o templo – e o poder romano. Parece-nos claro que o mais importante se destaca: “o que é de Deus não pode ser manipulado nem pela religião e nem pelo Estado”, parafrasearíamos o Evangelho.
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O povo pertence a Deus, e Deus o liberta para a vida em plenitude cultural, social, econômica e religiosa sob imperativos éticos que regem a solidariedade e a partilha. Embora pertença a Deus, nem mesmo Deus toma posse dele ou o explora. Não exige bajulação religiosa, adoração interesseira, nem sacrifícios, senão justiça social (Mt 9,13; Os 6,6). Deus quer pontes sobre os abismos das desigualdades entre homens, mulheres, povos e raças. Deus faz as pessoas viverem como povo da fé histórica e como cidadãos (cf. Pacto da Aliança, Código Deuteronômico, etc., verdadeira Lei de Deus, biblicamente).
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É isso que o Estado deveria compreender, e também a religião. Sua função é salvaguardar a liberdade e a vida do povo, para que este possa exercer sua fidelidade (emmunah) à Lei de Deus (“Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” [Jeremias 31,33]). A lei de Deus não é propriedade do Estado ou da Religião. A lei de Deus ao pobre e seus direitos fundamentais: trabalho e remuneração justos, alimento, moradia, saúde, e tudo que concerne à igualdade diante da vida.
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Contudo, quando o Estado — do mesmo modo a Religião –, compromete a liberdade e a vida do povo, ele (ou ela) perverte a sua função e se torna intrinsecamente mau, e deve ser combatido em seu propósito de oprimir e subjugar. A continuidade entre o “agora” e o “então” está em Deus e na sua Gratuidade (hesed). E Jesus faz uma excursão mais profunda na “Tanah” (Bíblia Hebraica depois da época talmúdica [iniciada desde 2oo a.C.]), e na “Torah“, lembrando-os do que Moisés disse a respeito de Deus como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. É preciso lembrar, nas palavras de Lucas, que Jesus não assegura o “direito” da Religião de manipular a Lei de Deus. E ponto final.
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32º. Domingo do Tempo Comum [depois de Pentecostes]
Ageu 1,5b-2,9 – Minha é a prata e meu é ouro: meu povo
Salmo 98 – Os céus anunciam a justiça de Deus
2Tessalonicenses 2,1-5;13-17 – Ninguém vos engane…
Lucas 20, (9-19; 20-26)27-38 – Apoderam-se do povo de”deus”…

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