FIM, COMEÇO OU RETROCESSO

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Hoje estamos num momento de mudança na história. Não são poucos os analistas que creem que estamos na presença de uma metamorfose da religião, acompanhando as profundas mudanças no mundo pós-industrial. Algo termina (um “Templo” está se desmoronando… uma religião está se desintegrando…), e algo está nascendo. Qual é a resposta religiosa das igrejas? No Brasil, e em todo o planeta ressurgem movimentos conservadores e autoritários.

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Na política, o fascismo recrudesce em todo lugar. Como já disse alguém, acalmando quem se horroriza com o bueiro aberto que solta as ratazanas: “se há o retrocesso das ideias, elas triunfam porque quem discordava de ‘excessos democráticos’ passou a concordar com o autoritarismo”. Quem observa os acontecimentos, no entanto, fará avançar novas ideias a cada enterro que se queira impor às novas ideias. “Os jovens das periferias farão uma frente de combate à onda conservadora” lembra a combatente do racismo cultural Rosana Paulino (CartaCapital, 03/out./2016).

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Em Curitiba PR, representando jovens do ensino médio que ocupam 364 escolas públicas no país, Ana Júlia, 16 anos, invadiu as redes sociais, foi falar na Assembleia Legislativa, e tornou-se o símbolo de um movimento em defesa da educação, agora ameaçada por um governo distanciado da democracia igualitária, empenhado em devolver a educação pública aos setores privados. Sistemas de acesso à universidade, jamais vistos no país, encontram-se no foco do governo que pretende reduzir o que for possível na educação pública.

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Quem dirá que em matéria de igrejas e religiões não pode haver mais nada de novo debaixo do sol? Quem dirá que novas gerações não têm direito de criar uma nova tradição, em torno da unidade que proponha um mundo transformado pela presença do Reino de Deus? Quem pode garantir, noutro extremo, que não se está criando essa nova tradição desviante nos incontáveis movimentos religiosos que brotaram nas últimas décadas? Quem afirmaria hoje que Jesus queria fundar exatamente o que logo se construiu sobre seu testemunho, e que não seria ele uma nova fundação ou refundição do futuro? E, por demais impressionante que pareça, quem não vê igrejas afinadas com o movimento autoritário, apresentando-se em oposição ao Reino de Deus?

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Mais de 82% da população brasileira vivem em cidades, segundo o IPEA. Algumas das metrópoles chegam a alcançar 91%, se não mais (pensemos nas cidades satélites da região metropolitana de S.Paulo, p.ex.). Imaginemos igrejas atuando na sociedade onde se inserem (e dela fazem parte!), discipulando e preparando fieis para a vida urbana, denunciando a presença constante da fome, desemprego, ausência da saúde pública, escola, trabalho solidário. Denunciando a corrupção, a política de retrocesso, os desmandos nos setores públicos, e reivindicando políticas públicas eficientes no atendimento da população coletiva… Paul Tillich, há seis décadas, falava da igreja concreta como “comunidades de testemunho” do Reino de Deus. Onde?

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Jesus disse algo que eles não esperavam: o “templo”, centro referencial da religião, é admirável pela sua enormidade e beleza? Pois, assim como o veem, “não ficará pedra sobre pedra”, tudo será destruído. Até os alicerces ruirão. O templo é imagem do sistema injusto, apoiado pela religião, alicerçado na economia e política da desigualdade e da exploração, e alijamento dos mais fracos, e na cooptação de privilegiados e bem-postos. Jesus fazia o diagnóstico terrível da religião, da sociedade gananciosa, e da cultura da discriminação, intolerante, preconceituosa, atrelada ao fatalismo reinante. O pragmatismo do momento, que justificava a ação de Jesus, servia-se do utilitarismo interesseiro da religião.

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Há uma zona de obscuridade na vida humana, uma área sem luz no lugar onde a vida se debate. Pelo medo de castigos e punições, medo que se instala no âmago quase inatingível pelas ciências da mente (Paulo César Pinheiro). O medo é uma escuridão que imobiliza o ser humano religioso. Dessa maneira Jesus deixou pelo menos três lições, perante os conflitos sociais, desigualdades econômicas, políticas e religiosas. É preciso [1] – viver em atitude de discernimento dos sinais que nele encontramos, [2] – coragem para agir frente ao desconhecido, e [3] – ter certeza de que a vinda do Reino de Deus levará a história à plenitude.

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Um paradoxo leva a religião a construir muralhas em torno do “templo”, não permitindo a visão da realidade para transformá-la, instilando uma consciência negativa sobre possibilidades novas, um futuro libertado. A história do “templo” – o templo seria um refúgio – escamoteia a miséria do mundo. Examinada superficialmente, ou de forma abstrata, evitando-se os caminhos subterrâneos da alma do povo, a pobreza e a desigualdade são praticamente ignoradas.

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São assim, também, as histórias dos quarteirões dos pobres, dos guetos da pobreza, nas grandes cidades do mundo desenvolvido. Como disse Emmanuel Lévinas. É nesse contexto que uma cidade como S.Paulo SP elege um bilionário que ignorava o elevado Costa e Silva (Minhocão), enquanto mal sabe onde se localiza a Cracolândia, no centro velho da cidade quatrocentenária. Futura secretária do próximo governo municipal, já eleito, promete criar um camping/guetto para abrigar moradores de rua… Não será no Ibirapuera, certamente.

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Karl Barth lembrava que o ser humano usualmente é descrito como um pecador, mas disse também que a Igreja é vulnerável, porque é também humana e pecadora, em sua expressão religiosa. Isto se vê especialmente nas igrejas e religião que viraram as costas para Deus e suas intenções de salvação e transformação do homem e da sociedade (Is 65,17-25). As igrejas encontram-se agora numa espécie de cegueira burocrática (Brakemeier), ou sob um pragmatismo ganancioso, em busca de poder político e econômico-financeiro. Por si mesmo, o homem não possui a capacidade de conhecer a Deus, por falta de esforço discipulador da fé. O conhecimento de Deus é uma dádiva a ser transmitida e recebida pela fé em Cristo.

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Entretanto, diria Jesus, isso não iria acontecer sem perseguição, sofrimento e morte. A palavra vem de martyria = testemunha da fé, os mártires de então, no tempo apostólico, são os mártires dos direitos fundamentais de agora. Luther King, Monsenhor Romero, Jaime Wright, Paulo Evaristo Arns, e muitos outros que se empenharam na causa da Justiça. O Evangelho sugere que Jesus lhes disse: “não se confundam, e ponham cada coisa em seu lugar. Uma coisa é o que vai acontecer com o povo eleito, e com vocês, em relação aos chefes religiosos. Outra coisa muito distinta é o final da história. “Diante disto vocês terão que ver a maneira de agir no presente”. O fim do Templo não coincidiria com o fim da história… o fim não é nada mais do que o começo do novo (krisis). É o ensinamento de Jesus sobre a crise religiosa nos momentos de crise política e social.

Derval Dasilio

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]

Isaías 65,17-25 – Pois eu que eu criei um novo céu e uma nova terra / Isaías 12 – Senhor, ainda bem que não te iraste contra nós / 2Tessalonicenses 3,6-13 – Não coma o que é da comunidade

Lucas 21,5-19 – Não ficará pedra sobre pedra…

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