criança refugiada [principal]
Um diálogo de Leonardo Boff com Darcy Ribeiro fez-me lembrar, entre as coisas boas que li ao acordar, nesta manhã, inspirava-me a escrever algumas memórias sobre o que  pensei e fiz, ou experimentei de melhor até o momento. Darcy pensava e vivia como um vulcão indomável, em irrupção permanente. Dizia não ter fé, mas sentia muita falta, especialmente quando lembrava sua mãe, que acendia uma vela todos os dias para manter acessa a sua fé. E Leonardo procurava explicar um pouco da experiência da fé: “não dá para entender o mundo sem que Deus esteja dentro. A experiência de Deus refere-se a uma espiritualidade cósmica. Mas, podemos imaginar Deus como uma galinha no terreiro do universo, sempre colocando os pintinhos debaixo das asas para acolhê-los e protegê-los”.


Por que as coisas que Deus faz não trazem uma assinatura sagrada, um selo de qualidade ou autenticação? Bastaria pensar nos grandes mestres da arte, os grandes quadros e painéis, as esculturas, que se tornaram patrimônio universal da humanidade. Os grandes pintores não assinavam suas obras, esperando o reconhecimento da grandeza das mesmas. No entanto, elas vencem o tempo e se identificam na eternidade das coisas que nos cercam.


Se Deus assinasse as suas obras seria como Portinari. O filho de Portinari, ressalta que o painel restaurado, reinaugurado na ONU, sobre os efeitos da guerra, feito por seu pai, não traz imagens de armas, tanques ou soldados. Porque Portinari preferiu se concentrar no sofrimento do povo em meio ao conflito. O mesmo sofrimento que João Cândido, o filho, vê nas imagens recentes que correram o mundo, de refugiados em busca de abrigo na Europa. A urgência de construir uma nova humanidade está na pintura de um mundo sem misericórdia. Disse, então: “quero que esta oportunidade de falar no plenário mais nobre do mundo sirva para conclamar e conscientizar, porque é a nossa própria sobrevivência que está em jogo”.


Petra Laszlo, repórter de televisão, estava filmando refugiados correndo da polícia húngara quando um homem passou em sua frente com uma criança nos braços. Ela estica a perna, fazendo-o cair com a criança. A emissora publicou uma mensagem dizendo que o comportamento dela é “inaceitável” e que ela foi demitida. “O emprego dela acabou hoje, o caso está encerrado para nós”, diz o responsável pela mídia televisiva, em comunicado. Não bastou, o caso teve repercussão mundial. Não é assim, o fim dessa história de impiedade, a história dos oprimidos pela miséria oceânica, no planeta, continua.

A sequência mostra o homem correndo com a criança no colo e tropeçando na perna estendida propositalmente pela cinegrafista húngara. Poderíamos ver José, marido de Maria, caindo estrepitosamente com o menino Jesus de Nazaré no colo, diante do mundo inteiro, denunciando a sociedade excludente que odeia sem qualquer resquício de misericórdia e compaixão àqueles que ameaçam seu conforto e privilégios.


Aqui nos deparamos com o verdadeiro destino humano, negado no fato acima –  segundo o Criador: perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, nos meninos e nas meninas. E a acolhida, os abraços, o carinho, a ternura de Deus pelos que sofrem, impedem-nos de aceitar a crueldade contra o nosso semelhante.


Construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. O evangelho do Senhor menino, criança, imigrante, refugiado, recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo ideal destinado às crianças (Lc 1,46-55). Um mundo sem males nem dores, um novo céu e uma nova terra (Is 65,17-25; Ap 21,1). Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa canção de amor pelo mundo criado”.


Só os poetas, e o próprio Deus, creem que a beleza do mundo inteiro, como nos seus mistérios, está nos olhos da criança. Neles, os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.   A misericórdia de Deus continua de geração em geração… sua força dispersa os planos dos soberbos e arrogantes… derruba dos tronos os que detém poder, e valoriza a gente humilde que não tem com quem contar… cumula de alimentos os famintos, e manda os ricos para os quintos dos infernos… socorre o seu povo, conforme prometera no passado, recordando sua lealdade e fidelidade, para sempre” (Lc 1,46-55: paráfrase do autor).

A tragédia do não reconhecimento do desenho poético de Deus, nos olhos e nos sonhos de uma criança, nos condena à perplexidade. Nos meninos e meninas que buscam refúgio e oportunidades no mundo rico vê-se o lado mais sombrio e efêmero do presente, que não só abandona os sofredores de injustiça, mas mergulham na impiedade das sociedades abastadas. O mundo violento, egoísta, ganancioso, declara não depender de Deus, enquanto venera o mercantilista capitalista e pagão. Muito menos mostra precisar do menino chutado por uma guardiã da sociedade bem-posta – e são as crianças que haverão de sobreviver, e não a intolerância e crueldade do mundo perverso representado naquele acontecimento.


Não há alegria maior, quando uma criança nasce para tal fim. Deus está conosco, “Jesus é a alegria do mundo”. Com a palavra o hino de J.S.Bach, que cantaremos em toda a sua profundidade e extensão nestes dias de intolerância, lembrando a solidariedade de Deus com os humilhados, os diminuídos contra o desprezo que sofrem as crianças em busca de refúgio e acolhida ao bem-estar que todas as crianças do mundo merecem. Contra todas as concepções edulcoradas da Natalidade do Menino de Deus, a criança, entre os milhões de refugiados que buscavam a sobrevivência nos países da União Europeia, nos lembrarão que Jesus nascia perseguido desde o primeiro momento pela sociedade excludente.


Derval Dasilio
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