A LEI RELIGIOSA E A DEUSA DE PEDRA

Quem não quer um “deus” domesticado, preso e alimentado em gaiolas religiosas, cada uma mais certa de sua segurança doutrinal? Gaiolas de arame, de prata ou de ouro, não importa, têm uma finalidade: impedir os vôos do pássaro livre (Deus?). O pássaro preso chora, achamos que está cantando. Até as crianças sabem que não podem prender um pássaro, sem lhe tirar a beleza essencial que, vista em liberdade inspira os melhores valores do “ethos” divino, transcendências onde se observam o cuidado, a misericórdia, o respeito e a exigência de dignidade humana para todos os homens e mulheres. Mais que nunca, a felicidade está no espírito da Lei de Deus, onde a cláusula áurea é o amor.

lei de pedraAs origens da fé bíblica, no entanto, apontam o Deus que convoca para a liberdade e os direitos a serem conquistados passo a passo, diante da camaleônica cultura religiosa (já se fala em bricolagem religiosa, hoje), que quer também ser chamada de “mais cristã” que as outras tradições. Diante do henoteismo moderno — aceitar uma divindade entre outras divindades! –, passamos pela bibliolatria fundamentalista, e chegamos à religião de mercado. No entanto, o preço da liberdade da fé passa também pelos conselhos bíblicos, pedagógicos, da “shemah” (“ouve, ó Israel…”), e pelo Pacto da Aliança (leis de proteção do homem e da terra). Estes exigem a compreensão da natureza do pecado em sua forma e estrutura histórica e social, e da obediência às exigências do Deus.

De que tratam os vários sermões deuteronômicos (lei bíblica reeditada no século 6º a.C.), aos quais se referem Jesus? São mensagens que insistem em fortalecer relações inter-humanas baseadas na justiça. A Lei não é um compêndio de decretos isolados, cada preceito defende a vida e a dignidade de cada pessoa da comunidade; a Lei expressa a vida íntima da comunidade, no sentido de que cada pessoa disponha do mínimo para sobreviver, e que ninguém viva em situação de opróbrio e miséria (“Não existirá pobres entre vós” – Dt 15,4-5). A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora, uma outorga de Deus (Yahweh) para todo o povo. Envolve a atenção e cuidado com a terra (ecologia), moradia, trabalho, responsabilidade para com os deserdados.

Por que a tentação da gente religiosa em forçar e manipular a sabedoria divina, quando se transforma a Bíblia em leis religiosas, em semelhança à voz autorizada de Deus? Por que eu preciso para minha vida de um “deus” que é imagem e semelhança do que fazemos uns com os outros, de acordo com nossas conveniências pessoais, ou institucionais? Voltaire disse, irreverentemente: “Se é verdade que o homem é imagem e semelhança de Deus, é também verdade que (seu) deus é imagem e semelhança do homem”. Comparativamente, a Bíblia tem sido apresentada como espelho das piores e mais injustas leis humanas, justificando, em nome de Deus, a escravidão, o latifúndio improdutivo, o direito consuetidinário sobre a propriedade; a homofobia impune, o androcentrismo; o abandono da criança, do jovem e do idoso, por exemplo.

No entanto, a experiência vem dos púlpitos, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável. Sentimentalismos à flor da pele, por um lado, e razão instrumental, pragmática, do outro. A razão deve predominar sobre todo sentimentalismo, dirá um ortodoxo racionalista. A razão instrumental ensina que não se deve dar atenção ao sentimento, “as coisas importantes da vida excluem os sentimentos”… Assim se introduz o perigo das sociedades ideologicamente fascistas, autoritárias, também calcadas em sentimentos semelhantes, nacionalistas ou cabotinos, como modelo legalista e ideológico. Quem não se interessa por “slogans” falso-moralistas roubados do fundamentalismo? Quantos se interessariam por aspectos mais importantes, na raiz dos comportamentos, quando sentimentos profundos de compaixão, cuidado, dignidade, são reclamados, para além da moralidade piedosa evocada pela religião autoritária?

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Marcos 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, ele respondia com a verdade simples e cristalina. Jesus estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas sob impedimento da liberdade, no tormento do controle das consciências que impediam a espontaneidade da fé. Este interesse não encobria uma ideologia política ou religiosa. Declarou-se, Jesus, abertamente contra a idolatria da letra morta (“a lei do sábado não é mais importante que o homem”). Ou seja: a Lei, exigências a respeito de costumes, prescrições religiosas, engessa a misericórdia, o cuidado, a solidariedade, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião legalista sem misericórdia e compaixão [foi exatamente contra tal religião que Schleiermacher, teólogo e pastor protestante do liberalismo teológico do séc.19 “criou” o novo pietismo, onde o sentimento, na experiência de Deus, ocupa o primeiro lugar].

Precisamente por isso, a luta contra os demônios, espíritos imundos: sistemas de pensar sobre a religião, política, economia, cultura, justiça civil. Atualizemos, pois é uma luta contra ideologias instaladas nas sinagogas e no Templo, iguais em todos os tempos e lugares – iguais no cristianismo, islamismo ou judaísmo, para ficarmos no âmbito das religiões abraâmicas –, nas igrejas e na sociedade (Marcos 1,21-28). O profeta de Nazaré está preocupado com coisas como manter vivo o espírito da Lei, tema recorrente no Deuteronômio (seguramente: direitos humanos, econômicos, ecológicos, etc.). Para que? Para que a Lei religiosa não se transforme em formalidade, e sim em meio para atender às necessidades essenciais da comunidade de fé, e de cada ser humano.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões fascinadas com o brilho grosseiro das ideologias gananciosas de poder e de mercado, evocando a Bíblia? O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: é o Reino de Deus que está diante nós, e não uma “lei de pedra”, que incita à adoração de preceitos religiosos imutáveis. Aos pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “Bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23), disse Jesus.

Temos, aí, o centro, núcleo energético, da mensagem de Jesus. Isso significa que ele sabia das palavras do profeta Jeremias: “…cada um levará a Lei no coração”. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo e o mundo inteiro. Envolve o cuidado com a terra, moradia, trabalho, responsabilidade para com os esmagados deste mundo. Não é a Lei que salva, e sim o Cristo de Deus como Palavra de Deus.

Derval Dasilio 

4ºDOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DA EPIFANIA|ANO “B” Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é dádiva concedida pela misericórdia | Salmo 111 – As leis do Senhor são a verdade e a justiça | 1Coríntios 8,1-13 – “… pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos” | Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

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