PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

O perdão é a expressão máxima do verdadeiro amor (Lucas 6, 27-38). Quem ama, entende a pessoa que o agrediu, até o extremo quase absurdo da desculpa do Crucificado: porque não sabem o que fazem (Lucas 23, 34). Quem ama, é também capaz de reconhecer seus erros, reparar o dano causado e reconstruir a comum+união avariada. Contudo, como é difícil perdoar! Parece que no fundo do coração humano predomina a tendência à violência, à vingança, que, ao se afastar, é intrínseca ao dinamismo genético que não nos deixa vivenciar a experiência do amor em plenitude. O perdão é um processo de conversão. Para chegar a ele é preciso viver uma profunda experiência de Deus. Somente Deus é capaz de perdoar e nos habilitar para o perdão. Por isso, o perdão é a graça por excelência, de Deus para com seus filhos (Comentário abaixo).

“Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão” (Mateus 5,23-25).

Vem, em seguida, a reparação pelo dano causado. Em alguns lugares se diz que “o que quebra, paga e leva os pedaços”. Ficaria incompleto o caminho se não se reparasse moral ou materialmente o mal que se fez. Do contrário, o processo penitencial não produziria os efeitos desejados na pessoa arrependida. E na vítima e na comunidade não se cumpriria com o princípio básico da vida social, que é a justiça: dar a cada um o que lhe corresponde.  

Requer-se, por último, o compromisso de não se reincidir na mesma falta. Isto não quer dizer que absolutamente não se volte a falhar. A condição humana é muito frágil e incerta. A fraqueza, a sedução e as tentações nos podem surpreender e arrebatar. Mas a decisão de não voltar a cair em falta deve ser inteiramente sincera. O mundo, dividido pelas guerras, ódio e miséria, necessita de remédios estruturais profundos e relativamente definitivos. E é aí onde os cristãos somos chamados a colaborar com nosso grãozinho de areia.

Davi, perdoa a seu inimigo Saul, tendo podido eliminá-lo sem maiores contratempos. Paulo, nos chama a viver no espírito pacífico e de reconciliação do novo Adão. Jesus, convida a viver o perdão como um exercício permanente do compromisso cristão. Só através de um testemunho de perdão e reconciliação contínuos, pessoais e coletivos, conseguiremos derrotar as forças da violência, do ódio e da destruição da vida, em todas as suas formas e manifestações.

Obs: Lendo a Bíblia hoje, tendemos a considerar que a religião do tempo apostólico era regida pela Bíblia Hebraica. Equívoco de grande importância: as leis religiosas eram determinadas no Mishinah, e comentadas, avaliadas, pelo Thalmud. De fato, alguns dos textos bíblicos véterotestamentários estavam à disposição, não dos sacerdotes do culto, mas nas escolas rabínicas que preparavam dirigentes para as sinagogas. O povo ignorava por inteiro as querelas com os letrados, escribas, intérpretes das leis religiosas. A referência bíblica à Lei, na verdade, traz à memória o Pacto da Aliança, o Código Deuteronômico e o Código de Pureza do Levítico.

5o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Deuteronômio 30.15-20;
Salmo 119.1-8;
1Coríntios 9;
Mateus 5.21-37  – Os que perdoam, serão perdoados    

jesus sermão montanha (2)

“A FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

Facebook – 26 de janeiro de 2014 às 20:50
4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Gravura: Cereza Barredo

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar? 

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio

Gravura: Cerezo Barredo
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