quaresma-2É importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão e humilhação dos membros mais fracos da sociedade. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da solidariedade na partilha dos bens comuns, contra a desigualdade. E também para denunciar a política suja que derruba despudoramente programas de redução da pobreza  e inclusão social — enquanto faz blindagem da corrupção –, o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares para a religião.
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O empenho na justiça para com o próximo; o compromisso em atos solidários quase impossíveis, face às desgraças sociais; a resistência aos poderes demoníacos, especialmente os que se manifestam na política e na economia; o sofrimento diante da violência da fome, do desemprego, do assassinato de inocentes, dos conflitos comuns nos meios onde crentes também vivem, coletivamente (embora industriados para ignorar a comunidade). Especialmente nas favelas e periferias sob o desamparo dos poderes públicos, no sentido testemunhal que Jesus, no Novo Testamento, o Evangelho refere-se ao envolvimento com a causa do Reino de Deus (o Reino nada tem a ver com isenções religiosas diante de problemas observados nas realidades existentes, econômicas, políticas, religiosas).
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A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, aids, dengue, zicungunha, febre amarela, para além das representações figurativas. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico; do alcoolismo, tabagismo e consumismo? Violência intra-familiar, crime político protegido pela alta corte, crime organizado e superorganizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade do nosso tempo, adoecendo-a profundamente.
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Mais de 3/4 da população brasileira habita nas cidades. E, nelas, metade da população luta para alcançar direito  e cidadania igualitários. A complexidade aumenta com o problema da política suja, corrompida, atinge em cheio toda a sociedade, sem distinção entre grupos privilegiados e desfavorecidos. Embora o elitismo apareça frequentemente nos privilegiados que reclamam cidadania selecionada, negando aos demais as reivindicações de melhoria de renda e inclusão social. Porém, o seguimento objetivado para responder pelo crime e pela anomia — distanciamento da legalidade — está nas periferias, nas favelas, nos morros e baixadas, já vulnerável em suas carências históricas. Os resultados da exclusão  aparecem imediatamente nos saques, em invasão de supermercados, nos momentos de conflito. Vemos isso frequentemente, nos últimos dias.

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Uma herança proveniente do colonialismo, passando pelo império escravagista, e atravessando o século da república num esforço fulgurante para manter privilégios de classe e excluir ao máximo grau as possibilidades de cidadania igualitária das classes trabalhadoras, e dos mais pobres. O problema da droga é apenas uma parte da problemática complexa da cidade ou da metrópole. O maior, contudo, é o da inclusão social, combatida com alta eficácia por seguimentos economicamente privilegiados das classes mais altas.

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No entanto, a sociedade elitizada, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania diferenciada – ciosa de seus supostos privilégios –, localiza o problema da droga, da violência e do crime organizado, na periferia. Enquanto fingem reivindicar  punição à corrupção, fazendo vista grossa aos políticos conservadores e capitães do narcotráfico. São os que ocupam condomínios de luxo nos endereços onde estão os imóveis mais caros do país. É ali, nos endereços nobres, apartamentos de luxo, que as drogas mais caras são consumidas a granel, e onde se reúnem conspiradores prontos para tomar o poder. Na clandestinidade? Por acaso, a polícia, a justiça que trata desses assuntos não sabe disso?

Derval Dasilio

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