É MORRENDO QUE SE VIVE


*[.]

semeando Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor, morrer, é a forma de “ganhar” a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus). “Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; dar a vida é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre” (Paul Tillich). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas não são. São parte da existência concreta.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades, neste plano terreno. O húmus encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender, enquanto morremos para o mal (Carlos R. Brandão). Precisamos ser capazes de sentimentos, de curtir emoções, de ter alegria, de ouvir uma sinfonia e distinguir os sons que vêm da música, das vozes da justiça; perceber os murmúrios da solidariedade sem medo, sentir o calor do amor, da ternura, da compaixão. Exatamente quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para ressuscitar a vida ameaçada todos os dias.

O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não tivesse manifestado aos crentes: se o grão de trigo não cai na terra, morre, desaparece infecundo. A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas, e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo. Tratamos aqui a descrição das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor, como poderia dizer Roland Barthes.

Esta parábola apresenta uma vez mais, de outro modo, a lição fundamental do Evangelho inteiro, o ponto máximo da mensagem de Jesus: o amor concreto, solidário, cooperativo; o amor que reforça o primado da pessoa e da vida; o amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo. O amor fecundo que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro, é o amor sem fronteiras. Como é também um poço profundo no qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.

Uma vez, Carl Jung, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dinâmica na obra da criação, mesmo dentro do caos. Porém, isso não explica a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o “oitavo dia da Criação”, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza, que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita.

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pôres-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba. Um rio que, na verdade, é um “caminho que corre sem mais um adeus”, no verso da canção.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, contrastam com o silêncio da floresta que demora para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos e milênios um silêncio que abriga gerações de pássaros, de árvores, flores e frutos, enquanto tombam as árvores que morrem. Silêncio que faz crescer o respeito à natureza de todos os seres, o amor à beleza. Principalmente, silêncio que conduz à humildade diante do infinito e das coisas eternas. As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”.

Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos”.

Derval Dasilio

QUARESMA – 5º Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não está num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos protestam contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito frutos

  [.] *-*

Anúncios
Padrão

DINHEIRO E RELIGIÃO, UMA COMBINAÇÃO PERVERSA


RELIGIÃO E DINHEIRO NÃO COMBINAM…
3o. Domingo da Quaresma – Ano “B”

dinheiro É preciso recuperar nossa capacidade de julgar, em tempos sombrios; é preciso devolver a dignidade humana, quanto ao uso do dinheiro. Do mesmo modo, a ideia essencial do mistério humano, sejam quais forem as pessoas. Além da massa popular, o eleitor, o homem da esquina, as celebridades do esporte, os atores amados pelo povo. Conforme a cor da pele, classe social, nacionalidade; grandes homens e mulheres; importantes da elite social e política, magistrados, governantes, mas também a multidão de figurantes, extra-enredo oficial, os indivíduos estatísticos, todos estão envolvidos com esta questão.

Políticos e religiosos comparecem ao palco privilegiado da mídia graças à democracia que lhes permite acesso à massa, e assim têm oportunidades ilimitadas de manipular e interessar a opinião pública a seu favor, ao mesmo tempo. O assunto dinheiro, riqueza e poder, ganha as tvs, revistas e jornais em altas cotações, enquanto, em contraste, as questões de cidadania, e direitos fundamentais da coletividade, despertam pouco interesse, senão indiferença. Os contrastes se estabelecem somente quando assuntos provocam comoção, em assuntos que sensibilizam milionários e pessoas comuns, quando um rico empresário tem alguém da família envolvido num crime ou acidente com alguma personalidade notória.

Ou seja, todos aqueles conceitos ilusórios ou superficiais, construídos por marketeiros, que se apresentam como democratas (na verdade, oportunistas da informação), difundindo a noção de que informam sobre tudo que há para saber, e o que não sabemos eles sabem, sobre as pessoas e suas necessidades. Camuflam a realidade verdadeira do desespero do homem comum em busca de sobrevivência num mundo insensível e sem misericórdia. Finanças e dinheiro comandam a vida moderna. Com Norman O.Braun, seria melhor considerarmos que o homem é o único animal que se oprime a si mesmo.

O dinheiro, portanto, torna-se instrumento de opressão. Financeiras e bancos não permitem que qualquer um de nós sobreviva sem um “credicard” à mão. “Vivemos numa sociedade sitiada pelo dinheiro”, lembra Jurandyr Freire. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O dinheiro nas metrópoles, dizia Georg Simmel, já no início do século 20, com toda ausência de cor e desinteresse, “torna-se o denominador comum de todos os valores; extirpa irreparavelmente a condição essencial das coisas, das individualidades e seus valores específicos, de impossível comparação”: o dinheiro, como função social, na essência, deveria atender às necessidades básicas, moradia, saúde, escola, alimentação e locomoção para o trabalho ou para o lazer. Porém, todas as coisas flutuam num campo de gravidade onde o dinheiro funciona como um ímã convergente, apenas se diferenciando no tamanho da fortuna, quantidade, e área de abrangência da mesma. Lutero, em seu tempo, já identificava o dinheiro como agente do diabo. A fim de aumentar sua renda, dizia, o “capitalista” (agiota) deseja que o mundo inteiro se arruíne e que assim haja fome, sede, miséria e necessidade; dessa forma, todos dependerão dele e serão seus escravos, como se ele fosse Deus.

Porém, a mulher “navegaria por mares diferentes”, pensam alguns. Investigaria melhor seus enigmas, contradições, fracassos, fantasias, energias existenciais, enquanto procuraria um continente não mapeado, que é a razão da existência de seu corpo, sua finalidade, além da procriação e da multiplicação da prole. E, principalmente, o custo emocional de manter-se uma família. Até que ponto isso é verdade ou inverdade?

Diz-se também que o homem, portador da masculinidade clássica, transita com mais desenvoltura no mundo do poder e do dinheiro; do bom desempenho sexual; na busca e exposição de prestígio e sucesso, social e financeiro. Temos dúvidas, a respeito disso. A economia arcaica, tribalista, que não usava o dinheiro como lucro, nem como meio de remuneração do trabalho, poderia informar-nos melhor sobre os papeis masculinos e femininos através do tempo, enquanto padrões de status e desempenhos sociais de ambos os sexos.

De fato, o que Jesus encontra é o Templo, e a religião, transformados em comércio. A religião de mercado se impõe. Pastores imaginam que são empresas e mercadores, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Não se define mais, separadamente, o que é “crente” ou “cliente”. Sacerdotes cuidariam dos aspectos “legais” da exploração das ofertas compulsórias dos fieis (burlando as leis do país). Hoje, o Ministério Público tem alcançado inúmeros religiosos que fazem das igrejas balcões de negócios. Alguns cumprem pena por crimes fazendários.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, em nome da religião, dirigentes sabiam muito bem manipular em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso mostra que chegaram tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós) e seu reinado voltado para a justiça ao pobre, tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio. As pombas eram compradas para o sacrifício, pobres pagavam muito caro “para ter acesso a Deus” (cf. João 2,17). Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”.

+++++

*
NOTA EXEGÉTICA
+
[João 2,13-22] Três semanas antes da Páscoa (greg. pásca/heb. pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado. A organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”! Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas atuavam paralelamente, à vista dos sacerdotes.
*
Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêm se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o dinheiro e poder religioso serão responsáveis pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, destruindo o poder que gera morte.
*
As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado, porque ele está em oposição ao Templo. Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22). Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini, Evangelho de João, Paulus, 1994). Em Jesus a dignidade da própria religião é resgatada. Se ela respeita a humanidade em suas diversidades, cada participante pode compreender-se dentro do projeto de Jesus. Sem explorar o pobre.
*
Seu corpo ressuscitado, sua presença na vida humana, é o novo Templo. Corpo que não pode ser comercializado, transformado em dinheiro. Esse templo, novo, ressuscitado, sinaliza as novas estruturas de justiça para todos. Não há lugar para remendos, religiões interesseiras, oportunistas — pois se apoderam das fraquezas populares, como a ganância –, suas superstições e práticas de magia e ilusionismo para impressionar a massa. Suas liturgias, sem envolvimento com os sentimentos da fé verdadeira, corrompidas por interesses políticos e econômicos, se desmoronam diante do Corpo do Ressuscitado: o novo Templo onde Deus habita; “… pois misericórdia quero, e não sacrifícios que queiram comprar a prosperidade para alguém”.
é o novo Templo
*
Derval Dasilio
————
3º.Domingo da Quaresma – Ano “B”
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança
Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos
1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro
João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…
\\\\
Padrão

REVISÃO NA QUARESMA DE 2017

UM ENÍGMA PARA NICODEMOS
Aqui está, praticamente, uma discussão rabínica, dirigida ao Thalmud ou à Torah: “be-reshit” e “en arché”, no princípio! Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)?

A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde igem, colocar-se em uma situação peculiar diante da vida: o rosto de Deus está no próximo, como disse Emmanuel Lévinas. Há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente. E, em Mateus (25), Jesus responde à pergunta “onde te vimos?”: “o próximo era eu” (quando me vestistes, destes-me de beber e de comer, me agasalhaste, me visitaste quando doente ou na prisão). A fraternidade, solidariedade, partilha; o cuidado com o próximo, permite ver a face de Deus.

O inverso está na desconfiança, na indiferença, no desprezo ou no abandono do outro e da outra. Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principal” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora. Quem nasce desse Espírito/Vento novo, experimenta o que Edu Lobo ensina na canção: “O vento vira e, do vendaval surge o vento bravo… / como um sangue novo; / como um grito no ar. / Correnteza de rio / que não vai se acalmar./ Não vai se acalmar!”. Enquanto a Criação for humilhada; enquanto o homem não descobrir sua importância junto aos demais, no mistério da Criação; enquanto houver opressão, desigualdade, no mundo criado, não haverá respostas suficientes quanto ao descontentamento de Deus com o homem e a mulher que não aceitam abraçar uma nova natureza. Em Cristo.
Derval Dasilio

ARQUIVOS E REVISÕES TEOLÓGICAS

 A razão diz que o homem está só no universo, pode apenas contar consigo mesmo. A fé, de outro modo, dirá que há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente. Não estamos sós na imensidão do tempo. No portal da eternidade está escrito um nome: Deus, Energia presente no universo inteiro, muito além e muito acima das realidades sujeitas às ilusões do conhecimento empírico.
UM ENIGMA PARA NICODEMOS  – ( Pensamentos a partir de João 3.1-17)
“Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais: /ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. /Nossos ídolos ainda são os mesmos,/ e as aparências não enganam não. /Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” (Belchior).O diálogo com Nicodemos altera a “lógica” comum do evangelho: diálogo e testemunho sobre a fé autêntica. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da…

Ver o post original 794 mais palavras

QUARESMA – UM ENIGMA PARA NICODEMOS

Citação

QUARESMA – ENTREGA INCONDICIONAL A CRISTO

QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus / Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento / Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
|Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la|

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
*
Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).
*
Lá estão os des-esperançados, des-graçados, as vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais. São essa gente os necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo, como sinais do Reino de Paz e Justiça, combatendo governantes corrompidos, políticos ladrões e juízes que os protegem? Somente a fração menor dos bens sociais cabe às maiorias pobres que estavam ascendendo. Estes tiveram, abruptamente, por um golpe político, sua trajetória interrompida. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial deste momento ignora.
*
Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenhar  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Geraza querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vâmo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
*
Virgílio, antes de Dante, já descrevera os cães que vigiam a boca do inferno. Um deles personifica o ódio. Cérbero, o cão de três cabeças, tem apetite insaciável, arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gananciosos, que disputam as coisas putrefatas que o alimentam. Podemos ver isso, hoje em dia, na repressão aos moradores de rua, nas pessoas sem-teto, nas crianças, como João Victor, em S.Paulo, mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades. Solução cruel de exterminar a miséria, e se reprimir com balas de borracha e gás lacrimogênio… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, não dizemos “não” à política que oprime o pobre, enquanto privilegia bem-postos? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade.
*

Renunciar ao ódio não é uma atitude passiva, mas sim a espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. Viver sob o signo do ódio, sentir-se ameaçado por ele, é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro.

*

O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, incitada ao ódio político, que se pauta pela ambição do poder, vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).
*
Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

Padrão

CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS

1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’
CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS PARA RESGATAR-NOS
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos
*
Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinquenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Yaweh, no Primeiro Testamento [Nota: Os textos de Gênesis, capítulos de 1 a 11, são composições literárias através de vários séculos. Textos javistas, eloístas, sacerdotalistas e deuteronomistas, em grupos assim justificados, por antiguidade].
*
Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeadura e messe, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!
*
Lembramo-nos de 2 bilhões de deserdados que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.
*
Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).
*
Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Yaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).
*
No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na sua história, e da humanidade,  para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor.
Derval Dasilio

Padrão

TRANSFIGURAÇÃO – ECLIPSE INVERTIDO

transfiguração

Cerezo Barredo – Ilustrador: (livros D.Dasilio)

SEXTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C

Gênesis 15,1-12, 17-18 – Não tenha medo, eu te protegerei
Salmo 27 – O Senhor é a minha luz, a quem temerei?
Filipenses 3,17- 4.1 – Cristo transformará o corpo abatido pela dor
Lucas 9,28-36 – Moisés e Elias falavam das razões de suas mortes

[Transfiguração é antecipação, é um “eclipse invertido”, um meteoro, uma luz atravessando a escuridão dos tempos. Um novo significado para a vida e a morte! Assim, entendemos a reflexão de Helder Câmara: “aquele que não têm uma razão para viver, não têm uma razão para morrer”. A Transfiguração, como a observação de um impacto estrondoso na história do mundo, está dizendo: “isto é o que se espera, depois da cruz”. Como o poeta anuncia: “valorizar a vida… tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Iluminada com a mensagem de Jesus, a Transfiguração indica o sentido da vida. Algo precisa acontecer para que se mude a história da humanidade. Jesus é o homem transfigurado chamando atenção sobre a Transfiguração da própria humanidade].
*
Jurgen Moltmann escreveu: “A injustiça e violência cindiram a humanidade num primeiro e num terceiro mundo”, um de abundância outro de carências estratosféricas, ausências inomináveis quanto aos direitos ao alimento, à saúde, à moradia, ao trabalho, à escola. O primeiro mundo, ¼ do planeta, coroa a abundância e o desperdício, irresponsabilidade para com os demais; o segundo e terceiro amargam a pobreza, a fome e a miséria.
*
Do que mais incomoda, parques industriais, mineradoras, estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica e falsamente promotora do progresso, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece — e ela não existe se não pelo capital privado —  não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmando o dito: “comemos o que terminará por nos comer”.

*

Lembramo-nos da parábola antiga, helênica: “O sábio, deslumbrava-se refletindo sobre o universo infinito; olhando para o céu enquanto caminhava, tropeçava e caía no abismo”. É preciso olhar para o chão, portanto. Evidentemente, porque o projeto do homo tecnologicus está ligado às conquistas técnicas, e não ao que poderia fazer pelo Homem, se assumisse a humanização contida na esperança.

O valor utilitarista, use e jogue fora, alcança o ser humano em toda parte. Pragmatismo consumista. O que assistimos está longe de ser um mundo novo, reconciliado com o projeto de vida planetária reconhecido nas Escrituras. É preciso falar, também, de uma “ecologia dos sistemas de pensar”, o que nos devolvera a uma transcendência ao estilo do que sugeria Wittgenstein: “o fundamento do mundo está fora (deste) do mundo”. A questão, portanto, não pertence ao mundo da técnica, mas ao mundo da ética. Estamos diante de uma questão antropológica. A sobrevivência do homem comum também está na pauta das lutas ecológico-ambientais. A indústria poluidora e destruidora, na pauta da economia gananciosa. Nunca entenderemos sua contribuição à educação, à saúde e à habitação e humanização urbanas.

As mais arrasadoras catástrofes ambientais — assustadoramente frequentes, têm soluções adiadas nas multas que nunca são pagas, porque a sucessão de governos irresponsáveis vai perdoando os faltosos até a décima geração.  No caso da Samarco e o desastre do Rio Doce, contam com advogados em grupos de centenas, adiam ad infinito o pagamento de multas ambientais, teoricamente apontadas em dezenas de bilhões de reais — não despertam a sociedade quanto aos danos futuros irreparáveis. Porém, equalizam o destino do planeta, ameaçado pelo abuso na pressa do consumo irresponsável na economia da ganância.

Sob consentimento dos poderes públicos, bem como da justiça responsável pelo controle ambiental, tendo derramado 32 milhões de metros cúbicos de restos de lama e minério, matando 17 pessoas e contaminando o Rio Doce por um prazo mínimo de 10 anos, destruindo os municípios ribeirinhos de Minas ao Espírito Santo até a foz, em Regência. Sua subsidiária, a Samarco — empresa da Vale do Rio Doce –, tornou-se símbolo da irresponsabilidade do capital privado para com o meio ambiente.


Em seguida, ainda compondo este cenário, a Vale é multada em alguns milhões, no ES, e tem o porto privado do Tubarão interditado por 4 dias, enquanto uma centena de advogados atuavam para suspender a interdição e “discutir” a última multa — das muitas que jamais pagou pelo mesmo motivo –. Porém, estatística apontam a poluição atmosférica ocasionada pelo “pó preto”, atinge com problemas respiratórios a 26% dos habitantes da área metropolitana de Vitória ES. O Estado, apontado por grupos de pesquisadores de diversos países, informam que se encontra acima da média nacional nesses problemas, tendo como exemplo a asma, com 27%, e a rinite com 80,2%. Enquanto isso, representantes da multinacional têm o desplante de declarar aos jornais que a maior parte do “pó preto” (pó de minério) é, “na verdade” areia monazítica, “medicinal”. Juízes liberam os embargo e, para não fugirem à regra do doping costumeiro, e mais uma vez, aceitam discutir as multas que jamais foram ou serão pagas.


Os povos pobres desconhecem as democracias, via de regra aplicada aos ricos, que dela se beneficiam sem partilha. Mesmo no Brasil, não podemos falar na existência de uma democracia nos bens sociais. Chega a ser hilária uma empresa do capital privado falar em cuidados com a proteção ambiental (A Gazeta, 25.jan.2016) quando, em Vitória ES, a Vale teve a multa de 65 milhões suspensa apenas cinco dias depois da aplicação.A cruz e a ressurreição são afins, tanto que se torna impossível separá-las, tal o seu impacto, na vida da humanidade. Uma espiritualidade profunda nos símbolos da fé cristã. A cruz é a morte pela solidariedade, na causa de Deus. Cruz é sofrimento. Todas as dores do mundo estão no madeiro cruzado, testemunho da inconformidade de Deus sob o sofrimento das injustiças impostas, e as desigualdades históricas (martyria) .

*
A ressurreição, porém, dá sentido à vida nova e fecunda, como o fruto que vem no lugar do grão que morreu. Como a borboleta que deixou para trás o casulo morto, a morte de Jesus dá um novo significado para a morte e a ressurreição: “A causa é tão grande que é preciso até morrer por ela”, Jesus faz entender aos discípulos. A cruz não é o fim de uma jornada em favor de um mundo novo possível, mas sim um cataclismo na história do mundo entregue aos poderes da morte. Pedro, na contramão, quer encerrar a jornada libertária, sem cruz e sem ressurreição: “Seria bom ficar aqui, dentro das tendas (igrejas?), em companhia de Moisés e Elias”.
*
Mas a Voz ressoa: “Este é o meu filho…”, não eles, ou o que eles representam. “Ouçam-no”. Qualquer processo de conversão e de mudança de rumo faz sentido, porque, na Transfiguração, temos um mapa do universo e seus caminhos tortuosos, como a violência. A realidade da violência, das pequenas e grandes guerras, o crime organizado e o crime legalizado no congresso -– roubo dos bens do  povo, corrupção de senadores, deputados, funcionários estatais; corrupção nas megaempresas e nos microempreendimentos -–; a violência dos assassinatos, metrópoles violentas; a violência da fome, do desemprego, da saúde sem assistência, da moradia negada, da escola seletiva, representam um mundo entregue aos poderes da morte.

*


Não é o sangue de um animal que dá vida, sinal da aliança. É o sangue de um homem, sangue de um torturado nas tiranias aprovadas popularmente, que só depois reconheceríamos como o Deus solidário que compartilha do sofrimento humano e da Criação. Cristo, seu amor, o sangue de tantos mártires, vidas transfiguradas, dão sentido à vida, por causa das muitas mortes em razão da violência e injustiça dos sistemas escravistas, ou de servidão humana; por causa da exploração irresponsável da natureza. A violência domina o mundo. O que significa isso tudo nos nossos dias, quando somos sujeitos a escravidões que não queremos reconhecer? A cruz é o maior sinal de amor e liberdade. A transfiguração converge para a cruz.
*

Temos uma aliança que é oferecida pelo amor generoso de Deus, e que cada crente confirma e reafirma “a cada dia” em derramamento de sangue. Sacrifício pela causa de Deus. É o amor de todos os dias, martírios dos que arriscam suas vidas, enfrentam as prisões, na luta pela justiça, em solidariedade com os fracos e dependentes. Deus nos ama sempre, a cada dia. Mas, como sempre, é a vida e o amor que contam, expressos na misericórdia, na compaixão, na solidariedade e na partilha. É a vida para o Reino, vida repartida para que outros também vivam. Vidas oferecidas em sacrifício e em favor da verdade e a justiça.

[Derval Dasilio]
*

*


 

Padrão