TRANSFIGURAÇÃO – ECLIPSE INVERTIDO

transfiguração

Cerezo Barredo – Ilustrador: (livros D.Dasilio)

SEXTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C

Gênesis 15,1-12, 17-18 – Não tenha medo, eu te protegerei
Salmo 27 – O Senhor é a minha luz, a quem temerei?
Filipenses 3,17- 4.1 – Cristo transformará o corpo abatido pela dor
Lucas 9,28-36 – Moisés e Elias falavam das razões de suas mortes

[Transfiguração é antecipação, é um “eclipse invertido”, um meteoro, uma luz atravessando a escuridão dos tempos. Um novo significado para a vida e a morte! Assim, entendemos a reflexão de Helder Câmara: “aquele que não têm uma razão para viver, não têm uma razão para morrer”. A Transfiguração, como a observação de um impacto estrondoso na história do mundo, está dizendo: “isto é o que se espera, depois da cruz”. Como o poeta anuncia: “valorizar a vida… tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Iluminada com a mensagem de Jesus, a Transfiguração indica o sentido da vida. Algo precisa acontecer para que se mude a história da humanidade. Jesus é o homem transfigurado chamando atenção sobre a Transfiguração da própria humanidade].
*
Jurgen Moltmann escreveu: “A injustiça e violência cindiram a humanidade num primeiro e num terceiro mundo”, um de abundância outro de carências estratosféricas, ausências inomináveis quanto aos direitos ao alimento, à saúde, à moradia, ao trabalho, à escola. O primeiro mundo, ¼ do planeta, coroa a abundância e o desperdício, irresponsabilidade para com os demais; o segundo e terceiro amargam a pobreza, a fome e a miséria.
*
Do que mais incomoda, parques industriais, mineradoras, estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica e falsamente promotora do progresso, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece — e ela não existe se não pelo capital privado —  não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmando o dito: “comemos o que terminará por nos comer”.

*

Lembramo-nos da parábola antiga, helênica: “O sábio, deslumbrava-se refletindo sobre o universo infinito; olhando para o céu enquanto caminhava, tropeçava e caía no abismo”. É preciso olhar para o chão, portanto. Evidentemente, porque o projeto do homo tecnologicus está ligado às conquistas técnicas, e não ao que poderia fazer pelo Homem, se assumisse a humanização contida na esperança.

O valor utilitarista, use e jogue fora, alcança o ser humano em toda parte. Pragmatismo consumista. O que assistimos está longe de ser um mundo novo, reconciliado com o projeto de vida planetária reconhecido nas Escrituras. É preciso falar, também, de uma “ecologia dos sistemas de pensar”, o que nos devolvera a uma transcendência ao estilo do que sugeria Wittgenstein: “o fundamento do mundo está fora (deste) do mundo”. A questão, portanto, não pertence ao mundo da técnica, mas ao mundo da ética. Estamos diante de uma questão antropológica. A sobrevivência do homem comum também está na pauta das lutas ecológico-ambientais. A indústria poluidora e destruidora, na pauta da economia gananciosa. Nunca entenderemos sua contribuição à educação, à saúde e à habitação e humanização urbanas.

As mais arrasadoras catástrofes ambientais — assustadoramente frequentes, têm soluções adiadas nas multas que nunca são pagas, porque a sucessão de governos irresponsáveis vai perdoando os faltosos até a décima geração.  No caso da Samarco e o desastre do Rio Doce, contam com advogados em grupos de centenas, adiam ad infinito o pagamento de multas ambientais, teoricamente apontadas em dezenas de bilhões de reais — não despertam a sociedade quanto aos danos futuros irreparáveis. Porém, equalizam o destino do planeta, ameaçado pelo abuso na pressa do consumo irresponsável na economia da ganância.

Sob consentimento dos poderes públicos, bem como da justiça responsável pelo controle ambiental, tendo derramado 32 milhões de metros cúbicos de restos de lama e minério, matando 17 pessoas e contaminando o Rio Doce por um prazo mínimo de 10 anos, destruindo os municípios ribeirinhos de Minas ao Espírito Santo até a foz, em Regência. Sua subsidiária, a Samarco — empresa da Vale do Rio Doce –, tornou-se símbolo da irresponsabilidade do capital privado para com o meio ambiente.


Em seguida, ainda compondo este cenário, a Vale é multada em alguns milhões, no ES, e tem o porto privado do Tubarão interditado por 4 dias, enquanto uma centena de advogados atuavam para suspender a interdição e “discutir” a última multa — das muitas que jamais pagou pelo mesmo motivo –. Porém, estatística apontam a poluição atmosférica ocasionada pelo “pó preto”, atinge com problemas respiratórios a 26% dos habitantes da área metropolitana de Vitória ES. O Estado, apontado por grupos de pesquisadores de diversos países, informam que se encontra acima da média nacional nesses problemas, tendo como exemplo a asma, com 27%, e a rinite com 80,2%. Enquanto isso, representantes da multinacional têm o desplante de declarar aos jornais que a maior parte do “pó preto” (pó de minério) é, “na verdade” areia monazítica, “medicinal”. Juízes liberam os embargo e, para não fugirem à regra do doping costumeiro, e mais uma vez, aceitam discutir as multas que jamais foram ou serão pagas.


Os povos pobres desconhecem as democracias, via de regra aplicada aos ricos, que dela se beneficiam sem partilha. Mesmo no Brasil, não podemos falar na existência de uma democracia nos bens sociais. Chega a ser hilária uma empresa do capital privado falar em cuidados com a proteção ambiental (A Gazeta, 25.jan.2016) quando, em Vitória ES, a Vale teve a multa de 65 milhões suspensa apenas cinco dias depois da aplicação.A cruz e a ressurreição são afins, tanto que se torna impossível separá-las, tal o seu impacto, na vida da humanidade. Uma espiritualidade profunda nos símbolos da fé cristã. A cruz é a morte pela solidariedade, na causa de Deus. Cruz é sofrimento. Todas as dores do mundo estão no madeiro cruzado, testemunho da inconformidade de Deus sob o sofrimento das injustiças impostas, e as desigualdades históricas (martyria) .

*
A ressurreição, porém, dá sentido à vida nova e fecunda, como o fruto que vem no lugar do grão que morreu. Como a borboleta que deixou para trás o casulo morto, a morte de Jesus dá um novo significado para a morte e a ressurreição: “A causa é tão grande que é preciso até morrer por ela”, Jesus faz entender aos discípulos. A cruz não é o fim de uma jornada em favor de um mundo novo possível, mas sim um cataclismo na história do mundo entregue aos poderes da morte. Pedro, na contramão, quer encerrar a jornada libertária, sem cruz e sem ressurreição: “Seria bom ficar aqui, dentro das tendas (igrejas?), em companhia de Moisés e Elias”.
*
Mas a Voz ressoa: “Este é o meu filho…”, não eles, ou o que eles representam. “Ouçam-no”. Qualquer processo de conversão e de mudança de rumo faz sentido, porque, na Transfiguração, temos um mapa do universo e seus caminhos tortuosos, como a violência. A realidade da violência, das pequenas e grandes guerras, o crime organizado e o crime legalizado no congresso -– roubo dos bens do  povo, corrupção de senadores, deputados, funcionários estatais; corrupção nas megaempresas e nos microempreendimentos -–; a violência dos assassinatos, metrópoles violentas; a violência da fome, do desemprego, da saúde sem assistência, da moradia negada, da escola seletiva, representam um mundo entregue aos poderes da morte.

*


Não é o sangue de um animal que dá vida, sinal da aliança. É o sangue de um homem, sangue de um torturado nas tiranias aprovadas popularmente, que só depois reconheceríamos como o Deus solidário que compartilha do sofrimento humano e da Criação. Cristo, seu amor, o sangue de tantos mártires, vidas transfiguradas, dão sentido à vida, por causa das muitas mortes em razão da violência e injustiça dos sistemas escravistas, ou de servidão humana; por causa da exploração irresponsável da natureza. A violência domina o mundo. O que significa isso tudo nos nossos dias, quando somos sujeitos a escravidões que não queremos reconhecer? A cruz é o maior sinal de amor e liberdade. A transfiguração converge para a cruz.
*

Temos uma aliança que é oferecida pelo amor generoso de Deus, e que cada crente confirma e reafirma “a cada dia” em derramamento de sangue. Sacrifício pela causa de Deus. É o amor de todos os dias, martírios dos que arriscam suas vidas, enfrentam as prisões, na luta pela justiça, em solidariedade com os fracos e dependentes. Deus nos ama sempre, a cada dia. Mas, como sempre, é a vida e o amor que contam, expressos na misericórdia, na compaixão, na solidariedade e na partilha. É a vida para o Reino, vida repartida para que outros também vivam. Vidas oferecidas em sacrifício e em favor da verdade e a justiça.

[Derval Dasilio]
*

*


 

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “TRANSFIGURAÇÃO – ECLIPSE INVERTIDO

  1. https://lucigama.wordpress.com/2016/01/23/e-jogaram-jesus-morro-abaixo/

    “A palavra evangelizadora ou é ativa na práxis de libertação, ou é antievangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata, dominada pela razão. É uma palavra que faz referencia à realidade – política, econômica, jurídica, social –, e a confronta com o projeto libertador de Deus. ‘Evangelizar é libertar a Palavra’ (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades infligidas ao ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens da indiferença, ou não mobiliza, são sacode, não provoca reações ao mal cultural, social, econômico, político; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita adversários nas elites privilegiadas), não é herdeira da ‘paixão’ do Filho de Deus. Disse Jesus: Fui ungido para trazer libertação aos cativos” (cf. domingo anterior).

    A Palavra será sua força na luta contra falsos profetas, sacerdotes cooptados, reis, ministros e proprietários de bens, terra e imóveis. São os que esqueceram a aliança de Deus, oprimindo e marginalizando seu próprio povo. O profeta encontra-se forte na obediência à Palavra (davar = palavra que transforma; que cria a novidade na ordem injusta). Ele a anuncia. Jesus está familiarizado com Israel bíblico, sua história contra a ganância dos reis infiéis e suas cortes, ou quaisquer outros dos que oprimiram o Israel (bíblico) em toda a sua história. Sua linguagem e suas culturas, marcadas pela injustiça social, não conferem com a linguagem dos profetas de Israel. Isto lhe assegura a companhia permanente de Deus e da fé bíblica.

    Curtir

  2. I DOMINGO DA QUARESMA
    QUARESMA – 1º Domingo – Ano C
    Deuteronômio 26,1-11: Ele nos ouviu, e atentou para a nossa miséria e opressão.
    Salmo 91,1-2,9-16: Ele é meu refúgio, minha fortaleza, só nele confiarei.
    Romanos 10,8b-13: Como crerão, se não há quem pregue?
    Lucas 4,1-13: Por quarenta dias Jesus foi tentado…

    Jesus no deserto

    Jesus vai para o deserto, começando sua pregação sobre a vinda do Reino, e culmina na cidade onde será julgado, sempre guiado pelo Espírito. Sugestão para o novo tempo litúrgico da Igreja: a Quaresma significa quarenta dias de oração e reflexão. Prepara-se para sua missão na cidade. Na primeira tentação, o diabo não nega que Jesus é o Filho de Deus. Indica que ele tem poderes para transformar pedra em pão, e resolver com prestidigitação e magia o problema da fome. E por que não poderia satisfazer pentecostais gananciosos? Por que Jesus não opera o milagre sugerido pelo diabo?

    “Você poderá alimentá-los, ou satisfazê-los (Lc 9,13), com prestidigitação e magia. Eles não se importarão com os indícios de charlatanismo. Serão satisfeitos momentaneamente, e se esquecerão da fome permanente, aparentemente insolucionável. Eles não pensarão em políticas governamentais planejadas; em exigir iniciativas para os problemas que envolvem a fome, desproteção ambiental, miséria e a corrupção. Você pode ser carismático, populista, como um pregador pentecostal anestésico, hipnótico, midiático, ganhando prestígio e admiração, garantindo seus projetos pessoais. Como um um milionário, terá aviões, mercedes blindadas, iates, férias em hoteis vip, mansões luxuosas, isenção de impostos, igrejas para usar como lavanderia de dinheiro roubado dos crédulos fieis que esperam ficar ricos como ele. Você pode prometer que sua igreja e denominação serão ricos e que todos serão milionários no futuro”.

    A segunda, é a tentação do “poder”. A tentação de mandar exercendo uma autoridade inquestionável (exousia), sobre toda e qualquer questão, quando terá assumido o controle da massa, é o que o diabo oferece a Jesus. Quando “o cerco das multidões” for completado, mantidas em currais religiosos, “você cultivará a soberania, a supremacia, o controle e mando sobre todos os seus admiradores”. Essa tentação levaria Jesus à autoidolatria e ao narcisismo de estilo pentecostal, comuns nos dias atuais. Mas Ele rebate o diabo, diz o evangelho: Jesus deixa claro que seu ministério é solidário; sua missão é servir, e não ser servido. Não é para anestesiar, mas para alertar as multidões sobre o sofrimento que lhes é imposto; não é para vender a graça barata, e conceder bem-aventuranças provisórias; não é esconder a realidade opressora, e os que dela se beneficiam.

    Sim, é preciso tomar consciência e reagir com indignação e insurgência contra a opressão. O ministério de Jesus não combina com a autoexaltação de um pregador milionário, rolex no braço, luxo e ostentação. Jesus não vê como necessária a autodeificação visível na tv; os cartões de depósito de contribuição; editoras e igrejas para “lavar” dinheiro amealhado com o charlatanismo religioso – também chamado de simonia –, como símbolo de suas conquistas sob um evangelho da ganância. Ele diz: “o Filho do Homem não tem sequer onde pousar a cabeça” [na literatura bíblica, como a parábola, “midrashes”, discursos morais utilizam o folclore e as crendices comuns da cultura mediterrânica oriental; Lucas — como também Mateus — carrega na magnífica interpretação da superioridade espiritual do Filho do Homem, como é comum nos demais evangelhos, sobre forças cegas que dominam culturalmente o ambiente onde se anuncia o evangelho do Reino de Deus] .

    Que perguntas faremos nós, na Quaresma? Quantas vezes traímos princípios de justiça, de cuidado com o outro, ou quantas foram as infidelidades que cometemos depois dos compromissos feitos com a verdade e a justiça? Quantas vezes deixamos de lado o bom senso? De quantas situações de injustiça participamos descuidadamente, sem prever o prejuízo da coletividade? Por que nos entregamos ao egoísmo, à ganância, e incluímos em nossas vidas projetos de consumo acima de nossas possibilidades, depois de absorver a intensa propaganda sobre o que se espera de nós, em termos de ajustamento aos apelos de nossos dias?

    Devemos à Quaresma oportunidade para verificar as infidelidades que cometemos. São muitas as injustiças das quais compartilhamos, por adesão, apatia ou consentimento explícto… É para revisar a vida, corrigir os desvios, desfazer nossos compromissos com a injustiça. É um tempo de conversão, e conversão significa mudar os rumos do barbarismo de nossos dias, retomar o caminho de volta para o Pai, e ouví-lo. A aceitação e incorporação da Graça, da gratuidade, da solidariedade e compartilhamento das bem-aventuranças, a partir das promessas de Jesus para um mundo novo. A Quaresma ensina sobre a acolhida do Reino de Deus em todos os setores de nossas vidas

    Observamos vozes harmônicas e afinadas que interpretariam o ser interior essencial da humanidade. Os fatos, as tragédias diárias, compõem e executam a sinfonia macabra reveladora da vida humana aviltada. O mal e o bem nos acompanham a vida toda. No entanto, ninguém pode ler essa partitura, muito menos ouvi-la, a não ser diante de tragédias, nas igrejas, preocupadas que estão em justificar escândalos financeiros de líderes evangélicos, e oram reclamando quando antes já venderam coletivamente a alma ao diabo (não leram Göethe nem os evangelhos, desconhecem Mefisto, que cooptou Fausto pela ganância; no deserto é o diabo que procura Jesus; na cidade milionários evangélicos seduzem até o diabo…).

    A tragédia da violência contra os jovens (Campanha da Fraternidade – 2013), da fome, das enfermidades sociais implacáveis, da permanente corrupção dos poderes públicos e privados, da religião que serve ao dragão devorador – a ganância, a acumulação privada, os bens móveis e imóveis, a espoliação dos bens naturais, a divisão entre incluídos e excluídos, a competição, o individualismo selvagem contra a solidariedade e a partilha.

    Jesus nos coloca em paralelo com o povo de Israel, no evangelho. A tradição cristã indica essa primeira vinculação na história da fé. São as mesmas circunstâncias de infidelidade coletiva, mas Jesus segue em frente. Enfrenta a tentação. E para realçar o paralelo entre as duas situações, o evangelista usa o deserto e citações de Deuteronômio. A Lei de Deus – compatível ao código de princípios, a partir da convocação e pedagogia divina: “ouve, ó Israel” (shemah Israel); ouve, ó povo de Deus… –, reinterpretada face ao cotidiano violento, à ausência de indignação quanto as injustiças sociais, e a contrapartida da ganância ensinada nas igrejas cristãs.

    Derval Dasilio

    Quaresma de 2013

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s