QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus / Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento / Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
|Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la|

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
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Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).
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Lá estão os des-esperançados, des-graçados, as vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais. São essa gente os necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo, como sinais do Reino de Paz e Justiça, combatendo governantes corrompidos, políticos ladrões e juízes que os protegem? Somente a fração menor dos bens sociais cabe às maiorias pobres que estavam ascendendo. Estes tiveram, abruptamente, por um golpe político, sua trajetória interrompida. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial deste momento ignora.
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Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenhar  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Geraza querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vâmo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
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Virgílio, antes de Dante, já descrevera os cães que vigiam a boca do inferno. Um deles personifica o ódio. Cérbero, o cão de três cabeças, tem apetite insaciável, arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gananciosos, que disputam as coisas putrefatas que o alimentam. Podemos ver isso, hoje em dia, na repressão aos moradores de rua, nas pessoas sem-teto, nas crianças, como João Victor, em S.Paulo, mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades. Solução cruel de exterminar a miséria, e se reprimir com balas de borracha e gás lacrimogênio… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, não dizemos “não” à política que oprime o pobre, enquanto privilegia bem-postos? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade.
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Renunciar ao ódio não é uma atitude passiva, mas sim a espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. Viver sob o signo do ódio, sentir-se ameaçado por ele, é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro.

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O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, incitada ao ódio político, que se pauta pela ambição do poder, vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).
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Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

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