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semeando Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor, morrer, é a forma de “ganhar” a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus). “Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; dar a vida é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre” (Paul Tillich). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas não são. São parte da existência concreta.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades, neste plano terreno. O húmus encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender, enquanto morremos para o mal (Carlos R. Brandão). Precisamos ser capazes de sentimentos, de curtir emoções, de ter alegria, de ouvir uma sinfonia e distinguir os sons que vêm da música, das vozes da justiça; perceber os murmúrios da solidariedade sem medo, sentir o calor do amor, da ternura, da compaixão. Exatamente quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para ressuscitar a vida ameaçada todos os dias.

O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não tivesse manifestado aos crentes: se o grão de trigo não cai na terra, morre, desaparece infecundo. A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas, e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo. Tratamos aqui a descrição das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor, como poderia dizer Roland Barthes.

Esta parábola apresenta uma vez mais, de outro modo, a lição fundamental do Evangelho inteiro, o ponto máximo da mensagem de Jesus: o amor concreto, solidário, cooperativo; o amor que reforça o primado da pessoa e da vida; o amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo. O amor fecundo que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro, é o amor sem fronteiras. Como é também um poço profundo no qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.

Uma vez, Carl Jung, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dinâmica na obra da criação, mesmo dentro do caos. Porém, isso não explica a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o “oitavo dia da Criação”, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza, que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita.

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pôres-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba. Um rio que, na verdade, é um “caminho que corre sem mais um adeus”, no verso da canção.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, contrastam com o silêncio da floresta que demora para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos e milênios um silêncio que abriga gerações de pássaros, de árvores, flores e frutos, enquanto tombam as árvores que morrem. Silêncio que faz crescer o respeito à natureza de todos os seres, o amor à beleza. Principalmente, silêncio que conduz à humildade diante do infinito e das coisas eternas. As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”.

Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos”.

Derval Dasilio

QUARESMA – 5º Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não está num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos protestam contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito frutos

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