[[[ Reflexão sobre a Sexta-Feira Santa ]]]
Durante o ano eclesiástico, a Sexta-Feira Santa é uma data muito significativa para os cristãos. Ela vem marcada por vários rituais. Começa que as pessoas apareciam [aparecem?] no culto trajando preto, comiam [comem?] peixe, observavam [observam?] um silêncio respeitoso – claro, trata-se da “sexta-feira silenciosa”.
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Falar um pouco menos, numa ocasião dessas, parece ser a parte boa da coisa, ainda mais na Igreja Evangélica, a “Igreja da Palavra”. Pois o motivo pelo qual nos reunimos hoje nos inquieta – espero! Se é que já não estamos insensíveis às frases feitas, no contexto da igreja. Na Idade Média, as pessoas exclamavam, diante da crucificação de Jesus Cristo: “Ó horror, / o próprio Deus está morto”. Mais tarde, essa frase foi modificada para: “Ó imenso horror! / O filho de Deus está morto” (F. v. Spee). Essas falas sobre a morte de Deus, desde o séc. XIX, não são novidade. Quando as pessoas percebem isso conscientemente, fica claro que a Sexta-Feira Santa é um desafio complicado para comunidades e pregadores. Na Igreja dos primórdios, as pessoas comparavam esse dia a um mar indecifrável e sem contornos definidos. Acabo de ler que nós o compreenderemos apenas no dia do Juízo Final. Creio que constatações desse tipo valem a pena para refletir sobre o dia de hoje. Consideremos, por ora, três aspectos:
I.

Frequentemente, Deus é visto como profundamente ofendido pelos seres humanos. Afirma-se que ele se sente tão magoado em sua honra pelo ser e comportamento autoritário e arrogante das pessoas, que apenas a morte redentora do próprio filho seria capaz de apaziguá-lo. Bem, deveríamos ter claro que Deus não permite a nós, suas criaturas, fazer e deixar de fazer o que quisermos, sem maiores consequências. Mas o problema é bem mais grave. A Bíblia ressalta: somente Deus conhece a verdadeira extensão de nossa vontade própria, nossa imensa rebeldia contra ele, contra os outros e contra nós mesmos. Nós não percebemos isso. Nesse sentido, boiamos na superfície.
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M. Luther formula assim: “Onde não há fé verdadeira [i.e., aquela presenteada por Deus], nosso coração olha feio para Deus e pensa: eu queria que Deus não fosse Deus. Nem queria que ele existisse, para eu mesmo poder ser Deus“. Se Deus quiser, ele leva as pessoas a confessar: “Somente diante de ti [Deus] pequei / e agi mal em tua presença“ (Sl 51.6). Essa é a confissão primordial das pessoas libertas por Deus, através da fé nele. Reconhecer o pecado e confessá-lo é a consequência dessa fé.
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De fato, Deus se zanga. Ele não é destituído de afetos, não é frio de coração. De jeito nenhum ele “habita como pai amado sobre a abóbada celeste” (F. v. Schiller). Ao contrário, “terrível é cair nas mãos do Deus vivo“ (Hb 10.31). Também isso faz parte da confissão daqueles que se encontram na fé presenteada por Deus. A fé, em termos bíblicos, não é alguma ideia ou sentimento, e sim um duro desafio, que constantemente nos desequilibra: estaríamos perdidos se Deus não nos chamasse a si em seu amor mais essencial. É exatamente diante desse desafio, a partir da fé, que se nos revela o abismo sem saída que existe em nós mesmos – e nós conseguimos suportá-lo.
II.

Jesus se zanga e castiga. Ele não age segundo o método “Deixa-pra-lá“. É por isso que ele amarra não só indivíduos, e sim povos inteiros, às consequências de sua maldade, e então os abandona à própria sorte (Rm 1.18-32). Os moralistas acham correto que “o mal necessariamente gera sempre mais mal“ (Schiller). Com isso, eles se referem à “relação interna entre o agir e sofrer as consequências” (B. Janowski). Pode-se relacionar isso ao ditado derivado da experiência coletiva: “Cada um molda a própria felicidade, ou infelicidade“.
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O destino construído apenas pelo ser humano está presente em tudo. Ele nos assalta de tempos em tempos. Torna-se nossa desgraça porque Deus deixa as coisas correr – quando não as acelera. Desse modo, ele traz à luz o quanto estamos perdidos em e através de nós mesmos. O destino auto-construído está preso em nós. Estamos tomados por ele até a medula – e mesmo assim não nos damos conta de seu abismo sem fundo. Seja lá o que tentemos – alguns o encaram corajosamente como prova de resistência, outros se rebelam em desespero, ainda outros toleram tudo apaticamente, ou mesmo se deixam levar – não adianta: ninguém escapa do destino de si mesmo, do “sofrimento mais pessoal” (P. Gerhardt). Vivemos nosso destino cegos e fechados, mas diante de Deus ele está bem claro e transparente.
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A ira de Deus é um fato. Dentro, com, sob a nossa confusão indeslindável, Deus age julgando. É preciso deixar isso claro – e tê-lo bem presente – na Sexta-Feira Santa. Mas também é preciso confessar alegremente: Deus julga – segundo sua justiça! I.e., Deus sai de seu esconderijo e nos reconcilia conosco mesmos. Também a Bíblia afirma: ele se converte a nós, para que nos convertamos a ele (1 Pe 2. 25). Deus coloca sua honra em reconciliar-se conosco, em converter-se a nós. Luther insiste: Deus é quem vem a nós, não somos nós que vamos até ele. Quem acha que consegue fazer as pazes com Deus acaba por desonrá-lo. Quem acha que consegue converter-se a ele a partir de sua própria razão e força, cai na pior armadilha que existe: a ofensa de Deus.
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Deus demonstra a obra de sua reconciliação conosco, de sua conversão a nós, de sua vinda até nós, quando “envia Jesus de Nazaré, seu filho unigênito, nosso Senhor” (Mc 12.1-9 par.). Ele nem lhe prepara circunstâncias especiais para tanto. Ao contrário, ele o joga para dentro de nossa realidade tal como ela é, “repleta do poder do pecado e da morte – sem medo de se contaminar“ (M. Theobald). Em, com a através da luta de Jesus – “no meio da noite infernal / consumado está“ (O. Riethmüller) – Deus mesmo se reconcilia conosco, volta-se ele mesmo a nós, vem ele mesmo até nós.
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A nós, Jesus dá a tarefa de nos dedicarmos a todas as pessoas e a cada uma em particular, diretamente, da seguinte forma: “Confia em mim; / eu me entrego totalmente por ti; / pois eu sou teu e tu és meu,/ e onde eu ficar, lá deverás estar”; / nada nem ninguém “nos vai separar“(Luther). Seu consolo nos faz responder: “Eu estava e continuo preso / a Cristo, como um membro seu; / por onde passou meu líder / ele junto me levará. / Ele passa através da morte, / do mundo, do pecado e da dor, / ele passa através do inferno, / seu companheiro serei” (Gerhardt).
III.

Jesus Cristo entra em nossa realidade. Ele nos vivencia tal como somos. Deus não o poupa, mas o entrega a nós. Deus não se ilude a nosso respeito. Ele observa como nós recusamos e xingamos Jesus, como nós o maltratamos e matamos. Deus não interfere, ele se recolhe em si mesmo. Essa é a ação de Deus no destino de Jesus de Nazaré.
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Este, por sua vez, aposta com alegria toda sua existência e desiste voluntariamente de qualquer defesa (Jo 18.2-11 / Mt 25.51-6; Jo 19.1-15). “Ele desiste de todo o seu poder / torna-se pequeno e humilde / e assume a imagem de servo / o criador de todas as coisas.” (Fl 2. 6-8). Assim é Jesus Cristo. Ele dispõe apenas de sua palavra e de sua vida – e as entrega. Ele sabe que agressões e inimizades, sofrimento e morte fazem parte da tarefa dada a ele. Ele não revidou a ofensa ao ser ofendido, não ameaçou quando estava sofrendo, mas confiou tudo àquele que julga com justiça” (1 Pe 2.23).
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Jesus Cristo é o ser humano, o “verdadeiro ser humano” (Luther). Ele faz questão de ser humano (ecce homo: Jo. 19.1-5), “até a morte na cruz” (Fl 2.8), na morte na cruz (Mc 14.33-42; 15.34-37). Em sua paixão, sua humanidade adquire o contorno decisivo. O homem de Nazaré afirma radicalmente que sua existência passa a ser a pró-existência dos seres humanos. Ele percorre o caminho perpétuo até a cruz. Deus lhe revelou: diante da realidade dos seres humanos, essa é a única forma de tornar seu servir eficaz – “dar sua vida em favor de muitos [= todos]” (Mc 10.45; cf. v. 42-45). Nisso consiste o centro do testemunho neotestamentário acerca de Jesus Cristo. * Portanto: não é Deus quem joga Jesus de Nazaré na dor e na morte, e sim os seres humanos. Nós somos os responsáveis. Nós preparamos a sua sexta-feira da Paixão. De fato – “deu certo, conseguimos”. Deus não apoia de forma alguma a ação mortífera dos crucificadores. Ao contrário, ele apoia o crucificado, mais do que isso: ele se identifica com ele, Deus se faz crucificar junto. Dessa forma é que surge o ser radicalmente diferente de Deus.
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Este é o cerne divino. Ele diz respeito às pessoas, atingindo-as. A livre auto-revelação de Deus ultrapassa todos nossos limites e projeções. Ela puxa totalmente o tapete debaixo dos pés de quem ela alcança.
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“Não é em função de um Deus ofendido, que exige reparação, que Jesus ‘tem de’ sofrer“ – confessa a fé cristã – “mas em função dos seres humanos que não o aceitam e aos quais ele ‘serve’ por toda a sua vida”. A paixão de Jesus revela profundamente “o segredo do amor divino entre pai e filho“. Ele consiste no fato de que eles não querem “estar juntos sem o mundo decaído e teimoso” (R. Feldmeier).
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Isso derruba nossas estruturas, porque acontece por nossa causa. “Por nossa causa” tem um significado sem precedentes. Por um lado, afirma-se: nós provocamos a crucificação de Jesus Cristo. E logo: Deus inverte essa situação em nosso favor. Este é o duplo aspecto da paixão de Deus na Sexta-Feira Santa. *Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mostra, em sua representação da via crucis, algumas pessoas que acompanham Jesus até o Gólgota. Cada uma leva consigo uma ferramenta que será útil para matá-lo. Entre elas, um menino agarrado num prego quase do seu tamanho. Terrível – até mesmo uma criança participa da crucificação de Jesus Cristo. Com qual prego nós pregamos Jesus Cristo na cruz? Esta é a pergunta da Sexta-Feira Santa para nós.
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Jesus Cristo pede ao pai: “Perdoa-os, porque não sabem o que fazem“ (Lc 23.34). Deus, também nosso pai através de Jesus Cristo, escuta-o. E Jesus Cristo finaliza: “Está consumado“ (Jo 19.30). Numa igrejinha de mais de mil anos, junto ao rio Main, há sobre o altar um crucifixo feito por um desconhecido. O rosto do crucificado mostra um levíssimo sorriso. Esta é a mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa. *Luther resumiu assim: „Se eu não puder crer / que Deus perdoa minhas falhas diárias [na expectativa de Deus] / em nome de Jesus, / acabou-se tudo para mim. / Vou desesperar como Judas Iscariotes. / Mas não chegarei a esse ponto. // [Antes], agarrar-me-ei ao pescoço ou aos pés de Cristo, como a pecadora (…). / Mesmo que eu seja ainda pior que ela / agarro o meu Senhor. / Então ele dirá ao pai: / esse chato também deverá passar [por teu julgamento]./ Ele nada cumpriu e transgrediu todos os meus mandamentos. / [Sim, sim] pai, mas ele se agarra em mim. / Que importa? Morri também por ele, deixa-o escapar. / Essa é [conclui Luther] a minha fé.”
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A mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa nos é assegurada performativamente no perdão dos pecados, após a confissão comunitária e/ou individual. Ela nos é dada fisicamente na Ceia do Senhor. Por isso, a confissão, junto com a absolvição e a Ceia do Senhor, faz parte da Sexta-Feira Santa. A morte de Jesus Cristo aconteceu “de uma vez por todas” (Rm 6.10; Hb 7.27); seu efeito salvífico nos alcança e nos envolve totalmente, aqui e agora. Ela nos coloca na sucessão de Jesus Cristo, “o príncipe de nossa bem-aventurança”.
Texto: V. E. Löscher
Tradução: Erica Ziegler

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