“Este pão é o meu corpo… comei-o em memória de mim”. No momento em que esta declaração é pronunciada (Lc 24,13-35), Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
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Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos, protestantes e católicos? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?
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Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial da Eucaristia, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com o carnaval, o futebol, as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem, já perdida no tempo histórico. E, nesse momento,  pensamos no Pão da Vida, o pão da Eucaristia…
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Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta. No momento em que a maior parte destas declarações é pro­nunciada, Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
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A Ceia do Senhor não é irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão. Por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as instruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?
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“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem.
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A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” (negação da Graça) contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido.  Enquanto isso, a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil. O avivamento pentecostal  seguia o mesmo roteiro, entre católicos, protestantes e evangélicos recentes. Aparentemente. Porque, no fundo, dividiu o povo cristão ainda mais profundamente.
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Desde os anos 80 (séc.20), se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir dos séculos iniciais. Falava-se, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo e fundamentalista.
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A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo.
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A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.
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Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial, entre si e com o Senhor, reunidos à mesa comum, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé na unidade foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127,2), mas “com alegria” (Ecles 9,7). Em Eclesiastes 8,15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2,25). A Eucaristia cristã busca tão somente a alegria da comunhão em torno das oferendas para a comensalidade que anuncia e já comemora a vinda do Reino de Deus.
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Páscoa – Terceiro Domingo – Ano A
Atos 2,14;22-41 – Não era possível que a morte o subjugasse.
Salmo 116,1-4 (12-19) – Sofria… horrores supulcrais me tomavam!
1Pedro 1,17-23 – Resgatados pelo precioso sangue do cordeiro
Lucas 24,13-35 – Reconheceram-no ao partir o pão: Ele está no meio de nós!

Derval Dasilio : O EVANGELHO DE MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO

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