desenhoDA MULHER OPRIMIDA
João 14, 1-14 – Na casa de meu Pai há muitas moradas…

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe concedam o alcance gota-a-gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade masculina contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusivismo de gênero.
*
A presença visível perceptível, “theofania“, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade. Isso é mais e maior que tudo. Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”.
*
O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se com justiça por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”. Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais. Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia e dos bens essenciais, também são ignoradas, no mais das vezes.
*
Mulheres vestindo a pele do predador não constituem novidade, a exemplo daquela pesquisa recente sobre o consentimento do estupro (IPEA – Folha de S. Paulo – 2014/04/14). Consequência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade autoritária. Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher e suas responsabilidade. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou, pervertida, sendo solidária com o explorador e dominador. Tantas mulheres envolvidas com a cidadania privilegiada contra a cidadania insurgente… Tantas mulheres apoiando a opressão, governo que subtrai direitos fundamentais, congresso que serve aos donos da economia e do poder, juízes prontos a servi-lo subservientemente…
*
Perigos de guerra, comoções, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca de direitos, da democracia, da justiça e da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres, de igual modo. Por que os gastos exorbitantes com a propaganda governamental? A igualdade econômica, o combate à miséria, a distribuição de renda entre os famintos e miseráveis, as questões que envolvem a justiça do trabalho, da previdência, a urbanização humanizada e mobilidade urbana, não interessariam à mulher? Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários.
*
Quando Paulo fala do sofrimento como synodinei, “dores de parto” (Rm 8,18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto” (Helen Shüngel-Straumann). Talvez só ela saiba… Maria, mulher exemplar no Evangelho, dá à luz uma criança que vem para simbolizar todas as liberdade. Com dor. Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação, pelo parto do Salvador.
*
Jesus diz a seus discípulos que vai partir e isto não deve perturbá-los porque vai para poder depois levá-los e tê-los sempre consigo, para preparar-lhes um lugar na casa do Pai, uma “grande casa” onde cabem todos, homens, mulheres, crianças (João 14,1-12.). Sobretudo os mais pobres, que “nunca tiveram uma casa própria”, sem-teto; filhos e filhas pródigos e pródigas. Os que desejam regressar ao acolhimento do Pai. Fiéis que souberam carregar o peso do trabalho e as cargas da vida, encontram repouso. Escorraçados, despoderados, abandonados pelos poderes humanos e pela religião, têm “uma casa para abrigá-los, protegê-los, e dar-lhes segurança”. Para chegarem à casa paterna precisam, homens e mulheres, de um caminho, de uma lâmpada quando chegar a noite.
*
O Deus da gratuidade é exemplar. Nele identificamos também o desejo de perdão, ao invés da vingança, ou da represália, quanto aos pecados cometidos na estrada da vida. No seu acolhimento existe interioridade e fascinação indescritíveis. O Salmo 36 (8-10) expressa com segurança essa certeza: “Ó Deus, quão preciosa é a tua graça. Os filhos e filhas dos homens e das mulheres se refugiam à sombra das tuas asas. Saciam-se da abundância da tua casa”. Assim, homens e mulheres mostramo-nos deslumbrados por esse Deus das muitas moradas, quedâmo-nos perplexos pela grandeza do teto dessas moradas, o céu estrelado, a amplidão do Universo, o finito confundindo-se com o infinito, a eternidade da vida, onde está o Reino de Deus e a vida eterna.
Derval Dasilio
5o. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A – 2014
Atos dos Apóstolos 7,55-60 – Eu só ouvia, agora o vejo à direita de Deus
Salmo 31,1-5; 15-16 – Não seja eu a te envergonhar, Senhor
1Pedro 2, 2-10 – Vós sois a raça escolhida, o sacerdócio do Reino
Texto:  Derval Dasilio  []

Anúncios