vinde [1] a mim
15o. Domingo Litúrgico – Ano B
Tempo Comum depois de Pentecostes
|||2Samuel 7,1-14a – Andei com todos, nunca excluí quaisquer dos meus filhos ||| Salmo 89,20-37 – Jamais retirei minha bondade e meu cuidado com o sofredor… ||| Efésios 2,11-22 – Lembrai-vos: outrora trazíeis os preconceitos do paganismo |||  Marcos 6,30-34; 53-56 – Jesus age, curando enquanto prega a chegada do Reino
A área da saúde transformou-se num gigantesco complexo industrial e tecnológico com investimentos astronômicos de recursos para pesquisas, equipamentos e treinamento de profissionais especializados. Os protagonistas nesta área de investimentos ganham muito dinheiro e aumentam seu capital, enquanto planos de saúde caríssimos tomam valores correspondentes ao que recebem aposentados e portadores de benefícios previdenciários — recebo, pessoalmente, 780 reais de aposentaria; minha família, quatro pessoas adultas, paga o equivalente a 1.000 reais mensais por um plano de saúde federal –, mais do que ser uma presença motivada por valores humanos de cuidado da saúde dos mais vulneráveis da sociedade (idosos, crianças e deficientes).

É muito preocupante a hegemonia dos “valores” de mercado, sem nenhuma referência a valores éticos de saúde, qualidade de vida e bem-estar social, escreveu Leo Passini. Podemos falar da necessidade de reconhecer-se uma nova forma de cidadania biomedicinal, biotecnológica e genômica, como Nikolas Rose indica. Uma cidadania da vida, portanto. Se podíamos falar de uma cidadania política que evoluiu desde o século 18; de direitos civis garantidos desde então, essa perspectiva nos levaria ao rompimento do véu que encobre os direitos do enfermo ou do deficiente, como cidadãos comuns.
Em todos os momentos da história da humanidade as pessoas portadoras de enfermidades e deficiências foram alvo de comportamento e reações distintas. Muitas delas contraditórias, indicando a exclusão. Em tempos recentes, no entanto, tanto observamos o preconceito que levou o regime nazista a exterminar deficientes físicos e pessoas de etnia judaica, no mesmo plano. Como vimos, reações que tornariam as pessoas doentes e os deficientes alvos de atenção negativamente distinta, ausentes das políticas públicas adequadas aos mesmos.
Pessoas doentes devem ser tratadas de modo humanamente diferenciado, mas não particularizado – quando os mesmos doentes são segregados, como se pertencessem a uma casta estigmatizada socialmente, sem importância política mas tão somente econômica.  Porque têm os mesmos direitos das pessoas comuns, não doentes ou sem deficiências, segundo a medicina secular.
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Nas igrejas, a mesma coisa é dita? Uma irmã idosa enfrentando problemas de saúde e de locomoção, não pode frequentar sua igreja, da qual é membro desde a infância. Por que não há rampa de acesso para cadeirantes ou deficientes em todos os templos e locais de reunião comunitária? Por que, da força de trabalho disponível, as estatísticas estabelecem 10% de desempregados comuns, e 95% para o total dos deficientes disponíveis para trabalhar?
A saúde é hoje um campo de grandes injustiças, desigualdades e iniquidades, segundo Bassini. “Hoje no Brasil, cerca de quatro em cada cinco habitantes depende do SUS (Sistema Único de Saúde), e dos quase 200 milhões de brasileiros, 40 milhões têm planos de saúde. O sistema público de saúde brasileiro tem uma concepção filosófica humanista comunitária maravilhosa, perfeito na teoria. Na prática, o sistema de saúde é um caos em termos de funcionamento. Deveria funcionar bem para atender com dignidade os brasileiros mais necessitados, segundo a sua origem ou classe econômica. Mas o que ocorre frequentemente são cenas de hospitais públicos sucateados e superlotados, gente no chão sujo de corredores de pronto-socorro gemendo de dor e sem atendimento. Filas enormes para marcação de exames ou cirurgias, muitas mortes em razão da falta de atendimento, sendo as pessoas vítimas de discriminações absurdas que negam algo básico ao ser humano, o direito à vida saudável”.  
Não faz muito tempo, também, misturavam-se os tratamentos, sendo que os doentes mentais não poucas vezes eram confundidos com deficientes mentais. Em ambos os casos o tratamento era desumano. Poucos davam atenção aos problemas como distintos, muitos identificavam os doentes como encarnação de um “mal espiritual”. Ainda neste momento, em certas igrejas carismáticas, Deus continua negado como Deus, o totalmente Outro, como diria Karl Barth, para ser aceito somente quando responde às expectativas criadas por pregadores que propõem milagres e curas espirituais. Quanto ao “outro”, enquanto ser humano, só o aceitamos se ajustado à imagem moderna de moços “sarados” e jovens “turbinadas”, frequentadores de prestigiados centros de estética corporal. Não há abertura para o “outro” que evidentemente é “feio”, “diferente”, por causa da doença ou da deficiência física. E nem se fale das oportunidades de trabalho e auto sustentação para portadores de doenças crônicas.
Na Bíblia, as deficiências são entendidas a partir do conceito de “astheneia“, que são entendidas como fraqueza, doença, enfermidade e incapacidade. São muitos os exemplos de pessoas que trazem alguma deficiência e, no entanto, fazem parte da história do israelita que testemunha grandes feitos de Yahweh em favor de todos.  Jacó ficou manco depois da luta com o Anjo em Gn 32,31-33 (o próprio Deus); Moisés era gago, talvez, ou tinha a língua presa (Ex 4,10); Ezequiel por muitas vezes ficou literalmente mudo, mas sua boca se abria, e ele falava, profetizava (Ez,3,22-27; 24,25-27). Toda a história de Jó está ligada à doença e à exclusão do doente. O Servo Sofredor, na teologia de Isaías, assume todas as dores do homem e da mulher (Is 53,7: “Ele foi oprimido e humilhado…”).
* O livro de Marcos, no Segundo Testamento, é pródigo em citações sobre deficientes e doentes que necessitavam de “livramento”, fato que resultava em liberdade e salvação. O apóstolo Paulo deixou uma dúvida perene, sobre uma enfermidade da qual não se livrava… qual era? Um exame da palavra “fraqueza” (DIT, L.Coenen e C.Brawn), nos demonstrará o cuidado com o sofrimento da exclusão dos “feios”, “doentes”, “deficientes”: “suas dificuldades muitas vezes são vistas como um escândalo e uma provocação de problemas para os outros, como um ‘peso’, uma carga a ser carregada; uma dificuldade a ser removida de alguma maneira…” Isso é perversidade nossa, sem dúvida alguma.
Jesus se pôs a atendê-las: trouxeram os doentes para que os curassem. Detenhamo-nos um pouco sobre esse fato: primeiramente os doentes estão impedidos, travados; suas enfermidades os obrigam a dependerem totalmente dos outros. Por estarem enfermos, são rejeitados, excluídos, tidos por impuros e pecadores, porque a mentalidade da época atribuía à doença e às deficiências físicas algum pecado, mesmo que proveniente de fatores “genéticos”, os homens e as mulheres que os trouxeram se identificavam no meio da multidão. A ocasião é propícia para colocar à prova a coerência de Jesus.
Jesus parte da relação cultural existente entre pecado-castigo e enfermidade: “Teus pecados te são perdoados”, é expressão comum, quando cura — ou seja, ninguém é culpado por ser deficiente ou por estar doente. A libertação da culpa está diretamente relacionada com a recuperação da saúde. A sociedade de então estava estruturada sobre a exclusão; às pessoas não lhes parecia poderem encontrar possibilidades de mudança, nem alternativa para a exclusão, salvo a exigente carga de tributos e ritos de purificação a que estavam obrigadas.  Ao mesmo tempo,  exigências rituais inúteis. Jesus resgata as pessoas dessas exigências religiosas e culturais, dos preconceitos, das superstições, no entanto, curando-as em todos os sentidos.
A força oculta, energia real, daquelas pessoas, para que pudessem levantar por si mesmas, superando enfermidades que resultam na paralisia, na culpa e na rejeição social, era lhes dada em livramento e libertação. Revivem, agora. Fazem-se donas de si mesmas, ao levantarem-se e movimentarem-se  por si mesmas, libertas da dependência em que jaziam, e regressam com nova vida aos seus lugares cotidianos, porque experimentaram o cumprimento da Boa Nova salvadora e libertadora. Muitas vezes Jesus dizia:“Vai, agora, e dize aos outros”.
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Quando João Batista manda seus discípulos conferir o que fazia, dizia-lhes: “Ide, relatai a João o que vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam corretamente, os leprosos são purificados e os surdos passam a ouvir, os mortos ressuscitam: a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22). Acrescentando, poderíamos lembrar-nos de Paulo Freire, que dizia: “Ninguém se liberta sozinho, as pessoas libertam-se em comunhão…”
O Reino não deve ser anunciado somente por palavras e ditos abstratos. Deve também ser construído, embora sejamos somente operários e operárias obedientes às ordens do Construtor, o qual já nos apontou a estrutura de seu projeto para instalar definitivamente o seu Reino. A Boa Notícia deverá ser mostrada em todas as suas possibilidades, nos gestos que expressam sua significação. Estamos diante da unidade evangélica: palavra e ação, teoria e pratica, dizer e fazer. Jesus é o mestre dessa unidade. Seus discípulos também deverão imitá-lo.
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Temos uma mensagem de salvação na palavra de Marcos, é preciso anunciar o Evangelho do Reino, mas é preciso também realizar, mesmo através de gestos simbólicos, suas significações concretas. O Evangelho não só tem de ser lido, ou pregado, como Palavra de Deus. Deve também ser instrumento para o agir, na vida da comunidade de fé e  para a execução da ação missionária indicada por Deus, no mundo.
Uma ação concreta e eficiente para a recuperação da dignidade das pessoas, entre elas as doentes e deficientes; ação para o resgate dos pobres e dos oprimidos pelos preconceitos, pelas superstições e por imposições ritualistas e sacrificiosas destinadas falsamente à recuperação da saúde e da mobilidade. O compromisso com a construção de um outro mundo possível, diverso deste mundo impiedoso e sem misericórdia, inicia-se em ações que demonstram o que vai ser o Reino. Paulo dirá, sobre a plenitude dos tempos, o Kairós tão aguardado: “agora vemos, apenas, imagens turvas como que num espelho”… Quando o tempo da salvação realizar-se… ah, quando o tempo de Deus chegar!, que maravilha há de ser.  
Derval Dasilio |||||||||||||||||
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