Cópia de mulher chorando - picasso+“O futuro me preocupa, porque é o lugar onde pretendo passar o resto de minha vida” (Woody Allen).

Nota Introdutória: *As fortunas dos três mais ricos do mundo são superiores ao PIB de 48 países. No planeta em que vivemos 25 mil pessoas morrem de inanição todos os dias, e 16 mil crianças de subnutrição. Passam fome 852 milhões. Dos 7 bilhões do planeta, 5% ganham 114 vezes mais do que os mais pobres (2 bilhões). Há 64 favelas no Rio, e 20 a 25 pessoas morrem por dia de forma violenta, nem merecem uma menção destacada no noticiário. É um drama dantesco (inferno?). Das 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 (cinco) são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba).

Mais de 10 milhões de brasileiros, entre 40 milhões de miseráveis, vivem com menos de 39 reais por mês (Eduardo Hoonaert – 2013). A Intervenção das Forças Armadas, no Rio de Janeiro, pretende resolver o problema da violência criminal sem mexer sequer no menor dos problemas sociais e econômicos da nação. Funcionando como projeto que ameaça ser aplicado no País inteiro, sob clamor popular fascista e irresponsável. Conhecidas lideranças, como Marielli Franco, pela sua luta pelos direitos humanos, direitos das minorias, direito dos negros, das mulheres, das minorias direito das comunidades carentes, das mulheres e homens homossexuais, transgêneros, etc., além de ameaçadas são assassinadas.

(São Lucas 16,19-31) A parábola está presente dentro de uma unidade literária. O contraste é grande e impressionante: de um lado luxo e festas diárias e, de outro, úlcera e dependência humilhante. Utilizar esta mensagem bíblica como uma paráfrase do Inferno, de Dante, e dos horríveis fantasmas utilizados para escravizar consciências, e legitimar um poder religioso. Um equívoco. São muitas as contradições,  quanto à própria liberdade concedida aos homens de escolher seus caminhos. Esta é uma uma parábola que não foge à regra, refletindo os cenários desse tempo dos homens e mulheres. Trata da realidade cotidiana .

Deus não está na parábola, o pai Abraão, fundador da fé do chamado povo de Deus é lembrado. O assunto, aqui, é a ausência de solidariedade, cuidado, misericórdia num mundo sem compaixão. O inferno de sempre. Um mínimo de senso realista nos remeterá aos corações humanos e suas complexidades. Como dizia Sartre, “o inferno são os outros. Paráfrase: “Havia um homem rico que gostava de exibir sua riqueza e luxos aos outros (Lucas 16,19-31). Sabia que seus amigos eram invejosos e gananciosos, e por isso os convidava para festas e banquetes suntuosos, em desperdício capaz de alimentar muitas famílias; oportunidade para conversas gananciosas, exibicionistas. Ocasião para o exercício da cobiça e superficialidades sobre o gozo da riqueza. Conversas fúteis  mesa farta, bebidas, bajuladores refestelados em almofadões luxuosos.  Climatização perfeita. O rico experimenta o lazer caro, as festas, a exuberância dos bens disponíveis, das roupas caras, e os convidados representam os aspirantes parasitários, a tanto. Invejosos que aproveitavam o que lhes era oferecido do bom e do melhor. E Lázaro come com os cães o que cai da mesa..

A casa do rico era como a mansão de Sodoma, a cidade do pecado (Gn 19,24-25). Ele goza dos bens da vida opulenta, caros planos de saúde, medicina de ponta ao dispor, educação sofisticada para seus filhos, lazer e conforto; carros importados, serviçais para todos os fins domésticos, e pode viajar para qualquer paraíso fiscal, para acrescentar à sua fortuna protegida de impostos nacionais. Era pra satisfazer um economista da União Europeia, hospeda-se em hotéis cinco estrelas ‘A’, cercados por favelas na avenida Niemeyer, em busca de prazeres na noite carioca; acha o país dos ‘centavos do real’ maravilhoso*. Um cronista, como Chico Buarque, descreve-os:

Não lhes importava o gozo da riqueza sem justiça, sem partilha, sem compaixão. Nada de socorrer o pobre (Dt 15,1-11); o sofrimento dos desgraçados, os que passam fome; que não têm casa, nem eira nem beira; que não têm saúde, desnutridos que morrem como moscas nos bolsões de miséria; os atormentados pela miséria não são convidados aos banquetes, à mesa farta, aos bons vinhos e comidas finas.

Enquanto isso, Lázaro sofre, não há virtudes em sua pobreza. Suas chagas são lambidas pelos cães. Lázaro experimenta os tormentos da vida e da miséria, veste andrajos, e disputa comida com os cães sem dono. Um dia os dois morrem. O céu e o inferno fazem parte do enredo, que pode ser levado à Marquês do Sapucaí durante o Carnaval, e o gozo lhe é reservado, mas como recompensa pelo sofrimento da fome, do corpo ferido e lambido por animais de rua.

Não há razões para viver, instalou-se o desespero, as cenas do drama existencial passam a fazer parte de seu cotidiano; os atores têm as máscaras do sofrimento, alguns se atiram de edifícios altos, de pontes, em mares bravios, ou se jogam com seus carros em despenhadeiros mortais, buscando alívio”.

Porém, o pobre faminto, doente e miserável, chama-se Lázaro, que quer dizer: “aquele que é amparado por Deus”. Deus se lembra do pobre, do sofredor, do que tem a dignidade roubada. Lázaro despertará para eternidade, gozará da chegada ao Reino, das bem-aventuranças, da justiça, e da igualdade, os bens junto aos amigos de Deus. Novos horizontes para a vida, a conquista da esperança definitiva. A aura da serenidade envolve o bem-aventurado nos braços do Pai. Ainda há tormentos? Sim, mas a confiança na Graça (misericórdia = hesed), na realização das promessas de salvação, permite vislumbrar as ressurreições, a eternidade da vida com Deus que começa agora. Deus conduzirá seu barco pelos mares bravios, e o levará ao porto seguro.
LEITURAS
Jeremias 32,1-3a, 6-15 – Resgate do melhor da fé …
Salmo 91,1-6;e 14-16 – Imbecilizados não compreendem
1Timóteo 6,6-19 – E crime tirar a esperança dos jovens
Lucas 16,19-31 – No Reino, moradores de rua buscam dignidade…

Derval Dasilio
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