PERDÃO, SEM ENGANAR A RETIDÃO E JUSTIÇA

 

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O Evangelho indica se a ótica pervertida da frouxidão prevalece, ou não (Mt 18,15-20). Ou haveria uma terceira via, além dos códigos que regulam a retidão e a justiça? Disse, também, Jesus: “não será assim entre vós!”, quando um certo “poder” de excluir, um código moral, é evocado na comunidade. A comunidade cristã deve ser lugar de compromisso com a verdade, em primeiro lugar. Certo. Nossas famílias e igrejas locais merecem orientação sobre os ensinamentos de Cristo sobre a retidão. Porém, mais ainda sobre o perdão.

Não poucas vezes, ouve-se a advertência do jurista zeloso: a exigência é “não acomodação” ao mal que deforma a vida comunitária. Difamadores, caluniadores, mentirosos, homófobos, sexistas androcêntricos, impudicos, boquirrotos, detratores, depravados, agressores, violentos domésticos (agressores de mulheres e crianças), ladrões, gananciosos, avarentos, agiotas, injuriosos, mereceriam, como acontece na maioria das vezes, a impunidade? No entanto, como anunciar que as comunidades serão lugar de perdão e de reconciliação, diante de outros, que incomodam a moral comunitária?

As comunidades cristãs serão também lugares da verdade, sugere o Evangelho. Exigir respeito pelas pessoas que são prejudicadas, eventualmente, porém, sem credenciar e justificar quem erra, também é imprescindível. Impedir abusos , assim, torna-se obrigatório. Essa ética é um imperativo evangélico na busca da verdade e da justiça, tanto na sociedade como na comunidade eclesiástica. O imperativo divino, como diria Emil Brunner, porém, aponta o amor como referência sobre as questões morais nos limites e nas fronteiras da convivência humana. Nada se superpõe à Graça. O perdão gratuito é o mais alto ditame na ética do seguidor de Cristo.

Esta passagem do Evangelho tem sido lembrada comumente como indicadora da correção fraterna (Mateus 18,15-20). Porém, não poucas vezes servindo ao autoritarismo eclesiástico. O texto não é ingênuo a ponto de ignorar os conflitos internos da comunidade de Mateus, nos anos 80 de nossa Era. Este evangelho reflete a construção discipular de um grupo de testemunho experiente, conectado com a tradição conceitual veterotestamentária. Provavelmente influenciada pelo judaísmo formativo (Esdras, Eclesiástico, senão pelo Thalmud, Midrash, Gemara), e escritos extra-bíblicos não-canônicos. Outros escritos orientadores comuns no tempo de Jesus e dos Apóstolos também circulavam nas sinagogas e nas igrejas-domésticas dos primeiros anos do cristianismo. É uma página da catequese comunitária, indubitavelmente.

Recusar a oferta de reconciliação é opção de quem erra? Pode ser. Quem vai errar mais uma vez necessitará de nova abordagem fraternal de correção? Seguidamente, sem desistência, o “errado” não será abandonado. Não se admite o desprezo ou o abandono do irmão (ou irmã) à própria sorte. O verbo grego traduzido ‘perdoar’ (aphíemi), pode significar “abrir mão, desistir de uma dívida, por não exigir o pagamento”. Porém, ganhar o irmão (ou irmã) para a comunhão, como Paulo já dissera (mestre indubitável da gratuidade), é o mais importante. Não devemos esquecer a recomendação de Jesus sobre o perdão ilimitado (Mt 18,21-27): “… perdoar setenta vezes sete”, que é a multiplicação ad infinito para o perdão (o uso, no hebraico, é reproduzido aqui. E útil, também, consultar o Qohelet (Eclesiastes) e Jesus Bem Sirac (Eclesiástico), a respeito do que a literatura sapiencial bíblica informa sobre o perdão. O Perdão é um chamado à reconciliação, nesses escritos, antes de tudo.

A questão principal, o foco desse ensinamento é salvar o transgressor? Sim. Mas, não de se contemporizar ou solidarizar-se com atos “errados”, reprováveis. Condená-lo ou expulsá-lo da comunidade também não lembra os ensinamentos, nem as atitudes, do Cristo de Deus. Evidentemente. Os exemplos consecutivos mostram que os seguidores de Jesus, mesmo os que cometeram o pior dos pecados, devem ser perdoados, porque Deus já os perdoou. Este pecado sequer será lembrado para julgamento posterior. Assim, a oferta de perdão e reconciliação se sobrepõem a qualquer outra solução. E nada mais.

Contudo, disse também Jesus: “Eu, porém, vos digo: resistais ao sujeito mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil” – (Mt 5,39-41). E o contexto poderia ser complementado assim: “Mas não desista de exigir retidão e justiça, a quem erra. Porém, com amor”. Os paralelismos antitéticos são usados com grande frequência, por Mateus. Este poderia ser mais um.

É o caso presente. O judaísmo farisaico segue o perdão numa direção retributiva (tal e qual as comunidades evangélicas ortodoxas ou fundamentalistas), complementada por sinais depositados no altar. O importante rabino Eliezer sugeria: “examina a sua vida constantemente, diante da lei religiosa, e se arrependa de havê-la transgredido”. Na medida do possível, deve-se sinalizar um arrependimento ativo através de esmolas e jejum. Jesus, contudo, orienta noutra direção, João entendeu: o arrependimento esperado equivale a “transformar a árvore que não oferece resultados em árvore que produz bons frutos” (João 15,16).

Jacques Derrida, pensador argelino, estudou os argumentos de J-J. Rousseau no sentido de se “ouvir a voz da natureza”. Uma compreensão otimista de que, em última instância, a “Natureza” sempre nos fará optar pelo Bem. Acontece, diz Derrida, que a natureza costuma falhar. “Como o leite que falta ao peito de uma mãe que precisa amamentar seu bebê. Se essa falha da natureza persiste, é buscado um suplemento nutritivo, para que a criança seja alimentada”. Isso nos ajudará, quando a regra de retidão e justiça não é suficiente para perdoar o transgressor e trazê-lo à reconciliação.

Sobre o princípio do “perdão”, Derrida foi um batalhador incansável, para reconciliar os grupos ligados ao apartheid na África do Sul com o novo governo de Nelson Mandela, apoiando o movimento de reconciliação. Algo que também nos inspira na batalha do pastor Jaime Wright, depois da ditadura, no Brasil.

Paulo, noutra linha de reflexão, também convida os crentes a edificarem suas vidas sobre o alicerce do amor (agape), para que possam responder aos desafios do momento histórico de cada pessoa cristã envolvida com a fé a ser sustentada e transmitida (Rm 13,8-14). Mas, sejamos leais conosco mesmos. No entretanto, o amor é uma síntese vital (agape = amor como o amor de Deus; amor diferente de eros que é possessivo, da pertença ou desejo de alguma coisa. Ou amor diferente de filéo – da amizade, da solidariedade, do companheirismo, etc.). um compêndio onde se encontram todos os preceitos de ordem religiosa, mas precedendo-os.

É desse modo que Paulo entra em sintonia com a proposta do Evangelho de Jesus Cristo. Quem ama quer o bem de todos, isso inclui o crente e a sociedade em que ele vive. O amor ajuda no crescimento da pessoa, como cristã e como cidadã. O amor exige compromissos muito concretos: serviço, respeito, perdão, reconciliação, tolerância, compreensão, verdade, paz, fraternidade… e justiça! Sobre a conversão (metanóia = conversão, mudança de rota), Paulo aponta com firmeza: é a forma que identifica a correção de rumo no egoísmo geral, na vingança individualista, centrado nas pessoas, no sentido da fraternidade verdadeira, solidária, incondicionalmente gerenciada pelo amor. Perdoar? Sim. Mas com firmeza, exigindo retidão e justiça… Aprenderemos também com Derrida, que ensinou sobre as falhas naturais nos princípios e códigos morais que nos prendem ao legalismo.

Por fim, toda iniciativa moral ou ética, todo sentimento externado publicamente, ou vivido internamente, deve repousar em Deus, que nos amou primeiro. Precisamos descansar de nossas amarguras, de nossa intolerância, livrar-nos das expectativas de vingança, como dizia Gustaf Aulèn, confiando no evangelho de Jesus, e então entenderemos o sentido do imperativo divino do amor. Em quaisquer situações e em qualquer tempo ou lugar.

Domingo no Culto
Salmo 149 – Hora de meter os reis na cadeia…
Romanos 13,8-14 – O amor ajuda no crescimento
Mateus 18,15-20 – A oferta de perdão também convoca ao amor

 

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