ANO B (2015) – RASCUNHOS

 

1o.DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”

Marcos 13,24-37 – A justiça vem habitar entre nós                                                    Isaías 64,1-9 – Tu vais ao encontro de quem pratica a justiça                                    Salmo 122 – Lá está o trono de justiça                                                                            1Coríntios 1,3-9 – A fé e a esperança significam mais que o conhecimento

OXALÁ RASGASSE O CÉU  NESTE MUNDO IMPIEDOS

Marcos 13,24-37 – Um discurso escatológico! Marcos bate de frente com a realidade presente face ao futuro que Deus oferece, como salvação e libertação ao final da vida e dos tempos. Nada do que fala é estranho ao que se pregava e foi registrado na literatura judaica da época: o juízo de Deus irromperia para mudar o rumo da história humana e do mundo. Há muitas semelhanças, embora os outros escritores evangelistas adaptassem seus conceitos à sua própria mensagem. Marcos, porém, está mais perto das fontes e dos testemunhos, escrevendo no mínimo vinte anos antes dos demais. Em todo caso, esse discurso corresponde exatamente à idéia que Jesus de Nazaré teria e pregava sobre o fim do mundo e o juízo de Deus. A história se consumaria com o estabelecimento definitivo da justiça de Deus (que não corresponde à pregação fundamentalista e individualista do inferno para uns e o céu para os salvos). O fim do mundo na sinonímia evangélica tem o significado da supremacia completa da justiça no reinado de Deus, substitutivo definitivo dos reinados deste mundo (cf. Cristo, o Rei do Universo, último domingo do ano “A”).

A história da humanidade é feita de crises, momentos de reorganização do caos político, ou social, ou econômico. Devemos também considerar as crises religiosas, como a que observamos nos tempos atuais, que afirmam a religião de mercado impondo-se sobre a fé reformada; do pluralismo evangelical que se declara vitorioso sobre o ecumenismo unificador da Igreja de Cristo. As crises se repetem, mas a interpretação religiosa desses acontecimentos se presta a muitos matizes, e não poucas vezes a falsas promessas. A coação da linguagem apocalíptica freqüenta púlpitos e comunidades, revela nossas crises de identidade. O oportunismo se instala, a morte é anunciada acima da vida; o temor constrange à aceitação de uma mensagem desesperada de iniludível destruição associada ao julgamento de cada um.

Hoje, sem dúvida, devemos recorrer à sabedoria, a idéia de Jesus sobre Deus e sua atuação salvadora da humanidade sobrepõem-se ao salvacionismo fundamentalista ao qual nos acostumamos. A palavra de ordem é “vigilância”, que significa ter um olhar atento ao que sucede ao redor; aguçar os olhos para ver e ler a realidade presente, ou seja: reconhecer as injustiças em todos os níveis, na economia, na política, nas relações sociais. Vigiar é tão importante como viver com dignidade (dignitatis = uso pleno dos direitos pessoais) e com esperança de transformação das injustiças, preconceitos, ódios religiosos, intolerâncias, conflitos humanos. Falar da segunda vinda do Senhor, hoje, preenchendo a mensagem do Evangelho, é corrigir erros, assimetrias do mundo global que mercantiliza as relações entre homens e mulheres em muitas das situações cotidianas; ocupar espaços de diálogo para a repartição dos recursos disponíveis (as tecnologias de ponta estão plenamente disponíveis para 1/5 da humanidade, apenas… em “ilhas” privilegiadas do mundo desenvolvido em toda parte, além do primeiro mundo).

A segunda vinda do Senhor significa esperança para os desagregados, humilhados, pisoteados e esmagados deste mundo. As desigualdades profundas serão julgadas no juízo de Deus. A ignorância, a humilhação, a pobreza, apontadas na vigilância diária que permite ver os sinais do Reino, constituem tudo aquilo contra o qual se luta. Fazer pressão sobre os interesses hostis contra a vida; corrigir a miopia sobre o real sentido de nossas próprias vidas diante da mensagem do Advento, o Senhor vem, é a palavra de ordem. Algo como alcançar e aprofundar o amor de Deus pelos homens e mulheres, que se aproxima de nossas realidades, habita conosco na forma do homem que percorre os nossos caminhos.Essa dimensão é alcançada quando mergulhamos em nossos silêncios; em nossas negativas, saindo da superfície para o aprofundamento de nossa fé no Deus que se encontra conosco através de Jesus de Nazaré. Estamos em pleno Advento. O Senhor virá em breve.

Reconhecemos que a religiosidade milenarista ou apocalipsista sobrevive a duras penas diante do surto urbanizador de nossos dias. Enquanto as metrópoles incham e cresce a vida subumana nas periferias, uma religiosidade mais “prática”, propositista ou retributivista (prosperidade, igreja em células, etc.) inaugura nova espiritualidade. Do alto dos arranha-céus — até o termo saiu da moda… — muitos observam: essa religiosidade atenderia melhor e mais eficientemente às exigências de sobrevivência religiosa no mundo impiedoso e sem solidariedade de nossas cidades. Proliferam novas igrejas, cresce a religião sacrificial retributiva.

Os sinais dos tempos sempre têm sido um critério profético de como crer, de como viver, como esperar por Deus. Qual seria a razão? Por que os profetas pensavam que Deus não havia abandonado a história, não entregara homens e mulheres à desumanização, à indignidade, à impiedade, à maldade e às maldições próprias do reinado adverso do “mundo do malígno”? Está na mesa, inclusive, uma grande questão: por que Deus abandonaria à sua própria sorte o mundo que ele criou com tanto desvelo, como se vê na abóbada da capela Sistina: fiat lux? Por que estariam descartadas a salvação e a liberação daqueles que ele havia criado, do Oriente ao Ocidente? A proposta de reinado e governo de Deus sobre o mundo e sobre os homens é a resposta.

E a resposta apocalíptica reveladora vem no bojo da conjuntura política mundial, inclusive: Deus intervirá na história “por nós”, nunca “contra nós”. A mensagem de Jesus: “observem os sinais dos tempos”, “vê esse Templo: não ficará pedra sobre pedra…” A religião alienada e alienante está em cheque. Tudo isso traz a convicção fundamental que ele, Jesus, transporta a providência divina, em absoluta fidelidade aos “homens” que participam como atores e coadjuvantes da história da salvação. Jesus Cristo representa a libertação alcançada através do reinado de Deus (Miguel de Burgos).

Uma obra de arte é sempre maior que seu intérprete, já ouvimos isso. Ouvimos também que a obra de um bom autor é melhor que o melhor artigo escrito por qualquer crítico literário. Carlos Mesters diz que o assunto “apocalipsismo” merece essa analogia: os escritos são mais importantes que seus intérpretes. A nós agrada a idéia de Mircea Eliade: “monstros e fenômenos sísmicos e climáticos povoam o passado mitológico da humanidade, onde elementos cósmicos catastróficos são evocados em situações extremamente críticas, através de uma linguagem reveladora, como a desorganização cósmica onde o poder sagrado se oculta”. Uma forma de castigo como o retorno ao caos vem e identifica forças naturais descontroladas operando contra a vida humana enquanto tsunamis, terremotos, transformam a geografia social do mundo. O israelita participava da experiência comparativa de grandes fenômenos sísmicos e de referências a abalos catastróficos nos fundamentos da vida religiosa, política, econômica e social, enquanto afetam sobremaneira a cultura e a vida social. Através da experiência do sagrado, como em todos os povos, simbolismos religiosos interferem na interpretação da catástrofe e do caos. É a crise. O Deus-Redentor de Israel, nos primeiros tempos, fazia-se acompanhar de manifestações grandiosas na natureza: Yahweh! Quando saíste de Seir, quando avançaste nas planícies de Edom, a terra tremeu, os céus trovejaram, as nuvens desaguaram em tormentas. Os montes deslizaram na presença de Yahweh, o Deus de Israel (Jz 5,4-5, cf. C.Westermann, Fundamentos da Teologia do AT, Academia Cristã, 2005).

Um certo tipo de mentalidade religiosa sempre propagou o final do mundo. Este virá com uma grande catástrofe na qual todo o mundo criado será aniquilado, pulverizado pelo juízo divino. Somos obrigados a refutar o literalismo existente e dizer: “não é bem assim”… a que mundo, que homem, que Deus, estamos nos referindo (Juan Luis Segundo)? Algo está muito claro nas Escrituras, Deus tem seus próprios caminhos e suas próprias maneiras de levar a cabo suas intenções ao “revelar-se” na história do mundo e do homem. Apocalipse é revelação (apokalipse). A vida humana, se inclui na revelação bíblica. O discurso de Daniel 7,13-14 refere-se à vinda do Filho do Homem. É uma fala pós-exílica, intertestamentária, portanto. Tanto o Judaísmo palestino quanto o alexandrino conheciam esse discurso. Trata-se de um convite para uma olhada no “tempo”, observar as estações, o clima, o brotar dos renovos, porque Deus está presente na história dos homens, como “o Homem” histórico! Ali se observará o triunfo do Bem sobre o Mal; nenhum tirano, nenhum governante insensível à dignidade humana, alcançará o intento da “desumanização” da obra de Deus.

O Filho do Homem equivale à imagem e semelhança de Deus, no projeto criador. Os homens e as mulheres são “divinos” como imagem de Deus (Rubem Alves sugere a questão da beleza de Deus, como ética e como estética: “fora da beleza não há salvação”; a beleza de Deus se revela na arte, na vida, na ética, e seus valores são imprescindíveis para a “salvação” do humano e da criação; uma nova linguagem teológica é exigida, para se comunicar a beleza dos valores proféticos, valores mais que sapienciais, ou virtuosos). É assim que a história transformará a vida humana, e se estabelecerá de uma vez por todas como modelo (logotipo), “imagem”, do Reino de Deus. A imagem de Deus, para se fugir do Deus horroroso, cruel, insensível, sem misericórdia e compaixão pelos homens, apocalíptico-literalista, combina com o perdão e a reconciliação da humanidade que se agarra a Deus através dos abismos profundos do sofrimento moral, e também concreto, em razão das injustiças.

Marcos 13,1-8 – Devemos reconhecer o apocalipse sinótico nesta perícope. Presta-se a muitas interpretações, sem dúvida. O Templo reconstruído seguidas vezes no sentido de representar a unidade nacional, enquanto representa o centro do culto de Israel, gerador de comportamentos, naquele momento, alienante, intimista, disperso, desconcentrado da originalidade, abriga a idolatria pagã convivente com a “idolatria” da Lei. Toda a precariedade da idolatria, ou do culto idolátrico, manifesta-se em tempos de desgraça (Claus Westermann). Os ídolos como também a própria Lei, impõem pesadas cargas, necessitam de “bestas” para transportar seu peso. Uma analogia é construída sobre a incrível debilidade dos mesmos, diante de um Deus que é independente dos estatutos religiosos: o Deus de Jesus é diferente, é ele quem carrega as pesadas cargas impostas sobre seu povo, e as transportará até o fim (cf.Is 46,1-4). A história se resolve ao pé da letra? É certo que ante a tirania, de um ou de todos os homens (a sociedade ou a nação), em qualquer seguimento social ou político, em qualquer religião, existirá o chamado “apocalíptico” onde Deus revelará como se deverá resistir (M.Burgos).

Evoca-se o profeta Daniel, não sem motivo; a resistência dos macabeus aos helênicos, ao mesmo tempo [ricos comerciantes acabaram por comprar terras, surgindo uma classe de grandes latifundiários e outra de desempregados e mendigos, causando descrença na política atuante e fomentando a divisão ideológica. O helenismo se implantava, enquanto as tradições centradas no Templo eram cultivadas. Surgiram então três grupos, de características sociais religiosas e políticas distintas: Tzedukim (Saduceus), Prushim (Fariseus) e os Issiim (Essênios); ocorria o desaparecimento dos movimentos proféticos (tão a gosto do povo), enquanto sacerdotes da religião oficial, hierárquica, tomam seu lugar; a liturgia, do Templo e da sinagoga reflete a submissão]. Isso indicaria a leitura, a escuta, a aplicação da Palavra no testemunho (marturia) para unificar a comunidade na luta contra a injustiça. Mas a resistência é substituída pelo quietismo, ou fatalismo, ou pela eqüidistância na religião. Pior ainda, o sincretismo cultual idolátrico, mais uma vez, é admitido sem protesto.

O perfil sinótico apocalíptico reconhece quem são os seguidores de Jesus diante da crise avassaladora; diante da guerra em andamento, da perseguição, do novo exílio (Jerusalém cairá mais uma vez, no ano 70 d.C., resultado da crise na província da Síria, envolvendo o imperador romano Calígula e o legado comandado por Petrônio, 30 anos antes). Os cristãos estão envolvidos, agora: o dia do Senhor (kyriaquê ’emera) “virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas” (2Pedro 3:10). A estátua do imperador é levada ao templo para que este seja adorado como deus. As opiniões são variadas, e diferentes, sobre isso, no entanto  (cf.simbologia apocalíptica). Mas não há dúvida do envolvimento dos primeiros cristãos, também influenciados pela corrente apocalíptica e sua linguagem de resistência profética. É preciso observar os sinais dos tempos.

Derval Dasilio

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