SOBRE O SOFRIMENTO DOS DOENTES E DEFICIENTES

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vinde [1] a mim
15o. Domingo Litúrgico – Ano B
Tempo Comum depois de Pentecostes
|||2Samuel 7,1-14a – Andei com todos, nunca excluí quaisquer dos meus filhos ||| Salmo 89,20-37 – Jamais retirei minha bondade e meu cuidado com o sofredor… ||| Efésios 2,11-22 – Lembrai-vos: outrora trazíeis os preconceitos do paganismo |||  Marcos 6,30-34; 53-56 – Jesus age, curando enquanto prega a chegada do Reino
A área da saúde transformou-se num gigantesco complexo industrial e tecnológico com investimentos astronômicos de recursos para pesquisas, equipamentos e treinamento de profissionais especializados. Os protagonistas nesta área de investimentos ganham muito dinheiro e aumentam seu capital, enquanto planos de saúde caríssimos tomam valores correspondentes ao que recebem aposentados e portadores de benefícios previdenciários — recebo, pessoalmente, 780 reais de aposentaria; minha família, quatro pessoas adultas, paga o equivalente a 1.000 reais mensais por um plano de saúde federal –, mais do que ser uma presença motivada por valores humanos de cuidado da saúde dos mais vulneráveis da sociedade (idosos, crianças e deficientes).
É muito preocupante a hegemonia dos “valores” de mercado, sem nenhuma referência a valores éticos de saúde, qualidade de vida e bem-estar social, escreveu Leo Passini. Podemos falar da necessidade de reconhecer-se uma nova forma de cidadania biomedicinal, biotecnológica e genômica, como Nikolas Rose indica. Uma cidadania da vida, portanto. Se podíamos falar de uma cidadania política que evoluiu desde o século 18; de direitos civis garantidos desde então, essa perspectiva nos levaria ao rompimento do véu que encobre os direitos do enfermo ou do deficiente, como cidadãos comuns.
Em todos os momentos da história da humanidade as pessoas portadoras de enfermidades e deficiências foram alvo de comportamento e reações distintas. Muitas delas contraditórias, indicando a exclusão. Em tempos recentes, no entanto, tanto observamos o preconceito que levou o regime nazista a exterminar deficientes físicos e pessoas de etnia judaica, no mesmo plano. Como vimos, reações que tornariam as pessoas doentes e os deficientes alvos de atenção negativamente distinta, ausentes das políticas públicas adequadas aos mesmos.
Pessoas doentes devem ser tratadas de modo humanamente diferenciado, mas não particularizado – quando os mesmos doentes são segregados, como se pertencessem a uma casta estigmatizada socialmente, sem importância política mas tão somente econômica.  Porque têm os mesmos direitos das pessoas comuns, não doentes ou sem deficiências, segundo a medicina secular.
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Nas igrejas, a mesma coisa é dita? Uma irmã idosa enfrentando problemas de saúde e de locomoção, não pode frequentar sua igreja, da qual é membro desde a infância. Por que não há rampa de acesso para cadeirantes ou deficientes em todos os templos e locais de reunião comunitária? Por que, da força de trabalho disponível, as estatísticas estabelecem 10% de desempregados comuns, e 95% para o total dos deficientes disponíveis para trabalhar?
A saúde é hoje um campo de grandes injustiças, desigualdades e iniquidades, segundo Bassini. “Hoje no Brasil, cerca de quatro em cada cinco habitantes depende do SUS (Sistema Único de Saúde), e dos quase 200 milhões de brasileiros, 40 milhões têm planos de saúde. O sistema público de saúde brasileiro tem uma concepção filosófica humanista comunitária maravilhosa, perfeito na teoria. Na prática, o sistema de saúde é um caos em termos de funcionamento. Deveria funcionar bem para atender com dignidade os brasileiros mais necessitados, segundo a sua origem ou classe econômica. Mas o que ocorre frequentemente são cenas de hospitais públicos sucateados e superlotados, gente no chão sujo de corredores de pronto-socorro gemendo de dor e sem atendimento. Filas enormes para marcação de exames ou cirurgias, muitas mortes em razão da falta de atendimento, sendo as pessoas vítimas de discriminações absurdas que negam algo básico ao ser humano, o direito à vida saudável”.  
Não faz muito tempo, também, misturavam-se os tratamentos, sendo que os doentes mentais não poucas vezes eram confundidos com deficientes mentais. Em ambos os casos o tratamento era desumano. Poucos davam atenção aos problemas como distintos, muitos identificavam os doentes como encarnação de um “mal espiritual”. Ainda neste momento, em certas igrejas carismáticas, Deus continua negado como Deus, o totalmente Outro, como diria Karl Barth, para ser aceito somente quando responde às expectativas criadas por pregadores que propõem milagres e curas espirituais. Quanto ao “outro”, enquanto ser humano, só o aceitamos se ajustado à imagem moderna de moços “sarados” e jovens “turbinadas”, frequentadores de prestigiados centros de estética corporal. Não há abertura para o “outro” que evidentemente é “feio”, “diferente”, por causa da doença ou da deficiência física. E nem se fale das oportunidades de trabalho e auto sustentação para portadores de doenças crônicas.
Na Bíblia, as deficiências são entendidas a partir do conceito de “astheneia“, que são entendidas como fraqueza, doença, enfermidade e incapacidade. São muitos os exemplos de pessoas que trazem alguma deficiência e, no entanto, fazem parte da história do israelita que testemunha grandes feitos de Yahweh em favor de todos.  Jacó ficou manco depois da luta com o Anjo em Gn 32,31-33 (o próprio Deus); Moisés era gago, talvez, ou tinha a língua presa (Ex 4,10); Ezequiel por muitas vezes ficou literalmente mudo, mas sua boca se abria, e ele falava, profetizava (Ez,3,22-27; 24,25-27). Toda a história de Jó está ligada à doença e à exclusão do doente. O Servo Sofredor, na teologia de Isaías, assume todas as dores do homem e da mulher (Is 53,7: “Ele foi oprimido e humilhado…”).
* O livro de Marcos, no Segundo Testamento, é pródigo em citações sobre deficientes e doentes que necessitavam de “livramento”, fato que resultava em liberdade e salvação. O apóstolo Paulo deixou uma dúvida perene, sobre uma enfermidade da qual não se livrava… qual era? Um exame da palavra “fraqueza” (DIT, L.Coenen e C.Brawn), nos demonstrará o cuidado com o sofrimento da exclusão dos “feios”, “doentes”, “deficientes”: “suas dificuldades muitas vezes são vistas como um escândalo e uma provocação de problemas para os outros, como um ‘peso’, uma carga a ser carregada; uma dificuldade a ser removida de alguma maneira…” Isso é perversidade nossa, sem dúvida alguma.
Jesus se pôs a atendê-las: trouxeram os doentes para que os curassem. Detenhamo-nos um pouco sobre esse fato: primeiramente os doentes estão impedidos, travados; suas enfermidades os obrigam a dependerem totalmente dos outros. Por estarem enfermos, são rejeitados, excluídos, tidos por impuros e pecadores, porque a mentalidade da época atribuía à doença e às deficiências físicas algum pecado, mesmo que proveniente de fatores “genéticos”, os homens e as mulheres que os trouxeram se identificavam no meio da multidão. A ocasião é propícia para colocar à prova a coerência de Jesus.
Jesus parte da relação cultural existente entre pecado-castigo e enfermidade: “Teus pecados te são perdoados”, é expressão comum, quando cura — ou seja, ninguém é culpado por ser deficiente ou por estar doente. A libertação da culpa está diretamente relacionada com a recuperação da saúde. A sociedade de então estava estruturada sobre a exclusão; às pessoas não lhes parecia poderem encontrar possibilidades de mudança, nem alternativa para a exclusão, salvo a exigente carga de tributos e ritos de purificação a que estavam obrigadas.  Ao mesmo tempo,  exigências rituais inúteis. Jesus resgata as pessoas dessas exigências religiosas e culturais, dos preconceitos, das superstições, no entanto, curando-as em todos os sentidos.
A força oculta, energia real, daquelas pessoas, para que pudessem levantar por si mesmas, superando enfermidades que resultam na paralisia, na culpa e na rejeição social, era lhes dada em livramento e libertação. Revivem, agora. Fazem-se donas de si mesmas, ao levantarem-se e movimentarem-se  por si mesmas, libertas da dependência em que jaziam, e regressam com nova vida aos seus lugares cotidianos, porque experimentaram o cumprimento da Boa Nova salvadora e libertadora. Muitas vezes Jesus dizia:“Vai, agora, e dize aos outros”.
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Quando João Batista manda seus discípulos conferir o que fazia, dizia-lhes: “Ide, relatai a João o que vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam corretamente, os leprosos são purificados e os surdos passam a ouvir, os mortos ressuscitam: a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22). Acrescentando, poderíamos lembrar-nos de Paulo Freire, que dizia: “Ninguém se liberta sozinho, as pessoas libertam-se em comunhão…”
O Reino não deve ser anunciado somente por palavras e ditos abstratos. Deve também ser construído, embora sejamos somente operários e operárias obedientes às ordens do Construtor, o qual já nos apontou a estrutura de seu projeto para instalar definitivamente o seu Reino. A Boa Notícia deverá ser mostrada em todas as suas possibilidades, nos gestos que expressam sua significação. Estamos diante da unidade evangélica: palavra e ação, teoria e pratica, dizer e fazer. Jesus é o mestre dessa unidade. Seus discípulos também deverão imitá-lo.
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Temos uma mensagem de salvação na palavra de Marcos, é preciso anunciar o Evangelho do Reino, mas é preciso também realizar, mesmo através de gestos simbólicos, suas significações concretas. O Evangelho não só tem de ser lido, ou pregado, como Palavra de Deus. Deve também ser instrumento para o agir, na vida da comunidade de fé e  para a execução da ação missionária indicada por Deus, no mundo.
Uma ação concreta e eficiente para a recuperação da dignidade das pessoas, entre elas as doentes e deficientes; ação para o resgate dos pobres e dos oprimidos pelos preconceitos, pelas superstições e por imposições ritualistas e sacrificiosas destinadas falsamente à recuperação da saúde e da mobilidade. O compromisso com a construção de um outro mundo possível, diverso deste mundo impiedoso e sem misericórdia, inicia-se em ações que demonstram o que vai ser o Reino. Paulo dirá, sobre a plenitude dos tempos, o Kairós tão aguardado: “agora vemos, apenas, imagens turvas como que num espelho”… Quando o tempo da salvação realizar-se… ah, quando o tempo de Deus chegar!, que maravilha há de ser.  
Derval Dasilio |||||||||||||||||

PENTECOSTES – SUBVERSÃO DOS OPRIMIDOS

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liberdade aos cativosEsses homens, que têm causado alvoroço por todo o mundo, agora chegaram aqui, […] todos eles estão agindo contra os decretos do imperador, dizendo que existe um outro rei, chamado Jesus”. —[…]Atos 17.6-7

Para entendermos o Pentecostes bíblico, é indispensável o complemento (João 14.18-19): “não vos deixo orfãos”, [“orfanus”: des-validos, des-protegidos, des- amparados]). O Reino se destina aos órfãos, acolhe os despojados, despoderados, sem-casa, sem-teto, sem-cidadania, sem- dignidade, sem-justiça, sem-tudo. Em primeiro lugar os que estão sob risco de sobrevivência. Os que padecem de fome e sede; os que estão nus, vulneráveis e atingidos pelos perigos da economia e política de privilégios, políticas autoritárias, fascistas, para os abastados. Os vulneráveis ao mal permanente; os que estão encarcerados nas prisões por causa da opressão da consciência libertária. O Reino se destina aos despoderados e oprimidos, também, os que veem libertação para prisioneiros do fatalismo histórico, do Mal permanente que se acredita irreversível. Mal sempre presente na fraqueza da “fé religiosa”, mas sem esperança. O Espírito de Pentecostes é esperança de salvação.

Cada vez mais enfrentamos este ou aquele grupo que se diz “pentecostal”, ou irmãos que se declaram, agressivamente até, “carismáticos”, porém, ignorando o sentido bíblico do “Pentecostes”. Perdemos o verdadeiro Espírito da Igreja quando nos entregamos ao comum carismático, ou mundo mercadológico da fé pentecostal, que parece ignorar o reino de Deus (justiça, dignidade humana), que precede a tudo. Sejam exorcismos duvidosos (prestidigitação, magia), às curas, prosperidade, “propósitos”; pentecostalismo como respostas à vida consagrada, avivada, e respostas materiais como bem-aventuranças. Assumimos o “pentecostalismo religioso” (ênfase pagã? o “deus ex machina” do pentecostalismo não-cristão antecede sua história através dos mitos da Grécia Pré-Histórica); o pentecostalismo transforma-se numa religião “possuída” por muitos símbolos materiais imediatos, pragmáticos, mercadológicos.
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Atos dos Apóstolos apresenta outra visão sobre a manifestação histórica, aumentando nossa confiança: quando o nome de Jesus Cristo é invocado, ele passa a agir como força mediadora da Graça de Deus (2.1-13; 17.6-7). Ao mesmo tempo, dele emana o Espírito de Deus que se apossa dos discípulos, para que o evangelho da Graça seja pregado. É o reino de Deus que se instala; só depois vem a Igreja. Assim é a teologia de Lucas, no evangelho e no livro de Atos.
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Religiosidade, comunhão eclesiástica, ministérios ordenados, instituições doutrinais, não podem sufocar o suspiro dos oprimidos, no Espírito: “…também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, no aguardo da redenção do nosso ‘corpo’; (…) o mesmo Espírito intercede por nós em gemidos inexprimíveis” (Rm 8.2-3a; 26b), para libertar-nos. A massa de oprimidos poderia buscar uma aproximação com o Pentecostes subversivo, neotestamentário, pois a preferência ao reino de Deus está nos pobres e despoderados, órfãos deste mundo que experimenta o “pentecostes”.
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“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele consagrou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação dos presos aos sistemas de pensar e, aos que vivem em cegueira, a recuperação da visão clara das coisas; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano jubilar de remissão por Graça do Senhor” (Lc 4.18/ rf. Is 61.1). Assim, Jesus inicia seu ministério numa sinagoga da Galiléia. A interrupção brusca, no martírio e na morte, também testemunhados por Lucas, não impedirá a Ressurreição do Cristo de Deus, e com ela as aparições pascais. O próprio Jesus se manifesta como o Cristo vivo, ele e sua causa prosseguem na história dos homens.
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Como podemos explicar este esquecimento do Espírito em nossa experiência cristã, nas igrejas históricas? Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando as Igrejas Históricas, escrevia:
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“O testemunho de muitos (autênticos) pentecostais pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com frequência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social. Porém, continuam pobres e doentes. E, mesmo nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes tem dado. Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento.
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Prossegue, R.Shaull: “Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, pode levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. […] A chave para se compreender tudo isso, que esboçamos como a luta angustiante para sustentar a fé e a confiança em Deus, em meio de tremenda violência e destruição, foi apresentada no final do livro do profeta Habacuque: ‘o justo viverá pela fé’!”.
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Como “consolar” os órfãos da utopia do Cristo de Deus quando a Igreja se apresenta como quem tomou posse do Espírito, senão com a garantia da solidariedade de Deus? Como garantir um final feliz no drama da salvação, ideais transformadores, revolucionários, a justiça de Deus, a vida eterna, sem fim, a morada com Deus, a pátria celestial, cidadania dos céus, no sentido bíblico? “Pedirei ao Pai que vos envie ‘outro parakletos’, companheiro e ajudador, a fim de que esteja ‘sempre’ convosco”; “o Ajudador, o Espírito Santo, (…) esse vos ensinará todas as coisas e ‘vos fará lembrar’ de tudo que eu vos tenho dito” (cf.: Jo 14.16). No grego, o termo “parakletos” oferece extensas possibilidades: defensor, intercessor, advogado, companheiro, protetor e ajudador. Jesus chama-o também de Espírito da Verdade, referindo-se à divina revelação do Espírito de Deus aos órfãos e viúvas. Estes, os oprimidos, certamente, esperam impacientes o seu Pentecostes redentor.

Derval Dasilio: É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância” (2013) e “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

O AMOR COM VERDADE E JUSTIÇA

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desenho pássaro - japan

[-]COMENTÁRIOS: 6o. DOMINGO DA PÁSCOA[-]
Salmo 98 – Ele vem julgar a terra com amor
1João 4,7-21 – Deus nos amou primeiro
João 15,9-17 – Amai-vos assim como eu vos amei
Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo (Is 5,20).

Oração: “Senhor, que o amor seja em nós como o raiar do amor, Sol da justiça, um acontecimento que suscite uma solene música nas profundezas de nossa natureza humana; um acontecimento em que o nosso ser inteiro, corpo e alma, se ponha em harmonia com os cosmo, para que possamos louvar-te a cada dia, libertados e agradecidos. Amém”.

O verdadeiro amor não é mera abstração. O amor não se submete à degradação da vida humana. A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas da TV? Ou filmes em cartaz: “Terapia do Amor”; ou nos romances rasteiros disponíveis nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é o amor platônico, “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor, quem sabe. Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem amorosa” que tomou nosso tempo. “Quais são as prioridades do amor?”, perguntaremos insistentemente.

O amor sem igual, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”. Por quê? Porque João vai além, acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “…amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem posto, e escrito na capa: “Cruz – Mandamento do Amor”.

A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre budista, sobre a natureza bruta dos seres: “Enquanto a fé cristã luta por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por tais sentimentos”, seguramente sob um duvidoso acordo semântico, poderia ser visto aqui. No entanto, para os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade de compreendê-la como expressão do esvaziamento (do poder) de Deus em Cristo, por puro amor à justiça.

A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes enfileiradas junto aos caminhos dos torturados e torturadores , violentados e violentadores, como diria Jürgen Moltmann. Do Circo Romano à Prisão Tiradentes, Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara, Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os oprimidos e abandonados, massacrados, torturados e violentados deste mundo.

O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apoia a história do Brasil imperial ou recente, e do autoritarismo das tiranias: Tiradentes esquartejado; insurgentes como Paulo Wright, Anivaldo Padilha, Dilma Rousseff, Eliana Rolemberg – tal qual a demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora.

Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos lembramos, também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do frio inverno. A questão está sob o juízo de Deus. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo transformado. Os torturados e assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça, a exemplo do insurgente rev. Jaime Wright (Pastor dos Torturados, Derval Dasilio)*. A solidariedade de Deus estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça de Deus.

Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos, religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus direitos fundamentais para  fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos [’agapâte]  uns aos outros”.  Há um mandamento que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (E.Brunner, Divine Imperative).

Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos, exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na estabilidade familiar ou  conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para o exercício da liberdade, estrutural e sistematicamente na direção da liberdade e da justiça.

Derval Dasilio

[Nota: Um paradoxo, o texto joanino. Sua síntese poderia levar-nos à ideia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo e ao mesmo tempo misericordioso de Yahweh (ahavah = amor que palpita no peito de cada um); que o fruto esperado seria a prática da justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). ] [-][-][-]

DA MULHER OPRIMIDA

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desenhoDA MULHER OPRIMIDA
João 14, 1-14 – Na casa de meu Pai há muitas moradas…

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe concedam o alcance gota-a-gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade masculina contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusivismo de gênero.
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A presença visível perceptível, “theofania“, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade. Isso é mais e maior que tudo. Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”.
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O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se com justiça por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”. Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais. Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia e dos bens essenciais, também são ignoradas, no mais das vezes.
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Mulheres vestindo a pele do predador não constituem novidade, a exemplo daquela pesquisa recente sobre o consentimento do estupro (IPEA – Folha de S. Paulo – 2014/04/14). Consequência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade autoritária. Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher e suas responsabilidade. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou, pervertida, sendo solidária com o explorador e dominador. Tantas mulheres envolvidas com a cidadania privilegiada contra a cidadania insurgente… Tantas mulheres apoiando a opressão, governo que subtrai direitos fundamentais, congresso que serve aos donos da economia e do poder, juízes prontos a servi-lo subservientemente…
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Perigos de guerra, comoções, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca de direitos, da democracia, da justiça e da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres, de igual modo. Por que os gastos exorbitantes com a propaganda governamental? A igualdade econômica, o combate à miséria, a distribuição de renda entre os famintos e miseráveis, as questões que envolvem a justiça do trabalho, da previdência, a urbanização humanizada e mobilidade urbana, não interessariam à mulher? Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários.
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Quando Paulo fala do sofrimento como synodinei, “dores de parto” (Rm 8,18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto” (Helen Shüngel-Straumann). Talvez só ela saiba… Maria, mulher exemplar no Evangelho, dá à luz uma criança que vem para simbolizar todas as liberdade. Com dor. Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação, pelo parto do Salvador.
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Jesus diz a seus discípulos que vai partir e isto não deve perturbá-los porque vai para poder depois levá-los e tê-los sempre consigo, para preparar-lhes um lugar na casa do Pai, uma “grande casa” onde cabem todos, homens, mulheres, crianças (João 14,1-12.). Sobretudo os mais pobres, que “nunca tiveram uma casa própria”, sem-teto; filhos e filhas pródigos e pródigas. Os que desejam regressar ao acolhimento do Pai. Fiéis que souberam carregar o peso do trabalho e as cargas da vida, encontram repouso. Escorraçados, despoderados, abandonados pelos poderes humanos e pela religião, têm “uma casa para abrigá-los, protegê-los, e dar-lhes segurança”. Para chegarem à casa paterna precisam, homens e mulheres, de um caminho, de uma lâmpada quando chegar a noite.
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O Deus da gratuidade é exemplar. Nele identificamos também o desejo de perdão, ao invés da vingança, ou da represália, quanto aos pecados cometidos na estrada da vida. No seu acolhimento existe interioridade e fascinação indescritíveis. O Salmo 36 (8-10) expressa com segurança essa certeza: “Ó Deus, quão preciosa é a tua graça. Os filhos e filhas dos homens e das mulheres se refugiam à sombra das tuas asas. Saciam-se da abundância da tua casa”. Assim, homens e mulheres mostramo-nos deslumbrados por esse Deus das muitas moradas, quedâmo-nos perplexos pela grandeza do teto dessas moradas, o céu estrelado, a amplidão do Universo, o finito confundindo-se com o infinito, a eternidade da vida, onde está o Reino de Deus e a vida eterna.
Derval Dasilio
5o. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A – 2014
Atos dos Apóstolos 7,55-60 – Eu só ouvia, agora o vejo à direita de Deus
Salmo 31,1-5; 15-16 – Não seja eu a te envergonhar, Senhor
1Pedro 2, 2-10 – Vós sois a raça escolhida, o sacerdócio do Reino
Texto:  Derval Dasilio  []

JOGANDO A CEIA NO LIXO

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“Este pão é o meu corpo… comei-o em memória de mim”. No momento em que esta declaração é pronunciada (Lc 24,13-35), Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
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Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos, protestantes e católicos? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?
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Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial da Eucaristia, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com o carnaval, o futebol, as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem, já perdida no tempo histórico. E, nesse momento,  pensamos no Pão da Vida, o pão da Eucaristia…
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Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta. No momento em que a maior parte destas declarações é pro­nunciada, Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
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A Ceia do Senhor não é irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão. Por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as instruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?
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“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem.
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A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” (negação da Graça) contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido.  Enquanto isso, a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil. O avivamento pentecostal  seguia o mesmo roteiro, entre católicos, protestantes e evangélicos recentes. Aparentemente. Porque, no fundo, dividiu o povo cristão ainda mais profundamente.
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Desde os anos 80 (séc.20), se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir dos séculos iniciais. Falava-se, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo e fundamentalista.
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A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo.
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A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.
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Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial, entre si e com o Senhor, reunidos à mesa comum, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé na unidade foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127,2), mas “com alegria” (Ecles 9,7). Em Eclesiastes 8,15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2,25). A Eucaristia cristã busca tão somente a alegria da comunhão em torno das oferendas para a comensalidade que anuncia e já comemora a vinda do Reino de Deus.
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Páscoa – Terceiro Domingo – Ano A
Atos 2,14;22-41 – Não era possível que a morte o subjugasse.
Salmo 116,1-4 (12-19) – Sofria… horrores supulcrais me tomavam!
1Pedro 1,17-23 – Resgatados pelo precioso sangue do cordeiro
Lucas 24,13-35 – Reconheceram-no ao partir o pão: Ele está no meio de nós!

Derval Dasilio : O EVANGELHO DE MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO

SOBRE A SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Destacado

 

[[[ Reflexão sobre a Sexta-Feira Santa ]]]
Durante o ano eclesiástico, a Sexta-Feira Santa é uma data muito significativa para os cristãos. Ela vem marcada por vários rituais. Começa que as pessoas apareciam [aparecem?] no culto trajando preto, comiam [comem?] peixe, observavam [observam?] um silêncio respeitoso – claro, trata-se da “sexta-feira silenciosa”.
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Falar um pouco menos, numa ocasião dessas, parece ser a parte boa da coisa, ainda mais na Igreja Evangélica, a “Igreja da Palavra”. Pois o motivo pelo qual nos reunimos hoje nos inquieta – espero! Se é que já não estamos insensíveis às frases feitas, no contexto da igreja. Na Idade Média, as pessoas exclamavam, diante da crucificação de Jesus Cristo: “Ó horror, / o próprio Deus está morto”. Mais tarde, essa frase foi modificada para: “Ó imenso horror! / O filho de Deus está morto” (F. v. Spee). Essas falas sobre a morte de Deus, desde o séc. XIX, não são novidade. Quando as pessoas percebem isso conscientemente, fica claro que a Sexta-Feira Santa é um desafio complicado para comunidades e pregadores. Na Igreja dos primórdios, as pessoas comparavam esse dia a um mar indecifrável e sem contornos definidos. Acabo de ler que nós o compreenderemos apenas no dia do Juízo Final. Creio que constatações desse tipo valem a pena para refletir sobre o dia de hoje. Consideremos, por ora, três aspectos:
I.

Frequentemente, Deus é visto como profundamente ofendido pelos seres humanos. Afirma-se que ele se sente tão magoado em sua honra pelo ser e comportamento autoritário e arrogante das pessoas, que apenas a morte redentora do próprio filho seria capaz de apaziguá-lo. Bem, deveríamos ter claro que Deus não permite a nós, suas criaturas, fazer e deixar de fazer o que quisermos, sem maiores consequências. Mas o problema é bem mais grave. A Bíblia ressalta: somente Deus conhece a verdadeira extensão de nossa vontade própria, nossa imensa rebeldia contra ele, contra os outros e contra nós mesmos. Nós não percebemos isso. Nesse sentido, boiamos na superfície.
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M. Luther formula assim: “Onde não há fé verdadeira [i.e., aquela presenteada por Deus], nosso coração olha feio para Deus e pensa: eu queria que Deus não fosse Deus. Nem queria que ele existisse, para eu mesmo poder ser Deus“. Se Deus quiser, ele leva as pessoas a confessar: “Somente diante de ti [Deus] pequei / e agi mal em tua presença“ (Sl 51.6). Essa é a confissão primordial das pessoas libertas por Deus, através da fé nele. Reconhecer o pecado e confessá-lo é a consequência dessa fé.
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De fato, Deus se zanga. Ele não é destituído de afetos, não é frio de coração. De jeito nenhum ele “habita como pai amado sobre a abóbada celeste” (F. v. Schiller). Ao contrário, “terrível é cair nas mãos do Deus vivo“ (Hb 10.31). Também isso faz parte da confissão daqueles que se encontram na fé presenteada por Deus. A fé, em termos bíblicos, não é alguma ideia ou sentimento, e sim um duro desafio, que constantemente nos desequilibra: estaríamos perdidos se Deus não nos chamasse a si em seu amor mais essencial. É exatamente diante desse desafio, a partir da fé, que se nos revela o abismo sem saída que existe em nós mesmos – e nós conseguimos suportá-lo.
II.

Jesus se zanga e castiga. Ele não age segundo o método “Deixa-pra-lá“. É por isso que ele amarra não só indivíduos, e sim povos inteiros, às consequências de sua maldade, e então os abandona à própria sorte (Rm 1.18-32). Os moralistas acham correto que “o mal necessariamente gera sempre mais mal“ (Schiller). Com isso, eles se referem à “relação interna entre o agir e sofrer as consequências” (B. Janowski). Pode-se relacionar isso ao ditado derivado da experiência coletiva: “Cada um molda a própria felicidade, ou infelicidade“.
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O destino construído apenas pelo ser humano está presente em tudo. Ele nos assalta de tempos em tempos. Torna-se nossa desgraça porque Deus deixa as coisas correr – quando não as acelera. Desse modo, ele traz à luz o quanto estamos perdidos em e através de nós mesmos. O destino auto-construído está preso em nós. Estamos tomados por ele até a medula – e mesmo assim não nos damos conta de seu abismo sem fundo. Seja lá o que tentemos – alguns o encaram corajosamente como prova de resistência, outros se rebelam em desespero, ainda outros toleram tudo apaticamente, ou mesmo se deixam levar – não adianta: ninguém escapa do destino de si mesmo, do “sofrimento mais pessoal” (P. Gerhardt). Vivemos nosso destino cegos e fechados, mas diante de Deus ele está bem claro e transparente.
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A ira de Deus é um fato. Dentro, com, sob a nossa confusão indeslindável, Deus age julgando. É preciso deixar isso claro – e tê-lo bem presente – na Sexta-Feira Santa. Mas também é preciso confessar alegremente: Deus julga – segundo sua justiça! I.e., Deus sai de seu esconderijo e nos reconcilia conosco mesmos. Também a Bíblia afirma: ele se converte a nós, para que nos convertamos a ele (1 Pe 2. 25). Deus coloca sua honra em reconciliar-se conosco, em converter-se a nós. Luther insiste: Deus é quem vem a nós, não somos nós que vamos até ele. Quem acha que consegue fazer as pazes com Deus acaba por desonrá-lo. Quem acha que consegue converter-se a ele a partir de sua própria razão e força, cai na pior armadilha que existe: a ofensa de Deus.
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Deus demonstra a obra de sua reconciliação conosco, de sua conversão a nós, de sua vinda até nós, quando “envia Jesus de Nazaré, seu filho unigênito, nosso Senhor” (Mc 12.1-9 par.). Ele nem lhe prepara circunstâncias especiais para tanto. Ao contrário, ele o joga para dentro de nossa realidade tal como ela é, “repleta do poder do pecado e da morte – sem medo de se contaminar“ (M. Theobald). Em, com a através da luta de Jesus – “no meio da noite infernal / consumado está“ (O. Riethmüller) – Deus mesmo se reconcilia conosco, volta-se ele mesmo a nós, vem ele mesmo até nós.
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A nós, Jesus dá a tarefa de nos dedicarmos a todas as pessoas e a cada uma em particular, diretamente, da seguinte forma: “Confia em mim; / eu me entrego totalmente por ti; / pois eu sou teu e tu és meu,/ e onde eu ficar, lá deverás estar”; / nada nem ninguém “nos vai separar“(Luther). Seu consolo nos faz responder: “Eu estava e continuo preso / a Cristo, como um membro seu; / por onde passou meu líder / ele junto me levará. / Ele passa através da morte, / do mundo, do pecado e da dor, / ele passa através do inferno, / seu companheiro serei” (Gerhardt).
III.

Jesus Cristo entra em nossa realidade. Ele nos vivencia tal como somos. Deus não o poupa, mas o entrega a nós. Deus não se ilude a nosso respeito. Ele observa como nós recusamos e xingamos Jesus, como nós o maltratamos e matamos. Deus não interfere, ele se recolhe em si mesmo. Essa é a ação de Deus no destino de Jesus de Nazaré.
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Este, por sua vez, aposta com alegria toda sua existência e desiste voluntariamente de qualquer defesa (Jo 18.2-11 / Mt 25.51-6; Jo 19.1-15). “Ele desiste de todo o seu poder / torna-se pequeno e humilde / e assume a imagem de servo / o criador de todas as coisas.” (Fl 2. 6-8). Assim é Jesus Cristo. Ele dispõe apenas de sua palavra e de sua vida – e as entrega. Ele sabe que agressões e inimizades, sofrimento e morte fazem parte da tarefa dada a ele. Ele não revidou a ofensa ao ser ofendido, não ameaçou quando estava sofrendo, mas confiou tudo àquele que julga com justiça” (1 Pe 2.23).
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Jesus Cristo é o ser humano, o “verdadeiro ser humano” (Luther). Ele faz questão de ser humano (ecce homo: Jo. 19.1-5), “até a morte na cruz” (Fl 2.8), na morte na cruz (Mc 14.33-42; 15.34-37). Em sua paixão, sua humanidade adquire o contorno decisivo. O homem de Nazaré afirma radicalmente que sua existência passa a ser a pró-existência dos seres humanos. Ele percorre o caminho perpétuo até a cruz. Deus lhe revelou: diante da realidade dos seres humanos, essa é a única forma de tornar seu servir eficaz – “dar sua vida em favor de muitos [= todos]” (Mc 10.45; cf. v. 42-45). Nisso consiste o centro do testemunho neotestamentário acerca de Jesus Cristo. * Portanto: não é Deus quem joga Jesus de Nazaré na dor e na morte, e sim os seres humanos. Nós somos os responsáveis. Nós preparamos a sua sexta-feira da Paixão. De fato – “deu certo, conseguimos”. Deus não apoia de forma alguma a ação mortífera dos crucificadores. Ao contrário, ele apoia o crucificado, mais do que isso: ele se identifica com ele, Deus se faz crucificar junto. Dessa forma é que surge o ser radicalmente diferente de Deus.
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Este é o cerne divino. Ele diz respeito às pessoas, atingindo-as. A livre auto-revelação de Deus ultrapassa todos nossos limites e projeções. Ela puxa totalmente o tapete debaixo dos pés de quem ela alcança.
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“Não é em função de um Deus ofendido, que exige reparação, que Jesus ‘tem de’ sofrer“ – confessa a fé cristã – “mas em função dos seres humanos que não o aceitam e aos quais ele ‘serve’ por toda a sua vida”. A paixão de Jesus revela profundamente “o segredo do amor divino entre pai e filho“. Ele consiste no fato de que eles não querem “estar juntos sem o mundo decaído e teimoso” (R. Feldmeier).
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Isso derruba nossas estruturas, porque acontece por nossa causa. “Por nossa causa” tem um significado sem precedentes. Por um lado, afirma-se: nós provocamos a crucificação de Jesus Cristo. E logo: Deus inverte essa situação em nosso favor. Este é o duplo aspecto da paixão de Deus na Sexta-Feira Santa. *Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mostra, em sua representação da via crucis, algumas pessoas que acompanham Jesus até o Gólgota. Cada uma leva consigo uma ferramenta que será útil para matá-lo. Entre elas, um menino agarrado num prego quase do seu tamanho. Terrível – até mesmo uma criança participa da crucificação de Jesus Cristo. Com qual prego nós pregamos Jesus Cristo na cruz? Esta é a pergunta da Sexta-Feira Santa para nós.
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Jesus Cristo pede ao pai: “Perdoa-os, porque não sabem o que fazem“ (Lc 23.34). Deus, também nosso pai através de Jesus Cristo, escuta-o. E Jesus Cristo finaliza: “Está consumado“ (Jo 19.30). Numa igrejinha de mais de mil anos, junto ao rio Main, há sobre o altar um crucifixo feito por um desconhecido. O rosto do crucificado mostra um levíssimo sorriso. Esta é a mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa. *Luther resumiu assim: „Se eu não puder crer / que Deus perdoa minhas falhas diárias [na expectativa de Deus] / em nome de Jesus, / acabou-se tudo para mim. / Vou desesperar como Judas Iscariotes. / Mas não chegarei a esse ponto. // [Antes], agarrar-me-ei ao pescoço ou aos pés de Cristo, como a pecadora (…). / Mesmo que eu seja ainda pior que ela / agarro o meu Senhor. / Então ele dirá ao pai: / esse chato também deverá passar [por teu julgamento]./ Ele nada cumpriu e transgrediu todos os meus mandamentos. / [Sim, sim] pai, mas ele se agarra em mim. / Que importa? Morri também por ele, deixa-o escapar. / Essa é [conclui Luther] a minha fé.”
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A mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa nos é assegurada performativamente no perdão dos pecados, após a confissão comunitária e/ou individual. Ela nos é dada fisicamente na Ceia do Senhor. Por isso, a confissão, junto com a absolvição e a Ceia do Senhor, faz parte da Sexta-Feira Santa. A morte de Jesus Cristo aconteceu “de uma vez por todas” (Rm 6.10; Hb 7.27); seu efeito salvífico nos alcança e nos envolve totalmente, aqui e agora. Ela nos coloca na sucessão de Jesus Cristo, “o príncipe de nossa bem-aventurança”.
Texto: V. E. Löscher
Tradução: Erica Ziegler

É MORRENDO QUE SE VIVE

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semeando Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor, morrer, é a forma de “ganhar” a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus). “Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; dar a vida é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre” (Paul Tillich). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas não são. São parte da existência concreta.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades, neste plano terreno. O húmus encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender, enquanto morremos para o mal (Carlos R. Brandão). Precisamos ser capazes de sentimentos, de curtir emoções, de ter alegria, de ouvir uma sinfonia e distinguir os sons que vêm da música, das vozes da justiça; perceber os murmúrios da solidariedade sem medo, sentir o calor do amor, da ternura, da compaixão. Exatamente quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para ressuscitar a vida ameaçada todos os dias.

O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não tivesse manifestado aos crentes: se o grão de trigo não cai na terra, morre, desaparece infecundo. A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas, e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo. Tratamos aqui a descrição das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor, como poderia dizer Roland Barthes.

Esta parábola apresenta uma vez mais, de outro modo, a lição fundamental do Evangelho inteiro, o ponto máximo da mensagem de Jesus: o amor concreto, solidário, cooperativo; o amor que reforça o primado da pessoa e da vida; o amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo. O amor fecundo que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro, é o amor sem fronteiras. Como é também um poço profundo no qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.

Uma vez, Carl Jung, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dinâmica na obra da criação, mesmo dentro do caos. Porém, isso não explica a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o “oitavo dia da Criação”, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza, que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita.

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pôres-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba. Um rio que, na verdade, é um “caminho que corre sem mais um adeus”, no verso da canção.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, contrastam com o silêncio da floresta que demora para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos e milênios um silêncio que abriga gerações de pássaros, de árvores, flores e frutos, enquanto tombam as árvores que morrem. Silêncio que faz crescer o respeito à natureza de todos os seres, o amor à beleza. Principalmente, silêncio que conduz à humildade diante do infinito e das coisas eternas. As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”.

Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos”.

Derval Dasilio

QUARESMA – 5º Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não está num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos protestam contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito frutos

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DINHEIRO E RELIGIÃO, UMA COMBINAÇÃO PERVERSA

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RELIGIÃO E DINHEIRO NÃO COMBINAM…
3o. Domingo da Quaresma – Ano “B”

dinheiro É preciso recuperar nossa capacidade de julgar, em tempos sombrios; é preciso devolver a dignidade humana, quanto ao uso do dinheiro. Do mesmo modo, a ideia essencial do mistério humano, sejam quais forem as pessoas. Além da massa popular, o eleitor, o homem da esquina, as celebridades do esporte, os atores amados pelo povo. Conforme a cor da pele, classe social, nacionalidade; grandes homens e mulheres; importantes da elite social e política, magistrados, governantes, mas também a multidão de figurantes, extra-enredo oficial, os indivíduos estatísticos, todos estão envolvidos com esta questão.

Políticos e religiosos comparecem ao palco privilegiado da mídia graças à democracia que lhes permite acesso à massa, e assim têm oportunidades ilimitadas de manipular e interessar a opinião pública a seu favor, ao mesmo tempo. O assunto dinheiro, riqueza e poder, ganha as tvs, revistas e jornais em altas cotações, enquanto, em contraste, as questões de cidadania, e direitos fundamentais da coletividade, despertam pouco interesse, senão indiferença. Os contrastes se estabelecem somente quando assuntos provocam comoção, em assuntos que sensibilizam milionários e pessoas comuns, quando um rico empresário tem alguém da família envolvido num crime ou acidente com alguma personalidade notória.

Ou seja, todos aqueles conceitos ilusórios ou superficiais, construídos por marketeiros, que se apresentam como democratas (na verdade, oportunistas da informação), difundindo a noção de que informam sobre tudo que há para saber, e o que não sabemos eles sabem, sobre as pessoas e suas necessidades. Camuflam a realidade verdadeira do desespero do homem comum em busca de sobrevivência num mundo insensível e sem misericórdia. Finanças e dinheiro comandam a vida moderna. Com Norman O.Braun, seria melhor considerarmos que o homem é o único animal que se oprime a si mesmo.

O dinheiro, portanto, torna-se instrumento de opressão. Financeiras e bancos não permitem que qualquer um de nós sobreviva sem um “credicard” à mão. “Vivemos numa sociedade sitiada pelo dinheiro”, lembra Jurandyr Freire. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O dinheiro nas metrópoles, dizia Georg Simmel, já no início do século 20, com toda ausência de cor e desinteresse, “torna-se o denominador comum de todos os valores; extirpa irreparavelmente a condição essencial das coisas, das individualidades e seus valores específicos, de impossível comparação”: o dinheiro, como função social, na essência, deveria atender às necessidades básicas, moradia, saúde, escola, alimentação e locomoção para o trabalho ou para o lazer. Porém, todas as coisas flutuam num campo de gravidade onde o dinheiro funciona como um ímã convergente, apenas se diferenciando no tamanho da fortuna, quantidade, e área de abrangência da mesma. Lutero, em seu tempo, já identificava o dinheiro como agente do diabo. A fim de aumentar sua renda, dizia, o “capitalista” (agiota) deseja que o mundo inteiro se arruíne e que assim haja fome, sede, miséria e necessidade; dessa forma, todos dependerão dele e serão seus escravos, como se ele fosse Deus.

Porém, a mulher “navegaria por mares diferentes”, pensam alguns. Investigaria melhor seus enigmas, contradições, fracassos, fantasias, energias existenciais, enquanto procuraria um continente não mapeado, que é a razão da existência de seu corpo, sua finalidade, além da procriação e da multiplicação da prole. E, principalmente, o custo emocional de manter-se uma família. Até que ponto isso é verdade ou inverdade?

Diz-se também que o homem, portador da masculinidade clássica, transita com mais desenvoltura no mundo do poder e do dinheiro; do bom desempenho sexual; na busca e exposição de prestígio e sucesso, social e financeiro. Temos dúvidas, a respeito disso. A economia arcaica, tribalista, que não usava o dinheiro como lucro, nem como meio de remuneração do trabalho, poderia informar-nos melhor sobre os papeis masculinos e femininos através do tempo, enquanto padrões de status e desempenhos sociais de ambos os sexos.

De fato, o que Jesus encontra é o Templo, e a religião, transformados em comércio. A religião de mercado se impõe. Pastores imaginam que são empresas e mercadores, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Não se define mais, separadamente, o que é “crente” ou “cliente”. Sacerdotes cuidariam dos aspectos “legais” da exploração das ofertas compulsórias dos fieis (burlando as leis do país). Hoje, o Ministério Público tem alcançado inúmeros religiosos que fazem das igrejas balcões de negócios. Alguns cumprem pena por crimes fazendários.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, em nome da religião, dirigentes sabiam muito bem manipular em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso mostra que chegaram tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós) e seu reinado voltado para a justiça ao pobre, tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio. As pombas eram compradas para o sacrifício, pobres pagavam muito caro “para ter acesso a Deus” (cf. João 2,17). Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”.

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NOTA EXEGÉTICA
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[João 2,13-22] Três semanas antes da Páscoa (greg. pásca/heb. pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado. A organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”! Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas atuavam paralelamente, à vista dos sacerdotes.
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Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêm se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o dinheiro e poder religioso serão responsáveis pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, destruindo o poder que gera morte.
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As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado, porque ele está em oposição ao Templo. Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22). Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini, Evangelho de João, Paulus, 1994). Em Jesus a dignidade da própria religião é resgatada. Se ela respeita a humanidade em suas diversidades, cada participante pode compreender-se dentro do projeto de Jesus. Sem explorar o pobre.
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Seu corpo ressuscitado, sua presença na vida humana, é o novo Templo. Corpo que não pode ser comercializado, transformado em dinheiro. Esse templo, novo, ressuscitado, sinaliza as novas estruturas de justiça para todos. Não há lugar para remendos, religiões interesseiras, oportunistas — pois se apoderam das fraquezas populares, como a ganância –, suas superstições e práticas de magia e ilusionismo para impressionar a massa. Suas liturgias, sem envolvimento com os sentimentos da fé verdadeira, corrompidas por interesses políticos e econômicos, se desmoronam diante do Corpo do Ressuscitado: o novo Templo onde Deus habita; “… pois misericórdia quero, e não sacrifícios que queiram comprar a prosperidade para alguém”.
é o novo Templo
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Derval Dasilio
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3º.Domingo da Quaresma – Ano “B”
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança
Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos
1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro
João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…
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QUARESMA – ENTREGA INCONDICIONAL A CRISTO

Destacado

QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus / Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento / Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
|Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la|

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
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Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).
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Lá estão os des-esperançados, des-graçados, as vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais. São essa gente os necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo, como sinais do Reino de Paz e Justiça, combatendo governantes corrompidos, políticos ladrões e juízes que os protegem? Somente a fração menor dos bens sociais cabe às maiorias pobres que estavam ascendendo. Estes tiveram, abruptamente, por um golpe político, sua trajetória interrompida. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial deste momento ignora.
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Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenhar  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Geraza querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vâmo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
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Virgílio, antes de Dante, já descrevera os cães que vigiam a boca do inferno. Um deles personifica o ódio. Cérbero, o cão de três cabeças, tem apetite insaciável, arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gananciosos, que disputam as coisas putrefatas que o alimentam. Podemos ver isso, hoje em dia, na repressão aos moradores de rua, nas pessoas sem-teto, nas crianças, como João Victor, em S.Paulo, mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades. Solução cruel de exterminar a miséria, e se reprimir com balas de borracha e gás lacrimogênio… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, não dizemos “não” à política que oprime o pobre, enquanto privilegia bem-postos? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade.
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Renunciar ao ódio não é uma atitude passiva, mas sim a espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. Viver sob o signo do ódio, sentir-se ameaçado por ele, é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro.

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O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, incitada ao ódio político, que se pauta pela ambição do poder, vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).
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Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS

Destacado

1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’
CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS PARA RESGATAR-NOS
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos
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Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinquenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Yaweh, no Primeiro Testamento [Nota: Os textos de Gênesis, capítulos de 1 a 11, são composições literárias através de vários séculos. Textos javistas, eloístas, sacerdotalistas e deuteronomistas, em grupos assim justificados, por antiguidade].
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Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeadura e messe, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!
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Lembramo-nos de 2 bilhões de deserdados que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.
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Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).
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Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Yaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).
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No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na sua história, e da humanidade,  para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor.
Derval Dasilio

TRANSFIGURAÇÃO – ECLIPSE INVERTIDO

Destacado

transfiguração

Cerezo Barredo – Ilustrador: (livros D.Dasilio)

SEXTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C

Gênesis 15,1-12, 17-18 – Não tenha medo, eu te protegerei
Salmo 27 – O Senhor é a minha luz, a quem temerei?
Filipenses 3,17- 4.1 – Cristo transformará o corpo abatido pela dor
Lucas 9,28-36 – Moisés e Elias falavam das razões de suas mortes

[Transfiguração é antecipação, é um “eclipse invertido”, um meteoro, uma luz atravessando a escuridão dos tempos. Um novo significado para a vida e a morte! Assim, entendemos a reflexão de Helder Câmara: “aquele que não têm uma razão para viver, não têm uma razão para morrer”. A Transfiguração, como a observação de um impacto estrondoso na história do mundo, está dizendo: “isto é o que se espera, depois da cruz”. Como o poeta anuncia: “valorizar a vida… tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Iluminada com a mensagem de Jesus, a Transfiguração indica o sentido da vida. Algo precisa acontecer para que se mude a história da humanidade. Jesus é o homem transfigurado chamando atenção sobre a Transfiguração da própria humanidade].
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Jurgen Moltmann escreveu: “A injustiça e violência cindiram a humanidade num primeiro e num terceiro mundo”, um de abundância outro de carências estratosféricas, ausências inomináveis quanto aos direitos ao alimento, à saúde, à moradia, ao trabalho, à escola. O primeiro mundo, ¼ do planeta, coroa a abundância e o desperdício, irresponsabilidade para com os demais; o segundo e terceiro amargam a pobreza, a fome e a miséria.
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Do que mais incomoda, parques industriais, mineradoras, estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica e falsamente promotora do progresso, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece — e ela não existe se não pelo capital privado —  não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmando o dito: “comemos o que terminará por nos comer”.

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Lembramo-nos da parábola antiga, helênica: “O sábio, deslumbrava-se refletindo sobre o universo infinito; olhando para o céu enquanto caminhava, tropeçava e caía no abismo”. É preciso olhar para o chão, portanto. Evidentemente, porque o projeto do homo tecnologicus está ligado às conquistas técnicas, e não ao que poderia fazer pelo Homem, se assumisse a humanização contida na esperança.

O valor utilitarista, use e jogue fora, alcança o ser humano em toda parte. Pragmatismo consumista. O que assistimos está longe de ser um mundo novo, reconciliado com o projeto de vida planetária reconhecido nas Escrituras. É preciso falar, também, de uma “ecologia dos sistemas de pensar”, o que nos devolvera a uma transcendência ao estilo do que sugeria Wittgenstein: “o fundamento do mundo está fora (deste) do mundo”. A questão, portanto, não pertence ao mundo da técnica, mas ao mundo da ética. Estamos diante de uma questão antropológica. A sobrevivência do homem comum também está na pauta das lutas ecológico-ambientais. A indústria poluidora e destruidora, na pauta da economia gananciosa. Nunca entenderemos sua contribuição à educação, à saúde e à habitação e humanização urbanas.

As mais arrasadoras catástrofes ambientais — assustadoramente frequentes, têm soluções adiadas nas multas que nunca são pagas, porque a sucessão de governos irresponsáveis vai perdoando os faltosos até a décima geração.  No caso da Samarco e o desastre do Rio Doce, contam com advogados em grupos de centenas, adiam ad infinito o pagamento de multas ambientais, teoricamente apontadas em dezenas de bilhões de reais — não despertam a sociedade quanto aos danos futuros irreparáveis. Porém, equalizam o destino do planeta, ameaçado pelo abuso na pressa do consumo irresponsável na economia da ganância.

Sob consentimento dos poderes públicos, bem como da justiça responsável pelo controle ambiental, tendo derramado 32 milhões de metros cúbicos de restos de lama e minério, matando 17 pessoas e contaminando o Rio Doce por um prazo mínimo de 10 anos, destruindo os municípios ribeirinhos de Minas ao Espírito Santo até a foz, em Regência. Sua subsidiária, a Samarco — empresa da Vale do Rio Doce –, tornou-se símbolo da irresponsabilidade do capital privado para com o meio ambiente.


Em seguida, ainda compondo este cenário, a Vale é multada em alguns milhões, no ES, e tem o porto privado do Tubarão interditado por 4 dias, enquanto uma centena de advogados atuavam para suspender a interdição e “discutir” a última multa — das muitas que jamais pagou pelo mesmo motivo –. Porém, estatística apontam a poluição atmosférica ocasionada pelo “pó preto”, atinge com problemas respiratórios a 26% dos habitantes da área metropolitana de Vitória ES. O Estado, apontado por grupos de pesquisadores de diversos países, informam que se encontra acima da média nacional nesses problemas, tendo como exemplo a asma, com 27%, e a rinite com 80,2%. Enquanto isso, representantes da multinacional têm o desplante de declarar aos jornais que a maior parte do “pó preto” (pó de minério) é, “na verdade” areia monazítica, “medicinal”. Juízes liberam os embargo e, para não fugirem à regra do doping costumeiro, e mais uma vez, aceitam discutir as multas que jamais foram ou serão pagas.


Os povos pobres desconhecem as democracias, via de regra aplicada aos ricos, que dela se beneficiam sem partilha. Mesmo no Brasil, não podemos falar na existência de uma democracia nos bens sociais. Chega a ser hilária uma empresa do capital privado falar em cuidados com a proteção ambiental (A Gazeta, 25.jan.2016) quando, em Vitória ES, a Vale teve a multa de 65 milhões suspensa apenas cinco dias depois da aplicação.A cruz e a ressurreição são afins, tanto que se torna impossível separá-las, tal o seu impacto, na vida da humanidade. Uma espiritualidade profunda nos símbolos da fé cristã. A cruz é a morte pela solidariedade, na causa de Deus. Cruz é sofrimento. Todas as dores do mundo estão no madeiro cruzado, testemunho da inconformidade de Deus sob o sofrimento das injustiças impostas, e as desigualdades históricas (martyria) .

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A ressurreição, porém, dá sentido à vida nova e fecunda, como o fruto que vem no lugar do grão que morreu. Como a borboleta que deixou para trás o casulo morto, a morte de Jesus dá um novo significado para a morte e a ressurreição: “A causa é tão grande que é preciso até morrer por ela”, Jesus faz entender aos discípulos. A cruz não é o fim de uma jornada em favor de um mundo novo possível, mas sim um cataclismo na história do mundo entregue aos poderes da morte. Pedro, na contramão, quer encerrar a jornada libertária, sem cruz e sem ressurreição: “Seria bom ficar aqui, dentro das tendas (igrejas?), em companhia de Moisés e Elias”.
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Mas a Voz ressoa: “Este é o meu filho…”, não eles, ou o que eles representam. “Ouçam-no”. Qualquer processo de conversão e de mudança de rumo faz sentido, porque, na Transfiguração, temos um mapa do universo e seus caminhos tortuosos, como a violência. A realidade da violência, das pequenas e grandes guerras, o crime organizado e o crime legalizado no congresso -– roubo dos bens do  povo, corrupção de senadores, deputados, funcionários estatais; corrupção nas megaempresas e nos microempreendimentos -–; a violência dos assassinatos, metrópoles violentas; a violência da fome, do desemprego, da saúde sem assistência, da moradia negada, da escola seletiva, representam um mundo entregue aos poderes da morte.

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Não é o sangue de um animal que dá vida, sinal da aliança. É o sangue de um homem, sangue de um torturado nas tiranias aprovadas popularmente, que só depois reconheceríamos como o Deus solidário que compartilha do sofrimento humano e da Criação. Cristo, seu amor, o sangue de tantos mártires, vidas transfiguradas, dão sentido à vida, por causa das muitas mortes em razão da violência e injustiça dos sistemas escravistas, ou de servidão humana; por causa da exploração irresponsável da natureza. A violência domina o mundo. O que significa isso tudo nos nossos dias, quando somos sujeitos a escravidões que não queremos reconhecer? A cruz é o maior sinal de amor e liberdade. A transfiguração converge para a cruz.
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Temos uma aliança que é oferecida pelo amor generoso de Deus, e que cada crente confirma e reafirma “a cada dia” em derramamento de sangue. Sacrifício pela causa de Deus. É o amor de todos os dias, martírios dos que arriscam suas vidas, enfrentam as prisões, na luta pela justiça, em solidariedade com os fracos e dependentes. Deus nos ama sempre, a cada dia. Mas, como sempre, é a vida e o amor que contam, expressos na misericórdia, na compaixão, na solidariedade e na partilha. É a vida para o Reino, vida repartida para que outros também vivam. Vidas oferecidas em sacrifício e em favor da verdade e a justiça.

[Derval Dasilio]
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QUARESMA NA CIDADE POLITICAMENTE DOENTE

Destacado

quaresma-2É importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão e humilhação dos membros mais fracos da sociedade. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da solidariedade na partilha dos bens comuns, contra a desigualdade. E também para denunciar a política suja que derruba despudoramente programas de redução da pobreza  e inclusão social — enquanto faz blindagem da corrupção –, o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares para a religião.
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O empenho na justiça para com o próximo; o compromisso em atos solidários quase impossíveis, face às desgraças sociais; a resistência aos poderes demoníacos, especialmente os que se manifestam na política e na economia; o sofrimento diante da violência da fome, do desemprego, do assassinato de inocentes, dos conflitos comuns nos meios onde crentes também vivem, coletivamente (embora industriados para ignorar a comunidade). Especialmente nas favelas e periferias sob o desamparo dos poderes públicos, no sentido testemunhal que Jesus, no Novo Testamento, o Evangelho refere-se ao envolvimento com a causa do Reino de Deus (o Reino nada tem a ver com isenções religiosas diante de problemas observados nas realidades existentes, econômicas, políticas, religiosas).
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A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, aids, dengue, zicungunha, febre amarela, para além das representações figurativas. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico; do alcoolismo, tabagismo e consumismo? Violência intra-familiar, crime político protegido pela alta corte, crime organizado e superorganizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade do nosso tempo, adoecendo-a profundamente.
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Mais de 3/4 da população brasileira habita nas cidades. E, nelas, metade da população luta para alcançar direito  e cidadania igualitários. A complexidade aumenta com o problema da política suja, corrompida, atinge em cheio toda a sociedade, sem distinção entre grupos privilegiados e desfavorecidos. Embora o elitismo apareça frequentemente nos privilegiados que reclamam cidadania selecionada, negando aos demais as reivindicações de melhoria de renda e inclusão social. Porém, o seguimento objetivado para responder pelo crime e pela anomia — distanciamento da legalidade — está nas periferias, nas favelas, nos morros e baixadas, já vulnerável em suas carências históricas. Os resultados da exclusão  aparecem imediatamente nos saques, em invasão de supermercados, nos momentos de conflito. Vemos isso frequentemente, nos últimos dias.

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Uma herança proveniente do colonialismo, passando pelo império escravagista, e atravessando o século da república num esforço fulgurante para manter privilégios de classe e excluir ao máximo grau as possibilidades de cidadania igualitária das classes trabalhadoras, e dos mais pobres. O problema da droga é apenas uma parte da problemática complexa da cidade ou da metrópole. O maior, contudo, é o da inclusão social, combatida com alta eficácia por seguimentos economicamente privilegiados das classes mais altas.

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No entanto, a sociedade elitizada, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania diferenciada – ciosa de seus supostos privilégios –, localiza o problema da droga, da violência e do crime organizado, na periferia. Enquanto fingem reivindicar  punição à corrupção, fazendo vista grossa aos políticos conservadores e capitães do narcotráfico. São os que ocupam condomínios de luxo nos endereços onde estão os imóveis mais caros do país. É ali, nos endereços nobres, apartamentos de luxo, que as drogas mais caras são consumidas a granel, e onde se reúnem conspiradores prontos para tomar o poder. Na clandestinidade? Por acaso, a polícia, a justiça que trata desses assuntos não sabe disso?

Derval Dasilio

AMAR O INIMIGO, É POSSÍVEL?

Destacado

arrmarás o próximo.Ruy Barbosa disse: “Precisamos de leis que protejam o meu inimigo. Se elas não o protegem, também não protegem a mim”. Um grande pensamento, demonstrando que nossos adversários, opositores, e até detratores, habitam o mesmo mundo onde nos encontramos. Mundo da coletividade humana. No entanto, o Evangelho de Jesus vai além, quando nos lembra que os limites de nossa existência são demarcados para além das distâncias do meu grupo social ou familiar; para além dos nossos interesses de classe social, de etnia ou nacionalidade; além das escolhas e opções e orientações sexuais, por exemplo.
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Jesus diz que não há vantagem nenhuma em amar “iguais”. Aqueles que parecem não merecer amor, respeito, dignidade; adversários, opositores e inimigos, desafiam nosso “orgulho próprio”. A perfeição do amor  é encontrada no Pai, em cuja expressão não há discriminação nem mesmo dos que nos excluem de seu círculo. A “lei de Talião”, no entanto, dirá o contrário: “olho por olho, dente por dente”. A “resposta à altura da ofensa”, vingança, represália, retaliação, contudo, não cabem nos ensinamentos de Jesus. Ao contrário, a justiça, a compaixão, a misericórdia, a solidariedade nas desgraças, marcam o amor verdadeiro, à semelhança do amor do Pai.
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O ser, homem ou mulher, é fundamentalmente distinto do ser natural percebido na visão comum, que os vê tão somente como uma parte dos seres naturais. Devemos designar o “ser”, especificamente humano como existência, como ensina Heidegger. E aí o termo “existência” não será entendido como mero “ser”, entre plantas e animais. Mas, como a forma de ser especificamente humana.
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O ser humano tem que assumir sua existência, privilegiado pela liberdade de escolhas e consciência de ser responsável por si mesmo. Amar significa conceder  tempo e espaço à vida do outro. Sem espaços de liberdade, a liberdade individual nem pode desenvolver-se (Jürgen Moltman). Isso significa que a vida humana é história, e faz história. Sua história, por meio de decisões, em cada caso, permite um futuro no qual o ser humano escolhe a si mesmo, e sua liberdade. As decisões são tomadas de acordo com a maneira como uma pessoa entende a si mesma, de acordo com aquilo no qual ela vê a realização de sua vida. Incluem o próximo, seja ele quem for.  O adversário, o opositor, o inimigo, é também um “próximo”.  Mas ele não pode impedir que eu seja livre, inclusive para amá-lo. Devo amá-lo, como ensina o Evangelho. Ele faz parte de minha própria história, queira eu ou não.
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Na realidade, se admitimos essa afirmação, a experiência de Deus não deveria ser outra coisa senão a tentativa – magnífica tentativa! – de fazer vir à luz nossas inclinações imediatas, diante da ofensa, da perseguição, desqualificação, ou difamação, da parte de alguém. E, no final das contas, o evangelho afirma que o próprio Deus é amor.  A realidade humana, no testemunho da fé, é amor. Ser “humano” é esforçar-se por viver no amor (Andrés Queiruga). Por isso nos humanizamos quando fugimos do ódio, da ira, da desqualificação do inimigo. Amando-o, nós o humanizamos.
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Eis a mensagem do evangelho de Mateus. E mensagem não simplesmente deduzida por artifício lógico, usando a razão, mas expressa, múltipla e infatigavelmente repetida: desde o resumo solene, no  programa e no discipulado de Jesus: – “nestes dois mandamentos consistem a Lei e os Profetas” (Mt 22,40) –, passando pela proclamação entusiasmada de Paulo – “…o maior dos dons é o amor” (1Cor 13,13) –, até as consequências surpreendentes de João.
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João relata a experiência mais íntima de Jesus, situando-nos no caminho justo, sob a condição humana. Num longo itinerário reflexivo, alimentado por uma profunda e calorosa convivência comunitária, tantas vezes difícil, iniciou uma tarefa que nunca deveríamos ter deixado de lado. Nele já está iniciado tudo: o amor, origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade, é critério da vida humanizada.
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Porém, a força simbólica e o calor humano permitem entrever magnificamente a força irradiante dessa afirmação fulgurante: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras, de verdade…”, sem dissimulações. Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade; e diante de Deus poderemos tranquilizar nossa consciência; e isso, ainda que a nossa consciência nos condene, porque Deus é maior do que a nossa consciência, e ele conhece todas as coisas” (1Jo 3,18-20). Por tudo isso, as palavras de Jesus nos desafiam: “Amem os seus inimigos”.
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Amar e perdoar, é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa. Perdoar significa libertar o ofensor, o detrator, o perseguidor, de sua dívida. Mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. Pelo ódio, pela ira, pela pulsão incontrolável de ferir, de matar, de destruir o outro. Amar é permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos como Jesus ensinou: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.
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SEXTO DOMINGO do Tempo Comum depois da Epifania
Levítico 19,1-2, 9-18;
Salmo 119,33-40;
1Coríntios 3,10-11, 16-23;
Mateus 5,38-48

PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

Destacado

PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

O perdão é a expressão máxima do verdadeiro amor (Lucas 6, 27-38). Quem ama, entende a pessoa que o agrediu, até o extremo quase absurdo da desculpa do Crucificado: porque não sabem o que fazem (Lucas 23, 34). Quem ama, é também capaz de reconhecer seus erros, reparar o dano causado e reconstruir a comum+união avariada. Contudo, como é difícil perdoar! Parece que no fundo do coração humano predomina a tendência à violência, à vingança, que, ao se afastar, é intrínseca ao dinamismo genético que não nos deixa vivenciar a experiência do amor em plenitude. O perdão é um processo de conversão. Para chegar a ele é preciso viver uma profunda experiência de Deus. Somente Deus é capaz de perdoar e nos habilitar para o perdão. Por isso, o perdão é a graça por excelência, de Deus para com seus filhos (Comentário abaixo).

“Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão” (Mateus 5,23-25).

Vem, em seguida, a reparação pelo dano causado. Em alguns lugares se diz que “o que quebra, paga e leva os pedaços”. Ficaria incompleto o caminho se não se reparasse moral ou materialmente o mal que se fez. Do contrário, o processo penitencial não produziria os efeitos desejados na pessoa arrependida. E na vítima e na comunidade não se cumpriria com o princípio básico da vida social, que é a justiça: dar a cada um o que lhe corresponde.  

Requer-se, por último, o compromisso de não se reincidir na mesma falta. Isto não quer dizer que absolutamente não se volte a falhar. A condição humana é muito frágil e incerta. A fraqueza, a sedução e as tentações nos podem surpreender e arrebatar. Mas a decisão de não voltar a cair em falta deve ser inteiramente sincera. O mundo, dividido pelas guerras, ódio e miséria, necessita de remédios estruturais profundos e relativamente definitivos. E é aí onde os cristãos somos chamados a colaborar com nosso grãozinho de areia.

Davi, perdoa a seu inimigo Saul, tendo podido eliminá-lo sem maiores contratempos. Paulo, nos chama a viver no espírito pacífico e de reconciliação do novo Adão. Jesus, convida a viver o perdão como um exercício permanente do compromisso cristão. Só através de um testemunho de perdão e reconciliação contínuos, pessoais e coletivos, conseguiremos derrotar as forças da violência, do ódio e da destruição da vida, em todas as suas formas e manifestações.

Obs: Lendo a Bíblia hoje, tendemos a considerar que a religião do tempo apostólico era regida pela Bíblia Hebraica. Equívoco de grande importância: as leis religiosas eram determinadas no Mishinah, e comentadas, avaliadas, pelo Thalmud. De fato, alguns dos textos bíblicos véterotestamentários estavam à disposição, não dos sacerdotes do culto, mas nas escolas rabínicas que preparavam dirigentes para as sinagogas. O povo ignorava por inteiro as querelas com os letrados, escribas, intérpretes das leis religiosas. A referência bíblica à Lei, na verdade, traz à memória o Pacto da Aliança, o Código Deuteronômico e o Código de Pureza do Levítico.

5o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Deuteronômio 30.15-20;
Salmo 119.1-8;
1Coríntios 9;
Mateus 5.21-37  – Os que perdoam, serão perdoados    

jesus sermão montanha (2)

“A FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

Facebook – 26 de janeiro de 2014 às 20:50
4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Gravura: Cereza Barredo

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar? 

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio

Gravura: Cerezo Barredo

FELICIDADE, A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS

Destacado

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.
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As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).
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Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, políticos, ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.
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Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.
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Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.
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“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar?
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A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.
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Derval Dasilio
Gravura: Cerezo Barredo

“FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

Destacado

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar?

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio
Gravura: Cerezo Barredo

VOCAÇÃO E VOCAÇÕES

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[Domingo Litúrgico: Anos A - B - C] Teologia & Liturgia e Culto Cristão

entra e sai igreja http://wp.me/p3ZZIG-5M

Precisamos conversar com os jovens sobre testemunho cristão nos lugares onde estarão os cristãos vocacionados para servir a Deus, na missão do Reino, compreendendo claramente o missionário Jesus de Nazaré, através dos ministérios da igreja e na vida cotidiana. Pedro Lysias, um jovem aluno no seminário teológico, num debate: “Vivemos numa sociedade segmentada e dividida. Nossas vidas são pressionadas pelos golpes que sofremos do sistema (ou sociedade autoritária). Ficamos preocupados por não ter que passar por crises. Na nossa vida eclesiástica, acabamos não dispondo de tempo para dedicação ou tomar iniciativas para servir ao Senhor nosso Deus. Encaro que a vocação só é descoberta quando aceitamos que os maiores sonhos que temos devem ser o que Deus sonha para nós: o sonho de Deus é influenciar nossa vontade para vivermos sempre movidos por sentimentos bons, buscando preparação para a missão, para a execução da missão (de Deus), e para…

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ANO A – CALENDÁRIO, CICLOS E DOMINGOS LITÚRGICOS

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[Domingo Litúrgico: Anos A - B - C] Teologia & Liturgia e Culto Cristão

CALENDÁRIO LITÚRGICO 2013-2014-2015-2016-2017

CICLO DO NATAL
1.1 ADVENTO
1.2 NATAL
1.2.1 EPIFANIA

1.3 CICLO DO TEMPO COMUM – 1a.Parte(Depois da Epifania)

2. CICLO DA PÁSCOA

2.1 TRÍDUO PASCAL

2.1.1 QUARESMA

2.1.1.1 DOMINGO DE RAMOS
2.1.1.2 QUARTA-FEIRA DE CINZAS

2.1.1.3 QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.4 SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.5 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

2.1.2 TEMPO PASCAL

2.1.2.2 ASCENSÃO

2.1.2.3 PENTECOSTES

3. CICLO DO TEMPO COMUM – 2a.Parte (Depois de Pentecostes)
3.1 TRINDADE
3.2 AÇÃO DE GRAÇAS
3.3 REFORMA
3.4 CRISTO REI DO UNIVERSO

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A LEI RELIGIOSA E A DEUSA DE PEDRA…

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A LEI RELIGIOSA E A DEUSA DE PEDRA

Quem não quer um “deus” domesticado, preso e alimentado em gaiolas religiosas, cada uma mais certa de sua segurança doutrinal? Gaiolas de arame, de prata ou de ouro, não importa, têm uma finalidade: impedir os vôos do pássaro livre (Deus?). O pássaro preso chora, achamos que está cantando. Até as crianças sabem que não podem prender um pássaro, sem lhe tirar a beleza essencial que, vista em liberdade inspira os melhores valores do “ethos” divino, transcendências onde se observam o cuidado, a misericórdia, o respeito e a exigência de dignidade humana para todos os homens e mulheres. Mais que nunca, a felicidade está no espírito da Lei de Deus, onde a cláusula áurea é o amor.

lei de pedraAs origens da fé bíblica, no entanto, apontam o Deus que convoca para a liberdade e os direitos a serem conquistados passo a passo, diante da camaleônica cultura religiosa (já se fala em bricolagem religiosa, hoje), que quer também ser chamada de “mais cristã” que as outras tradições. Diante do henoteismo moderno — aceitar uma divindade entre outras divindades! –, passamos pela bibliolatria fundamentalista, e chegamos à religião de mercado. No entanto, o preço da liberdade da fé passa também pelos conselhos bíblicos, pedagógicos, da “shemah” (“ouve, ó Israel…”), e pelo Pacto da Aliança (leis de proteção do homem e da terra). Estes exigem a compreensão da natureza do pecado em sua forma e estrutura histórica e social, e da obediência às exigências do Deus.

De que tratam os vários sermões deuteronômicos (lei bíblica reeditada no século 6º a.C.), aos quais se referem Jesus? São mensagens que insistem em fortalecer relações inter-humanas baseadas na justiça. A Lei não é um compêndio de decretos isolados, cada preceito defende a vida e a dignidade de cada pessoa da comunidade; a Lei expressa a vida íntima da comunidade, no sentido de que cada pessoa disponha do mínimo para sobreviver, e que ninguém viva em situação de opróbrio e miséria (“Não existirá pobres entre vós” – Dt 15,4-5). A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora, uma outorga de Deus (Yahweh) para todo o povo. Envolve a atenção e cuidado com a terra (ecologia), moradia, trabalho, responsabilidade para com os deserdados.

Por que a tentação da gente religiosa em forçar e manipular a sabedoria divina, quando se transforma a Bíblia em leis religiosas, em semelhança à voz autorizada de Deus? Por que eu preciso para minha vida de um “deus” que é imagem e semelhança do que fazemos uns com os outros, de acordo com nossas conveniências pessoais, ou institucionais? Voltaire disse, irreverentemente: “Se é verdade que o homem é imagem e semelhança de Deus, é também verdade que (seu) deus é imagem e semelhança do homem”. Comparativamente, a Bíblia tem sido apresentada como espelho das piores e mais injustas leis humanas, justificando, em nome de Deus, a escravidão, o latifúndio improdutivo, o direito consuetidinário sobre a propriedade; a homofobia impune, o androcentrismo; o abandono da criança, do jovem e do idoso, por exemplo.

No entanto, a experiência vem dos púlpitos, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável. Sentimentalismos à flor da pele, por um lado, e razão instrumental, pragmática, do outro. A razão deve predominar sobre todo sentimentalismo, dirá um ortodoxo racionalista. A razão instrumental ensina que não se deve dar atenção ao sentimento, “as coisas importantes da vida excluem os sentimentos”… Assim se introduz o perigo das sociedades ideologicamente fascistas, autoritárias, também calcadas em sentimentos semelhantes, nacionalistas ou cabotinos, como modelo legalista e ideológico. Quem não se interessa por “slogans” falso-moralistas roubados do fundamentalismo? Quantos se interessariam por aspectos mais importantes, na raiz dos comportamentos, quando sentimentos profundos de compaixão, cuidado, dignidade, são reclamados, para além da moralidade piedosa evocada pela religião autoritária?

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Marcos 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, ele respondia com a verdade simples e cristalina. Jesus estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas sob impedimento da liberdade, no tormento do controle das consciências que impediam a espontaneidade da fé. Este interesse não encobria uma ideologia política ou religiosa. Declarou-se, Jesus, abertamente contra a idolatria da letra morta (“a lei do sábado não é mais importante que o homem”). Ou seja: a Lei, exigências a respeito de costumes, prescrições religiosas, engessa a misericórdia, o cuidado, a solidariedade, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião legalista sem misericórdia e compaixão [foi exatamente contra tal religião que Schleiermacher, teólogo e pastor protestante do liberalismo teológico do séc.19 “criou” o novo pietismo, onde o sentimento, na experiência de Deus, ocupa o primeiro lugar].

Precisamente por isso, a luta contra os demônios, espíritos imundos: sistemas de pensar sobre a religião, política, economia, cultura, justiça civil. Atualizemos, pois é uma luta contra ideologias instaladas nas sinagogas e no Templo, iguais em todos os tempos e lugares – iguais no cristianismo, islamismo ou judaísmo, para ficarmos no âmbito das religiões abraâmicas –, nas igrejas e na sociedade (Marcos 1,21-28). O profeta de Nazaré está preocupado com coisas como manter vivo o espírito da Lei, tema recorrente no Deuteronômio (seguramente: direitos humanos, econômicos, ecológicos, etc.). Para que? Para que a Lei religiosa não se transforme em formalidade, e sim em meio para atender às necessidades essenciais da comunidade de fé, e de cada ser humano.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões fascinadas com o brilho grosseiro das ideologias gananciosas de poder e de mercado, evocando a Bíblia? O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: é o Reino de Deus que está diante nós, e não uma “lei de pedra”, que incita à adoração de preceitos religiosos imutáveis. Aos pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “Bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23), disse Jesus.

Temos, aí, o centro, núcleo energético, da mensagem de Jesus. Isso significa que ele sabia das palavras do profeta Jeremias: “…cada um levará a Lei no coração”. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo e o mundo inteiro. Envolve o cuidado com a terra, moradia, trabalho, responsabilidade para com os esmagados deste mundo. Não é a Lei que salva, e sim o Cristo de Deus como Palavra de Deus.

Derval Dasilio 

4ºDOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DA EPIFANIA|ANO “B” Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é dádiva concedida pela misericórdia | Salmo 111 – As leis do Senhor são a verdade e a justiça | 1Coríntios 8,1-13 – “… pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos” | Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

CRISTO, UM REI ENTRE MENDIGOS

Destacado

CRISTO, REI ENTRE MENDIGOS?

quando-te-vimos

Disse Jesus: “Meu reino não se compara aos reinos deste mundo”.

O senhorio de Cristo é libertador de toda forma de opressão e submissão. Desde a liberdade de espírito, que devolve à filiação divina obscurecida por nossos medos, fragilidades e pecados, à liberdade para a verdadeira unidade dos cristãos. Cristo Rei é, pois, o anti rei aos olhos do “mundo”. É incrível que seja também anti rei na Igreja. Dentro da Igreja, nos esforçamos por reproduzir os modelos de “reinado” do mundo, e não os do reino de Deus em Jesus Cristo!

Quantas vezes estabelecemos relações de poder autoritárias, com o próximo e a próxima, ao invés de relações fraternas? Quantas vezes entramos em concordância com os poderes dos sistemas religião, política, economia, enquanto agimos contrariamente — ou quando nos omitimos — sobre a pregação da Justiça? De que maneira nos beneficiamos da organização sob “absolutismo hobbesiano” (“o poder absoluto do Estado é necessário, por causa do egoísmo intrínseco ao homem”)?

Machiavelli (séc.16), mais cedo, defendia a utilização de todos os meios ao alcance dos governantes para a centralização e manutenção do poder. Thomas Hobbes defendia o absolutismo necessário para a organização social, o Estado acima da defesa do interesse do indivíduo e da sociedade. Para J-J Rousseau a função do Estado, noutro rumo, assegurando a democracia, o poder deveria garantir a sobrevivência contra a anarquia, e manter a ordem social. Somente quando falham outras formas aparecem os Estados paralelos. Mas Rousseau, sobre o poder, trataria também da importância do mesmo para a família e a educação, como base de uma sociedade organizada no sentido de garantir-se a dignidade social e humana.

À luz da liturgia com o tema “Cristo, o Rei do Universo”, perguntaremos se o que pensamos sobre Cristo baseiam-se na dominação/subserviência, ou na promoção da mútua liberdade responsável entre familiares e membros de nossa comunidade? Como são as relações de poder nesse meio? Valemo-nos da autoridade para impor uma certa maneira de exercer autoridade?

Justificamos, em nome de uma certa “autoridade”, abusos de poder, maltrato físico ou verbal, quando protagonistas da violência comum em tantos sociedades, contra deficientes, contra a mulher e a criança? As relações entre os membros da igreja comunitária concreta seguem o modelo cristão, ou seguem o modelo autoritário, repressivo, impositivo, excludente, próprio do “príncipe deste mundo”?

O pecado fundamental do ser humano é, pois, um pecado de “poder mal administrado”, mal assumido. E esta é a origem de todos os outros pecados: a avareza, a ganância, que conduzem a uma ordem econômica injusta; a soberba, que impede ver com clareza erros e pecados; a mentira, que leva a manipular ou a deixarmos manipular; o sexo utilizado como instrumento de poder, para “possuir”, oprimir; o medo, que impede de levantar-nos e caminhar com nossos próprios pés.

Poderíamos dizer que Jesus é o anti-rei segundo os modelos dos sistemas opressores: ele não quer dominar as demais pessoas. Pelo contrário, quer promover, convocar, “suscitar o poder” (energia) de cada ser humano, de modo que cada um assuma responsavelmente o peso e a alegria da liberdade. Jesus não recorre à violência de nenhum tipo, nem sequer à violência divina. Não recorre ao Deus dos Exércitos e suas milícias celestiais – não há nenhuma batalha espiritual em jogo, em éons superiores –, pois isso seria perpetuar as regras do jogo do “príncipe deste mundo” (Jo 12,31), o dono de “todos os reinos deste mundo e sua glória”. E por isso, pode dá-los a quem quiser (Lc 4,6: dou-te autoridade (exousia) sobre quem eu quiser, disse o diabo…).

Na cruz Jesus derrota e substitui total e radicalmente o demônio do poder concebido como violência e pressão por uma parte e como dependência, submissão e alienação, por outra dependência (Leonardo Boff). Jesus se recusa a ser coroado rei ao estilo do “mundo político” logo após a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6,15). A tentação do poder, entendido no estilo dos sistemas opressores persegue Jesus. E desde o deserto até a cruz Jesus rechaça este modelo denunciando-o com toda clareza: o poder procede do diabo, pertence ao “príncipe deste mundo”. Jesus não cai em suas armadilhas.

Perguntado sobre o lugar onde pode ser encontrado, como rei (esperavam que confirmasse seu poder e autoridade entre reis, príncipes e imperadores com poder ostentado), Jesus responde: Sou encontrado quando estou entre mendigos; quando estou nú; quando tenho fome e sede; quando sou exilado, desamparado, explorado; quando estou preso, vítima da injustiça (Mateus 25).

O custo desta resistência, ou dessa visão de poder, não só valente, mas lúcida, é muito alto. A miséria é escamoteada para fora da realidade concreta. A cidade, por outro lado, onde se manifesta com o máximo exemplo de modernidade, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis. “Possessos do mal”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas, traficantes de drogas, estupradores, pedófilos, drogaditos violentos; assassinos, espancadores de mulheres e crianças, homófobos, agressores, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos sociais de crianças; homossexuais, mendigos, doentes mentais… não aparecem em manifestações de comoção coletiva, ocasionalmente.

Estes comportamentos se apresentam abaixo dos clamores por educação, ou nos confrontos com os sistemas de justiça aplicada à coletividade. Por mais modernos e eficientes que sejam. A cidade é o mundo do homem tomado por males reais, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana. Especialmente camuflados no falso “repúdio” e “vergonha” da sociedade insensível à essência imunda e maligna da miséria e da desigualdade. No entanto, é essa sociedade que reclama por tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto.

“Ninguém que, tendo posto a mão no volante, olha para trás, pra dar marcha-a-ré, é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62: paráfrase do autor). O Juiz das causas humanas, e das desigualdades, vem agora ao encontro dos homens e mulheres, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência assim anunciada, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro do projeto de realeza de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz na cidade. Assim, entendemos a pessoa de Cristo como o Rei do Universo, para reinar em nome de Deus.

Jesus, rei segundo a vontade de Deus, se apresenta na contramão das ações resistentes ao bem, à misericórdia, à solidariedade. À Salvação. Acolhe o doente, o marginalizado, cura-o e expulsa o que causa a doença. Acolhe o oprimido e o marginalizado. Não o manipula para garantir prestígio. Cura-o e expulsa o que causa a doença. Do esgoto ao arranha-céu, chama-o de volta para um mundo novo e saudável, mental e socialmente, recusando o conformismo e indignando-o quanto à injustiça e desigualdade de tratamento na distribuição dos bens sociais. Sugere que é preciso ir ao miolo do furacão, nas crises e nas convulsões que tomam a coletividade e a desnorteiam. Experimentamos tudo isso no Brasil de hoje. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas que dominam e tomam conta da sociedade.

Derval Dasilio

O DINHEIRO DA OPRESSÃO

Destacado

Cópia de ganancia principal
Lucas 20, 27-38
Outra armadilha para Jesus: Assim, os espiões (do templo) lhe perguntaram: “Mestre, sabemos que falas e ensinas o que é correto, e que não mostras parcialidade, mas ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. É certo pagar imposto a César ou não?” (Lucas 20,21-22). A moeda do tributo era um sinal da dominação econômica e política (20,20-26). É lícito ou não pagar esse tributo? E, se Jesus responde que sim, ficará desmoralizado como aliado do poder opressor. Se responde que não, será acusado de sedicioso e anarquista.

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O Templo é também o lugar onde o sistema fazendário tem sede. As autoridades do Templo estão encarregadas de repassar aos romanos a parte que lhes cabe da arrecadação dos impostos. Pode-se indagar se o “dízimo”, imposto religioso remanescente do judaísmo formativo, está incluído. Há indicações de que também esse dinheiro era usado para melhorar relações entre o dominador e o dominado (Estado e Religião). Mas Jesus escapa da armadilha.
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A frase “deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” revira totalmente a questão. Jesus reconhece que o Estado tem uma função, mas esta não é a de tomar posse do povo. O povo não deve ser considerado como mercadoria, seja nas mãos do Estado nacional, seja nas mãos do Estado estrangeiro. Trata-se de um dilema do qual não se possa escapar. Uma questão capciosa. Posto entre a espada e a parede, terá que fazer uma declaração que o comprometeria gravemente ante as autoridades romanas. De fato, o tema do tributo soará no processo perante Pilatos (Lc 23,2).
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O dilema da autoridade imperial romana se coloca no terreno econômico, que todos sentem, e não deixa saída. O judaísmo político religioso, atrelado, subserviente, é levado em consideração. A adulação serve de entrada (Pr 6,24; 26,28). Podem insinuar que Jesus se apresente com imparcialidade entre o povo judeu – primeiros cristãos e judaítas contemporâneos que servem o templo – e o poder romano. Parece-nos claro que o mais importante se destaca: “o que é de Deus não pode ser manipulado nem pela religião e nem pelo Estado”, parafrasearíamos o Evangelho.
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O povo pertence a Deus, e Deus o liberta para a vida em plenitude cultural, social, econômica e religiosa sob imperativos éticos que regem a solidariedade e a partilha. Embora pertença a Deus, nem mesmo Deus toma posse dele ou o explora. Não exige bajulação religiosa, adoração interesseira, nem sacrifícios, senão justiça social (Mt 9,13; Os 6,6). Deus quer pontes sobre os abismos das desigualdades entre homens, mulheres, povos e raças. Deus faz as pessoas viverem como povo da fé histórica e como cidadãos (cf. Pacto da Aliança, Código Deuteronômico, etc., verdadeira Lei de Deus, biblicamente).
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É isso que o Estado deveria compreender, e também a religião. Sua função é salvaguardar a liberdade e a vida do povo, para que este possa exercer sua fidelidade (emmunah) à Lei de Deus (“Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” [Jeremias 31,33]). A lei de Deus não é propriedade do Estado ou da Religião. A lei de Deus ao pobre e seus direitos fundamentais: trabalho e remuneração justos, alimento, moradia, saúde, e tudo que concerne à igualdade diante da vida.
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Contudo, quando o Estado — do mesmo modo a Religião –, compromete a liberdade e a vida do povo, ele (ou ela) perverte a sua função e se torna intrinsecamente mau, e deve ser combatido em seu propósito de oprimir e subjugar. A continuidade entre o “agora” e o “então” está em Deus e na sua Gratuidade (hesed). E Jesus faz uma excursão mais profunda na “Tanah” (Bíblia Hebraica depois da época talmúdica [iniciada desde 2oo a.C.]), e na “Torah“, lembrando-os do que Moisés disse a respeito de Deus como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. É preciso lembrar, nas palavras de Lucas, que Jesus não assegura o “direito” da Religião de manipular a Lei de Deus. E ponto final.
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32º. Domingo do Tempo Comum [depois de Pentecostes]
Ageu 1,5b-2,9 – Minha é a prata e meu é ouro: meu povo
Salmo 98 – Os céus anunciam a justiça de Deus
2Tessalonicenses 2,1-5;13-17 – Ninguém vos engane…
Lucas 20, (9-19; 20-26)27-38 – Apoderam-se do povo de”deus”…

DEUS E A REFORMA PROTESTANTE

Destacado

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Durante longos anos, a espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, ideia de João Calvino, e dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a ideia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja.
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Assim, o Papa (séc.16!) estaria no topo da hierarquia da Igreja, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local. O papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como o primeiro da igreja universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer, Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos, papa e sacerdotes, reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona” (como também pretendem ser pastores evangélicos pentecostalistas de hoje). Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (Eucaristia), ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram “procuradores” de Deus, com plenos poderes em questões de Fé e de Culto.
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Os reformadores disseram: só Jesus Cristo por si mesmo nos justifica, e ninguém mais. Jesus pode dizer: “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem…”. O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: “Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa”. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, homens e mulheres, sacerdotes ou leigos. Deus é transcendente, imutável, infinito, inominável, indescritível, como também dizia Karl Barth.
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Deus que conhece o ser humano, porque se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, na busca de elevar seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor… obrigado porque não sou como os pecadores”.

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Deus não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como quem vive a vida de fé — são os fiscais cobradores da Graça como retribuição –, em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade interesseira e do esforço de santidade e avivamento espiritual.
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As respostas poderiam ser estas: “a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às necessidades pessoais”. Oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, dispostos a exigir retribuição pela dedicação, e sempre prontos a recorrer a um “deus-quebra-meu-galho”, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé.

A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido do aflito para que o Senhor nos livra do mal e do sofrimento. Inclusive, nos liberta da presunção e arrogância. Antes, porém, deveríamos “orar com fé”, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos ao Pai: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
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Lutero dizia: “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A gratidão traz paz! Acrescenta Lutero: “na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível de Deus. O crente se reconhece objeto da Graça. Apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho. Não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32).
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Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se, corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a transmissão da fé, no cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana, por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política, nas relações sociais, comerciais, e tudo que cabe à dignidade humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus Cristo.
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O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser ele o que é: Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para rebaixar o Deus a uma divindade qualquer, tornando-O um “deus-quebra-meu-galho” a nosso serviço.

“…Seja feita a tua vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E também demos graças aos reformadores e à Reforma, os quais, dentro do princípio protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a comunidade do povo que Deus elegeu e ama.
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Leituras:
Isaías 62,6-7;10-12 – Yahweh te desposará como a uma virgem
Romanos 3,19-28 – Obra alguma nos justifica diante Dele!
Lucas 18,9-14 – Tem piedade de mim, pecador!

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

Destacado


A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA
Lucas 12,32-48
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A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos, abandonados, da saúde com qualidade. Dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado, são também alcançados por Deus. Têm direito à salvação.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas. O Reino é uma dádiva anunciada por Jesus aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores; aos que são perseguidos por juízes iníquos; aos que se negam a justiça e a verdade. Embora contrarie a sociedade excludente.
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“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

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Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, através de representantes das sociedades autoritárias. Flageladores de crianças, diferentes sexuais, mendigos e doentes mentais as representam.
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A fé representa a consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana excluída reclama, e Deus não nega a salvação. O desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte, são sinais da presença do reinado de Deus.

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Investir nos fracos, despossuidos, discriminados, abandonados por homens e mulheres autoritários, fascistas, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
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Derval Dasilio

O AMOR É UM PESO QUE NOS FAZ INCLINAR…

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Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos

lucas-o-proximo Nos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por esse conjunto autoritário. O legalismo, imposto, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei.

Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não se sujeitava ao conjunto jurídico religioso autoritário, não podia entrar no templo, e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, um “anti-próximo”, mas passa a ser modelo exemplar do “próximo” oferecido ao religioso cristão.

Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor… O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: “não farás…”) sobre como “amar a Deus e ao próximo” sob a lei deuteronômica… Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com o Pentateuco – os cinco primeiros livros, conforme a versão grega Septuaginta; e também na Torah, versão hebraica (Tanach): Devarim (Deuteronômio) e Vaiycrá (Levítico) –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano, além de compassivo e solidário, é um homem rico. Contudo, um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais). Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich. A justiça sem amor ignora a solidariedade, a misericórdia ou a compaixão.

O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo, diria Rubem Alves: o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça, ou o cérebro.

Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo no outro o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

Muitos agnósticos, e até mesmo ateus, deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra: “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.

Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

Derval Dasilio

29º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedada e sem misericórdia
Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo

JUÍZES INÍQUOS NO PAÍS DAS VIÚVAS

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||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se comemorariam as vitórias contra a corrupção. Especialmente aqui, onde juízes togados protegem políticos corruptos como se lhes devessem favores, enquanto escolhem como alvos os demais que querem tirar do seu caminho. Seja a que custo for. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc.

O Brasil estava na 69ª posição entre os países mais corruptos. Crescendo, no ranking mundial da corrupção, nos dias atuais. A contribuição de evangélicos pentecostais, representados por aproximadamente 30% da população, também fez crescer esta posição. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar. Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

A zona cinzenta onde atua a justiça humana, que parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade — com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa, midiática, politicamente partidária, em nosso país –, fica bem longe longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Andrés Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção — dos adversários, fique claro.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes sequestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. […] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz não temer a Deus nem respeitar homens fracos e sem força institucional que os proteja. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito. Dignidade e cidadania!

Derval Dasilio

Leituras:

28º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano / Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite / 2Timóteo 3,14- 4,5 – A Escritura é útil para educar na justiça /

||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

INTOLERÂNCIA

Destacado

armaras-o-proximo

Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).

Lucas 17, 11-19 – Quem é puro, ou melhor que os demais?

Chocante, já decorridos dois mil anos desde que Deus, humanizado, tornou-se vítima da intolerância. Ingressou no mundo das misérias, conflitos, preconceitos e ilusões sobre superioridades, religiosas, morais, raciais ou de classes sociais. Justificam-se, desse modo, ideologias autoritárias, pró-fascistas, as quais se manifestam muitas vezes através da fúria irracional e compulsiva contra minorias e indivíduos socialmente fracos e sem defesa institucional.

A miséria humana, assim, é escamoteada para fora da realidade, como aparência de impureza, de imundície e de marginalidade, atribuídos a indivíduos fora do padrão da sociedade autoritária. Inspira-nos uma boa leitura do Hannah Arendt, que escreveu sobre a força do ódio e do poder exclusivista das classes abastadas.

Um candidato a prefeito de São Paulo, a maior  cidade da América do Sul, propunha um programa de isolamento da Cracolândia, no centro. A ideia é colocar “agentes humanitários” com guardas armados ao fundo, para isolar a parte contaminada da cidade do restante da população. Uma vontade perigosa e esmagadora de exclusão, para satisfazer, ao mesmo tempo, o pungente impulso de falsa retidão moral da sociedade, como diria Zigmunt Bauman.

Os portadores do estigma da miséria seriam mantidos à distância por sua “humanidade inferior”. Na verdade objetivando sua desumanização física e moral, confessam o autoritarismo exclusivista da sociedade que reclama cidadania preferencial para classes sociais privilegiadas.

Intolerantes, via de regra. Podem até mesmo alçar candidatos aos principais cargos da nação, ou no mínimo compor um congresso nacional para defender seus interesses, com exclusividade. Um setor da nossa política é chamado de BBB (Boi-Bíblia-Bala), representando pecuaristas, evangélicos pentecostais e industriais armamentistas. Por nada?

Intolerantes também parecem depender de superstições, crendices e crenças de relativa superioridade sobre os demais, não raro exigindo privilégios e exclusividade. A sociedade religiosa, moralmente autoritária, imagina indivíduos “diferentes” como responsáveis pelo mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis: fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, alcoolistas, traficantes, por exemplo.

Mas é do autoritarismo que emergem estupradores, espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mulheres, crianças, mendigos e doentes mentais; traficantes… As vítimas, certamente, estão no cotidiano das metrópoles e pequenas cidades, camuflados no falso repúdio e “vergonha” moral da sociedade autoritária, classista e exclusivista. No entanto, segundo o Evangelho, Jesus Cristo preferiu a companhia das vítimas.

Ideias, atitudes, atos, são gerados em ambientes ideológicos, ou políticos, que afirmam superioridade moral,  social, religiosa, sexual e racial. Estes, que se consideram reservas morais da sociedade, que vão às urnas para eleger políticos com propostas de repressão, discriminam, agridem, acusam “diferentes” de inferioridade. Não raro, apontam aquelas pessoas como nocivas e perigosas; indivíduos com conduta socialmente reprovável; praticantes de atos degradantes.

Prostitutas, homossexuais, indígenas, moradores de rua, doentes mentais, portadores de doenças transmissíveis, deficientes, engrossam a lista. São os alvos preferenciais da sociedade intolerante, em primeiro lugar. Em segundo, são apontados os que defendem e exigem programas governamentais para socorrer “esses excluídos”. Mas a Escritura inteira aponta aquelas vítimas com escolha prioritária de Deus, entre todos os demais.

Não faltam grupos representativos autoritários, de ideologia fascista, julgando atender a um direito de “justiça particular”, pretendendo a “limpeza social da nação”. Dizem defender a coletividade, agem em bandos, agredindo ou linchando pessoas doentes e sãs. O que justificaria a violência contra homossexuais, alienados mentais e moradores de rua indefesos? O narcisismo coletivo não suporta o “lado feio”, repulsivo, desagradável, dos marginalizados ou estigmatizados. Em bandos – em casos especiais, politicamente, em multidões expostas na mídia –, agem para exterminar “indesejáveis” à comunidade e ao país.

Colocar-se aos pés de Jesus, no entanto, ouvir seus ensinamentos sobre a tolerância, sobre o cuidado com os desprotegidos social e economicamente, é uma postura do discípulo que está disposto a aprender sobre tolerância e vida de fé. Poderíamos perguntar também se nossas comunidades, “igrejas evangélicas”, têm a mesma disposição, bem como o direito de excluir aqueles que Jesus Cristo cura, acolhe e incluiu. Mesmo depois de “curadas” e salvas por recomendação de Jesus Cristo. Acrescentaríamos perguntando se comunhão com Cristo dependeria da comunhão como autoritarismo ideológico, e regras sociais vigentes, implícitas na religião. Igrejas têm alguma autoridade para separar quem Jesus chamou e juntou à sua comunidade de protegidos?

  • A ética de Jesus, inclusiva, motivada pela misericórdia, compaixão e solidariedade, nos fará observar os problemas da intolerância em seu tempo (Lucas 17, 11-19). Entre samaritanos e judeus – habitantes do centro e sul de Israel, respectivamente – havia uma antiga inimizade, uma forte rivalidade racial e cultural. A palavra “samaritano” constituía uma grave injúria na boca de um judeu. Equivale a dizer, entre cristãos: termos impronunciáveis, umbandista, espírita, e outros xingamentos preconceituosos do dia-a-dia, no cotidiano religioso (Carlos Mesters).
  • Jesus, ao ver os “impuros” acolhe, cura, e envia-os para se apresentarem aos sacerdotes de plantão, guardiões da comunidade religiosa, cuja função, entre outras, era em princípio a de diagnosticar certas enfermidades, que, por serem contagiosas, exigiam que o enfermo se retirasse da vida pública e do culto.
  • Mas, Jesus ainda exige da religião atitudes concretas de inclusão. E disse também a quem o tinha convidado: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).
  • Jesus ensina: devemos assumir a fragilidade das pessoas discriminadas. Ele se fez servo de todos; nós também devemos servir aos irmãos; amar sem preconceito, sem reservas, sem nos omitir quanto à necessária compaixão pelo fraco e excluído. Ele fez dos fragilizados socialmente seus companheiros, protagonistas da salvação, e deu-lhes liberdade e autonomia para a vida de fé.

Derval Dasilio

Leituras:
27º. Domingo do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 29,1-4; 7 – Procurai a paz da cidade, rogai por ela
Salmo 66, 1-12 – Reconhecidos da salvação, vinde e contai
2Timóteo 2,8-15 – A graça de Deus se manifestou para todos!
Lucas 17, 11-19 – Quem é puro?

COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO?

Destacado

“O futuro me preocupa, porque é o lugar onde pretendo passar o resto de minha vida” (Woody Allen).

Nota: * As fortunas dos três mais ricos do mundo são superiores ao PIB de 48 países. No planeta em que vivemos 25 mil pessoas morrem de inanição todos os dias, e 16 mil crianças de subnutrição. Passam fome 852 milhões. Dos 7 bilhões do planeta, 5% ganham 114 vezes mais do que os mais pobres (2 bilhões). Há 64 favelas no Rio, e 20 a 25 pessoas morrem por dia de forma violenta, nem merecem uma menção destacada no noticiário. É um drama dantesco (inferno?). Das 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba). Mais de 10 milhões de brasileiros, de 39 milhões de miseráveis, vivem com menos de 39 reais por mês (Eduardo Hoonaert – 2013).

lazaroA parábola está presente dentro de uma unidade literária (Lucas 16,19-31). O contraste é grande e impressionante: de um lado luxo e festas diárias e, de outro, úlcera e dependência humilhante. Utilizar esta mensagem bíblica como uma paráfrase do Inferno, de Dante, e dos horríveis fantasmas utilizados para escravizar consciências, e legitimar um poder religioso,  é um equívoco. Contradições  quanto à própria liberdade concedida aos homens de escolher seus caminhos. Uma parábola reflete o tempo dos homens e das mulheres, a realidade cotidiana não foge à regra.

Deus não está na parábola, e sim o pai Abraão, fundador da fé do chamado povo de Deus. O assunto, aqui, é a ausência de solidariedade, cuidado, misericórdia num mundo sem compaixão. O inferno de sempre. Um mínimo de senso realista nos remeterá aos corações humanos e suas complexidades. Como dizia Sartre, “o inferno são os outros”.

Trata do assunto de sempre, inspirando revolta pela indiferença e pelo narcisismo e da inveja. O desgaste na sedução da prosperidade inútil e infrutífera, considerada um ideal social de sedução permanente, influenciando individualismos e usufruto da riqueza sem responsabilidade social. Ou ausência de cuidado existencial pelo outro.

Paráfrase: “Havia um homem rico que gostava de exibir sua riqueza e luxos aos outros (Lucas 16,19-31). Sabia que seus amigos eram invejosos e gananciosos, e por isso os convidava para festas e banquetes suntuosos, em desperdício capaz de alimentar muitas famílias; oportunidade para a cobiça – gozos da riqueza –, mesa farta, bebidas, bajuladores refestelados em luxo, e climatização perfeita. O rico experimenta o lazer caro, as festas, a exuberância dos bens disponíveis, das roupas caras, e os convidados parasitários, enquanto invejosos aproveitavam o que lhes era oferecido do bom e do melhor. E Lázaro come com os cães o que cai da mesa.

A casa do rico era como a mansão de Sodoma, a cidade do pecado (Gn 19,24-25). Ele goza dos bens da vida opulenta, caros planos de saúde, medicina de ponta ao dispor, educação sofisticada para seus filhos, lazer e conforto; carros importados, serviçais para todos os fins domésticos, e pode viajar para qualquer paraíso fiscal, para acrescentar à sua fortuna protegida de impostos nacionais. Era pra satisfazer um economista da União Europeia, hospeda-se em hotéis cinco estrelas ‘A’, cercados por favelas na avenida Niemeyer, em busca de prazeres na noite carioca; acha o país dos ‘centavos do real’ maravilhoso*. Um cronista, como Chico Buarque, descreve-os:

No baticum lá na beira do mar / Aquela noite / Tinha do bom e do melhor / Só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca / […] Foi a GE quem iluminou / E a Macintosh entrou com o vatapá /[…] O Carrefour, digo, o baticum / Da Benetton, da beira do mar / Enquanto isso come do bom e do melhor.

Não lhes importava o gozo da riqueza sem justiça, sem partilha, sem compaixão. Nada de socorrer o pobre (Dt 15,1-11); o sofrimento dos desgraçados, os que passam fome; que não têm casa, nem eira nem beira; que não têm saúde, desnutridos que morrem como moscas nos bolsões de miséria; os atormentados pela miséria não são convidados aos banquetes, à mesa farta, aos bons vinhos e comidas finas.

Enquanto isso, Lázaro sofre, não há virtudes em sua pobreza. Suas chagas são lambidas pelos cães. Lázaro experimenta os tormentos da vida e da miséria, veste andrajos, e disputa comida com os cães sem dono. Um dia os dois morrem. O céu e o inferno fazem parte do enredo, que pode ser levado à Marquês do Sapucaí durante o Carnaval, e o gozo lhe é reservado, mas como recompensa pelo sofrimento da fome, do corpo ferido e lambido por animais de rua.

Inversamente, o rico experimentará o mesmo inferno de quem comia as migalhas que sobravam de seus banquetes. Este não tem nome, não têm existência nem dignidade. Esgotados os usufrutos da riqueza, nada mais lhe restou, senão o desespero da vida sem sentido. Não há razões para viver, instalou-se o desespero, as cenas do drama existencial passam a fazer parte de seu cotidiano; os atores têm as máscaras do sofrimento, alguns se atiram de edifícios altos, de pontes, em mares bravios, ou se jogam com seus carros em despenhadeiros mortais, buscando alívio”.

Porém, o pobre faminto, doente e miserável, chama-se Lázaro, que quer dizer: “aquele que é amparado por Deus”. Deus se lembra do pobre, do sofredor, do que tem a dignidade roubada. Lázaro despertará para eternidade, gozará da chegada ao Reino, das bem-aventuranças, da justiça, e da igualdade, os bens junto aos amigos de Deus. Novos horizontes para a vida, a conquista da esperança definitiva. A aura da serenidade envolve o bem-aventurado nos braços do Pai. Ainda há tormentos? Sim, mas a confiança na Graça (misericórdia = hesed), na realização das promessas de salvação, permite vislumbrar as ressurreições, a eternidade da vida com Deus que começa agora. Deus conduzirá seu barco pelos mares bravios, e o levará ao porto seguro.

Derval Dasilio

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LEITURAS – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Jeremias 32,1-3a, 6-15 – Resgate do melhor da fé …
Salmo 91,1-6;e 14-16 – Imbecilizados não compreendem
1Timóteo 6,6-19 – E crime tirar a esperança dos jovens
Lucas 16,19-31 – No Reino, moradores de rua têm dignidade…

IGREJA: FAROL PARA NÁUFRAGOS?

Destacado

familia brasileira

 

⊕ VENHAM A MIM, DISSE JESUS

Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: “O trabalho liberta!”. Por outro lado, numa igreja frequentada pelo populacho pobre, no centro da Cidade do México,  o  cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite lendo os Evangelhos, e viu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. O Evangelho requer atenção diferente.  Atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, e eu lhes darei alívio” (Sl 40.18; Mt 11.28).

Um exemplo para a paz na Igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, até pelo fato de estarem vivos, incomodando o mundo hostil com sua pobreza e miséria. Se a identidade coletiva prevalece, como muleta para atrofiados, escudo para temerosos, cama para preguiçosos, diversão e entretenimento para irresponsáveis, bem poderia ela ser albergue para os desabrigados, porto para náufragos, nova família para órfãos, utopia para os socialmente inconformados, terra para os despatriados, curral seguro para os desgarrados, mãe nutriz para o crescimento das novas gerações.

Poderíamos recorrer à poesia de Herbert Vianna: Quando tá escuro / E ninguém te ouve / Quando chega a noite / E você pode chorar / Há uma luz no túnel dos desesperados / Há um cais de porto / Pra quem precisa chegar / Eu estou na lanterna dos afogados / Eu estou te esperando / Vê se não vai demorar / Uma noite longa / Pra uma vida curta / Mas já não me importa / Basta poder te ajudar / E são tantas marcas / Que já fazem parte / Do que eu sou agora / Mais ainda sei me virar / Eu tô na lanterna dos afogados… (Lanterna Dos Afogados).

Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo, o Filho, de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus num texto de louvor e gratuidade tão expressivo. De Jesus, ouvimos as palavras audazes e dominantes: “Venham a mim!”. Essas palavras articulam a experiência de Deus na forma de acolhimento mais profundo existente. Não é a toa que a palavra pater, pai na língua grega – daí a expressão “pátrio poder” – se sobreponha ao termo aramaico. Abbá, na língua de Jesus, tem um sentido doce: “Paínho”, no jeito baiano de expressar o carinho. Ocorre o contrário do que a autoridade do nome pater sugere.

 A experiência filial, humana, de Jesus, se harmoniza com o que homens e mulheres mais procuram: cuidado, ternura, solidariedade amorosa. Exatamente porque isso lhes é negado. Jesus é o homem que ama seus semelhantes como Deus, Pai de Misericórdia que ama a todos sem eleições preferenciais. A igreja, se evoca seu fundador, tem o dever de imitar ou reproduzir o amor de Jesus pela humanidade.

A interiorização recomendada pelo Evangelho trata de absolutos éticos que escapam e distanciam-se da inteligência prática. A práxis de Jesus nos remete ao mundo prosaico dos simples, mansos, humildes deste mundo, a quem faltam recursos mínimos para a sobrevivência, enquanto expostos à ganância egoísta do mundo que sobrecarrega de privilégios quem já é privilegiado.

Derval Dasilio

23o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Jeremias 2.4-13; Salmo 81.1,10-16; Hebreus 13.1-8, 15-16; Lucas 14.1,7-14 [23o. domingo] /  []  Salmo 139.1-6, 13-18; Filemon 1-21; Lucas 14.25-33 [24o. domingo]

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ELE BUSCA OS ESQUECIDOS NOS GROTÕES DA VIDA

Destacado

    o pastor

Quem buscará o ser perdido nos profundos abismos, ou nas vias erráticas na vida; quem procurará incansavelmente aquele que não pode retornar sozinho, com suas forças, pelo caminho da salvação? Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo sob o nazismo, ajudando-nos a entender as implicações da espiritualidade cristã a respeito do perdão e do resgate de quem se desvia nos caminhos da vida, diferencia-as da psicologia terapêutica. Diz o mártir da fé incondicional: “a psicologia conhece a miséria, a fraqueza e o fracasso das pessoas… mas não conhece a impiedade humana”! Duras palavras dirigidas à psicanálise. Porque a mesma informa: “o resgate está na pessoa capaz de perdoar-se a si mesma”.

Não é assim o evangelho de Jesus. Em parábolas, ele descreve a alegria do pastor que achou a ovelha perdida, desviada do caminho certo; a alegria da mulher que achou a “dracma” perdida, concluindo: “Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu (isto é, em Deus) por um pecador resgatado, do que por noventa e nove justos que não necessitam de resgate” (Lc 15,7-10).

A existência humana também conhece a esperança da segurança plena e definitiva, quando consegue o apoio no fundamento último, Deus que salva sem estabelecer condições; Deus que salva por amor, em gratuidade, na direção da salvação plena. A presença terrível do Mal ronda as ovelhas nos caminhos da vida. A luz da esperança, mostra que a sombra inquietante do Mal não conseguirá eclipsar completamente a salvação, que “é iniciativa de Deus, e não do homem” (Karl Barth).

O desafio é total, porque o Mal continuará criando esse vazio obscuro, conforme Andrés Queiruga, criando incertezas, apresentando soluções parciais, às vezes camufladas pela terceirização salvacionista humana; contaminando o sentido da vida, e pressionando no sentido da dúvida sobre a gratuidade total que vem de Deus. Sem dúvida, uma aposta de vida ou de morte sobre uma fé que não se submete à razão sobre si mesma, justificando o pecador disposto a aceitar a oferta de Deus.

Deus é transcendência cristalina. Ele quer a salvação dos esquecidos nos grotões da vida, presos nos abismos das escolhas erradas ou por imposição fatalista, determinista. Quer resgatar os incapacitados de concorrer, deixados para trás, excluídos, abandonados nos despenhadeiros das desigualdades, do racismo, das diferenças sexuais, das castas e dos guetos. E Jesus diz que eles pertencem a Deus, e o seu errar lhe causou preocupação, e ele vai buscá-lo, no mais fundo abismo existencial, com ternura e cuidado. O pastor alegra-se na volta do que errou o caminho seguro para voltar à casa; alegra-se por proteger os esquecidos. Trata-se da alegria “soteriológica” de Deus, expressa em Jesus.

Porque Deus é assim, de misericórdia incompreensível, a tal ponto que o ato de perdoar e resgatar é sua maior alegria, por isso o encargo do redentor é arrancar o desviado das presas “satânicas” do erro; é trazer de volta para casa os perdidos no emaranhado ideológico do fatalismo que envolve e seduz o homem. De novo temos Jesus, o representante de Deus, assumindo a missão de vivência do evangelho integral do Reino. Deus vai atrás dos tresmalhados, tomando a iniciativa, para salvar e reconduzir ao redil aquele que necessita de cuidado, de segurança, enquanto comunica que o perdão incondicional é parte essencial do evangelho de salvação e libertação, pronunciado por Jesus Cristo.

“Há um pastor que me protege. / Ele me leva aos lugares de grama verde / e sabe onde estão as fontes encachoeiradas de águas límpidas. / Uma brisa fresca refresca a minha alma. / Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. / Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro como a morte /eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranquilizam. / Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. / Passa óleo de copaíba perfumado na minha cabeça / para curar minhas feridas, e me dá água fresca para sarar o meu cansaço. / Com ele não terei medo, eternamente…” (Rubem Alves – Sl 23: paráfrase)

Derval Dasilio

LEITURAS – 23o. DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 4,11-12; 22-28 – A terra chorará em toda parte
Salmo 14 – O Senhor é o refúgio de quem se perdeu
1Timóteo 1,12-17 – Sou o principal, dos que Ele salvou
Lucas 15,1-10 – Em busca da ovelha perdida

FAMÍLIA – APENAS A CHAVE DA MESMA CASA

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[LEIA TAMBÉM:]

https://lucigama.wordpress.com/2016/09/11/pedagogia-da-ganancia/

chave vermelha
Temos hoje uma discussão importantíssima sobre o discipulado cristão, em exigências para os filhos da fé, como o rompimento com a “família” simbólica referida pelo humorista famoso (família: apenas os que têm a chave da mesma casa), enquanto estrutura de domínio. Igrejas, tantas vezes apontadas como “famílias da fé”, defrontam-se com a necessidade de construir alternativas de vida eclesiástica sem hipocrisia e sem autoritarismo, como a proposta por Jesus na comunidade de seguidores e seguidoras, discípulos e discípulas.

O treinamento para o consumo começa a ser desmascarado. As crianças aprendem a pesquisar, e isto as colocará à parte do controle social exercido pela família tradicional e pela escola, as duas em velocidade defasada quanto às possibilidades do mundo no século 21, informatizado, pronto para uma revolução nas comunicações, desde a política, a educação, a economia… E o que se deve esperar da religião, como baluarte das antigas formas da sociedade do lucro e da acumulação? Podemos esperar por uma sociedade cooperativa, solidária, relacionalmente dedicada à igualdade?

Não é romper com a família, que Jesus ensina, mas “romper com uma forma específica de ser família”, aquela que acentua o autoritarismo sócio-jurídico-cultural da família apoiada na religião moralista. Tida por muito tempo como refúgio nas instabilidades meteorológicas contra a dureza do mundo, a família é o espelho da moralidade hipócrita sustentada a qualquer custo (como Nelson Rodrigues já denunciava).

No mundo bíblico, a exigência cristã tinha a ver com a transformação da própria vida. Tratava-se de mudar a forma de viver segundo a mentalidade do mundo dominador. Para os oprimidos pela violência intrafamiliar, que sustenta valores pétreos, construídos pelo administrador de bens, capataz do poder econômico, o sentido do que viviam correspondia ao que a ideologia dominante impunha. Mas, o que Jesus indica é romper com a tradição dominante (é preciso deixar pai e mãe, e irmãos corrompidos), e que o discípulo venha a assumir o sentido de vida para todos, pais, mães, filhos, filhas, como proposta para vivenciar o Reino de Deus na família.

Assim, Lucas aponta que a primeira exigência no caminho discipular é romper com o modelo de organização familiar hipócrita-autoritária-patriarcal, antes de qualquer coisa. No início do cristianismo, apregoava-se o relacionamento interpessoal íntimo e intenso dos membros da família. “Tendo dado à família o caráter da comunidade cristã, os lares de seus membros proveram atmosfera mais propícia para o amor e a solidariedade, na qual eles puderam dar expressão aos laços que tinham em comum” (Robert Banks). Para as Escrituras Sagradas, a família é um dos bens mais preciosos da humanidade. O primeiro e último amparo é encontrado no ambiente caloroso e aconchegante da família. É essa a proposta de Jesus.

FAMÍLIAS ENTREGUES AO DESMORONAMENTO DA SOCIEDADE ATUAL

A típica família bem-posta brasileira vem sendo reduzida ao conjunto de “indivíduos que possuem a chave da mesma casa”, disse Ary Toledo, com humor rasante. Quem sabe, então, está na hora de trocar a fechadura? Cada vez mais intolerantes uns com os outros, alimentando enredos de novelas, onde homens e mulheres se debatem pelo “direito à felicidade, sob a compulsão da ganância”. É o tempo do “ter-sem-ser-humano”. O exercício da solidariedade é dinamitado – do topo à base, como um velho edifício –, em eficiente tecnologia de demolições, para que os andares restantes desmoronem.

É urgente exercitar dentro da família o diálogo que a libertará dos antivalores divulgados na mídia, na educação, no trabalho (fatos que não dão sentido à liberdade, à produção coletiva, à participação na construção social). Na escola a educação para a esterilização, a pretexto de experiências inconsequentes, sem criatividade; na economia, a família exposta e submissa a interesses inconfessáveis do sistema bancário-financeiro (cf. cartão de crédito & juros bancários); na política, distorcem-se os direitos humanos e cidadania, direitos fundamentais, induzindo-se à irresponsabilidade para com a coletividade, pelo ato de votar corporativamente ou por interesse pessoal. E uma infinidade desprotegida de condenados à morte social nem é lembrada como parte da família humana em questão.

O ataque à “geração internet”, onde muitos acusam o mundo virtual de inculcar a irresponsabilidade e a depreciação moral da família, não procede. Há uma família nova amadurecendo, enquanto experiências críticas são exercitadas como nunca. Tablets, smartphones, computadores, são meios. “O meio é a mensagem”, já dizia Marshal McLuhan nos anos 70. O que se observa é que uma ferramenta das mais poderosas pelas quais passou a humanidade é utilizada principalmente pelos jovens. Esta geração é a que alcançou o maior número de opções e tarefas para o bem-viver, em todos os tempos (Tapscott).

Há um desafio diferente que o consumismo que tem sido ensinado aos jovens: “ter-sem-ser-gente”, pedagogia da ganância. Esses valores estão em cheque, porque não preenchem a vontade de ser gente, ser humano, ser como os demais em suas carências e lutas pela sobrevivência. O novo brota num terreno virgem.

E o que é velho? A sociedade humana é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis de fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, traficantes; espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mendigos e doentes mentais; traficantes… É o mundo do homem tomado por situações reais, concretas, expostas no cotidiano. O mal radical não poupa as famílias. Enquanto na igreja, ensina-se um cristianismo sem Cristo, sem misericórdia, sem compaixão e sem solidariedade. A família necessita de salvação.

Derval Dasilio

LEITURAS
22ºDOMINGO do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 18,1-11 – Convertei-vos, consertai os vossos caminhos / Salmo 139,1-6 (13-18) – Livre desde o ventre da mãe / Filemon: 1-21 – Tirei-lhe as algemas da hipocrisia / Lucas 14,25-33 – Rompam com a hipocrisia da família

A CEIA DOS DESGRAÇADOS E CONDENADOS

Destacado

A CEIA DOS DESGRAÇADOS E CONDENADOS

21º.DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO C]
Jeremias 2,4-13 – Que injustiça acharam em mim?
Salmo 81,1 (e 10-16) – Ah, se meu povo me escutasse!
Hebreus 13,1-8; 15-16 – Com hospitalidade, acolhendo anjos
Lucas 14,1(7-14)  –  Não procurem lugares de destaque…

samaritano lc 14Quem se disporá, na instrução para a celebração litúrgica da Santa Ceia, a indicar as condições de participação; a perguntar individualmente a cada um, se cometeu quaisquer dos pecados dos listados, “paulinamente”, que supostamente tornariam alguém indigno da comunhão eucarística, incorrendo no perigo de esvaziar-se imediatamente a assembleia, e não restar nem comungantes ou celebrantes para o ritual prescrito?

Uma discussão sobre a ética cristã se interpõe, enquanto debatemos sobre a inclusão eucarística à luz do Evangelho. Arriscando um exemplo, as questões e assuntos entrelaçados de confusões e preconceitos, antes que de tratamento teológico sobre excluídos, segundo a proposta inclusiva do Senhor Jesus Cristo, hoje, não se observam, irmãos bêbados contumazes, ou glutões locupletados, reivindicando a participação da mesa e do pão eucarístico?

Como se denunciava existir na igreja de Corinto, imaginamos nas celebrações frequentadores de cultos pagãos à fertilidade, blasfemos, bígamos, incestuosos, sexualmente imorais, bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos sociais e trabalhistas; empresários, homens públicos, políticos, envolvidos com corrupção, defraudadores, sonegadores de impostos?

Evocaremos, celebrantes e comungantes, para todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a Eucaristia, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos das igrejas gentílicas (cf. as epístolas e também Atos dos Apóstolos): violentos, mentirosos, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, ladrões, corruptos em todos os níveis, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas; bêbados, injuriosos, participando da celebração, impondo-lhes restrição à comunhão? Ou, silenciosamente nos declararíamos incapazes de reprovar os outros, levando em conta nossos próprios pecados, inclusive o preconceito e a intolerância, uma vez que as Escrituras, no Novo Testamento, não definem graus de pecados, ou qualificam pecadores, para negar-lhes a comunhão? Porque excluir homoafetivos, por exemplo, e privilegiar os demais?

Eles e elas são membros de nossas igrejas. Alguns são pastores, padres, presbíteros e diáconos, professores na escola dominical. Quem os apontaria se convidados na instrução para a celebração da comunhão? Se não se lhes nega a comunhão, quais seriam os critérios para negar a eucaristia aos demais? Critério sociológico-cultural-homofóbico-racista? O critério teológico de eleição à vida de fé não acompanha esse estreitamento. Em nenhum momento. Ao contrário, humildemente nos inclinaremos diante dos critérios de Jesus.

No Reino da justiça e da solidariedade, porém, a festa para a qual Deus convida a todos, quem oferece a honra dos primeiros lugares é o próprio Deus, e ele já determinou que esses lugares são reservados aos pobres e humilhados pelas desigualdades, ao contrário do costume. Lucas faz uso da voz passiva, é para substituir o nome de Deus. Portanto, é um julgamento: “a justiça de Deus consiste em se inverter aquilo que costumamos chamar de direito, dignidade da autoridade convidada”.

Não é certo, justo, louvável, o que é para a maioria, que diz: “manda quem pode, obedece quem é inteligente”. Dizem os gaúchos dos pampas: “Quem está de fora não adianta granar o catete; quem não tem, não adianta querer…”. O conselho que Jesus dá ao fariseu que o tinha convidado é inversão do senso popular: “não convide amigos, irmãos, parentes e ricos; convide pobres, aleijados, mancos, cegos. Os quatro primeiros são os convidados que podem retribuir o convite, ou que ficam obrigados a fazê-lo; os quatro últimos nada têm para retribuir”. Os “sem-tudo” são os primeiros, no banquete da vida. A atenção de Jesus se volta para prostitutas e todos discriminados – por conseguinte, por sua inclinação sexual –; vítimas de distúrbios mentais; doentes de toda ordem, deficientes físicos.

Na primeira fila os pobres e deserdados da sociedade de seu tempo. Um cristão qualquer poderia dizer: “o dia em que minha igreja, no momento da celebração da Ceia mandar os diáconos ir buscar os mendigos na calçada em frente, crackeiros, alcoolistas, prostitutas, para participar  da celebração em igualdade com os demais, terei certeza de que escolhi a comunidade certa. Para o resto da vida”.

É o Apocalipse que dará o toque final da inclusão proposta por Jesus Cristo: “Felizes os convidados para a festa do Cordeiro de Deus” (Ap 19,9). Jesus pergunta, desafiando, comentando, argumentando, sobre o que é maior, em favor da vida; do atendimento das necessidades vitais do próximo; do cuidado com os despojados de cidadania, os afastados intencionalmente dos bens sociais. Os discípulos de Jesus são desafiados a assumir as mais escandalosas quebras protocolares, infringir regras sociais e religiosas, para atenderem ao clamor da Graça. A sustentação do dom de Deus: comunhão com a Vida, sempre em primeiro lugar.

Derval Dasilio

UM POBRE NÃO PEDE, EXIGE JUSTIÇA

Destacado

Reblogado. Publicação de 2014.

Derval Dasilio * "Eu e a Política"

Deu na revista Ultimato. Faz dois anos. Uma reportagem sobre a Cracolândia — ou seriam “cracolândias” –, na cidade que mais nos fascina no Brasil, S.Paulo. Elben César, pastor presbiteriano septuagenário, entra na pele do “Mineiro Matuto”, pseudônimo que adotou para divulgar assuntos variados de interesse para a população evangélica tradicional. Entre as “cracolândias”, teve que escolher uma área mais adequada à observação, nas imediações do centro histórico. Mas poderia ter optado pela Barra Funda, Higienópolis, Campos Eliseos, elevado Costa e Silva, no cardápio perverso das piores concentrações de pobreza em S.Paulo, muito mais merecedora de atenção que as gigantescas favelas da Capital.

O tripé pentecostal cura, exorcismo, prosperidade, ruiria se houvesse qualquer cuidado quanto a aspectos da doença e da morte que ronda a todos os viventes. Drogadismo, compulsões patológicas, alcoolismo, jogo. Noutro grupo: hipertensão, câncer, aids, pneumonias, alergias, viroses, compõem o imenso repertório das doenças a que estamos…

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É PROIBIDO VIVER LIVRE…

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mulher negra e direitos fundamentaisDOMINGO LITÚRGICO – 20° – TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO C]

Lucas 13,25-33 – Jesus e a religião da justiça

Hoje, poderíamos falar do fundamentalismo enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Jaime Wright, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas dos dias de hoje. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu uma placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”.

O legalismo sempre está próximo da sociedade autoritária, do fascismo, do preconceito e do exclusivismo religioso. A palavra “equidistância”, no entanto, é bem frequente na igreja, exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, com base, supostamente, em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”. Cristãos evangélicos, a favor do apartheid, reagiam contra a cessão de direitos para todos os cidadãos e cidadãs negros, que ainda existe como em outras tantas, pelo mundo. Estes se lembrariam de que o fundador da nação, George Washington, possuíra escravos, e teve concubinas negras com as quais gerou vários filhos?

No Brasil, o pastor Jaime Wright teve pedidos formais de dirigentes eclesiásticos para ser afastado da luta em defesa de prisioneiros políticos, de banidos, abduzidos, torturados, sob a ditadura militar. Ia aos ditadores com dom Paulo Evaristo Arns. Nas palavras de Leonardo Boff, diziam: “vocês estão destruindo a imagem de Deus, quando permitem e estimulam a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores, o puro e simples assassinato na clandestinidade”.

Podemos imaginar um precedente em Isaías (Is 5,20), que coloca a ação concreta no campo do amor justo, “ahavah”, amor visceral e misericordioso de Yahwé. Amor que vem das entranhas. Isaías aponta a religião dos que não buscam a justiça: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo”. Segundo a perspectiva do Novo Testamento, porém, o amor pela justiça é maior que o amor humano, é “agape”, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustentam a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e os direitos fundamentais.

Não é sem fundamento a crítica que se faz da religião sem amor e sem justiça, nos dias de hoje. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, do cuidado com a coletividade, além do outro, o próximo; ela é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos pelo ministério público, em todo o país); é dogmática, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se e isentar-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia.

Ela supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, mas na verdade alienado quanto às realidades concretas a seu redor; é individualista, porque olha somente para si, sustentando caminhos próprios para a salvação dos demais “concorrentes”; ela compactua com o imperialismo patriarcal, negando a participação feminina, embora as mulheres constituam a maior parte da população do planeta. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, desde as profundezas da alma religiosa fanática ou obsessiva. E outros atributos, defeitos morais, que merecem atenção à parte: é racista, homofóbica, repressiva, fechada, supersticiosa… Como nos livraremos dessas críticas?

Jesus desvenda a hipocrisia (hipocrysis = máscara) de uma religião que não só não liberta as pessoas dos seus fardos, mas também lhes impõe um fardo extra nas costas. Como? Um animal vale mais do que uma pessoa humana? Se o animal pode ser liberto em dia de sábado, por que não uma pessoa oprimida na vida toda? O que pensar de uma religião que se apresenta como representante de Deus, mas que, na prática, escraviza e mata as pessoas, esmagadas e exterminadas por sistemas políticos, econômicos, sociais? Essa “religião” não estaria justamente a serviço desses sistemas? (I. Storniolo).

Derval Dasilio .

TERRA INCENDIADA PELA JUSTIÇA…

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fogo - meteoro

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM [ANO “C” DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 5,1-7 –  Deus amou Judá e Israel, um dia…| Salmo 80,1-2;8-19 – Quando gritavas sob opressão eu te libertei | Hebreus 11,29 -12,2 – Ninguém, no entanto, logrou a realização da promessa | Lucas 12,49-59 –  Como gostaria que a terra toda já estivesse incendiada pela justiça…

Lucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos mediterrânicos que já estavam sendo perseguidos quando a primeira parte da sua obra fora escrita. Ele, simpaticamente, fala aos romanos, pessoas comuns que frequentavam as primeiras comunidades cristãs da história (século I do cristianismo), ao dar a entender que eles ignoravam o que estava por trás de tudo, da realidade do governo imperial, das elites em torno do mesmo. “Melhor é infiltrar do que confrontar-se com força cultural muitíssimo superior”, sugere Jesus. Fala a partir da experiência comum dos homens e das mulheres com a vida social e política de todos os tempos.  

Uns dizem que Jesus foi um homem submisso, indiferente aos poderes reinantes. Que sua única função na terra teria sido a do homem dócil, submisso, servil, subordinado aos poderes do mal, até ressuscitar e ascender ao céu. Imagens sempre associadas ao distanciamento das questões essenciais, como a escravidão, a exploração humana, a exclusão e a liberdade. Para pietistas, o Jesus contemplativo dos embates emocionais, entre mártires feridos, tomado de êxtases sentimentais, e como inspiração da adoração do sangue salvador, definiriam a razão dos evangelhos. Outros, contudo, definiram-no como incrementador de uma revolução política que mudaria a história do mundo.

Não, Jesus não é apenas um  espiritualista piedoso, ou um ativista que veio fazer uma revolução política, econômica e social. Faz muito mais que isso: como um meteoro descido do espaço, subverte os valores criados pela ideologia da ganância, abundância e desperdício; do poder político, da riqueza e do prestígio, da corrupção histórica, colocando em seu lugar os valores da fraternidade, solidariedade, dos bens e da partilha nos bens comuns que geram liberdade e vida para todos.

O capital abandonou seus territórios originais, tornando-se leve, desembaraçado, independente, solto no ar. Protegido pela velocidade da informação que percorre o espaço virtual em tempo real. Seu nível de de mobilidade é suficiente para controlar, sob chantagem, a política e os políticos, que ainda dependem de territórios, e fazê-los dependentes e submissos às suas demandas. O capital dá ordens, a política cumpre, sugere Zygmunt Bauman.

Um governo dedicado ao bem-estar dos cidadãos pobres, ou rebaixados na escala social, não tem a menor chance de sobreviver, se não bajula, implora, ajoelha-se, aos pés do capital. Resta-lhe ajustar-se às regras da “livre empresa” (eufemismo para a subserviência escrava ao capital). Dar credibilidade ao poder do capital, persuadir os detentores do capital para os investimentos necessários, é a pior das tarefas de um governo. Se não consegue, pela corrupção, o capital derruba-o. Não há golpes de estado sem sua participação e financiamento.

Para o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, o sistema judicial brasileiro está longe de ser ideal e não funciona da mesma maneira para todos. “Nós criamos uma sociedade cheia de ricos delinquentes, que sonegam, fraudam licitação, subornam, fazem lavagem de dinheiro”. Foi o que disse o magistrado em entrevista para Roberto D’Ávila, da GloboNews, também falando na necessidade de criar uma Justiça que “valesse para todo mundo”. Estamos falando de justiça econômica?

Avenidas, com financiamento público e proteção policial, têm sido ocupadas com paradas gays – e estes tão somente fazem uma farra massificada e divulgada na mídia, sem nada reivindicarem em direitos fundamentais para os demais grupos sociais. Acordo feito também com evangélicos pentecostais, amantes de uma estranha teologia da ganância (exibindo vantagens numéricas, econômicas, falsa prosperidade material), que nada dizem dos problemas da cidade, nem falam de opressão política nas “marchas-com-jesus” que realizam. Controlados, bem comportados, absolutamente sem consequência, em ambos os casos, não houve — no espaço público que ocupavam — tensão entre a polícia e as multidões  esquecidas pela mídia no dia seguinte.

Questionado pelo público manifestante, sobre o que estava acontecendo na cidade, abusos nas privatizações referentes à mobilidade urbana, no entanto, o governo optara pela repressão, gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassete a torto e direito. Ao invés de proteger manifestantes, como fez nas manifestações anteriores, autorizadas, optou por reprimir, porque as reivindicações agora faziam sentido, impertinentes, perturbavam e até hoje incomodam os governantes. O movimento Occupy desencadeara, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada, pouco tempo atrás. Basta tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos (David Harvey).

Aqui, não sabemos quantos Jovens estão protestando contra a privatização dos bens da cidade, ao invés de reivindicarem um credicard, shopping centers fabulosos, complexos dedicados aos consumidores do luxo. Em minha cidade, a Assembleia Legislativa foi ocupada durante duas semanas, em 2013, e desprezaram o gigantesco shopping à sua frente, fachada com fachada. Querem o espaço para se relacionar com os poderes políticos, mas com política nobre, para se reunir, para existirem como cidadãos, como fazem outros jovens em muitas cidades do planeta, e não querem que a casa legislativa seja um lugar de negociatas inconfessáveis; que defende interesses de corporações e de partidos sectários.

Mas nos empolgamos com magistrados que julgam um “mensalão”, ou “petrolão”, condenam políticos escolhidos e não tocam nos seus preferidos, enquanto “ensinam” como evadir divisas aplicando recursos pessoais em paraísos fiscais ou em mercado mais rentável, no exterior (cf. Panamá Papers). O papa, porém, pergunta ao jovem, entre os que o ouvem num encontro mundial de 3 milhões de fieis, sobre  hipocrisia, política de baixa categoria; subserviência ao mercado, dos que não servem nem à justiça nem à população: “E você, jovem, o que está fazendo? Se não faz nada, grite!”.

DE FREUD À VIOLÊNCIA DA POLÍTICA AUTORITÁRIA

A frase de Freud denuncia: “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não que deseje aboli-los, mas porque quer monopolizá-los”.  O modelo de sociedade autoritária se exaure, dissolvido numa força que aparece quando governantes abdicam da justiça, da nobreza da ética, dos valores, da alta política. Aquela nobreza da política voltada para os direitos cidadãos, o direito à dignidade, vida com qualidade repartida igualitariamente. A razão principal da gente comum, nas manifestações, poderia ser a insegurança geral, expressa com mais evidência na saúde e na educação. Mas não é.

Neste momento, o Brasil passa por um golpe de estado com orientação parlamentar, sob exceção constitucional. O grande empresariado, atrás dos recursos do país, organizado em cartéis secretos, atrás de concorrências bilionárias, encontra-se sob investigação insistente do ministério público. Por trás do mesmo está o núcleo chantagista do poder político. O que todos querem é o dinheiro público loteado entre eles. Mas, o que os trabalhadores desejam mesmo, ardentemente, no Brasil, é a volta do emprego, e com ele sua função social: saúde, alimentação, habitação, mobilidade urbana. Querem seus direitos históricos garantidos, sem quebras ou retrocessos nas leis trabalhistas. Atrás de cada trabalhador tem uma família que “precisa morar dignamente, alimentar-se, ter acesso à saúde, à mobilidade urbana, etc.”, todos sabemos. Mas precisamos saber também quanto o dinheiro da corrupção, que escorre dos setores mais abastados da economia privada, poderia significar para a igualdade na economia popular. Por exemplo, o consumo de bens sociais e bens duráveis.

Aumentar os custos da máquina pública, hábito do Estado corrompido, como se faz celeremente no governo provisório, pode satisfazer aos políticos e seus séquitos na aristocracia das casas parlamentares. Mas não atende às  grandes necessidades de um povo inteiro, referentes à saúde pública, saneamento básico (mais de 100 milhões não dispõem de água limpa e esgotos sanitários). Sem falar dos direitos fundamentais de moradia, escola, ensino universitário, mobilidade urbana, atendidos precariamente em todo o País. Até uma década atrás, antes do combate frontal à pobreza e miséria, hoje em retrocesso. Por que políticos, que estão a perigo com a seca temporárias das fontes onde a corrupção se abastece, têm o direito de esquecer a população e suas grandes necessidades?

O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades da natureza cíclica, a chuva, a seca, a previsão de colheitas…), e não sabem interpretar a conjuntura (política) presente?” Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo — que acusam os adversários e absolvem seus companheiros –, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los.

Derval Dasilio

O ELOGIO DA GANÂNCIA

Destacado

18º. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Oséias 11,1-11 – Meu povo é obstinadamente apóstata/ Salmo 107, 1-9 (40) – Alguns extraviaram-se por desertos afora / Colossensses 3,1-11: Fazei morrer em vós os maus desejos / Lucas 12,13-21 – Meu Pai entregou-lhes o reino como tesouro…
Cópia de ganancia principal

Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza” (atribuído a Oscar Wilde) . Quantos deixaram passar por suas vidas a grande oportunidade de ouvir a mensagem do Reino de Deus, de justiça para todos, e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos? “Onde está teu dinheiro, aí está o teu coração”, sugere o Evangelho… A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração…”.

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Então Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável para com os demais? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”?

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Calcada na ideia acertada de Nietsche sobre o poder, que poderia lembrar-nos os motivos anteriores, dos que preparam “o cerco das multidões”: trata-se do inato impulso em direção à posse, à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações. Estamos sitiados pelo dinheiro. Previu que o mal-estar maior que a modernidade conheceria seria a exacerbação, o elogio da “ganância”, por trás das tragédias. Tragédia como a situação  política da nação, nestes dias em que as ruas estão incendiadas em manifestação e crítica direta aos governantes do país inteiro.

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Essa fonte vertiginosa de atitudes é profundamente influente na determinação de valores que diferenciam as coisas, embotando o poder de discriminar o que vale e o que não vale, o importante e o sem importância na construção da vida, dizia Georg Simmel (A Metrópole e a Vida Mental).  O dinheiro, e a ausência de cores e indiferenças que contém, torna-se denominador comum de todos os valores essenciais, como referência antiética, quando se passa a perguntar sobre o “quanto” vale  uma pessoa. E não os valores que cercam a vida de alguém. O dinheiro arranca irreparavelmente a essência das coisas, a importância da individualidade pessoal, tornando a mesma pessoa um objeto de troca, no escambo da vida.  O Estado, a religião, a vida cotidiana, as corporações, os partidos políticos e demais grupos da sociedade humana, estabelecem-se e se desenvolvem dentro da equação monetária que deve ser deslindada e resolvida.

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A construção do painel vertiginoso da vida moderna, tomada pela ganância de poder, de ter, de dominar a vida e a morte, encontra na obra de Goethe, “Fausto”, um parâmetro estarrecedor. E verdadeiro. Essa obra foi construída à luz de grandes turbulências políticas, como a revolução francesa, e a revolução industrial gerada na Grã Bretanha. A moderna democracia, assim como a industrialização capitalista, predatória, excludente, determina a vida das pessoas, especialmente no mundo ocidental. Temos no Fausto a síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo.

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Fausto vendia ao diabo (Mefistófeles) sua alma, pela fortuna e pelo poder. Mefistófeles trava com Fausto um debate sobre como sobreviver, onde a acumulação do capital, dos bens, explora fundamentalmente a mente gananciosa: “Entendamo-nos bem, não ponho a mira na posse do que o mundo apelida de gozos; o que eu quero é atordoar-me; quero a embriaguês de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubo das mais altas aflições. Estou curado da sede de saber (…). As sensações todas da espécie humana em peso, quero-as dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde minha mente e vontade são aplacadas. Assim me torno eu próprio a humanidade e, se por fim a perder, me perderei com ela”, resumiu Marshal Bermann.

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OS JOVENS E A PEDAGOGIA DA GANÂNCIA

Por que falamos tanto de corrupção, quando se ensina a ganância a todo momento? Sejam quais forem os motivos, ou eufemismos como a “ambição”, a característica fundamental do que se apresenta para os jovens de nosso tempo refere-se ao elogio da ganância, pedagogia que transforma em virtude o grande pecado da sociedade hipermoderna.

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A vida e a alma estão situadas nas coisas; a alma do mundo é o dinheiro e os bens acumulados. Mal que nos acompanha desde as sociedades arcaicas, ou primitivas. Sucesso é “ouro”, ser dono de tesouros e bens; ser portador de “credicard”, passaporte para a felicidade do consumo. Portanto, a desumanização da vida está em alta, e em baixa o espírito, valores que sustentam o corpo, a partir do cultivo da misericórdia; da compaixão e da solidariedade. O dinheiro é o coração do novo complexo de acumulação. Patrimonialismo.  Capacidade de gerar falso bem-estar (juros) e energia, enquanto o corpo vai recebendo os influxos da civilização moderna em torno do capital (Norman O. Brown).

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A própria sociedade custa a reconhecer sua responsabilidade quando elege políticos notoriamente corruptos, ou tantos outros que irão reforçar o “direito natural à corrupção”. Assim, como se perguntou recentemente a José Ugaz, da Transparência Internacional, qual seria o caminho para uma política sem corrupção? E o próprio Ugaz respondeu: “Existem cartéis de crime (alusão ao Congresso Nacional e  Governo, em conluio com grandes empresas estatais e privadas, nacionais), é preciso formar “cartéis de integridade”, um plano para o bem comum, para mobilizar a população e obter o seu respaldo”. Mudar a cultura política e aprofundar a consciência ética nacional, em sentido amplo, no todo social, seria pretender muito, ou já desistimos de combater a corrupção?

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Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, suas perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. A vida é um tesouro real e duradouro. Sonhamos com paraísos, igualdade entre homens e mulheres; construímos utopias sobre o bem-estar coletivo, habitação digna, saúde pública moralmente aceitável, escolas verdadeiras e humanizadas, pão em todas as mesas. Como os sons e as tonalidades do universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

*
Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da criança recém-nascida. Que mundo e que humanidade a esperam. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.

*
“Sim, e quantas vezes precisará um homem olhar para cima,/ Antes que ele possa ver o céu?/ Sim, e quantas orelhas precisará ter um homem,/ Antes que ele possa ouvir o lamento das pessoas?/ Sim, e quantas mortes ele causará, até saber/ Que tantas pessoas morreram?/ A resposta, meu amigo, está soprada no vento” (Blowin’ in the Wind, Bob Dylan).

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Derval Dasilio

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

Destacado

ógicos liberdade aos cativos

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

17o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 1,1; 10-20 – O povo perdeu a fé…
Salmo 50,1-8 – Escuta, meu povo, vós prostituístes a fé de Israel
Hebreus 11,1-2.8-19 – Insatisfação com esperanças imediatas
Lucas 12,32-48 – Vocês também, fiquem preparados!

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman, meu cineasta preferido desde a juventude, disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. O fundamentalismo assassino, no nascedouro, celebra os resultados nefastos aplicado ao mundo evocado no filme “O Sétimo Selo”,  exatamente nos primeiros momentos posteriores à II Guerra Mundial. Supostamente vitoriosa sobre o nazismo, mas absolutamente envolvido pelo stalinismo controlador da Cortina de Ferro, a Europa parece em perplexidade e agonia.
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A atomização do nazismo e do fascismo, a realidade do socialismo estatal, síntese do totalitarismo que sufocou as democracias do século 20, apresentava refúgios ideológicos irrevogáveis, e as seguranças das sociedades autoritárias pareciam garantidas na aceitação das tiranias modernas. O Brasil experimentou, por duas décadas, uma ditadura aprovada por grande parte da população. Hoje, os filhos e herdeiros daquele regime de força parecem saudosos e manifestam anseios autoritários pelo retorno da mesma.
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O cristianismo simbólico, entre estes, dispensa a fé na justiça de Deus, e desconhece a esperança de uma nova humanidade, um novo céu e uma nova Terra, envolvido com o propósito estatístico, patrimonialista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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Falou também da justiça formal, jurídica, quando juízes honestos são pressionados pelo capital, o meio empresarial que corrompe, comprando favores, distribuindo propina para concretizar concorrências fraudulentas, enquanto toma dos governos o dinheiro público que compensaria as carências dos fracos, quanto à saúde, a escola, a habitação. Juízes que aplicariam a justiça para a dignidade humana são pressionados por corruptos, debilitando a democracia participativa, tornando-a degenerada. Enquanto privilegiam poucos contra as perdas de muitos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física, morte social e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; fracos, marginalizados, os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas, sustendo uma espécie de democracia degenerada, perversa, para os necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores ideológicos, fascistas ou nazistas — representantes da sociedade excludente, que apoia a “limpeza social” —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais; aos milhões de desempregados, e suas famílias, sem saúde, sem habitação, sem esperança.

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidade e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época, em suas tendências de aprofundamento da miséria. Diálogo sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.
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Defesa da vida, é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica,cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana, se acompanha o mapa da fé, reclama pela salvação do pobre e oprimido, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte.

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Os males de governos políticos perversos, que negam direitos fundamentais, não podem permanecer num beco sem saída, sem justiça e sem salvação. Todas as mortes são refletidos na ausência de políticas que não estabeleçam como prioridade o pobre oprimido. O autoritarismo patrimonialista, egoísta, no entanto, é uma espécie de “mala onda”. Um movimento perverso contra a dignidade dos mais fracos. Abraça toda uma sociedade das entranhas para o cérebro, enfraquecendo a democracia igualitária, solidária, enquanto envolve as pessoas como um movimento ensurdecedor de combate falso à “corrupção”. Não é possível acreditar na veracidade desse clamor, quando os mesmos que clamam não se afligem com a injustiça imposta ao pobre e oprimido.
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Investir nele é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, que a ele é destinado, segundo o evangelho de Jesus Cristo. Quando a Justiça deixa a venda em seus olhos descer para boca, tornando-a uma mordaça, está escolhido o roteiro inverso para se chegar ao Reino de Deus, segundo o Evangelho de Jesus Cristo: “preparem-se para proclamar a justiça”. Para tanto, consideremos a fé: “Vinde aflitos, oprimidos, cheios de tristeza e dor”, o Reino está perto.


Derval Dasilio

EM TEMPOS DE ESTUPRO COLETIVO JESUS SOCORRE A MULHER

Destacado

 o próximo.

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Amós 8,1-12 – Corrupção transformada em funeral…
Salmo 52 – Os justos haverão de ver e ouvir tudo
Colossenses 1,15-18 – Nele são reconciliadas todas as coisas
Lucas 10, 38-42 – Bem-aventurado o que ouve sobre a violência social…
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“Et Dieu créa la femme”, lembrava o cineasta Roger Vadin em 1956. Por onde andariam as mulheres, no início da era cristã? Na segunda geração da igreja inicial, pós-apostólica, as mulheres tinham funções diminutas (Elza Tamez). Isso se deve à forte pressão da cultura patriarcal judaico-cristã na Igreja. Inventa-se uma outra forma de domínio para submeter a mulher: o “patriarcado amoroso”. Que não deixa de ser patriarcado.
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Lucas, depois, nos apresenta finalmente um caso pertencente às tradições recebidas pelo evangelista no círculo de seus discípulos, especialmente as mulheres, faz-nos contemplar um quadro familiar, no qual Jesus faz uma visita a amigas. Marta e Maria recebem-no em sua casa. Marta se multiplicava para atender o hóspede. Jesus a repreende: “por que andas inquieta com tantas coisas, tantos afazeres, e não ouves o que tenho a dizer”?
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A vida das mulheres era, no antigo Israel, bíblico, bem próxima da escravidão, se consideramos a exclusão da vida pública. Não menos na Judeia contemporânea de Jesus. Seu papel era servir os homens. Em tempos remotos, filhas podiam ser vendidas como escravas. Mulheres menstruam, parem filhos, têm sangramentos naturais, conforme determinam seus corpos e organismos, era repugnante a um judeu ser tocado por uma mulher nestas condições. Para a religião isso é “impureza”. Sua desqualificação, pela forte imposição da religião, separava-as no templo e na sinagoga.
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Cristãos ortodoxos e islâmicos, no Oriente, continuam com prescrições semelhantes até os dias de hoje. Segundo a lei judaica, mesmo diante do direito romano que o favorecia, o divórcio não lhes era facultado. Só as mães eram elogiadas. Noivas, desde a pré-adolescência, podiam ser repudiadas se desvirginadas ou apresentando gravidez. Mulheres estupradas, violentadas, mães solteiras, eram apedrejadas. Risco que correu a mãe de Jesus, não houvesse José aceitado ser seu “pai adotivo”. Jesus não acompanhou a cultura autoritária e codificada de seu povo, nas prescrições do “halacah”, ou na “Torah”.

Provavelmente, porque as prescrições sobre o “impuro”: bastardia, enfermidades, pessoas com deficiências deficiências físicas, em geral, também não estavam em sua relação de interesses, a não ser quanto à exclusão religiosa e social de tais pessoas. Na contra-mão dessa crueldade, Jesus anunciou que elas eram preferenciais no Reino de Deus (Mt 27-36).
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Maria, frente a Jesus, prefere ser uma mulher educada, cortês, “receber Jesus”, oferecendo hospitalidade no seu espaço interior, secreto. Na profundidade dos sentimentos, das percepções, e das sensações e anseios do coração. Espaço colocado para ouvir e refletir. Marta, porém, oferece coisas a Jesus. Maria se oferece para ver e ouvir com o coração, quando se pode constatar a Grande Realidade salvadora. Mesmo quando em pequenos fatos e pequenas realidades, como a atenção e escuta das promessas divinas (J-Y. Leloup). Quais são as demandas, as necessidades e os sonhos libertários que Marta não intuiu?
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Provavelmente Jesus queria lhe dizer que a sociedade autoritária, seus valores, aspirações de poder e de mando, funcionava contra a vida. E, que mitos sobre supremacias sexuais, raciais, econômicas, culturais, confirmam criações e afirmações sobre absolutismos, determinismos políticos e culturais tidos como irremovíveis, agregados às crenças na fatalidade e irreversibilidade do mal estrutural. Desigualdades impostas, com ingredientes de preconceitos, intolerância, hegemonia sobre indivíduos e classes, comparecem como excrescências acumuladas nas sociedades autoritárias [atitudes e informações sobre estupro e violência contra a mulher, nos últimos dias].
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E, quem sabe, outras coisas mais, das criações humanas para justificar a exclusão, oprimir, estigmatizar, alijar e exterminar seres humanos. Jesus poderia dizer à amiga judia que a vida criada por Deus, entregue às criações humanas da ganância, de supremacia, de poder, era corroída por um interesse espúrio de dominar as pessoas em lugar de Deus, substituindo-o.
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Em nossa sociedade, são homens que estigmatizam mulheres, e absolvem estupradores. A revista CartaCapital (15.junho 2016), relata: “É no Brasil conservador que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Estupros coletivos, ataques familiares e de pessoas próximas da família das vítimas, oferecem um diagnóstico da perversidade masculina. A ideologia do patriarcalismo, cultura do machismo, alimenta as diversas formas da violência contra a mulher, entre elas o estupro. Mulheres são colocadas como objeto de domínio, ou como propriedade do homem. E, no universo perverso da violência contra a mulher, cresce o número de vítimas mortas. No Brasil, 13 homicídios femininos por dia, segundo o Mapa da Violência, 2015”.

ESCOLHAS À DISPOSIÇÃO DAS MULHERES


Segundo o julgamento de Jesus, Maria escolheu imediatamente “a melhor parte”, que é refletir e tomar conhecimento das realidades imediatas, um mundo e uma sociedade que necessitam de transformação, de justiça e de igualdade e dignidade na partilha dos bens sociais e culturais. Há necessidades, além do que se exige da mulher: paixão, abraços, carícias, sorrisos; intimidade sexual, trabalho remunerado em desigualdade com o homem, além das coisas que dão prazer estético que se quer da mulher (como na canção de nossa juventude: “Una mujer debe ser soñadora, coqueta, ardiente./ Debe darse al amor / Con frenético ardor / Para ser una mujer…”).

Marta, submissa às convenções sociais, desgraçadamente, não quer que nada falte ao importante hóspede. Pretende dar tudo, e deixa passar inconsequentemente “a única coisa necessária”: ouvir as intenções de Deus (shemah Israel: ”Ouve, ó Israel, diante de ti coloco dois caminhos” – Deut 6,4).
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Não se podem ocultar as causas que fazem indivíduos humanos sofrer, homens ou mulheres, além das pressões sociais. Fracassos, desequilíbrios, desajustes, como a violência, a luta por supremacia, e tantas mais, atuam contra os mesmos. Além das estruturas antagônicas do medo, do pavor diante da natureza, tempestades, furacões, terremotos. E a angústia sobre o mal abstrato na superstição, na magia religiosa, da submissão à fatalidade. O evangelho de Jesus expõe os males concretos no campo das realidades econômico-sociais: trabalho, moradia, saúde pública, fome e miséria, no elenco perverso que traz sofrimento.
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A ética de Jesus dá apoio à ânsia por transformar a sociedade, pressionando-a por mudanças além das legislativas. Mudanças culturais na família, nos grupos sociais, na coletividade, se fazem necessárias com urgência. “Quando usamos o corpo de uma mulher para vender mercadorias, na publicidade, estamos colocando-a como mais um produto vendável, mais um objeto à disposição do mercado masculino. Isso deixa a mulher ainda mais vulnerável a todos os tipos de violência. Ensinamos às meninas, desde cedo, que o valor da mulher está na aparência, e que elas somente serão desejadas se corresponderem às espectativas dos homens. Que a principal realização da vida de uma mulher é o casamento e a aprovação masculina. E elas, assim, nem percebem que estão sendo vítimas da violência cultural admitida em nossa sociedade”, afirma Maíra Liguori.
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Marta, solteira, marcada pela sociedade de seu tempo — que exige dela submissão ao trabalho escravo, procriação numerosa para reforçar o mercado de trabalho — reclama de Jesus, e não sabe o que ele quer. O problema é precisamente este: descobrir pouco a pouco o que Jesus quer falar. A palavra de Jesus é a Palavra de Deus!
*
Maria compreendeu que estas palavras, que aos olhos da eficiência codificada da lei religiosa pode parecer superficial e inútil, é “condicio sine qua”, condição fundamental para alguém chegar a ser autêntico discípulo de Jesus. “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não será julgado (por não ouvir), mas passou da morte para a vida” (João 5,24). “O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (1João 1,3). Maria compreendeu. Que mais deve ser dito?
Derval Dasilio

O PRÓXIMO, EU E TU

Destacado

o próximo em diagrama

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedade e sem misericórdia
Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo
Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos?

[*]Nos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por essa estrutura. O legalismo, imposto pela estrutura religiosa, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei.

[*]Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não podia entrar no templo e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, mas passa a ser modelo exemplar oferecido ao religioso cristão.

[*]Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor…  O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: não farás…) sobre como “amar a Deus e ao próximo”sob a lei deuteronômica…Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com a Torah, pentateuco – os cinco primeiros livros. Conforme a versão grega Septuaginta, também –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

[*]O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

[*]Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano compassivo e solidário é um homem rico. Um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

[*]A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais).  Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

[*]O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich.  A justiça sem amor ignora a solidariedade, misericórdia ou compaixão.

[*]O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo. Diria Rubem Alves: “o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça  o cérebro”.

[*]Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo o outro, o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

[*]Muitos agnósticos, e até mesmo ateus,  deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

[*]A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra:  “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.”

[*]Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

[*] Derval Dasilio

A FELICIDADE, O SORRISO E A FLOR

Destacado

13º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
2Reis 5,1-14 – O profeta curou Naamã sem exigir pagamento
Salmo 30 – Pela tarde o pranto, pela manhã alegria!
Gálatas 6 (1-6); 7-16 – Tormento das tristezas doentias
Lucas 10,1-12;16-20 – Sem vergonha de viver com alegria e entusiasmo

A alegria deve ser celebrada, não de forma egoísta, mas envolvendo a comunidade. Por isso, quando o pastor chega em casa, reúne amigos e vizinhos, dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, porque já achei a ovelha perdida (Lc 15,6). A mulher, após encontrar a moeda perdida, convoca amigas e vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, achei a moeda perdida (Lc 15,9). A validade, o poder do compromisso, na reivindicação de Jesus não se limita, por essa razão, à uma única expressão relacionada ao reconhecimento fiel da ação salvadora de Deus. A espera da realização plena do Reino envolve prazeres.   Não se exclui a alegria nessa espera (George Kümmel).

O convite para participar da alegria reaparece (Lc 15, 22-24), após a volta do filho perdido e pródigo. Nas aplicações das parábolas, percebemos que festa na terra sinaliza festa no céu (o Céu é o lugar de quem vive com Deus), quando um pecador se converte. O tom de alegria, fundamental na parábola da ovelha perdida e na da moeda perdida, refere-se explicitamente ao próprio Deus, e sua alegria, nos versículos conclusivos de ambos os relatos (Lc 15,7; 10,16ss). A ética de Jesus, portanto, sugere alegria, não obstante ele anunciar a proximidade do reino de Deus e o julgamento da sociedade autoritária, carrancuda, de má-vontade com a novidade — que é o rompimento com as relações perversas, com as desigualdades; novidade é viver sob a justiça de Deus –, e novos relacionamentos. Não pode ser entendida como uma “ética de ínterim” e deve ser caracterizada mais corretamente por “ética do tempo da graça” ou “ética da Nova Aliança”.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Ética a Nicômaco, e Jesus Ben Sirac (Eclesiástico  – BJ), ensinaram que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13). Antes de contrair a doença mortal da ganância, quando o homem se sentia feliz, tranquilo e seguro sem honra e poder, e nem pensava num deus comercializável, que se vende, movido por bajulação; ou que permite vender graça num balcão; que se encastela em honra, prosperidade, e poder. Um poeta hebreu, salmista já dizia: A ira de Yahweh dura um momento, e seu favor dura a vida inteira. Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria (Sl 30,6).

O mais alto ideal cristão está aqui: a felicidade, bem-aventurança eterna. A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um pássaro azul que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, lembra um ensinamento budista. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da apropriação, da potência, da sabedoria, buscamos ser felizes… Um equívoco. Dificilmente alcançamos esse fim (Luiz Carlos Susin). Atravessamos a vida como uma noite escura, e manhã nunca chega, por esses meios.

O que desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o abstrato “ser em si mesmo”. O que queremos mesmo é ser “felizes”, sempre. Concretamente. Dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida: o prazer de uma boa comida, não importa se churrasco, feijoada, muqueca, tambaqui, pato ao tucupi.

O prazer de uma música, que pode ser de Mozart a Debussy, Pixinguinha. O repertório lírico de José Carreras e Kiri Te Kanawa. A MPB de Tom Jobim, Edu Lobo e Gonzaguinha. Lutero dizia, feliz: “faz escuro, mas eu canto”. Um “crente” pode e deve ser feliz com a música: “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser massacradas e desaparecer”, queixava-se do iconoclasta Zwínglio o grande reformador, que proibia instrumentos musicais no culto. O iconoclasta Calvino reafirmou as teses de Lutero, mas depois proibira a arte e paramentos litúrgicos no templo.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia, ou como minha neta que risca com giz de cera as portas do quarto. Ela pressente que é, já, um esboço do que vai ser o “ser (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora”, dizia William Blake. Ela nem se imagina que é uma gota de orvalho numa pétala de flor (Rubem Alves). Tantos conteúdos da “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz.

Aí está a primeira liberdade, e o primeiro amor à vida. A primeira consciência da honestidade e do dever na coletividade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse. Haverá outras formas de se expandir a felicidade como, por exemplo, a felicidade de se dedicar, de trabalhar, de aprender, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa amada. Mas, como degraus sobre esta estrutura básica do prazer, a alegria primeira de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão; a busca da justiça, não dispensa, mas exige o prazer (Luiz Carlos Susin). Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética começa e finaliza, portanto, no bem, no desejo do bem, na felicidade e no prazer de viver pela justiça e a liberdade.

Em todo o evangelho (Lucas 10,1-12, 16-20) os personagens são possuídos de uma estranha alegria. Podemos concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus (sugxárete moi = alegrai-vos comigo, festejemos o reencontro da ovelha, da moeda e do filho perdido). Em Lucas, para que não se vangloriassem como exorcistas, prestidigitadores e milagreiros, Jesus os alertou: “Não vos alegreis porque os espíritos se sujeitem a vós; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20).

“Eu morreria feliz se visse o Brasil cheio de marchas (pela felicidade). Marcha para os que não tem escola, dos reprovados pela sociedade autoritária; marcha dos que querem amar, e não podem; dos rebeldes a uma obediência servil; dos que querem, mas são proibidos de ser gente; dos andarilhos históricos correndo o mundo, em favor das liberdades” (Paulo Freire, adaptação).

Derval Dasilio

DO ESGOTO AOS ARRANHA-CÉUS

Destacado

12o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

2Reis 2,1-2;6-14 – Eliseu é vocacionado para a obra profética
Salmo 77,1-2;11-20 – Minha alma está inquieta com a injustiça
Gálatas 5,1;13-25 – Somos vocacionados para ser livres
Lucas 9,51-62 – Mão no arado, não olhar para trás!

Começa a longa caminhada das periferias para a metrópole, onde estão os centros de poder, da Galiléia para Jerusalém. Para os discípulos trata-se de uma grande catequese que mostra como enfrentar as dificuldades e também como entender a vida e complexidades das sociedades humanas no seguimento de Jesus. Também é importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão.

É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns, e contra a desigualdade. E também denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares.

A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, Aids, dengue, para além das representações figurativas. Violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O sofrimento cidadão economicamente motivado apresenta muitas formulas. Pode resultar de estruturas socioeconômicas injustas e na exploração de trabalhadores: “Eis que o salário dos trabalhadores que cultivam os vossos campos, pois lhes sonegastes, e os clamores dos diaristas alcançaram o ouvidos do Senhor” (Tg 5,4). Ele também é visto na privação das condições básicas de vida, de sorte que se chega ao ponto do “pobre Lázaro” à porta de alguém “que se banqueteia ricamente, todos os dias”, enquanto o mendigo come migalhas que caem da mesa e precisa disputá-las com cães de rua (Lc 16,19 ss). Há injustiça, desigualdades, fome, doença e epidemias na cidade.

O exercício do poder ou a opressão adquirem um componente mais social nas cidades, quando, na Bíblia, os cristãos são lembrados de suas más experiências  com os privilegiados e bem-postos. Estes os tratam com desprezo e violência (cf. Tg 2,6). Escravos dos tempos apostólicos, expostos a açoites e maus-tratos (cf. 1 Pe 2,19 ss), são lembrados. Mesmo no caso de meras ameaças de desemprego ou venda (Ef 6,9), torna-se evidente até que ponto trabalhadores dependiam do arbítrio e poder de seus senhores. Como clandestinos bolivianos, coreanos, haitianos e orientais variados, hoje, nos centros urbanos.

Mas a miséria é escamoteada para fora da realidade concreta. A cidade, por outro lado, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis de “possessos do mal”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas, traficantes de drogas, estupradores, pedófilos, drogaditos violentos; espancadores de mulheres e crianças, homófobos, agressores, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos sociais de crianças; homossexuais, mendigos, doentes mentais… A cidade é o mundo do homem tomado por males reais, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha da sociedade insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto.

“Ninguém que, tendo posto a mão no volante, olha para trás, pra dar marcha-a-ré, é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62: paráfrase do autor). O Juiz das causas humanas, e das desigualdades, vem agora ao encontro dos homens e mulheres, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência assim anunciada, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro do projeto de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz na cidade.

Jesus se apresenta na contramão das ações resistentes ao bem, à misericórdia, à solidariedade. À Salvação. Acolhe o doente, o marginalizado, cura-o e expulsa o que causa a doença. Acolhe o oprimido e o  marginalizado. Não o manipula para garantir prestígio. Cura-o e expulsa o que causa a doença. Do esgoto ao arranha-céu, chama-o de volta para um mundo novo e saudável, mental e socialmente, recusando o conformismo e indignando-o quanto à injustiça e desigualdade de tratamento na distribuição dos bens sociais. Sugere que é preciso ir ao miolo do furacão. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas que dominam e tomam conta da sociedade (Ivo Storniolo).

Derval Dasilio

PERDOAR É LIBERTAR OFENSOR E OFENDIDO

Destacado

11º DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
1Reis 21, 1-10 (11-14) – Profecia contra a prepotência
Salmo 5,1-8 – Acode os meus gemidos, Senhor
Gálatas 2,15-21 – A injustiça das leis que oprimem
Lucas 7,36-50 – Perdão pelos pecados impostos por outros

DOIS IRMÃOS - ESCULT BARRONas palavras de Lutero, “o cristão é ao mesmo tempo justo e pecador” (“simul justus et peccator“). Portanto, pecamos quando insistimos na discórdia. O perdão, porém, é um dom, uma graça que procede do amor e da misericórdia de Deus. Há, porém, a exigência de se abrir o coração, de se criar um espírito de conversão, de mudança, de transformação, entre as partes envolvidas na discórdia. Na comunidade se buscará a paz, sugere o Evangelho. Onde não reina a paz prevalece a ofensa. Portanto, a reconciliação torna-se imprescindível, acreditamos, sem restrições, avançando na direção do perdão mútuo e incondicional. As instâncias, nesse caso, são definidas no Evangelho: primeiro em caráter pessoal; segundo, na forma deuteronômica, social (Dt 19,15), com testemunhas.

Pensadores como Jacques Derrida, não religioso, têm insistido: “A verdade começa com o perdão”. Inspira-se em Mandela e Desmond Tuto nos resultados do apartheid na África do Sul (e não se trata aqui de perdoar a seleção racial fracassada). Sul-africanos reconhecem 11 línguas como legítimas, em todas se estimula a tradução do evangelho do perdão: fraternidade, humanismo, bondade, misericórdia. Interessado, Derrida descobriu com eles que na tradição cristã há dois conceitos para o perdão: perdão incondicional (o culpado por todos os seus crimes, mesmo sem pedir perdão é perdoado). A tradição contraditória, em vigor, é do perdão condicional (o perdão exige a transformação do pecador). Alguns, no entanto, diriam que basta pedir perdão a Deus, mas dessa maneira o processo fica incompleto, torna-se necessária a ação pública, a confrontação e o diálogo. Qual deles é evangélico? Penso que nenhum.

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Perdão e amor são inseparáveis, pois resultam em reconciliação. No texto bíblico encontramos um enorme contraste: uma mulher “pecadora” e um fariseu. Vejamos os termos. “Pecador” é o infrator da lei religiosa; “fariseu” é o religioso de vida “santificada”, um pretensioso purista moral, como diz o termo (fariseu = perushim = separado dos outros, “santo”). Fariseus eram peritos em catalogar pecados, e classificar os 630 preceitos religiosos que não estão na Bíblia, mas no Halacah (mais de quatrocentos começam com “não farás…”). Aqui, nesta passagem, pecadora é a mulher “desclassificada”, chamada “mulher da cidade”. Em outras palavras, “mulher da rua”, ou “mulher da vida”, “mulher da zona”… uma prostituta.
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Mas ela trazia um frasco de perfume para Jesus, um tipo de óleo afrodisíaco, comum. Igual aos que aparecem na tv com imagens de sedução feminina, para atrair compradores. E Jesus aceitou! Talvez lhe agradasse os cheiros do almíscar, da alfazema, de óleo do cravo e da canela. Ou quem sabe do extrato de jasmim, bergamota, óleo das rosas de Sharon, lembrado nos salmos bíblicos. Ou no Cantares: “Como o teu perfume é agradável! Como o teu nome é doce…” (Ct 1,3).
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Isso causou tremendo escândalo entre os fariseus. Homens santos não podem sucumbir à sensualidade dos cheiros maravilhosos extraídos da natureza, nem se estiverem nos poemas bíblicos sobre o amor erótico. Jesus percebe, e pergunta a um deles: “quando um credor perdoa duas pessoas que lhe devem valores diferentes (500 ou 50 reais), dessas, qual lhe será mais grata? Quem terá mais amor”? E o fariseu responde acertadamente: “aquela cuja quantia maior foi perdoada” (Lc 7,36-50). E Jesus lhe disse: “muito bem”! Bingo…
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Com um pouco mais de atenção, veremos que a mulher não pede perdão a Jesus. Por nada. Na verdade, Jesus diz  que ela já fora perdoada. Sua declaração (v. 47) é sobre algo que já aconteceu: “seus numerosos pecados lhe estão perdoados” (BJ); ou “os seus pecados tão numerosos foram perdoados” (TEB), “os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados” (Pastoral) ou conforme traduz muito bem a BLH: “o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados”.


PERDOAR É LIBERTAR OFENSOR E OFENDIDO AO MESMO TEMPO


O Evangelho de Jesus Cristo aponta, ainda, como se deve resolver o problema que está afetando profundamente a vida e a humanidade de todos nós: é imperativo aplicar a compaixão e a própria misericórdia aprendida, ao próximo devedor. Ou ao próximo ofendido por nós. E não devemos esquecer o ensinamento de Jesus, entre os muitos que não nos permitem olvidar a necessidade do perdão e da reconciliação, acima de todos os julgamentos. As represálias e as retaliações que nos tentam, sempre quando somos ofendidos, ou quando ofendemos alguém, devem ser suplantadas com a ternura do Amor. O evangelista João também disse: “Deus é amor”. Quem ama perdoa.
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A ofensa toma um significado econômico, quando Pedro indaga: “… quantas vezes?” E a resposta de Jesus aponta: “infinitamente” (70×7, na matemática do amor). Reserva-se, neste último exemplo do Evangelho, uma demonstração de que o homem  e as comunidades de fé são alvo da imensa Misericórdia, destinatárias da Graça infinita e ilimitada do perdão (Sl 86,7: “Escuta minha súplica, Senhor; dá atenção ao pedido da tua Graça”).  O ensinamento simples e sem adornos, na oração que o Senhor ensina, completa: “… perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Versa a respeito do que devemos aprender com a misericórdia de Deus.
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Excelente terapia espiritual, boas exortações sobre a necessidade do perdão: “Quem lança uma pedra no ar, lança-a para cair na própria cabeça”; “quem abre uma cova, nela cairá, e quem arma uma cilada nela será apanhado”; “o mal que o homem comete retorna contra ele, sem que ele saiba donde veio…” (Eclo 27,25;26;27). Perdoar é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode simplesmente reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa.
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Perdoar significa libertar o ofensor de sua dívida, mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. É permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; é compreender que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.
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Seria isso que Jesus indica, além da necessidade dos discípulos dirigirem-se aos excluídos e tresmalhados do grupo religioso que se acha protegido para julgar? Jesus fala da alegria de perdoar, para salvar e libertar (no NT o vocábulo “afíemi”, perdoar, tem o sentido de soltar, libertar…). É esta a apologia que Jesus faz do evangelho do Reino: porque Deus é assim, de misericórdia incompreensível, a tal ponto que a alegria de perdoar é imensa. Embora os maníacos da santidade falsa não queiram assim..

JUSTIÇA QUANDO NÃO SE FAZ JUSTIÇA…

Destacado

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viúvas da justiça

Gravura de Cerezo Barredo

10o DOMINGO DO TEMPO COMUM (APÓS PENTECOSTES)
1Reis 17,8-16 (17-24) – Opressão aprovada pelas elites
Salmo 146 – O Senhor faz justiça ao oprimido.
Gálatas 1,11-24 – A liberdade do Espírito, em Cristo.
Lucas 7, 11-17 – Ressuscitar é impedir a exclusão.

JESUS EM DEFESA DAS MULHERES VIOLENTADAS


O Tempo Comum depois de Pentecostes reflete os acontecimentos próprios da Igreja Inicial, no discipulado dos cristãos para a “vida de fé”, a orientação do Espírito Santo, e não por ditames doutrinários da religião (Lc 7,11-17: a viúva e a ressuscitação do filho mais velho). A religião combatida por Jesus legitimava uma cultura patriarcal, domínio masculino absoluto, onde uma viúva, por exemplo, sem nenhum filho homem estaria condenada à morte social, assim como uma jovem violentada sexualmente. Lembremos da menina estuprada, cujo vídeo  foi divulgado na internet. Interrogada sob tortura moral, o delegado lhe pergunta: “Você está acostumada a fazer programas com sexo grupal?”, transformando a vítima em “culpada” do ato que revoltou a nação inteira. Todas as mulheres seriam responsáveis pela agressão que sofrem?, perguntaria a ministra Rosa Weber, do STF.

A mulher exercia um papel secundário na família, na comunidade e na sociedade. Porém, o órfão e a viúva são símbolos do cuidado que merecem, por indicação de Deus (“Não haverá pobres no meio de vocês” – Dt 15,4). Legitimava, também, a religião, o abandono dos fracos e oprimidos pelo sistema de exploração que garantia às elites, bem-postos, o gozo de direitos econômicos e sociais em detrimento dos restantes. As desigualdades eram admitidas como destino natural para os que não conseguem superar a pobreza, miséria e fome.

A fé bíblica implica em fidelidade (heb.“emmunah”, gr. “pistis”, acompanham o sentido: “o justo viverá pela fé”, Hb 2.4, Rm 1.17, Gl 3.11; não se pode traduzir como sentimento de favorecimento subjetivo e íntimo). A fé incondicional constitui o essencial da atitude de Cristo diante da cruz, no sofrimento ético contra o desespero e a angústia diante das injustiças. Cristo reconhece-se como parte do povo bíblico e seu sofrimento quando entregou-se à fé (“emmunah” = fidelidade), na esperança do cumprimento das promessas de realização do desígnio divino contra o domínio da morte. Um mundo novo é possível.

Jesus teve fé no que anunciava! Viúvas e órfãos são uma categoria especial em Israel, o bíblico, sem dúvida, cenário do povo de Deus. São os necessitados, aqueles que reclamam atenção social e política (Eclo 4,10, TEB). Compõem o grupo de classificação social mais baixa entre os pobres (anawin). Tiago, no Novo Testamento, lembra-se deles com dedicação ética exemplar aos pobres (ptochos) (Tg 1,27 e seguintes). E os Salmos bíblicos destacam poeticamente a denúncia inevitável da sinonímia (…Yahweh se ocupa deles pois “é pai de órfãos e protetor das viúvas”).

Jesus, mais incisivo, pois é portador das ressurreições, e restaurador da vida, vai ao encontro dos que estão no caminho do cemitério. A comitiva fúnebre para, e o cortejo presencia uma intervenção extraordinária. O arrimo da viúva pobre é ressuscitado fisicamente. Ou seja, a ressuscitação do jovem morto aliviará a maior das dores humanas, das que ferem e destroem as esperanças. É um ato de compaixão, de Jesus: solidariedade, cuidado e atenção, para com uma família que sofre uma grande perda. Jesus estende a mão, e num toque de vida retém e suspende a força da morte (thanatos). A fé incondicional constitui o essencial da atitude diante do sofrimento físico ou moral da morte; contra o desespero e a angústia face às injustiças e do iminente abandono, por causa da morte.

Cristo é parte do povo bíblico e seu sofrimento, quando entregou-se à fé e fidelidade (“emmunah”) na esperança do cumprimento das promessas bíblicas, presenciando o aparente domínio da morte. Um mundo novo é possível. A vida é possível. Jesus apresenta-se na luta da vida contra a morte. O reino chega através dos sofrimentos, da indignação, da recusa da injustiça. Jesus teve que amargar o fracasso total de seu empreendimento, na morte, para juntar seu povo na missão de Deus, na luta pela salvação e libertação da humanidade em todos os tempos. Jesus teve fé no que anunciava!, e ressuscitou.

Portanto, Jesus participa da ressurreição, que vai contra os princípios de dominação e submissão. Um mundo religioso, uma sociedade onde mulheres, homossexuais, prostitutas, deficientes, diferentes, coxos, cegos, leprosos, nada valem. Por conseguinte, são rejeitados. E outro, no campo político, lugar em que a morte exemplar pretendia calar os insubordinados contra a opressão, o tratamento desigual de homens e mulheres, os privilégios econômicas e sociais para as elites e bem-postos.

A ressurreição – afirmação da vida, garantia de plenitude em bem-aventurança para os fracos, oprimidos, esmagados e abandonados socialmente –, estava ao alcance de todos. É lançada a base da nova religião de justiça, de indignação contra o mal estrutural iniciada por João Batista, no NT, e fortalecida pelo movimento pedagógico de Jesus. Contra a religião que assume a morte, ou não lhe dá importância; como poder dos que a utilizam para dominar os outros. Essa deve ser substituída pela religião da vida, e da justiça de Deus. Religião que afirma a dignidade inviolável da pessoa que sofre, assegurando a companhia de Deus aos oprimidos, que ninguém pode roubar (Queiruga).


“ESTUPRO DE UMA JOVEM É UM CRIME CONTRA TODAS AS MULHERES”


Outro aspecto importante da narrativa é o fato de que as pessoas que acompanhavam o cortejo, ao verem que o cadáver havia ressuscitado, ficaram com medo. Mas louvaram a Deus e proclamaram a Jesus como um grande profeta para a salvação. Aqui, a atividade salvífica de Jesus começa a ser percebida. As pessoas que assistem ao milagre da ressurreição são tomadas de um sentimento de êxtase, medo, alegria e salvação. A morte enfim foi vencida pelo gesto de Jesus. O que parece espesso e insuportável, a escuridão da grande crise, a morte, é atravessado e iluminado pelo gesto de Jesus. Sabemos agora que o medo — assombro diante das escuridões políticas, dos eclipses da violência, da ganãncia e imediatismo –, é vencido na confiança radical da companhia de Deus nas lutas contra a morte.

O próprio ato de viver revela-me a morte e a ressurreição a cada momento. Ela faz parte do meu passado, presente e futuro. E você sou eu, e eu sou você, como na equação de Martin Buber, “Eu|Tu”. A presidenta Dilma Rousseff, quando manifestou-se solidariamente em favor das mulheres violentadas diariamente, com assentimento da sociedade que prefere esconder os crimes contra a mulher, expressava-se exatamente o que o grande filósofo pontificava: “O crime cometido contra essa jovem é um crime praticado contra todas as mulheres”.

“Como se depreende, a ressurreição é um processo que vai ocorrendo ao largo da vida. Vamos lentamente ressuscitando, à medida que lentamente também vamos morrendo”, disse L.Boff. Na morte, a ressurreição explode, e implode, e permite à vida humana a realização impossível da vida em liberdade, liberta dos limites do “aqui” e do “agora”. Não, obviamente, fora do mundo, mas assumindo o mundo e levando-o para um além onde se dá a comunhão inefável com a Vida e Fonte de toda vida.

Até então, no tempo de Jesus, a morte era entendida como o fim de tudo e de todas as coisas. A morte tinha o poder de domínio extraordinário nas mentes das pessoas. Conformismo, quietismo, fatalismo, dominavam os pensamentos. Estabeleciam os limites da vida, contra a esperança. Mas Jesus vence a morte, amplia os horizontes da vida, ao ressuscitar o filho único da viúva. Destarte, morrer não é caminhar para um fim-limite. É peregrinar para um fim-meta alcançado. “Mesmo que já se tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer” (Dásio José dos Santos, cit. Agostinho). Por isso, nós não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar” (cf. João, no evangelho: “Se não morrer fica só…”). Para viver mais e melhor.

Derval Dasilio

UMA TRINDADE SEM JESUS?

Destacado

trindade cerezo

TRINDADE – Cerezo Barredo

DOMINGO DA TRINDADE
Provérbios 8,22-31 – Antes, a Sabedoria já concebia.
Salmo 8 – Ó Senhor , grande é teu nome no universo!
Romanos 5,1-5 – Cristo, no amor difundido pelo Espírito.
João 16,12-15 – Tudo o que o Pai possui é meu.

A realidade religiosa, estatística, demonstra o equívoco. Hoje, não inspira relevância a entrega do Espírito Santo, em nome do Pai e do Filho, para que os cristãos parem de falar desconexamente sobre a relevância da fé (Jo 17,21: “que sejam um, como eu e tu somos um, para que o mundo creia”). Negando a História da Salvação, assumindo a ganância no tempo hipertenso, nervoso, descontrolado, maníaco por velocidade até na leitura virtual, sem reflexão, e na experiência religiosa, pergunta-se se alguém vai deter-se num tema como o da Trindade. Num tempo de fúria e velocidade nas comunicações, no trânsito, nas compras, nos relacionamentos, no trabalho, nas férias e no lazer, e na religião, o que representa para nós a presença trinitária de Deus?

Perplexos, vemos partidos políticos designados como partido da Assembleia de Deus, ou partido da Igreja Universal — representantes do ódio ideológico, contra os direitos humanos fundamentais; adversários da democracia popular e do estado de direito –,  não distinguindo o sentido bíblico-teológico nem do Pentecostes (Atos 2), nem da Trindade, em comunhão íntima. E temos que perguntar pelo Filho: “por que aparece em quinto lugar em pesquisas sobre as personalidades mais importantes do mundo evangélico, entre os jovens” (Ultimato, set./out. 2010). Em primeiro lugar, na pesquisa e no interesse da juventude, estão os expoentes pentecostais da teologia da ganância.

No entanto, narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios e eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica contemporânea. Colocariam homens e mulheres face a face com o transcendente. Mas o transcendente está em baixa na religiosidade da ganância, e com ela a importância da Trindade. E não é somente no cristianismo incipiente que se viu tal interesse por símbolos primários, uma vez que, na religião popular evangélica, espetáculos, amuletos e objetos de magia religiosa preenchem a zona cinzenta entre os símbolos sagrados e os profanos.

Talvez porque não creiamos mais no Pentecostes como epifania permanente de Deus; que o Pai, Filho e Espírito Santo estão presentes com energia contra o mal, em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E que essa presença traz consigo verdadeiros milagres, conversões extraordinárias que operam mudanças num mundo violento e impiedoso. Nas lutas contra a dor, contra a opressão da consciência, contra a falta de sentido salvífico, nesse tempo, e nessas lutas, o cristão não discute a Trindade, dá testemunho da mesma.

As “soluções” para cada situação de desespero, e os abusos que se generalizam na intermediação da pastorada gananciosa, noutro rumo, apontam o pentecostalismo vitorioso na prática da religião mágica, de superstição, de truques de prestidigitação, de misticismo e de abuso sobre a consciência – individual e social –; envolvendo evangelical shows, campanhas, marchas e concentrações públicas contra a liberdade e o estado de direito. E falsas promessas. São o retrato cultural de crenças populares sempre existentes e permanentes, em facilidades para se encontrar a felicidade sem o Reino de Deus e a sua justiça. Especialmente originadas em religiões paganizadas, aculturadas e assimiladas, presentes no pentecostalismo contemporâneo.

A TRINDADE É UM MISTÉRIO, ANTES QUE UMA DOUTRINA

O mistério da Trindade, antes de ser estruturado como doutrina, foi um evento salvífico afirmativo! O Pai, Filho e Espírito Santo estiveram sempre presentes na história da humanidade, doando vida e comunicando amor, tolerância, compaixão, misericórdia, solidariedade. Introduzindo e transformando o porvir da história em salvação, na comunhão divina das “Três Pessoas Sagradas” da fé cristã. A tendência “pentecostalista”, de outra maneira, como prática religiosa que reduz o Espírito Santo em divindade única, já se manifestava desde o mundo mediterrânico dos séculos iniciais do Cristianismo.

A vontade de Deus, no entanto, se manifesta na Escritura — como testemunho presencial da encarnação –, e através de seu Espírito, que se apresenta no Filho, e transforma-se numa realidade interior, transcendente ao ser humano. A Trindade é a esperança de um mundo transformado pela fé! Desta forma a reflexão sapiencial bíblica supera a simplificação panteísta ou dualista, pagã, em sua concepção de Deus: “O Senhor me criou no início da criação, antes de suas obras mais antigas… quando não havia os oceanos, fui engendrada, quando não existiam os mananciais ricos de água”. Como um hino, este texto chegou à tradição cristã como um pré-anúncio da encarnação da Palavra (A Palavra se encarna [davar, logos], que “no princípio estava junto de Deus, tudo foi feito por ela e sem ela nada foi feito”  – Jo 1, 2-3), e que no final dos tempos “se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, a glória própria do Filho Único do Pai, cheio de graça e de verdade” [vs 14]).

Richard Shaull dizia: “a experiência do Espírito Santo com a presença e o poder do Cristo ressurreto, como fonte de vida e esperança, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com a garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. (…) O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”. E Shaull perguntou: “Poderíamos criticar o alcance das multidões pelo neopentecostalismo e os movimentos carismáticos quando o sofrimento das massas permanece inalterado e apenas abordado no sentido de uma experiência sem profundidade”?

Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e vo-lo anunciará (João 16,12-15). Por isso Jesus diz: “o Espírito não falará por sua conta, mas que diria unicamente o que ouviu… tudo o que lhes dá a conhecer, o receberá de mim”. Jesus será sempre o Revelador do Pai, o Espírito da Verdade, ao contrário, faz com que a revelação de Cristo penetre com profundidade no coração do crente. O pentecostalista evangélico ou carismático não concordará, porque seu alicerce espiritual é paganizado, influenciado pelas religiões que negam o transcendente.

A luta contra o sofrimento das massas recorda-nos a solidariedade de Deus com os sofredores (através do Pai, Filho e Espírito Santo: um único rosto diante de três espelhos). Mas a solução pentecostalista recente trata a mesma massa com imediatismos gananciosos, apresentando a Graça do Espírito num balcão de negócios. Mas o Reino não se realiza somente na forma paliativa e individual (Jürgen Moltmann). Os fiéis ingressam na transcendência em comunhão com Jesus, Filho trinitário, na comunhão, como irmão de todo aquele que sofre.

Devemos compreender essa comunhão na luta contra a injustiça e todos os sofrimentos: opressão política, opressão da consciência, negação de direitos fundamentais. Que dignidade traz a graça negociada nos balcões dos mercado da salvação? Não é a participação da cruz, do envio em missão de transformar o mundo, e do seu destino e martírio em favor da salvação (martyria). Seguramente, não é o Espírito Santo sem o Pai e sem o Filho, em comunhão libertadora.

Derval Dasilio

 

O DIA DE PENTECOSTES: CELEBRAÇÃO DA UNIDADE

Destacado

DIA DE PENTECOSTES E A UNIDADE DA FÉ

Atos 2,1-21 – O Espírito impõe unidade à Igreja
Romanos 8,14-17 – A criação geme no parto da esperança
João 14,8-17 (25-27) – Igreja é a comunidade instrumental da salvação

Há momentos em que o confronto entre pessoas que pensam de maneira diferente se dá, nas redes sociais. Isso é bom, se estimula o crescimento da consciência crítica sobre o todo. Em tudo isso o Espírito Santo se manifesta, tecendo os fios da unidade na imensa diversidade humana na internet, como nos ensina o teólogo Afonso Murad. Formando uma consciência do Pentecostes, presença permanente do Espírito; uma corrente do Bem, e não o ajuntamento dos desesperados na farra da vida virtual, hoje tomada pelo ódio político ou ideológico.

O evangelho de Pentecostes nos diz que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, e que sua comunicação com os discípulos se faz através do Espírito que traz a ressurreição para o mundo. É ele que outorga alegria e discernimento do que significa a ressurreição de cada dia, enquanto concede capacidade, força e energia para o perdão dos pecados, e a reconciliação permanente dos homens e das mulheres. Pentecostes é a representação de um programa para a Igreja nascida da Páscoa, do êxodo, da ressurreição, da fé libertadora na Aliança, aberta para todos os homens e mulheres.

Estamos diante de um relato germinal, decisivo, programático. O programa de Jesus de Nazaré, proferido numa sinagoga da Galiléia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a boa nova libertadora aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18). Lucas retoma o programa inicial (Atos 2,1-21).

Assim, expressando a ação livre e renovadora de Deus, a tradição do Pentecostes dispõe de uma linguagem de símbolos desde os relatos bíblicos onde Deus intervém na história humana. “A salvação está perto dos homens e das mulheres”. Nada mais clássico nessa manifestação que a história da fé do “povo de Deus”, a partir do(s) êxodo(s), enquanto culminam nos fundamentos da Aliança (imperativos, prioridades, mandamentos para a vida: justiça, direitos fundamentais, igualdade entre povos e raças, solidariedade): “Ama a Deus sobre todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo”. Impõe-se aqui a Nova Aliança, em Jesus Cristo, alicerçada na misericórdia, na gratuidade, na compaixão e solidariedade para com todos os homens e mulheres da terra. O Pentecostes  assim deveria ser entendido nos encontros virtuais.

Pentecostes é reconhecimento da epifania permanente de Deus, através do Espírito Santo. O cristão, portanto, não discute. Dá testemunho do Pentecostes. “Quem não está contra nós, está a nosso favor” (Mc 9,40). Mas, “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino” (Mt 7,21), se não se sentir alertado e convocado para testemunhar a fé. O problema do Mal encontra sua solução radical na prática amorosa dos que lutam,  afirmando assim o sentido da realidade positiva do Reino de Deus no mundo: “Venham vocês que são abençoados por meu Pai…”. Porque lutaram contra a fome, a sede, a nudez, a discriminação, o preconceito, a intolerância, a enfermidade e a opressão” (Mt 25, 34-36).

O Pentecostes é um fenômeno absolutamente transcendental, além da mídia, do espaço cibernético, inalcançável pela razão, inatingível pelo conhecimento empírico, descrevendo a ação espontânea e gratuita de Deus. O Espírito transforma os homens e as mulheres, os jovens e os idosos, fazendo com que eles e elas falem da justiça, enquanto se promovem novas relações libertadoras entre homens, culturas, raças e povos. E ao mesmo tempo anuncia o evangelho de renovação da Criação: um mundo novo é possível…

Nas redes sociais, há palavras e imagens em excesso, não há tempo para que as pessoas reflitam e interiorizem a mensagem. Não dá tempo para ecoar nem ressoar a mensagem de Jesus. Informações demasiadas se perdem, contaminadas pela mediocridade e pela ignorância. Há quem se exponha excessivamente, no anonimato. Há quem coloque momentos íntimos em vídeos, como o parto de uma criança e relações amorosas de um casal. O obsceno obtém licença e permissão para substituir a ética no relacionamento humano. A felicidade depende dessas manifestações?

Preocupam-se demais em fotografar, gravar e filmar, sem saborear relações humanas, momentos sublimes da vida em toda a sua amplitude. Uma coisa sobre a qual não se pode formular um conceito científico, porque intangível, transcendente, mas essencial do ser humano. O fundo sólido da existência, diria Carl Jung, está no limite extremo que não se alcança através de uma fórmula. Esta fórmula não será encontrada no espaço cibernético, mas na existência profunda, onde se encerram os mais importantes apelos e fatos da experiência e convivência humana real e concreta.

Ao invés de se cultivar a interioridade secreta, a mais ampla e vasta personalidade humana, pessoas expõem sentimentos corrosivos, intolerantes e desprezíveis. Antifeminismo, homofobia, racismo, fundamentalismo, ódio político, por exemplo, se manifestam a todo momento, sem direito ao contraditório. Corre-se, também, o risco da superficialidade e do efêmero, sem resultados para o futuro da própria humanidade. Em termos de direitos humanos, direitos sociais e ecológicos. Consciência de cidadania. Bastaria viver em intensidade as alegrias íntimas, e não esvaziá-las, substituindo-as imediatamente por novas expectativas. Esta é a mensagem do Pentecostes nesta semana e no próximo domingo, enquanto celebramos a Semana de Oração pela Unidade do Povo de Deus.

Derval Dasilio

JESUS: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS…

Destacado

PÁSCOA – 5º. DOMINGO – ANO C
Atos 11,1-8 – Diziam deles: eles se amam tanto!
Salmo 148 – Louvai-o, céu dos céus
Apocalipse 21,1-6 – “…a quem tem sede, darei amor, água da Fonte da Vida” |||||João 13,31-35: “Amai-vos os uns aos outros, assim como eu vos amei”…
DOIS IRMÃOS - ESCULT BARRO
Quando perguntamos sobre crianças mortas em Beslam, Newtown e Columbine, ou mortas quando esquecidas dentro de um carro, ou desnutridas, depauperadas pela fome das mães que nem leite produzem mais, numa favela de nossa cidade, na Índia ou no Afeganistão; quando uma bomba explode numa avenida de Boston, no aeroporto de Bruxelas,  ou quando jovens enlouquecidos pelo sistema matam crianças inocentes numa escola, estamos perguntando sobre o quê? Sobre o desespero que imputa à humanidade inteira o mal-estar no mundo? Sobre o ódio e o amor? J-P Sartre dizia que o homem, a vida humana, o nascer e o morrer, são absurdos (O Ser e o Nada).
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Seres humanos adoecem num ambiente de desconfiança e de medo, de manipulação política, econômica e cultural, sob exploração ou instrumentalizados para finalidades inomináveis e inconfessáveis, como a medida jurídica de imputar ao jovem adolescente a responsabilidade dos crimes hediondos que se cometem impunemente. O que está por trás disso é de fato ódio político, social, vingança, ou é violência animal? O evangelho, no entanto, recomenda o conselho de Jesus Cristo para a entrega sem medo ao amor, confiantemente, incondicionalmente, gratuitamente: Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Há outra saída para quem não tem fé no amor?
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Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, aids, mendicância (moradores de rua, em Curitiba, estão sendo exterminados com a aprovação da população, enquanto grupos organizados exigem dos poderes públicos a “higienização”, ou limpeza social da cidade – CartaCapital 13.abril.2016), delinquência, legislação frouxa quanto ao aliciamento da criança e do adolescente, antecipação da maioridade penal, e outros, são ameaças sobre o jovem. Estas ameaças em que sentido podem colocar em risco severo o projeto de Deus de vida plena para o mundo? Políticos mal-intencionados, especialmente da bancada evangélica no Congresso, pensam em resolver o assunto com um decreto de punição preventiva da criança e do adolescente, ao invés de ampará-los.
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De fato, o que se busca é um culpado, enquanto adiamos a exigência de mais severidade e eficácia para com o crime adulto, instrutor do crime juvenil. Uma lei estatal que possa transferir essas execuções contra menores, legalmente, para o Estado merecerá os agradecimentos do crime organizado quanto à ajuda desses legisladores. A criança e o adolescente permanecem no rol dos mais desamparados socialmente. E não nos indignamos com isso. Não prevenir danos biográficos psicossociais na infância, adolescência e juventude – na criminalização da criança e do adolescente –, é determiná-los duplamente vítimas permanentes da sociedade e do crime organizado. Eis o foco da questão.
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João é o evangelista que tratou com mais profundidade esse momento de exortação sobre o sentido do amor, indicado por Jesus. Jean-Yves Leloup, comentando escritos joaninos, sugere que na tradição cristã o valor da palavra amor (ahavah), como elemento chave da revelação, indica que este é a luz de Deus revelada neste mundo, e não apenas uma representação de palavras, que é trabalho para exegetas e hermeneutas. É uma questão de representação do mundo, do homem e suas culturas.
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O mitzvah (exercício ou mandamento) do ahavah (amor), no encontro de culturas do Judaísmo e do Cristianismo, sob o helenismo mediterrânico, no Oriente ou no Ocidente, leva imediatamente à compreensão da integridade da vida humana. Trata-se da inteireza da criança, do homem e da mulher. Sem amor, a sobrevivência no mundo da morte (thanatos) equivale a viver “amando como animais”, como lembra Alceu Valença, na canção: “… um cão vagabundo e uma onça pintada /se amando na praça como dois animais”.
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Paulo, “helenizando” a fé cristã, exalta as qualidades de agape, o amor que assume todas as realidades humanas; que integra, faz sujeitos inteiros, e não-divididos. Amor possível sob o mandamento divino. Enfim, o caldo delicioso que resulta das receitas que nos foram passadas desde o início da criação (bereshit), que nos convida ao sentido libertador do amor. Agape é superabundância e plenitude no amor.
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Principalmente, é gratuidade, generosidade, misericórdia, compaixão, solidariedade, capacidade de entender a Graça que vem entranhada e entrelaçada com o amor de Deus. Envolve o exercício do perdão, da reconciliação, do cuidado, da misericórdia, da compaixão, da solidariedade e da salvação do outro e da outra. Martin Buber atualizaria a fórmula platônica do amor numa equação sobre a alteridade Eu|Tu para a concretude exigida no amor: “Eu” sou como “Tu”, e “Tu” és como “Eu” sou. Alteridade reconhecida em igualdade possível somente através do amor. Fernando Pessoa diria: “Cara a cara, olho no olho, eu te olharei com teus olhos e tu me olharás com os teus”.
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Do evangelho uma palavra de Jesus ressalta-se acima das outras. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. João a coloca na boca de Jesus. Por quê? Como negar que, às vezes, as realidades fazem-nos cair no pior dos pessimismos e pensar que não há amor: “este mundo não tem solução”… Precisamente, as palavras do evangelho de hoje são determinantes: versam sobre a batalha do amor contra o caos da moral e da ética atrofiadas.
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Situações duras e difíceis de assimilar, vistas das janelas dos espectadores privilegiados. E nem isso faz sentir-nos afortunados. Somos induzidos a competir e a violentar o outro. Vimos há poucos anos o treinador de natação olímpica espancando diante da câmera uma jovem nadadora australiana, sua filha. Agredimos e violentamos nossos filhos para vencerem custe o que custar.
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Será que a chama enferma de um amor que não é amor, mas ódio, intolerância, inveja, ganância; corrupção de valores essenciais, medo e desconfiança do outro — experimentamos, no Brasil de hoje, o pior momento de nossa jovem democracia, assumindo antivalores como se fossem essências para o  rompimento do estado de direito –, é que nos move? Por que agimos como se o próximo fora nosso inimigo potencial, adversário que precisa ser abatido a qualquer custo? O outro é o próximo, como a criança e o adolescente, neste momento onde se engendram esforços para que paguem pelos pecados da sociedade impiedosa, hedonista, sem misericórdia, dos nossos dias? O que nos impede de compreender o imperativo divino: amai-vos como eu vos amei?

Derval Dasilio

COMO CÃES QUE NUNCA SE FARTAM

Destacado

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PÁSCOA – QUARTO DOMINGO – Ano C
Atos 9,36-43 – Pedro orou e curou Tabita
Salmo 23 – O Senhor é meu Pastor!
Apocalipse 7,9-17 – Seu Pastor vos conduzira a fontes de águas vivas
João 10,22-30 – Deus dá sua vida aos homens através do Bom Pastor

o bom pastorEm regiões desérticas como na Palestina bíblica, a vida ou a morte do rebanho dependia do cuidado do pastor. Levar as ovelhas para campos verdes da primavera, ou para a vegetação seca comestível no verão, e alimentá-las, é sua função. Especialmente quanto às sobras da ceifa já realizada nos campos próximos das vilas e cidades. Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, pois feras do deserto, e eventualmente salteadores, rondam e podem atacá-lo.
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O pastor deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de defesa ou ataque, se necessário for. Dá-lhes segurança ao atravessarem depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de pedras soltas e perigosas onde ovelhas possam resvalar. Sabe a exata distância entre os oásis; conhece as fontes de água onde se pode permanecer para se refazerem as forças… Tudo isso pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência do pastor não mercenário (cf. Jo 10, 12-13; Zc 11, 15), no exemplo do salmista e poeta. O bom pastor continua cuidando de suas ovelhas, busca a ovelha ferida, trata de seus machucados. Busca a que se extraviou, chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a com doçura e carinho.
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O pastor é companheiro. Liga seu destino ao destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as perseguições ferozes. É solidário, mesmo com sol ardente, ou o frio intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas, debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre riscos de agressão pelas feras, ou é ferido e até morto pelos ladrões escondidos à beira da estrada.

O pastor é diferente do mercenário, ele dá a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 15). Ele mantém uma relação de afeto profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem a sua voz” (10, 4.27). As ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão protegidas e cuidadas. Sabem disso (L.Boff).
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É um escândalo, o Bom Pastor dos evangelhos, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “lógica” religiosa. Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele, “veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele, Jesus, escuta nossas súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz Deus por nós.
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Não estamos ante uma ficção com estas palavras. Algo concreto se apresenta: estamos diante do “Doador da Vida”, que também se dá para “manter a Vida”. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! A cruz não é sofrimento inútil. A parte mais difícil, porém, continua sendo as renúncias necessárias e a entrega total à Causa do Bom Pastor! (cf. Jo 10, 3). Jesus conhece os problemas da suas ovelhas. Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos substitutivos que pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.
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Mas a crítica é dura, sempre, aos pastores perversos, como os envolvidos com a ganância, e justificadores de dirigentes e comunidades milionárias. O povo é pobre, mas os pastores e as igrejas são ricos. Perverteram a natureza do pastor –- e da igreja -–, que é de apascentar as ovelhas. Eles se apascentam a si mesmos, com arrogância e desfaçatez (Ez 34, 2.8.16). Consequentemente as ovelhas dispersam e se tornam vítimas da pilhagem, e de “animais selvagens” (Ez 34, 8; Jr 10, 21; 23, 3; 50, 6). O castigo virá sobre eles: “Gemei, pastores, e gritai. Revolvei-vos no pó, chefes do rebanho! Sereis dispersados e caireis como vasos preciosos; não há refúgio para os pastores nem escapatória para os chefes do rebanho” (Jr 25, 34-35; Zc 11, 16-17).
*
Esses textos parecem mostrar situações atuais, como as descritas pela revista de negócios Forbes (cit. Pastores Evangélicos mais Ricos). Como se pode avaliar, bíblica e teologicamente, a figura do pastor suscitaria arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança, à confiança que deve caber aos guardiões do povo. Não ao que se vê a olho nu, hoje. O mais implacável crítico dos pastores do povo de Deus é o profeta Ezequiel. Todo o capítulo 34 do livro de Ezequiel é uma peça acusatória contra os pastores, condutores, dirigentes de Israel, “que se apascentam a si mesmos” (v. 2).
*
Em discurso direto o profeta invectiva: “Bebeis o leite das ovelhas, vestis sua lã e sacrificais os animais gordos… Não fortalecestes a ovelha doente nem enfaixastes a ovelha quebrada. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com dureza e brutalidade” (vv. 4-5), (L. Boff, O Senhor é meu Pastor, Sextante,2004).
*
Pastores notórios, midiáticos ou presenciais, fazem muito dinheiro com a religião, como se a parábola das moedas escondidas resumisse o Reino de Deus (Mt 13,44). Não é a toa que a recente força evangélica pentecostal, que mais influencia a religião histórica, dedica-se tão intensamente à mídia e ao potencial mercadológico das multidões, ou da política*(1). Eduardo Cunha, pentecostal que representa, como presidente da Câmara Federal, mais de setenta pastores-deputados, sabe lidar muito bem com o poder que seus eleitores evangélicos lhe deram.

Mas nem tudo são flores para os pastores que se transmudam em lobos. Platão entendia que o “pastor” humano, o governante, é um esboço (schema) do pastor divino, e deve governar com o senso de justiça, equidade e benevolência própria do Ser divino. Por esta razão se entende porque, segundo o profeta Isaías, Deus chama Ciro, rei pagão da Pérsia, de “meu pastor”. Porque cuidou do bem-estar do povo judeu exilado, permitindo que regressasse à Palestina e reconstituísse o Templo (Is 42, 28).
*
Há, no entanto, uma nota de grande realismo, aqui. Quando se faz referência aos soberanos e reis hebreus como pastores, predominam críticas severas e ressaltam-se os traços negativos dos governantes. O profeta Isaías, por exemplo, os chama de “cachorros que têm enorme apetite, nunca se fartam, pastores que não sabem discernir… cada um visa ao próprio lucro, sem limites” (Is 56, 11-12). Por que não perguntamos sobre isso, e aceitamos o modelo predominante dos dias de hoje?

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*(1). Eleito para novo mandato, estando há 22 anos dirigindo a Assembléia de Deus no Brasil (Mapa das Religiões da FGV: 10.300 milhões de fieis), o pastor presidente declarava: “A igreja evangélica (AD) sai fortalecida em todos os sentidos. Não só como igreja, a religiosa, mas também (a igreja evangélica) no próprio momento político (assunto em destaque: manutenção do dep. Marco Feliciano na presidência da CDHM no congresso nacional, e eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara Federal). Nós estamos mais unidos, mais fortes e dispostos a continuar vencendo”, disse o pastor, praticamente confirmando que sua denominação representa uma facção política nacional coesa, “evangélica”, pronta para assumir seu papel na “condução moral” da nação.

Nenhuma palavra foi dita sobre a frequência de pastores e dirigentes da AD às páginas policiais, presos ou investigados pelo Ministério Público em escândalos financeiros. Mas a lembrança do apoio ao bloco evangélico pentecostal no Congresso não deixou de ser feita. Entre as principais plataformas dos mesmos encontra-se o “direito constitucional” de manter indevassável as contas eclesiásticas e inimputabilidade fiscal de pastores e igrejas, por enriquecimento ilícito. Este é um momento importante, uma vez que uma das maiores denominações pentecostais do país tem dirigentes levados à prisão, processados por sonegação fiscal, improbidade, lavagem de dinheiro eclesiástico, enriquecimento ilícito, enquanto ameaçam testemunhas, promotores e juízes.

Derval Dasilio

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PÁSCOA – 4º DOMINGO – ANO “B” (2012)Em “Sem categoria”

SEM SER RECONHECIDO ESTAVA NO MUNDO

Destacado

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PÁSCOA – TERCEIRO DOMINGO – ANO C
Atos 9,1-20 – Prendam os que invocavam o nome de Deus…
Salmo 30 – Porventura o pó te louvará?
Apocalipse 5,11-14 – O Cordeiro que tira o pecado do mundo.
João 21,1-19 – Estava com eles, mas eles não o reconheciam…

pao_da_vida-10Este capítulo do NT está transferindo a atenção dos ouvintes e leitores da narrativa dos que viram Jesus para uma experiência de vida (João 21,1-14). Os que não viram, mas creem (20,29), são acolhidos com respeito. Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste num sentido: “Cristo é alimento para as multidões” (Jo 6,1-11).

Porém, há também uma multidão que diz que não necessita do pão que sustenta a vida. Compactua com as forças subterrâneas donde emerge o autoritarismo, apelando para medidas extremas, totalitárias. A massa evangélica absorve as manifestações gregárias mais paganizadas que nunca. Participa ou apoia movimentos antidemocráticos, como que convocadas por uma iluminação divina, estabelecendo sentenças condenatórias, como se já fossem representantes do Juízo Final, a quem se coloca, também em nome da fé, em favor do pão para alimentar as multidões famintas de justiça.

Mas Jesus diz: “eu sou o pão da vida”; “ninguém vai ao pai senão por mim”… enquanto a multidão quer coagi-lo ao estilo religioso predominante; a realizar portentos e dar-lhe bens materiais: “…em verdade me procurais porque comestes dos pães e (não) vos fartastes… deveis buscar, no entanto, por outro tipo de comida, a que conduz à vida eterna (Jo 6,26-27). Jesus não se presta em servir à igreja gananciosa (antiekklesia).

Nas últimas décadas consolidou-se o modelo fundamentalista pentecostal de igreja  bem-sucedido estatisticamente –, fortalecendo-se o espírito de intolerância (e ganância), e até da ideologia consumista de ‘produtos’ religiosos. Estes, sempre bem-vindos em grandes e pequenas comunidades, justificam ladrões, estelionatários, encastelam-se no Congresso Nacional, formam quadrilhas que roubam o erário, envolvem-se com o ministério público e a polícia. Propõem insistentemente o rompimento do Estado de Direito, ameaçam a democracia e a República. No entanto, reclamam impunidade, privilégios e exceções constitucionais.

Além de se acharem no direito de pressionar a “nação permissiva” em nome da “religião”. Querem leis autoritárias sobre criminalidade juvenil, orientação sexual, pedofilia, homoafetividade, entre outros aspectos, enquanto ignoram a realidade concreta. Tornam-se também um espaço de intolerância, malgrado o cultivo da diversão e recreação religiosas em comum, no pentecostalismo. A Câmara Federal, com a bancada evangélica assumindo até 75 cadeiras de  deputados, consegue colocar na presidência um deputado acusado de lavagem de dinheiro, manter contas secretas no exterior, sonegação de impostos, e outros crimes contra  a fazenda.

No cotidiano eclesiástico, exigem espetáculos e reality-shows convincentes para os novos fins. Da inspiração fundamentalista, passamos também às ideias da recente igreja e maioria pentecostal brasileira; ao pluralismo litúrgico exorcista que agrega também elementos religiosos afro-brasileiros irreconciliáveis com o cristianismo apostólico, agora negado na religiosidade popular nos milagres duvidosos, curas, quebra-de-maldição, descarrego, invocação de demônios, caboclos, preto-velhos. Não espanta, ao contrário, concilia o que acontece há séculos — ou milênios –, assimilando as superstições e a religiosidade primitivista, ou paganizada, da Idade Média.

Os desafios de uma Igreja cristológica, conforme a tradição apostólica, tomada pela Graça (diferença fundamental nos nossos dias, contra a Reforma Protestante). Contudo, essa comunidade não busca fundamento na religiosidade “moralista”, ou popular, no espetáculo religioso do culto pentecostal comum. Parte das indagações sobre Ministérios, Missão e Serviço, teológicos, embora eclesiásticos. Se buscam as origens, terão o foco na declaração de Jesus sobre seu próprio ministério, missão e oferta de serviço (Mc 10,45), tema gerador dos elementos que orientam a Ação Pastoral da Igreja para as demandas do Reino de Deus, até agora “impropriamente deslocado para o além, para um mundo espiritual interior, ou um paraíso celestial abstrato”. O “paraíso eclesiástico materialista”, a religião mercadológica, confundido com magia e superstição, é uma distorção do culto cristão.

Porém, Jesus disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim, eis que me consagrou pela unção a apresentar a notícia nova aos pobres; enviou-me para publicar a libertação dos cativos (prisioneiros de determinismos e fatalismos) e aos cegos a recuperação da visão (sobre as realidades humanas opressivas), para restituir a liberdade aos oprimidos (pelos sistemas de pensar, a sociedade, a economia, a política e a religião), e para proclamar um ano de graça do Senhor [Lc 4,16ss/ Isaías 61,1e11: ano sabático; jubileu de justiça social, remissão, alforria, libertação de contratos injustos, perdão das dívidas; cf. Deut 15,1-18; Is 61 .1 ss].

Desde a Igreja dos Apóstolos, histórica e teológica, sempre se buscou a totalidade da comunidade de Deus testemunhando a Graça (ekklesia katholica). Se o assunto “ekklesia” é mundo, “oikumene” (mundo em comum); a comunidade é o lugar da “koinonia”, comunhão. Pois só no mundo e na comunhão a Igreja é assunto eclesiástico e ecumênico. Para a existência teológica da Igreja – além da existência histórica ou social, ou econômica, ou política –, “kosmos” e “khaos” são termos extremos e antagônicos, e nunca elementos integrantes (João 3,17: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”).

A antiigreja, porém, foge desse antagonismo, procurando salvar-se, mimetizando-se na paisagem profana de um mundo sem coordenação quanto à ação salvífica do Cristo (“soter ton kosmon”), e beneficiando-se dessa identificação, mergulhando no consenso dispersivo e desviante (“khaos”), propagando e vivenciando religiosidades excêntricas exuberantes, exibicionistas, que caracterizam a “antiekklesia”.

Outras vezes, pensando a igreja como ante-sala do céu, em falsa prosperidade estatística ou material, ou como sobrevivente do inferno – igreja como as comunidades mundanas, “ekklesia tou kosmou”, “igreja do mundo” — iguala-se às assembleias profanas não-cristãs do mundo gentílico, ou greco-romano, onde se expandia a igreja histórica e sociológica em crítica e diferença quanto ao comportamento geral. Prenúncio do que viria ser nos dias de hoje, tão profana quanto as demais.

Por isso, diferentemente, a Igreja era convocada a ser comunidade de testemunho autêntica — conforme a missão, anunciando a justiça de Deus –, centro fundamental da fé nas comunidades restantes (Paul Tillich). Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste num sentido: “Cristo é alimento para as multidões” (Jo 6,1-11). À Igreja cabe testemunhar que  Jesus Cristo é o Pão da Vida.

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NOTA

A narrativa, aqui, está cheia de símbolos vivos. Ela se assemelha à pescaria narrada em Lucas (5,11ss). Primeiramente, sua Epifania (presença divina) não foi reconhecida. (Jesus) estava na praia e não foi reconhecido. Com a interpelação: “tendes alguma coisa a comer?” E a ordem: “lançai a rede…”, o discípulo foi levado a reconhecê-lo. Há uma relação com o acontecimento de Emaús (Lc 24,30): então, quando estavam à mesa, […] partiu o pão e deu-lhes; então se lhes abriram os olhos e o reconheceram. Presença eucarística em comunhão. E por fim: Eis que estarei convosco até o fim dos tempos… (Mt 28,20).

Os textos apontam a presença real de Jesus entre seus seguidores e acolhida à mesa, até que o Reino complete a salvação do mundo, alimentando a justiça de Deus. Os que tiveram a esperança frustrada, na crucificação, sentindo-se abandonados, excluídos e oprimidos, sendo estes estreitamente associados à comunhão da mesa, experimentam a comunhão da comunidade de salvação. No partir do pão está a fidelidade ao princípio cristológico simultaneamente apostólico.

Derval Dasilio

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SOBRE O SOFRIMENTO DOS DOENTES E DEFICIENTES

Destacado

vinde [1] a mim
15o. Domingo Litúrgico – Ano B
Tempo Comum depois de Pentecostes
|||2Samuel 7,1-14a – Andei com todos, nunca excluí quaisquer dos meus filhos ||| Salmo 89,20-37 – Jamais retirei minha bondade e meu cuidado com o sofredor… ||| Efésios 2,11-22 – Lembrai-vos: outrora trazíeis os preconceitos do paganismo |||  Marcos 6,30-34; 53-56 – Jesus age, curando enquanto prega a chegada do Reino
A área da saúde transformou-se num gigantesco complexo industrial e tecnológico com investimentos astronômicos de recursos para pesquisas, equipamentos e treinamento de profissionais especializados. Os protagonistas nesta área de investimentos ganham muito dinheiro e aumentam seu capital, enquanto planos de saúde caríssimos tomam valores correspondentes ao que recebem aposentados e portadores de benefícios previdenciários — recebo, pessoalmente, 780 reais de aposentaria; minha família, quatro pessoas adultas, paga o equivalente a 1.000 reais mensais por um plano de saúde federal –, mais do que ser uma presença motivada por valores humanos de cuidado da saúde dos mais vulneráveis da sociedade (idosos, crianças e deficientes).
É muito preocupante a hegemonia dos “valores” de mercado, sem nenhuma referência a valores éticos de saúde, qualidade de vida e bem-estar social, escreveu Leo Passini. Podemos falar da necessidade de reconhecer-se uma nova forma de cidadania biomedicinal, biotecnológica e genômica, como Nikolas Rose indica. Uma cidadania da vida, portanto. Se podíamos falar de uma cidadania política que evoluiu desde o século 18; de direitos civis garantidos desde então, essa perspectiva nos levaria ao rompimento do véu que encobre os direitos do enfermo ou do deficiente, como cidadãos comuns.
Em todos os momentos da história da humanidade as pessoas portadoras de enfermidades e deficiências foram alvo de comportamento e reações distintas. Muitas delas contraditórias, indicando a exclusão. Em tempos recentes, no entanto, tanto observamos o preconceito que levou o regime nazista a exterminar deficientes físicos e pessoas de etnia judaica, no mesmo plano. Como vimos, reações que tornariam as pessoas doentes e os deficientes alvos de atenção negativamente distinta, ausentes das políticas públicas adequadas aos mesmos.
Pessoas doentes devem ser tratadas de modo humanamente diferenciado, mas não particularizado – quando os mesmos doentes são segregados, como se pertencessem a uma casta estigmatizada socialmente, sem importância política mas tão somente econômica.  Porque têm os mesmos direitos das pessoas comuns, não doentes ou sem deficiências, segundo a medicina secular.
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Nas igrejas, a mesma coisa é dita? Uma irmã idosa enfrentando problemas de saúde e de locomoção, não pode frequentar sua igreja, da qual é membro desde a infância. Por que não há rampa de acesso para cadeirantes ou deficientes em todos os templos e locais de reunião comunitária? Por que, da força de trabalho disponível, as estatísticas estabelecem 10% de desempregados comuns, e 95% para o total dos deficientes disponíveis para trabalhar?
A saúde é hoje um campo de grandes injustiças, desigualdades e iniquidades, segundo Bassini. “Hoje no Brasil, cerca de quatro em cada cinco habitantes depende do SUS (Sistema Único de Saúde), e dos quase 200 milhões de brasileiros, 40 milhões têm planos de saúde. O sistema público de saúde brasileiro tem uma concepção filosófica humanista comunitária maravilhosa, perfeito na teoria. Na prática, o sistema de saúde é um caos em termos de funcionamento. Deveria funcionar bem para atender com dignidade os brasileiros mais necessitados, segundo a sua origem ou classe econômica. Mas o que ocorre frequentemente são cenas de hospitais públicos sucateados e superlotados, gente no chão sujo de corredores de pronto-socorro gemendo de dor e sem atendimento. Filas enormes para marcação de exames ou cirurgias, muitas mortes em razão da falta de atendimento, sendo as pessoas vítimas de discriminações absurdas que negam algo básico ao ser humano, o direito à vida saudável”.  
Não faz muito tempo, também, misturavam-se os tratamentos, sendo que os doentes mentais não poucas vezes eram confundidos com deficientes mentais. Em ambos os casos o tratamento era desumano. Poucos davam atenção aos problemas como distintos, muitos identificavam os doentes como encarnação de um “mal espiritual”. Ainda neste momento, em certas igrejas carismáticas, Deus continua negado como Deus, o totalmente Outro, como diria Karl Barth, para ser aceito somente quando responde às expectativas criadas por pregadores que propõem milagres e curas espirituais. Quanto ao “outro”, enquanto ser humano, só o aceitamos se ajustado à imagem moderna de moços “sarados” e jovens “turbinadas”, frequentadores de prestigiados centros de estética corporal. Não há abertura para o “outro” que evidentemente é “feio”, “diferente”, por causa da doença ou da deficiência física. E nem se fale das oportunidades de trabalho e auto sustentação para portadores de doenças crônicas.
Na Bíblia, as deficiências são entendidas a partir do conceito de “astheneia“, que são entendidas como fraqueza, doença, enfermidade e incapacidade. São muitos os exemplos de pessoas que trazem alguma deficiência e, no entanto, fazem parte da história do israelita que testemunha grandes feitos de Yahweh em favor de todos.  Jacó ficou manco depois da luta com o Anjo em Gn 32,31-33 (o próprio Deus); Moisés era gago, talvez, ou tinha a língua presa (Ex 4,10); Ezequiel por muitas vezes ficou literalmente mudo, mas sua boca se abria, e ele falava, profetizava (Ez,3,22-27; 24,25-27). Toda a história de Jó está ligada à doença e à exclusão do doente. O Servo Sofredor, na teologia de Isaías, assume todas as dores do homem e da mulher (Is 53,7: “Ele foi oprimido e humilhado…”).
* O livro de Marcos, no Segundo Testamento, é pródigo em citações sobre deficientes e doentes que necessitavam de “livramento”, fato que resultava em liberdade e salvação. O apóstolo Paulo deixou uma dúvida perene, sobre uma enfermidade da qual não se livrava… qual era? Um exame da palavra “fraqueza” (DIT, L.Coenen e C.Brawn), nos demonstrará o cuidado com o sofrimento da exclusão dos “feios”, “doentes”, “deficientes”: “suas dificuldades muitas vezes são vistas como um escândalo e uma provocação de problemas para os outros, como um ‘peso’, uma carga a ser carregada; uma dificuldade a ser removida de alguma maneira…” Isso é perversidade nossa, sem dúvida alguma.
Jesus se pôs a atendê-las: trouxeram os doentes para que os curassem. Detenhamo-nos um pouco sobre esse fato: primeiramente os doentes estão impedidos, travados; suas enfermidades os obrigam a dependerem totalmente dos outros. Por estarem enfermos, são rejeitados, excluídos, tidos por impuros e pecadores, porque a mentalidade da época atribuía à doença e às deficiências físicas algum pecado, mesmo que proveniente de fatores “genéticos”, os homens e as mulheres que os trouxeram se identificavam no meio da multidão. A ocasião é propícia para colocar à prova a coerência de Jesus.
Jesus parte da relação cultural existente entre pecado-castigo e enfermidade: “Teus pecados te são perdoados”, é expressão comum, quando cura — ou seja, ninguém é culpado por ser deficiente ou por estar doente. A libertação da culpa está diretamente relacionada com a recuperação da saúde. A sociedade de então estava estruturada sobre a exclusão; às pessoas não lhes parecia poderem encontrar possibilidades de mudança, nem alternativa para a exclusão, salvo a exigente carga de tributos e ritos de purificação a que estavam obrigadas.  Ao mesmo tempo,  exigências rituais inúteis. Jesus resgata as pessoas dessas exigências religiosas e culturais, dos preconceitos, das superstições, no entanto, curando-as em todos os sentidos.
A força oculta, energia real, daquelas pessoas, para que pudessem levantar por si mesmas, superando enfermidades que resultam na paralisia, na culpa e na rejeição social, era lhes dada em livramento e libertação. Revivem, agora. Fazem-se donas de si mesmas, ao levantarem-se e movimentarem-se  por si mesmas, libertas da dependência em que jaziam, e regressam com nova vida aos seus lugares cotidianos, porque experimentaram o cumprimento da Boa Nova salvadora e libertadora. Muitas vezes Jesus dizia:“Vai, agora, e dize aos outros”.
*
Quando João Batista manda seus discípulos conferir o que fazia, dizia-lhes: “Ide, relatai a João o que vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam corretamente, os leprosos são purificados e os surdos passam a ouvir, os mortos ressuscitam: a Boa Nova é anunciada aos pobres” (Lc 7, 22). Acrescentando, poderíamos lembrar-nos de Paulo Freire, que dizia: “Ninguém se liberta sozinho, as pessoas libertam-se em comunhão…”
O Reino não deve ser anunciado somente por palavras e ditos abstratos. Deve também ser construído, embora sejamos somente operários e operárias obedientes às ordens do Construtor, o qual já nos apontou a estrutura de seu projeto para instalar definitivamente o seu Reino. A Boa Notícia deverá ser mostrada em todas as suas possibilidades, nos gestos que expressam sua significação. Estamos diante da unidade evangélica: palavra e ação, teoria e pratica, dizer e fazer. Jesus é o mestre dessa unidade. Seus discípulos também deverão imitá-lo.
*
Temos uma mensagem de salvação na palavra de Marcos, é preciso anunciar o Evangelho do Reino, mas é preciso também realizar, mesmo através de gestos simbólicos, suas significações concretas. O Evangelho não só tem de ser lido, ou pregado, como Palavra de Deus. Deve também ser instrumento para o agir, na vida da comunidade de fé e  para a execução da ação missionária indicada por Deus, no mundo.
Uma ação concreta e eficiente para a recuperação da dignidade das pessoas, entre elas as doentes e deficientes; ação para o resgate dos pobres e dos oprimidos pelos preconceitos, pelas superstições e por imposições ritualistas e sacrificiosas destinadas falsamente à recuperação da saúde e da mobilidade. O compromisso com a construção de um outro mundo possível, diverso deste mundo impiedoso e sem misericórdia, inicia-se em ações que demonstram o que vai ser o Reino. Paulo dirá, sobre a plenitude dos tempos, o Kairós tão aguardado: “agora vemos, apenas, imagens turvas como que num espelho”… Quando o tempo da salvação realizar-se… ah, quando o tempo de Deus chegar!, que maravilha há de ser.  
Derval Dasilio |||||||||||||||||

PENTECOSTES – SUBVERSÃO DOS OPRIMIDOS

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liberdade aos cativosEsses homens, que têm causado alvoroço por todo o mundo, agora chegaram aqui, […] todos eles estão agindo contra os decretos do imperador, dizendo que existe um outro rei, chamado Jesus”. —[…]Atos 17.6-7

Para entendermos o Pentecostes bíblico, é indispensável o complemento (João 14.18-19): “não vos deixo orfãos”, [“orfanus”: des-validos, des-protegidos, des- amparados]). O Reino se destina aos órfãos, acolhe os despojados, despoderados, sem-casa, sem-teto, sem-cidadania, sem- dignidade, sem-justiça, sem-tudo. Em primeiro lugar os que estão sob risco de sobrevivência. Os que padecem de fome e sede; os que estão nus, vulneráveis e atingidos pelos perigos da economia e política de privilégios, políticas autoritárias, fascistas, para os abastados. Os vulneráveis ao mal permanente; os que estão encarcerados nas prisões por causa da opressão da consciência libertária. O Reino se destina aos despoderados e oprimidos, também, os que veem libertação para prisioneiros do fatalismo histórico, do Mal permanente que se acredita irreversível. Mal sempre presente na fraqueza da “fé religiosa”, mas sem esperança. O Espírito de Pentecostes é esperança de salvação.

Cada vez mais enfrentamos este ou aquele grupo que se diz “pentecostal”, ou irmãos que se declaram, agressivamente até, “carismáticos”, porém, ignorando o sentido bíblico do “Pentecostes”. Perdemos o verdadeiro Espírito da Igreja quando nos entregamos ao comum carismático, ou mundo mercadológico da fé pentecostal, que parece ignorar o reino de Deus (justiça, dignidade humana), que precede a tudo. Sejam exorcismos duvidosos (prestidigitação, magia), às curas, prosperidade, “propósitos”; pentecostalismo como respostas à vida consagrada, avivada, e respostas materiais como bem-aventuranças. Assumimos o “pentecostalismo religioso” (ênfase pagã? o “deus ex machina” do pentecostalismo não-cristão antecede sua história através dos mitos da Grécia Pré-Histórica); o pentecostalismo transforma-se numa religião “possuída” por muitos símbolos materiais imediatos, pragmáticos, mercadológicos.
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Atos dos Apóstolos apresenta outra visão sobre a manifestação histórica, aumentando nossa confiança: quando o nome de Jesus Cristo é invocado, ele passa a agir como força mediadora da Graça de Deus (2.1-13; 17.6-7). Ao mesmo tempo, dele emana o Espírito de Deus que se apossa dos discípulos, para que o evangelho da Graça seja pregado. É o reino de Deus que se instala; só depois vem a Igreja. Assim é a teologia de Lucas, no evangelho e no livro de Atos.
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Religiosidade, comunhão eclesiástica, ministérios ordenados, instituições doutrinais, não podem sufocar o suspiro dos oprimidos, no Espírito: “…também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, no aguardo da redenção do nosso ‘corpo’; (…) o mesmo Espírito intercede por nós em gemidos inexprimíveis” (Rm 8.2-3a; 26b), para libertar-nos. A massa de oprimidos poderia buscar uma aproximação com o Pentecostes subversivo, neotestamentário, pois a preferência ao reino de Deus está nos pobres e despoderados, órfãos deste mundo que experimenta o “pentecostes”.
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“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele consagrou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação dos presos aos sistemas de pensar e, aos que vivem em cegueira, a recuperação da visão clara das coisas; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano jubilar de remissão por Graça do Senhor” (Lc 4.18/ rf. Is 61.1). Assim, Jesus inicia seu ministério numa sinagoga da Galiléia. A interrupção brusca, no martírio e na morte, também testemunhados por Lucas, não impedirá a Ressurreição do Cristo de Deus, e com ela as aparições pascais. O próprio Jesus se manifesta como o Cristo vivo, ele e sua causa prosseguem na história dos homens.
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Como podemos explicar este esquecimento do Espírito em nossa experiência cristã, nas igrejas históricas? Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando as Igrejas Históricas, escrevia:
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“O testemunho de muitos (autênticos) pentecostais pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com frequência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social. Porém, continuam pobres e doentes. E, mesmo nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes tem dado. Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento.
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Prossegue, R.Shaull: “Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, pode levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. […] A chave para se compreender tudo isso, que esboçamos como a luta angustiante para sustentar a fé e a confiança em Deus, em meio de tremenda violência e destruição, foi apresentada no final do livro do profeta Habacuque: ‘o justo viverá pela fé’!”.
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Como “consolar” os órfãos da utopia do Cristo de Deus quando a Igreja se apresenta como quem tomou posse do Espírito, senão com a garantia da solidariedade de Deus? Como garantir um final feliz no drama da salvação, ideais transformadores, revolucionários, a justiça de Deus, a vida eterna, sem fim, a morada com Deus, a pátria celestial, cidadania dos céus, no sentido bíblico? “Pedirei ao Pai que vos envie ‘outro parakletos’, companheiro e ajudador, a fim de que esteja ‘sempre’ convosco”; “o Ajudador, o Espírito Santo, (…) esse vos ensinará todas as coisas e ‘vos fará lembrar’ de tudo que eu vos tenho dito” (cf.: Jo 14.16). No grego, o termo “parakletos” oferece extensas possibilidades: defensor, intercessor, advogado, companheiro, protetor e ajudador. Jesus chama-o também de Espírito da Verdade, referindo-se à divina revelação do Espírito de Deus aos órfãos e viúvas. Estes, os oprimidos, certamente, esperam impacientes o seu Pentecostes redentor.

Derval Dasilio: É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância” (2013) e “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

O AMOR COM VERDADE E JUSTIÇA

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desenho pássaro - japan

[-]COMENTÁRIOS: 6o. DOMINGO DA PÁSCOA[-]
Salmo 98 – Ele vem julgar a terra com amor
1João 4,7-21 – Deus nos amou primeiro
João 15,9-17 – Amai-vos assim como eu vos amei
Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo (Is 5,20).

Oração: “Senhor, que o amor seja em nós como o raiar do amor, Sol da justiça, um acontecimento que suscite uma solene música nas profundezas de nossa natureza humana; um acontecimento em que o nosso ser inteiro, corpo e alma, se ponha em harmonia com os cosmo, para que possamos louvar-te a cada dia, libertados e agradecidos. Amém”.

O verdadeiro amor não é mera abstração. O amor não se submete à degradação da vida humana. A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas da TV? Ou filmes em cartaz: “Terapia do Amor”; ou nos romances rasteiros disponíveis nas bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é o amor platônico, “abstrato”, filosófico. Seria este o amor do qual João nos fala? Os valores prioritários que invocariam, antes, a possibilidade de amar a fidelidade, a autenticidade, a honestidade, a plenitude do amor, quem sabe. Em comparação com essas virtudes e considerações tradicionais, o que assistimos é uma grande inquietação sobre a “desordem amorosa” que tomou nosso tempo. “Quais são as prioridades do amor?”, perguntaremos insistentemente.

O amor sem igual, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”. Por quê? Porque João vai além, acrescentando, quando escreve o que sai da boca de Jesus: “…amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Um manual de regras sobre a prática do amor poderia muito bem ser pregado numa cruz, e estaria bem posto, e escrito na capa: “Cruz – Mandamento do Amor”.

A cruz pode ser também a medida do ódio, da inveja e do orgulho, de emoções que transformam as pessoas. “Até os animais sentiriam isso”, explicaria o Dalai Lama, mestre budista, sobre a natureza bruta dos seres: “Enquanto a fé cristã luta por extinguir o pecado, o budismo quer suprimir o sofrimento causado por tais sentimentos”, seguramente sob um duvidoso acordo semântico, poderia ser visto aqui. No entanto, para os cristãos, a história da cruz, escrita com o sangue dos mártires, chega até à nossa miséria profunda, nossa ignorância, denunciando a incapacidade de compreendê-la como expressão do esvaziamento (do poder) de Deus em Cristo, por puro amor à justiça.

A cruz de Cristo está fincada entre inumeráveis cruzes enfileiradas junto aos caminhos dos torturados e torturadores , violentados e violentadores, como diria Jürgen Moltmann. Do Circo Romano à Prisão Tiradentes, Carandiru, Serra Pelada, Curumbiara, Eldorado dos Carajás, Catedral da Candelária, o amor revelado na cruz mostra-nos Jesus Cristo como o companheiro de sofrimento de todos os oprimidos e abandonados, massacrados, torturados e violentados deste mundo.

O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia na antiguidade – e nos apoia a história do Brasil imperial ou recente, e do autoritarismo das tiranias: Tiradentes esquartejado; insurgentes como Paulo Wright, Anivaldo Padilha, Dilma Rousseff, Eliana Rolemberg – tal qual a demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora.

Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, e quantos mais?, também sofreriam o martírio pela causa de Deus. A ressurreição, como nos lembramos, também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar: os mortos voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do frio inverno. A questão está sob o juízo de Deus. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. São a semente (sperma) de um mundo transformado. Os torturados e assassinados pelos poderes deste mundo têm no Cristo ressuscitado o símbolo desse amor pela justiça, a exemplo do insurgente rev. Jaime Wright (Pastor dos Torturados, Derval Dasilio)*. A solidariedade de Deus estava no Cristo morto, crucificado, trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça de Deus.

Trata-se de um amor libertador, o de Cristo, e ele o leva ao extremo, porque visa a libertação de homens e mulheres das injunções estruturais, poderes opressores (políticos, econômicos, religiosos), sistemas de pensar que “eternizam” a injustiça e desviam seus direitos fundamentais para  fins de dominação e servidão: “Eu vos ordeno: amai-vos [’agapâte]  uns aos outros”.  Há um mandamento que requer obediência, e o amor filial de Jesus, por fidelidade, leva-o a cumprir e exigir obediência ao imperativo divino, ao mesmo tempo (E.Brunner, Divine Imperative).

Este amor escrito com o apoio de verbos dinâmicos, exige a práxis, está provado. Não cuida somente das nossas relações cotidianas. Ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa que se busca em boa vizinhança, ou na estabilidade familiar ou  conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo do amor justo e misericordioso, como é o amor de Jesus Cristo, nosso Senhor. O escravo (doulos) do amor serve à justiça de Deus, acima de tudo. Deus é amor, disse João. O evangelista nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este. Amor que liberta, destrava, deslancha cada um de nós para o exercício da liberdade, estrutural e sistematicamente na direção da liberdade e da justiça.

Derval Dasilio

[Nota: Um paradoxo, o texto joanino. Sua síntese poderia levar-nos à ideia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías 5, que coloca a ação concreta no campo do amor justo e ao mesmo tempo misericordioso de Yahweh (ahavah = amor que palpita no peito de cada um); que o fruto esperado seria a prática da justiça para o exercício dos direitos fundamentais do homem e da mulher, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). ] [-][-][-]

DA MULHER OPRIMIDA

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desenhoDA MULHER OPRIMIDA
João 14, 1-14 – Na casa de meu Pai há muitas moradas…

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe concedam o alcance gota-a-gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade masculina contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusivismo de gênero.
*
A presença visível perceptível, “theofania“, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade. Isso é mais e maior que tudo. Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”.
*
O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se com justiça por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”. Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais. Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia e dos bens essenciais, também são ignoradas, no mais das vezes.
*
Mulheres vestindo a pele do predador não constituem novidade, a exemplo daquela pesquisa recente sobre o consentimento do estupro (IPEA – Folha de S. Paulo – 2014/04/14). Consequência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade autoritária. Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher e suas responsabilidade. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou, pervertida, sendo solidária com o explorador e dominador. Tantas mulheres envolvidas com a cidadania privilegiada contra a cidadania insurgente… Tantas mulheres apoiando a opressão, governo que subtrai direitos fundamentais, congresso que serve aos donos da economia e do poder, juízes prontos a servi-lo subservientemente…
*
Perigos de guerra, comoções, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca de direitos, da democracia, da justiça e da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres, de igual modo. Por que os gastos exorbitantes com a propaganda governamental? A igualdade econômica, o combate à miséria, a distribuição de renda entre os famintos e miseráveis, as questões que envolvem a justiça do trabalho, da previdência, a urbanização humanizada e mobilidade urbana, não interessariam à mulher? Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários.
*
Quando Paulo fala do sofrimento como synodinei, “dores de parto” (Rm 8,18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto” (Helen Shüngel-Straumann). Talvez só ela saiba… Maria, mulher exemplar no Evangelho, dá à luz uma criança que vem para simbolizar todas as liberdade. Com dor. Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação, pelo parto do Salvador.
*
Jesus diz a seus discípulos que vai partir e isto não deve perturbá-los porque vai para poder depois levá-los e tê-los sempre consigo, para preparar-lhes um lugar na casa do Pai, uma “grande casa” onde cabem todos, homens, mulheres, crianças (João 14,1-12.). Sobretudo os mais pobres, que “nunca tiveram uma casa própria”, sem-teto; filhos e filhas pródigos e pródigas. Os que desejam regressar ao acolhimento do Pai. Fiéis que souberam carregar o peso do trabalho e as cargas da vida, encontram repouso. Escorraçados, despoderados, abandonados pelos poderes humanos e pela religião, têm “uma casa para abrigá-los, protegê-los, e dar-lhes segurança”. Para chegarem à casa paterna precisam, homens e mulheres, de um caminho, de uma lâmpada quando chegar a noite.
*
O Deus da gratuidade é exemplar. Nele identificamos também o desejo de perdão, ao invés da vingança, ou da represália, quanto aos pecados cometidos na estrada da vida. No seu acolhimento existe interioridade e fascinação indescritíveis. O Salmo 36 (8-10) expressa com segurança essa certeza: “Ó Deus, quão preciosa é a tua graça. Os filhos e filhas dos homens e das mulheres se refugiam à sombra das tuas asas. Saciam-se da abundância da tua casa”. Assim, homens e mulheres mostramo-nos deslumbrados por esse Deus das muitas moradas, quedâmo-nos perplexos pela grandeza do teto dessas moradas, o céu estrelado, a amplidão do Universo, o finito confundindo-se com o infinito, a eternidade da vida, onde está o Reino de Deus e a vida eterna.
Derval Dasilio
5o. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A – 2014
Atos dos Apóstolos 7,55-60 – Eu só ouvia, agora o vejo à direita de Deus
Salmo 31,1-5; 15-16 – Não seja eu a te envergonhar, Senhor
1Pedro 2, 2-10 – Vós sois a raça escolhida, o sacerdócio do Reino
Texto:  Derval Dasilio  []

JOGANDO A CEIA NO LIXO

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“Este pão é o meu corpo… comei-o em memória de mim”. No momento em que esta declaração é pronunciada (Lc 24,13-35), Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
*
Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos, protestantes e católicos? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?
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Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial da Eucaristia, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com o carnaval, o futebol, as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem, já perdida no tempo histórico. E, nesse momento,  pensamos no Pão da Vida, o pão da Eucaristia…
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Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta. No momento em que a maior parte destas declarações é pro­nunciada, Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.
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A Ceia do Senhor não é irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão. Por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as instruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?
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“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem.
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A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” (negação da Graça) contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido.  Enquanto isso, a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil. O avivamento pentecostal  seguia o mesmo roteiro, entre católicos, protestantes e evangélicos recentes. Aparentemente. Porque, no fundo, dividiu o povo cristão ainda mais profundamente.
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Desde os anos 80 (séc.20), se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir dos séculos iniciais. Falava-se, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo e fundamentalista.
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A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo.
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A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.
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Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial, entre si e com o Senhor, reunidos à mesa comum, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé na unidade foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127,2), mas “com alegria” (Ecles 9,7). Em Eclesiastes 8,15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2,25). A Eucaristia cristã busca tão somente a alegria da comunhão em torno das oferendas para a comensalidade que anuncia e já comemora a vinda do Reino de Deus.
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Páscoa – Terceiro Domingo – Ano A
Atos 2,14;22-41 – Não era possível que a morte o subjugasse.
Salmo 116,1-4 (12-19) – Sofria… horrores supulcrais me tomavam!
1Pedro 1,17-23 – Resgatados pelo precioso sangue do cordeiro
Lucas 24,13-35 – Reconheceram-no ao partir o pão: Ele está no meio de nós!

Derval Dasilio : O EVANGELHO DE MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO

SOBRE A SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Destacado

 

[[[ Reflexão sobre a Sexta-Feira Santa ]]]
Durante o ano eclesiástico, a Sexta-Feira Santa é uma data muito significativa para os cristãos. Ela vem marcada por vários rituais. Começa que as pessoas apareciam [aparecem?] no culto trajando preto, comiam [comem?] peixe, observavam [observam?] um silêncio respeitoso – claro, trata-se da “sexta-feira silenciosa”.
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Falar um pouco menos, numa ocasião dessas, parece ser a parte boa da coisa, ainda mais na Igreja Evangélica, a “Igreja da Palavra”. Pois o motivo pelo qual nos reunimos hoje nos inquieta – espero! Se é que já não estamos insensíveis às frases feitas, no contexto da igreja. Na Idade Média, as pessoas exclamavam, diante da crucificação de Jesus Cristo: “Ó horror, / o próprio Deus está morto”. Mais tarde, essa frase foi modificada para: “Ó imenso horror! / O filho de Deus está morto” (F. v. Spee). Essas falas sobre a morte de Deus, desde o séc. XIX, não são novidade. Quando as pessoas percebem isso conscientemente, fica claro que a Sexta-Feira Santa é um desafio complicado para comunidades e pregadores. Na Igreja dos primórdios, as pessoas comparavam esse dia a um mar indecifrável e sem contornos definidos. Acabo de ler que nós o compreenderemos apenas no dia do Juízo Final. Creio que constatações desse tipo valem a pena para refletir sobre o dia de hoje. Consideremos, por ora, três aspectos:
I.

Frequentemente, Deus é visto como profundamente ofendido pelos seres humanos. Afirma-se que ele se sente tão magoado em sua honra pelo ser e comportamento autoritário e arrogante das pessoas, que apenas a morte redentora do próprio filho seria capaz de apaziguá-lo. Bem, deveríamos ter claro que Deus não permite a nós, suas criaturas, fazer e deixar de fazer o que quisermos, sem maiores consequências. Mas o problema é bem mais grave. A Bíblia ressalta: somente Deus conhece a verdadeira extensão de nossa vontade própria, nossa imensa rebeldia contra ele, contra os outros e contra nós mesmos. Nós não percebemos isso. Nesse sentido, boiamos na superfície.
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M. Luther formula assim: “Onde não há fé verdadeira [i.e., aquela presenteada por Deus], nosso coração olha feio para Deus e pensa: eu queria que Deus não fosse Deus. Nem queria que ele existisse, para eu mesmo poder ser Deus“. Se Deus quiser, ele leva as pessoas a confessar: “Somente diante de ti [Deus] pequei / e agi mal em tua presença“ (Sl 51.6). Essa é a confissão primordial das pessoas libertas por Deus, através da fé nele. Reconhecer o pecado e confessá-lo é a consequência dessa fé.
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De fato, Deus se zanga. Ele não é destituído de afetos, não é frio de coração. De jeito nenhum ele “habita como pai amado sobre a abóbada celeste” (F. v. Schiller). Ao contrário, “terrível é cair nas mãos do Deus vivo“ (Hb 10.31). Também isso faz parte da confissão daqueles que se encontram na fé presenteada por Deus. A fé, em termos bíblicos, não é alguma ideia ou sentimento, e sim um duro desafio, que constantemente nos desequilibra: estaríamos perdidos se Deus não nos chamasse a si em seu amor mais essencial. É exatamente diante desse desafio, a partir da fé, que se nos revela o abismo sem saída que existe em nós mesmos – e nós conseguimos suportá-lo.
II.

Jesus se zanga e castiga. Ele não age segundo o método “Deixa-pra-lá“. É por isso que ele amarra não só indivíduos, e sim povos inteiros, às consequências de sua maldade, e então os abandona à própria sorte (Rm 1.18-32). Os moralistas acham correto que “o mal necessariamente gera sempre mais mal“ (Schiller). Com isso, eles se referem à “relação interna entre o agir e sofrer as consequências” (B. Janowski). Pode-se relacionar isso ao ditado derivado da experiência coletiva: “Cada um molda a própria felicidade, ou infelicidade“.
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O destino construído apenas pelo ser humano está presente em tudo. Ele nos assalta de tempos em tempos. Torna-se nossa desgraça porque Deus deixa as coisas correr – quando não as acelera. Desse modo, ele traz à luz o quanto estamos perdidos em e através de nós mesmos. O destino auto-construído está preso em nós. Estamos tomados por ele até a medula – e mesmo assim não nos damos conta de seu abismo sem fundo. Seja lá o que tentemos – alguns o encaram corajosamente como prova de resistência, outros se rebelam em desespero, ainda outros toleram tudo apaticamente, ou mesmo se deixam levar – não adianta: ninguém escapa do destino de si mesmo, do “sofrimento mais pessoal” (P. Gerhardt). Vivemos nosso destino cegos e fechados, mas diante de Deus ele está bem claro e transparente.
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A ira de Deus é um fato. Dentro, com, sob a nossa confusão indeslindável, Deus age julgando. É preciso deixar isso claro – e tê-lo bem presente – na Sexta-Feira Santa. Mas também é preciso confessar alegremente: Deus julga – segundo sua justiça! I.e., Deus sai de seu esconderijo e nos reconcilia conosco mesmos. Também a Bíblia afirma: ele se converte a nós, para que nos convertamos a ele (1 Pe 2. 25). Deus coloca sua honra em reconciliar-se conosco, em converter-se a nós. Luther insiste: Deus é quem vem a nós, não somos nós que vamos até ele. Quem acha que consegue fazer as pazes com Deus acaba por desonrá-lo. Quem acha que consegue converter-se a ele a partir de sua própria razão e força, cai na pior armadilha que existe: a ofensa de Deus.
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Deus demonstra a obra de sua reconciliação conosco, de sua conversão a nós, de sua vinda até nós, quando “envia Jesus de Nazaré, seu filho unigênito, nosso Senhor” (Mc 12.1-9 par.). Ele nem lhe prepara circunstâncias especiais para tanto. Ao contrário, ele o joga para dentro de nossa realidade tal como ela é, “repleta do poder do pecado e da morte – sem medo de se contaminar“ (M. Theobald). Em, com a através da luta de Jesus – “no meio da noite infernal / consumado está“ (O. Riethmüller) – Deus mesmo se reconcilia conosco, volta-se ele mesmo a nós, vem ele mesmo até nós.
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A nós, Jesus dá a tarefa de nos dedicarmos a todas as pessoas e a cada uma em particular, diretamente, da seguinte forma: “Confia em mim; / eu me entrego totalmente por ti; / pois eu sou teu e tu és meu,/ e onde eu ficar, lá deverás estar”; / nada nem ninguém “nos vai separar“(Luther). Seu consolo nos faz responder: “Eu estava e continuo preso / a Cristo, como um membro seu; / por onde passou meu líder / ele junto me levará. / Ele passa através da morte, / do mundo, do pecado e da dor, / ele passa através do inferno, / seu companheiro serei” (Gerhardt).
III.

Jesus Cristo entra em nossa realidade. Ele nos vivencia tal como somos. Deus não o poupa, mas o entrega a nós. Deus não se ilude a nosso respeito. Ele observa como nós recusamos e xingamos Jesus, como nós o maltratamos e matamos. Deus não interfere, ele se recolhe em si mesmo. Essa é a ação de Deus no destino de Jesus de Nazaré.
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Este, por sua vez, aposta com alegria toda sua existência e desiste voluntariamente de qualquer defesa (Jo 18.2-11 / Mt 25.51-6; Jo 19.1-15). “Ele desiste de todo o seu poder / torna-se pequeno e humilde / e assume a imagem de servo / o criador de todas as coisas.” (Fl 2. 6-8). Assim é Jesus Cristo. Ele dispõe apenas de sua palavra e de sua vida – e as entrega. Ele sabe que agressões e inimizades, sofrimento e morte fazem parte da tarefa dada a ele. Ele não revidou a ofensa ao ser ofendido, não ameaçou quando estava sofrendo, mas confiou tudo àquele que julga com justiça” (1 Pe 2.23).
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Jesus Cristo é o ser humano, o “verdadeiro ser humano” (Luther). Ele faz questão de ser humano (ecce homo: Jo. 19.1-5), “até a morte na cruz” (Fl 2.8), na morte na cruz (Mc 14.33-42; 15.34-37). Em sua paixão, sua humanidade adquire o contorno decisivo. O homem de Nazaré afirma radicalmente que sua existência passa a ser a pró-existência dos seres humanos. Ele percorre o caminho perpétuo até a cruz. Deus lhe revelou: diante da realidade dos seres humanos, essa é a única forma de tornar seu servir eficaz – “dar sua vida em favor de muitos [= todos]” (Mc 10.45; cf. v. 42-45). Nisso consiste o centro do testemunho neotestamentário acerca de Jesus Cristo. * Portanto: não é Deus quem joga Jesus de Nazaré na dor e na morte, e sim os seres humanos. Nós somos os responsáveis. Nós preparamos a sua sexta-feira da Paixão. De fato – “deu certo, conseguimos”. Deus não apoia de forma alguma a ação mortífera dos crucificadores. Ao contrário, ele apoia o crucificado, mais do que isso: ele se identifica com ele, Deus se faz crucificar junto. Dessa forma é que surge o ser radicalmente diferente de Deus.
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Este é o cerne divino. Ele diz respeito às pessoas, atingindo-as. A livre auto-revelação de Deus ultrapassa todos nossos limites e projeções. Ela puxa totalmente o tapete debaixo dos pés de quem ela alcança.
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“Não é em função de um Deus ofendido, que exige reparação, que Jesus ‘tem de’ sofrer“ – confessa a fé cristã – “mas em função dos seres humanos que não o aceitam e aos quais ele ‘serve’ por toda a sua vida”. A paixão de Jesus revela profundamente “o segredo do amor divino entre pai e filho“. Ele consiste no fato de que eles não querem “estar juntos sem o mundo decaído e teimoso” (R. Feldmeier).
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Isso derruba nossas estruturas, porque acontece por nossa causa. “Por nossa causa” tem um significado sem precedentes. Por um lado, afirma-se: nós provocamos a crucificação de Jesus Cristo. E logo: Deus inverte essa situação em nosso favor. Este é o duplo aspecto da paixão de Deus na Sexta-Feira Santa. *Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mostra, em sua representação da via crucis, algumas pessoas que acompanham Jesus até o Gólgota. Cada uma leva consigo uma ferramenta que será útil para matá-lo. Entre elas, um menino agarrado num prego quase do seu tamanho. Terrível – até mesmo uma criança participa da crucificação de Jesus Cristo. Com qual prego nós pregamos Jesus Cristo na cruz? Esta é a pergunta da Sexta-Feira Santa para nós.
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Jesus Cristo pede ao pai: “Perdoa-os, porque não sabem o que fazem“ (Lc 23.34). Deus, também nosso pai através de Jesus Cristo, escuta-o. E Jesus Cristo finaliza: “Está consumado“ (Jo 19.30). Numa igrejinha de mais de mil anos, junto ao rio Main, há sobre o altar um crucifixo feito por um desconhecido. O rosto do crucificado mostra um levíssimo sorriso. Esta é a mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa. *Luther resumiu assim: „Se eu não puder crer / que Deus perdoa minhas falhas diárias [na expectativa de Deus] / em nome de Jesus, / acabou-se tudo para mim. / Vou desesperar como Judas Iscariotes. / Mas não chegarei a esse ponto. // [Antes], agarrar-me-ei ao pescoço ou aos pés de Cristo, como a pecadora (…). / Mesmo que eu seja ainda pior que ela / agarro o meu Senhor. / Então ele dirá ao pai: / esse chato também deverá passar [por teu julgamento]./ Ele nada cumpriu e transgrediu todos os meus mandamentos. / [Sim, sim] pai, mas ele se agarra em mim. / Que importa? Morri também por ele, deixa-o escapar. / Essa é [conclui Luther] a minha fé.”
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A mensagem de alegria da Sexta-Feira Santa nos é assegurada performativamente no perdão dos pecados, após a confissão comunitária e/ou individual. Ela nos é dada fisicamente na Ceia do Senhor. Por isso, a confissão, junto com a absolvição e a Ceia do Senhor, faz parte da Sexta-Feira Santa. A morte de Jesus Cristo aconteceu “de uma vez por todas” (Rm 6.10; Hb 7.27); seu efeito salvífico nos alcança e nos envolve totalmente, aqui e agora. Ela nos coloca na sucessão de Jesus Cristo, “o príncipe de nossa bem-aventurança”.
Texto: V. E. Löscher
Tradução: Erica Ziegler

É MORRENDO QUE SE VIVE

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semeando Estamos diante de “paradoxos” do evangelho? “Perder” a vida por amor, morrer, é a forma de “ganhar” a vida eterna (ou seja, ir de encontro aos valores definitivos do evangelho de Jesus). “Morrer para si mesmo é a verdadeira maneira de viver; entregar a vida é a melhor forma de retê-la; dar a vida é a melhor forma de receber a vida eterna, hoje e sempre” (Paul Tillich). Paradoxo é uma contradição aparente, como perder ou ganhar, morrer ou viver, entregar ou reter, dar ou receber, desabrochar ou murchar, amadurecer ou apodrecer. Parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas não são. São parte da existência concreta.

Descobrir o evangelho, para João, é alcançar novas sensibilidades, neste plano terreno. O húmus encarrega-se de dar vida à semente que morre e forma novas raízes. Saberes, conhecimentos, símbolos, significados, valores, sentimentos, emoções, sensibilidades, são eixos de orientação que precisamos aprender, enquanto morremos para o mal (Carlos R. Brandão). Precisamos ser capazes de sentimentos, de curtir emoções, de ter alegria, de ouvir uma sinfonia e distinguir os sons que vêm da música, das vozes da justiça; perceber os murmúrios da solidariedade sem medo, sentir o calor do amor, da ternura, da compaixão. Exatamente quando buscamos o sentido do evangelho de Jesus sobre a semente que morre para ressuscitar a vida ameaçada todos os dias.

O grão de trigo entrega-se à morte, enterra-se, perde-se, ou “ressuscita” para ser fecundo? A mensagem que Jesus propõe, é uma “revelação” vinda do alto, à qual nunca poderíamos chegar se ele não tivesse manifestado aos crentes: se o grão de trigo não cai na terra, morre, desaparece infecundo. A condição da fecundidade é saber morrer para muitas coisas, e ressuscitar para outras, como nos lembrará, também, Paulo, o apóstolo e mártir do evangelho de Jesus Cristo. Tratamos aqui a descrição das sementes e das raízes do evangelho de Jesus sobre a ressurreição. O Evangelho fala de gestos fundadores da vida humana na partilha do amor, como poderia dizer Roland Barthes.

Esta parábola apresenta uma vez mais, de outro modo, a lição fundamental do Evangelho inteiro, o ponto máximo da mensagem de Jesus: o amor concreto, solidário, cooperativo; o amor que reforça o primado da pessoa e da vida; o amor que se dá a si mesmo em renúncia, e “perder-se a si mesmo” em entrega sem medo. O amor fecundo que, por esse perder-se, morrendo para si mesmo, enquanto se gesta a vida nova em ressurreição do ser inteiro, é o amor sem fronteiras. Como é também um poço profundo no qual nenhuma sonda encontra o fundo.

Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.

Uma vez, Carl Jung, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dinâmica na obra da criação, mesmo dentro do caos. Porém, isso não explica a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o “oitavo dia da Criação”, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza, que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita.

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pôres-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba. Um rio que, na verdade, é um “caminho que corre sem mais um adeus”, no verso da canção.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, contrastam com o silêncio da floresta que demora para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos e milênios um silêncio que abriga gerações de pássaros, de árvores, flores e frutos, enquanto tombam as árvores que morrem. Silêncio que faz crescer o respeito à natureza de todos os seres, o amor à beleza. Principalmente, silêncio que conduz à humildade diante do infinito e das coisas eternas. As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”.

Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos”.

Derval Dasilio

QUARESMA – 5º Domingo – Ano B
Jeremias 31,34 – A Lei de Deus não está num livro de papel…
Salmo 107,1-3;17-22 –  Salvos protestam contra o sofrimento de todos
Hebreus 5,5-10 –  Foi Cristo que orou pela salvação de todos
Evangelho: João 12, 20-33 – Se o grão de trigo morrer, produzirá muito frutos

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DINHEIRO E RELIGIÃO, UMA COMBINAÇÃO PERVERSA

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RELIGIÃO E DINHEIRO NÃO COMBINAM…
3o. Domingo da Quaresma – Ano “B”

dinheiro É preciso recuperar nossa capacidade de julgar, em tempos sombrios; é preciso devolver a dignidade humana, quanto ao uso do dinheiro. Do mesmo modo, a ideia essencial do mistério humano, sejam quais forem as pessoas. Além da massa popular, o eleitor, o homem da esquina, as celebridades do esporte, os atores amados pelo povo. Conforme a cor da pele, classe social, nacionalidade; grandes homens e mulheres; importantes da elite social e política, magistrados, governantes, mas também a multidão de figurantes, extra-enredo oficial, os indivíduos estatísticos, todos estão envolvidos com esta questão.

Políticos e religiosos comparecem ao palco privilegiado da mídia graças à democracia que lhes permite acesso à massa, e assim têm oportunidades ilimitadas de manipular e interessar a opinião pública a seu favor, ao mesmo tempo. O assunto dinheiro, riqueza e poder, ganha as tvs, revistas e jornais em altas cotações, enquanto, em contraste, as questões de cidadania, e direitos fundamentais da coletividade, despertam pouco interesse, senão indiferença. Os contrastes se estabelecem somente quando assuntos provocam comoção, em assuntos que sensibilizam milionários e pessoas comuns, quando um rico empresário tem alguém da família envolvido num crime ou acidente com alguma personalidade notória.

Ou seja, todos aqueles conceitos ilusórios ou superficiais, construídos por marketeiros, que se apresentam como democratas (na verdade, oportunistas da informação), difundindo a noção de que informam sobre tudo que há para saber, e o que não sabemos eles sabem, sobre as pessoas e suas necessidades. Camuflam a realidade verdadeira do desespero do homem comum em busca de sobrevivência num mundo insensível e sem misericórdia. Finanças e dinheiro comandam a vida moderna. Com Norman O.Braun, seria melhor considerarmos que o homem é o único animal que se oprime a si mesmo.

O dinheiro, portanto, torna-se instrumento de opressão. Financeiras e bancos não permitem que qualquer um de nós sobreviva sem um “credicard” à mão. “Vivemos numa sociedade sitiada pelo dinheiro”, lembra Jurandyr Freire. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O dinheiro nas metrópoles, dizia Georg Simmel, já no início do século 20, com toda ausência de cor e desinteresse, “torna-se o denominador comum de todos os valores; extirpa irreparavelmente a condição essencial das coisas, das individualidades e seus valores específicos, de impossível comparação”: o dinheiro, como função social, na essência, deveria atender às necessidades básicas, moradia, saúde, escola, alimentação e locomoção para o trabalho ou para o lazer. Porém, todas as coisas flutuam num campo de gravidade onde o dinheiro funciona como um ímã convergente, apenas se diferenciando no tamanho da fortuna, quantidade, e área de abrangência da mesma. Lutero, em seu tempo, já identificava o dinheiro como agente do diabo. A fim de aumentar sua renda, dizia, o “capitalista” (agiota) deseja que o mundo inteiro se arruíne e que assim haja fome, sede, miséria e necessidade; dessa forma, todos dependerão dele e serão seus escravos, como se ele fosse Deus.

Porém, a mulher “navegaria por mares diferentes”, pensam alguns. Investigaria melhor seus enigmas, contradições, fracassos, fantasias, energias existenciais, enquanto procuraria um continente não mapeado, que é a razão da existência de seu corpo, sua finalidade, além da procriação e da multiplicação da prole. E, principalmente, o custo emocional de manter-se uma família. Até que ponto isso é verdade ou inverdade?

Diz-se também que o homem, portador da masculinidade clássica, transita com mais desenvoltura no mundo do poder e do dinheiro; do bom desempenho sexual; na busca e exposição de prestígio e sucesso, social e financeiro. Temos dúvidas, a respeito disso. A economia arcaica, tribalista, que não usava o dinheiro como lucro, nem como meio de remuneração do trabalho, poderia informar-nos melhor sobre os papeis masculinos e femininos através do tempo, enquanto padrões de status e desempenhos sociais de ambos os sexos.

De fato, o que Jesus encontra é o Templo, e a religião, transformados em comércio. A religião de mercado se impõe. Pastores imaginam que são empresas e mercadores, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Não se define mais, separadamente, o que é “crente” ou “cliente”. Sacerdotes cuidariam dos aspectos “legais” da exploração das ofertas compulsórias dos fieis (burlando as leis do país). Hoje, o Ministério Público tem alcançado inúmeros religiosos que fazem das igrejas balcões de negócios. Alguns cumprem pena por crimes fazendários.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, em nome da religião, dirigentes sabiam muito bem manipular em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso mostra que chegaram tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós) e seu reinado voltado para a justiça ao pobre, tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio. As pombas eram compradas para o sacrifício, pobres pagavam muito caro “para ter acesso a Deus” (cf. João 2,17). Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”.

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NOTA EXEGÉTICA
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[João 2,13-22] Três semanas antes da Páscoa (greg. pásca/heb. pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado. A organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”! Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas atuavam paralelamente, à vista dos sacerdotes.
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Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêm se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o dinheiro e poder religioso serão responsáveis pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, destruindo o poder que gera morte.
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As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado, porque ele está em oposição ao Templo. Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22). Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini, Evangelho de João, Paulus, 1994). Em Jesus a dignidade da própria religião é resgatada. Se ela respeita a humanidade em suas diversidades, cada participante pode compreender-se dentro do projeto de Jesus. Sem explorar o pobre.
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Seu corpo ressuscitado, sua presença na vida humana, é o novo Templo. Corpo que não pode ser comercializado, transformado em dinheiro. Esse templo, novo, ressuscitado, sinaliza as novas estruturas de justiça para todos. Não há lugar para remendos, religiões interesseiras, oportunistas — pois se apoderam das fraquezas populares, como a ganância –, suas superstições e práticas de magia e ilusionismo para impressionar a massa. Suas liturgias, sem envolvimento com os sentimentos da fé verdadeira, corrompidas por interesses políticos e econômicos, se desmoronam diante do Corpo do Ressuscitado: o novo Templo onde Deus habita; “… pois misericórdia quero, e não sacrifícios que queiram comprar a prosperidade para alguém”.
é o novo Templo
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Derval Dasilio
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3º.Domingo da Quaresma – Ano “B”
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança
Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos
1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro
João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…
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QUARESMA – ENTREGA INCONDICIONAL A CRISTO

Destacado

QUARESMA – 2o. DOMINGO  – ANO ‘B’
Gênesis 17.1-7 – Cada um levará na própria carne a marca da pertença ao seu Deus / Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento / Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança
|Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la|

“Penso que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades que exércitos inteiros prontos para o combate. Se o povo americano permite um dia que os bancos privados controlem a sua moeda, os bancos e todas as instituições que venham a florescer em torno aos bancos privarão as pessoas de toda posse, primeiro por meio da inflação, em seguida pela recessão até o dia em que seus filhos (e filhas) acordarão sem casa e sem teto sobre a terra que seus pais conquistaram” (frase atribuída a Thomas Jefferson – 1802). Não deu outra… não há sociedade mais imitada, no mundo.
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Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão (Rm 4,13-25). Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. Por isso a promessa se tornou realidade: e nasceu Isaac, o filho da promessa. Abraão ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus. Ter fé é aceitar com ternura a revelação de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus. Como um filho que confia nos braços do pai (Mauro Strabeli). Jesus, porém, deixa bem claro que aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição sine qua para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).
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Lá estão os des-esperançados, des-graçados, as vítimas de todas as violências, sociais, legais, criminais. São essa gente os necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo, como sinais do Reino de Paz e Justiça, combatendo governantes corrompidos, políticos ladrões e juízes que os protegem? Somente a fração menor dos bens sociais cabe às maiorias pobres que estavam ascendendo. Estes tiveram, abruptamente, por um golpe político, sua trajetória interrompida. Um terço da população brasileira conhece a desgraça de viver nos bolsões de miséria que a economia oficial deste momento ignora.
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Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é “adesão” ao Evangelho, fé na causa essencial, a missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenhar  na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Geraza querem que ele vá embora quanto antes (5,17); seus parentes ficam escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32). E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na “hora do vâmo vê” também não nos envergonharemos de Jesus?
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Virgílio, antes de Dante, já descrevera os cães que vigiam a boca do inferno. Um deles personifica o ódio. Cérbero, o cão de três cabeças, tem apetite insaciável, arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gananciosos, que disputam as coisas putrefatas que o alimentam. Podemos ver isso, hoje em dia, na repressão aos moradores de rua, nas pessoas sem-teto, nas crianças, como João Victor, em S.Paulo, mortas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades. Solução cruel de exterminar a miséria, e se reprimir com balas de borracha e gás lacrimogênio… e nem nos comovemos? Por que, como maioria, não dizemos “não” à política que oprime o pobre, enquanto privilegia bem-postos? Por que nos recusamos a jogar luz nos porões do nosso mundo, nossa sociedade.
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Renunciar ao ódio não é uma atitude passiva, mas sim a espiritualidade que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para os instintos egoístas. Viver sob o signo do ódio, sentir-se ameaçado por ele, é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro.

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O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade sem compaixão, incitada ao ódio político, que se pauta pela ambição do poder, vai gerando relações injustas e opressoras. Os discípulos terão de enfrentar situações adversas e perseguições (tomar a sua cruz!). Jesus vai além, na sua instrução, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”(8,35).
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Contudo, o martírio seria uma escolha suicida se fosse visado como uma finalidade de vida. Buscar a morte pela morte não tem nada de evangélico. Quem quiser salvar a sua vida de falsas seguranças, vai perdê-la… ao contrário, ganhará sua vida quem se entrega às consequências de um testemunho (martyria) e de uma prática que busca a justiça e a fraternidade, como princípio de fidelidade a Deus, enquanto se valoriza a solidariedade entre homens e mulheres, oprimidos e bem-postos, pontua de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com  a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, Deus fiel salvador.

Derval Dasilio

CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS

Destacado

1o DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’
CRISTO DESCE AOS NOSSOS INFERNOS PARA RESGATAR-NOS
1Pe 3,18-22 –  Cristo desceu ao mundo dos mortos para resgatá-los
Marcos 1,9-15 – No homem Jesus reaviva-se para os oprimidos
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Por que o ponto de contato com a “quaresma”, neste texto? O Dilúvio dura quarenta dias e quarenta noites… do ponto de vista sacerdotalista (Gn 7,24); cento e cinquenta dias para “J” (Gn 8,3), porém, há evidências semelhantes de uma Tradição Primitiva que cuida também das origens da humanidade, referindo-se ao assunto (André Feullet). Desse modo, podemos aproximar-nos do sentido que os autores “sacerdotalistas” desejaram colocar para o Dilúvio e a Aliança: Javé não faz uma aliança bi-lateral com os homens, simplesmente toma a iniciativa de salvá-los. Está implícito que as alianças humanas são passíveis de corromperem-se ao sabor dos interesses do homem.  É graça, misericórdia, hesed, “gratuidade absoluta” de Yaweh, no Primeiro Testamento [Nota: Os textos de Gênesis, capítulos de 1 a 11, são composições literárias através de vários séculos. Textos javistas, eloístas, sacerdotalistas e deuteronomistas, em grupos assim justificados, por antiguidade].
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Deus não pedirá contas do sangue do homem, nem mesmo dos assassinos, os que matam ou cultivam a morte, impondo-a a outros homens… inclusive as feras (Gn 9, 8-17 Lev 17,10-14; 19,26; Dt 12,23).  Finalmente, a fonte “javista”, no final do capítulo 8 (21-22), em consequência do sacrifício de Noé, relata uma repercussão dessa aliança gratuita: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem… nunca mais castigarei os vivos como tenho feito. Enquanto durar a terra, semeadura e messe, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não terão fim”!
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Lembramo-nos de 2 bilhões de deserdados que passam fome, no Planeta; dos moradores de periferia, 90 milhões no Brasil. Não há luz sobre 13 bolsões de miséria escondidos, no país; 600 municípios, sem urbanização, hospitais, escolas; 20 milhões de pessoas vivendo sob todas as fomes do mundo…  municípios carecem dos mínimos recursos modernos, como eletricidade, água potável, esgotos sanitários, escolas razoáveis; pessoas cujas rendas diárias per capita média não ultrapassa 2 reais. Nas periferias das cidades e metrópoles 90 milhões conhecem o mesmo sofrimento, as mesmas doenças, as mesmas desigualdades. Os mesmos  desertos que os poderes públicas hesitam conhecer e atender.  Seus habitantes continuam sob constante provação.  Por isso, ele, Jesus, não experimentaria a morte às portas da terra prometida, como aconteceu com Moisés. Assim, juntam-se deserto e ressurreição na história de Cristo, ressurreição em todos os significados possíveis, unindo batismo e eucaristia (ceia pascal) em um mesmo movimento. Batismo e deserto marcam o início do ministério de Jesus, enquanto a eucaristia e a ressurreição marcam o final.
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Mateus dedica-se a mostrar que também Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias, antes de iniciar seu ministério, ou a pregação da chegada do Reino de Deus. A partir daí, a Igreja Cristã, especialmente nas comunidades do Apocalipse, sob resistência política, enxerga sua provação como o deserto, onde as águas do “dragão” (fome, abandono político, opressão, miséria) tentam engolir a comunidade (‘provação’), e o deserto engole a água (‘providência’). São figuras e símbolos apocalípticos presentes nos momentos de crise (cf. Carlos Mesters, Apocalipse).
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Jesus é o Filho de Deus. Nada de bom se poderia esperar desse homem na luta pela justiça, vindo da obscura Nazaré, uma localidade insignificante ao norte da Judéia. Jesus é  alguém sem nenhuma carta de apresentação, sem pistolão, sem partido ou protetor político (Mc 1,9-15). Jesus é um judeu nazareno sem compromisso com essênios, fariseus, hasmoneus, saduceus, ou extremistas zelotas. No entanto, é com ele que acontece algo de inesperado: “Logo que Jesus saiu da água, viu o céu se rasgando, e o Espírito, como pomba, desceu sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado’ ” (1,10-11). A manifestação do inesperado, do novo, é descrita pelo evangelista através de um rasgão do céu e de uma voz que de lá veio. O céu se rasgou – Marcos diz que em Jesus se realiza outra profecia de Isaías. De fato, o desejo do profeta era: “Estamos como outrora, quando ainda não governavas, quando o teu nome, Yaweh, nunca fora invocado. Quem dera rasgasses o céu para descer (a justiça)!” (Is 63,19).
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No homem Jesus, portanto, reaviva-se para os oprimidos a experiência de Deus agindo na sua história, e da humanidade,  para libertá-los. Memória do “êxodo”. A presença do Espírito em Jesus é muito importante porque indica a presença do divino no homem de Nazaré (remeto ao comentário sobre a Transfiguração do Senhor.
Derval Dasilio

TRANSFIGURAÇÃO – ECLIPSE INVERTIDO

Destacado

transfiguração

Cerezo Barredo – Ilustrador: (livros D.Dasilio)

SEXTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C

Gênesis 15,1-12, 17-18 – Não tenha medo, eu te protegerei
Salmo 27 – O Senhor é a minha luz, a quem temerei?
Filipenses 3,17- 4.1 – Cristo transformará o corpo abatido pela dor
Lucas 9,28-36 – Moisés e Elias falavam das razões de suas mortes

[Transfiguração é antecipação, é um “eclipse invertido”, um meteoro, uma luz atravessando a escuridão dos tempos. Um novo significado para a vida e a morte! Assim, entendemos a reflexão de Helder Câmara: “aquele que não têm uma razão para viver, não têm uma razão para morrer”. A Transfiguração, como a observação de um impacto estrondoso na história do mundo, está dizendo: “isto é o que se espera, depois da cruz”. Como o poeta anuncia: “valorizar a vida… tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Iluminada com a mensagem de Jesus, a Transfiguração indica o sentido da vida. Algo precisa acontecer para que se mude a história da humanidade. Jesus é o homem transfigurado chamando atenção sobre a Transfiguração da própria humanidade].
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Jurgen Moltmann escreveu: “A injustiça e violência cindiram a humanidade num primeiro e num terceiro mundo”, um de abundância outro de carências estratosféricas, ausências inomináveis quanto aos direitos ao alimento, à saúde, à moradia, ao trabalho, à escola. O primeiro mundo, ¼ do planeta, coroa a abundância e o desperdício, irresponsabilidade para com os demais; o segundo e terceiro amargam a pobreza, a fome e a miséria.
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Do que mais incomoda, parques industriais, mineradoras, estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica e falsamente promotora do progresso, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece — e ela não existe se não pelo capital privado —  não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmando o dito: “comemos o que terminará por nos comer”.

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Lembramo-nos da parábola antiga, helênica: “O sábio, deslumbrava-se refletindo sobre o universo infinito; olhando para o céu enquanto caminhava, tropeçava e caía no abismo”. É preciso olhar para o chão, portanto. Evidentemente, porque o projeto do homo tecnologicus está ligado às conquistas técnicas, e não ao que poderia fazer pelo Homem, se assumisse a humanização contida na esperança.

O valor utilitarista, use e jogue fora, alcança o ser humano em toda parte. Pragmatismo consumista. O que assistimos está longe de ser um mundo novo, reconciliado com o projeto de vida planetária reconhecido nas Escrituras. É preciso falar, também, de uma “ecologia dos sistemas de pensar”, o que nos devolvera a uma transcendência ao estilo do que sugeria Wittgenstein: “o fundamento do mundo está fora (deste) do mundo”. A questão, portanto, não pertence ao mundo da técnica, mas ao mundo da ética. Estamos diante de uma questão antropológica. A sobrevivência do homem comum também está na pauta das lutas ecológico-ambientais. A indústria poluidora e destruidora, na pauta da economia gananciosa. Nunca entenderemos sua contribuição à educação, à saúde e à habitação e humanização urbanas.

As mais arrasadoras catástrofes ambientais — assustadoramente frequentes, têm soluções adiadas nas multas que nunca são pagas, porque a sucessão de governos irresponsáveis vai perdoando os faltosos até a décima geração.  No caso da Samarco e o desastre do Rio Doce, contam com advogados em grupos de centenas, adiam ad infinito o pagamento de multas ambientais, teoricamente apontadas em dezenas de bilhões de reais — não despertam a sociedade quanto aos danos futuros irreparáveis. Porém, equalizam o destino do planeta, ameaçado pelo abuso na pressa do consumo irresponsável na economia da ganância.

Sob consentimento dos poderes públicos, bem como da justiça responsável pelo controle ambiental, tendo derramado 32 milhões de metros cúbicos de restos de lama e minério, matando 17 pessoas e contaminando o Rio Doce por um prazo mínimo de 10 anos, destruindo os municípios ribeirinhos de Minas ao Espírito Santo até a foz, em Regência. Sua subsidiária, a Samarco — empresa da Vale do Rio Doce –, tornou-se símbolo da irresponsabilidade do capital privado para com o meio ambiente.


Em seguida, ainda compondo este cenário, a Vale é multada em alguns milhões, no ES, e tem o porto privado do Tubarão interditado por 4 dias, enquanto uma centena de advogados atuavam para suspender a interdição e “discutir” a última multa — das muitas que jamais pagou pelo mesmo motivo –. Porém, estatística apontam a poluição atmosférica ocasionada pelo “pó preto”, atinge com problemas respiratórios a 26% dos habitantes da área metropolitana de Vitória ES. O Estado, apontado por grupos de pesquisadores de diversos países, informam que se encontra acima da média nacional nesses problemas, tendo como exemplo a asma, com 27%, e a rinite com 80,2%. Enquanto isso, representantes da multinacional têm o desplante de declarar aos jornais que a maior parte do “pó preto” (pó de minério) é, “na verdade” areia monazítica, “medicinal”. Juízes liberam os embargo e, para não fugirem à regra do doping costumeiro, e mais uma vez, aceitam discutir as multas que jamais foram ou serão pagas.


Os povos pobres desconhecem as democracias, via de regra aplicada aos ricos, que dela se beneficiam sem partilha. Mesmo no Brasil, não podemos falar na existência de uma democracia nos bens sociais. Chega a ser hilária uma empresa do capital privado falar em cuidados com a proteção ambiental (A Gazeta, 25.jan.2016) quando, em Vitória ES, a Vale teve a multa de 65 milhões suspensa apenas cinco dias depois da aplicação.A cruz e a ressurreição são afins, tanto que se torna impossível separá-las, tal o seu impacto, na vida da humanidade. Uma espiritualidade profunda nos símbolos da fé cristã. A cruz é a morte pela solidariedade, na causa de Deus. Cruz é sofrimento. Todas as dores do mundo estão no madeiro cruzado, testemunho da inconformidade de Deus sob o sofrimento das injustiças impostas, e as desigualdades históricas (martyria) .

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A ressurreição, porém, dá sentido à vida nova e fecunda, como o fruto que vem no lugar do grão que morreu. Como a borboleta que deixou para trás o casulo morto, a morte de Jesus dá um novo significado para a morte e a ressurreição: “A causa é tão grande que é preciso até morrer por ela”, Jesus faz entender aos discípulos. A cruz não é o fim de uma jornada em favor de um mundo novo possível, mas sim um cataclismo na história do mundo entregue aos poderes da morte. Pedro, na contramão, quer encerrar a jornada libertária, sem cruz e sem ressurreição: “Seria bom ficar aqui, dentro das tendas (igrejas?), em companhia de Moisés e Elias”.
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Mas a Voz ressoa: “Este é o meu filho…”, não eles, ou o que eles representam. “Ouçam-no”. Qualquer processo de conversão e de mudança de rumo faz sentido, porque, na Transfiguração, temos um mapa do universo e seus caminhos tortuosos, como a violência. A realidade da violência, das pequenas e grandes guerras, o crime organizado e o crime legalizado no congresso -– roubo dos bens do  povo, corrupção de senadores, deputados, funcionários estatais; corrupção nas megaempresas e nos microempreendimentos -–; a violência dos assassinatos, metrópoles violentas; a violência da fome, do desemprego, da saúde sem assistência, da moradia negada, da escola seletiva, representam um mundo entregue aos poderes da morte.

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Não é o sangue de um animal que dá vida, sinal da aliança. É o sangue de um homem, sangue de um torturado nas tiranias aprovadas popularmente, que só depois reconheceríamos como o Deus solidário que compartilha do sofrimento humano e da Criação. Cristo, seu amor, o sangue de tantos mártires, vidas transfiguradas, dão sentido à vida, por causa das muitas mortes em razão da violência e injustiça dos sistemas escravistas, ou de servidão humana; por causa da exploração irresponsável da natureza. A violência domina o mundo. O que significa isso tudo nos nossos dias, quando somos sujeitos a escravidões que não queremos reconhecer? A cruz é o maior sinal de amor e liberdade. A transfiguração converge para a cruz.
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Temos uma aliança que é oferecida pelo amor generoso de Deus, e que cada crente confirma e reafirma “a cada dia” em derramamento de sangue. Sacrifício pela causa de Deus. É o amor de todos os dias, martírios dos que arriscam suas vidas, enfrentam as prisões, na luta pela justiça, em solidariedade com os fracos e dependentes. Deus nos ama sempre, a cada dia. Mas, como sempre, é a vida e o amor que contam, expressos na misericórdia, na compaixão, na solidariedade e na partilha. É a vida para o Reino, vida repartida para que outros também vivam. Vidas oferecidas em sacrifício e em favor da verdade e a justiça.

[Derval Dasilio]
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QUARESMA NA CIDADE POLITICAMENTE DOENTE

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quaresma-2É importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão e humilhação dos membros mais fracos da sociedade. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da solidariedade na partilha dos bens comuns, contra a desigualdade. E também para denunciar a política suja que derruba despudoramente programas de redução da pobreza  e inclusão social — enquanto faz blindagem da corrupção –, o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares para a religião.
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O empenho na justiça para com o próximo; o compromisso em atos solidários quase impossíveis, face às desgraças sociais; a resistência aos poderes demoníacos, especialmente os que se manifestam na política e na economia; o sofrimento diante da violência da fome, do desemprego, do assassinato de inocentes, dos conflitos comuns nos meios onde crentes também vivem, coletivamente (embora industriados para ignorar a comunidade). Especialmente nas favelas e periferias sob o desamparo dos poderes públicos, no sentido testemunhal que Jesus, no Novo Testamento, o Evangelho refere-se ao envolvimento com a causa do Reino de Deus (o Reino nada tem a ver com isenções religiosas diante de problemas observados nas realidades existentes, econômicas, políticas, religiosas).
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A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, aids, dengue, zicungunha, febre amarela, para além das representações figurativas. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico; do alcoolismo, tabagismo e consumismo? Violência intra-familiar, crime político protegido pela alta corte, crime organizado e superorganizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade do nosso tempo, adoecendo-a profundamente.
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Mais de 3/4 da população brasileira habita nas cidades. E, nelas, metade da população luta para alcançar direito  e cidadania igualitários. A complexidade aumenta com o problema da política suja, corrompida, atinge em cheio toda a sociedade, sem distinção entre grupos privilegiados e desfavorecidos. Embora o elitismo apareça frequentemente nos privilegiados que reclamam cidadania selecionada, negando aos demais as reivindicações de melhoria de renda e inclusão social. Porém, o seguimento objetivado para responder pelo crime e pela anomia — distanciamento da legalidade — está nas periferias, nas favelas, nos morros e baixadas, já vulnerável em suas carências históricas. Os resultados da exclusão  aparecem imediatamente nos saques, em invasão de supermercados, nos momentos de conflito. Vemos isso frequentemente, nos últimos dias.

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Uma herança proveniente do colonialismo, passando pelo império escravagista, e atravessando o século da república num esforço fulgurante para manter privilégios de classe e excluir ao máximo grau as possibilidades de cidadania igualitária das classes trabalhadoras, e dos mais pobres. O problema da droga é apenas uma parte da problemática complexa da cidade ou da metrópole. O maior, contudo, é o da inclusão social, combatida com alta eficácia por seguimentos economicamente privilegiados das classes mais altas.

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No entanto, a sociedade elitizada, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania diferenciada – ciosa de seus supostos privilégios –, localiza o problema da droga, da violência e do crime organizado, na periferia. Enquanto fingem reivindicar  punição à corrupção, fazendo vista grossa aos políticos conservadores e capitães do narcotráfico. São os que ocupam condomínios de luxo nos endereços onde estão os imóveis mais caros do país. É ali, nos endereços nobres, apartamentos de luxo, que as drogas mais caras são consumidas a granel, e onde se reúnem conspiradores prontos para tomar o poder. Na clandestinidade? Por acaso, a polícia, a justiça que trata desses assuntos não sabe disso?

Derval Dasilio

AMAR O INIMIGO, É POSSÍVEL?

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arrmarás o próximo.Ruy Barbosa disse: “Precisamos de leis que protejam o meu inimigo. Se elas não o protegem, também não protegem a mim”. Um grande pensamento, demonstrando que nossos adversários, opositores, e até detratores, habitam o mesmo mundo onde nos encontramos. Mundo da coletividade humana. No entanto, o Evangelho de Jesus vai além, quando nos lembra que os limites de nossa existência são demarcados para além das distâncias do meu grupo social ou familiar; para além dos nossos interesses de classe social, de etnia ou nacionalidade; além das escolhas e opções e orientações sexuais, por exemplo.
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Jesus diz que não há vantagem nenhuma em amar “iguais”. Aqueles que parecem não merecer amor, respeito, dignidade; adversários, opositores e inimigos, desafiam nosso “orgulho próprio”. A perfeição do amor  é encontrada no Pai, em cuja expressão não há discriminação nem mesmo dos que nos excluem de seu círculo. A “lei de Talião”, no entanto, dirá o contrário: “olho por olho, dente por dente”. A “resposta à altura da ofensa”, vingança, represália, retaliação, contudo, não cabem nos ensinamentos de Jesus. Ao contrário, a justiça, a compaixão, a misericórdia, a solidariedade nas desgraças, marcam o amor verdadeiro, à semelhança do amor do Pai.
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O ser, homem ou mulher, é fundamentalmente distinto do ser natural percebido na visão comum, que os vê tão somente como uma parte dos seres naturais. Devemos designar o “ser”, especificamente humano como existência, como ensina Heidegger. E aí o termo “existência” não será entendido como mero “ser”, entre plantas e animais. Mas, como a forma de ser especificamente humana.
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O ser humano tem que assumir sua existência, privilegiado pela liberdade de escolhas e consciência de ser responsável por si mesmo. Amar significa conceder  tempo e espaço à vida do outro. Sem espaços de liberdade, a liberdade individual nem pode desenvolver-se (Jürgen Moltman). Isso significa que a vida humana é história, e faz história. Sua história, por meio de decisões, em cada caso, permite um futuro no qual o ser humano escolhe a si mesmo, e sua liberdade. As decisões são tomadas de acordo com a maneira como uma pessoa entende a si mesma, de acordo com aquilo no qual ela vê a realização de sua vida. Incluem o próximo, seja ele quem for.  O adversário, o opositor, o inimigo, é também um “próximo”.  Mas ele não pode impedir que eu seja livre, inclusive para amá-lo. Devo amá-lo, como ensina o Evangelho. Ele faz parte de minha própria história, queira eu ou não.
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Na realidade, se admitimos essa afirmação, a experiência de Deus não deveria ser outra coisa senão a tentativa – magnífica tentativa! – de fazer vir à luz nossas inclinações imediatas, diante da ofensa, da perseguição, desqualificação, ou difamação, da parte de alguém. E, no final das contas, o evangelho afirma que o próprio Deus é amor.  A realidade humana, no testemunho da fé, é amor. Ser “humano” é esforçar-se por viver no amor (Andrés Queiruga). Por isso nos humanizamos quando fugimos do ódio, da ira, da desqualificação do inimigo. Amando-o, nós o humanizamos.
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Eis a mensagem do evangelho de Mateus. E mensagem não simplesmente deduzida por artifício lógico, usando a razão, mas expressa, múltipla e infatigavelmente repetida: desde o resumo solene, no  programa e no discipulado de Jesus: – “nestes dois mandamentos consistem a Lei e os Profetas” (Mt 22,40) –, passando pela proclamação entusiasmada de Paulo – “…o maior dos dons é o amor” (1Cor 13,13) –, até as consequências surpreendentes de João.
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João relata a experiência mais íntima de Jesus, situando-nos no caminho justo, sob a condição humana. Num longo itinerário reflexivo, alimentado por uma profunda e calorosa convivência comunitária, tantas vezes difícil, iniciou uma tarefa que nunca deveríamos ter deixado de lado. Nele já está iniciado tudo: o amor, origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade, é critério da vida humanizada.
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Porém, a força simbólica e o calor humano permitem entrever magnificamente a força irradiante dessa afirmação fulgurante: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras, de verdade…”, sem dissimulações. Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade; e diante de Deus poderemos tranquilizar nossa consciência; e isso, ainda que a nossa consciência nos condene, porque Deus é maior do que a nossa consciência, e ele conhece todas as coisas” (1Jo 3,18-20). Por tudo isso, as palavras de Jesus nos desafiam: “Amem os seus inimigos”.
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Amar e perdoar, é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa. Perdoar significa libertar o ofensor, o detrator, o perseguidor, de sua dívida. Mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. Pelo ódio, pela ira, pela pulsão incontrolável de ferir, de matar, de destruir o outro. Amar é permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos como Jesus ensinou: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.
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SEXTO DOMINGO do Tempo Comum depois da Epifania
Levítico 19,1-2, 9-18;
Salmo 119,33-40;
1Coríntios 3,10-11, 16-23;
Mateus 5,38-48

PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

Destacado

PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

O perdão é a expressão máxima do verdadeiro amor (Lucas 6, 27-38). Quem ama, entende a pessoa que o agrediu, até o extremo quase absurdo da desculpa do Crucificado: porque não sabem o que fazem (Lucas 23, 34). Quem ama, é também capaz de reconhecer seus erros, reparar o dano causado e reconstruir a comum+união avariada. Contudo, como é difícil perdoar! Parece que no fundo do coração humano predomina a tendência à violência, à vingança, que, ao se afastar, é intrínseca ao dinamismo genético que não nos deixa vivenciar a experiência do amor em plenitude. O perdão é um processo de conversão. Para chegar a ele é preciso viver uma profunda experiência de Deus. Somente Deus é capaz de perdoar e nos habilitar para o perdão. Por isso, o perdão é a graça por excelência, de Deus para com seus filhos (Comentário abaixo).

“Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão” (Mateus 5,23-25).

Vem, em seguida, a reparação pelo dano causado. Em alguns lugares se diz que “o que quebra, paga e leva os pedaços”. Ficaria incompleto o caminho se não se reparasse moral ou materialmente o mal que se fez. Do contrário, o processo penitencial não produziria os efeitos desejados na pessoa arrependida. E na vítima e na comunidade não se cumpriria com o princípio básico da vida social, que é a justiça: dar a cada um o que lhe corresponde.  

Requer-se, por último, o compromisso de não se reincidir na mesma falta. Isto não quer dizer que absolutamente não se volte a falhar. A condição humana é muito frágil e incerta. A fraqueza, a sedução e as tentações nos podem surpreender e arrebatar. Mas a decisão de não voltar a cair em falta deve ser inteiramente sincera. O mundo, dividido pelas guerras, ódio e miséria, necessita de remédios estruturais profundos e relativamente definitivos. E é aí onde os cristãos somos chamados a colaborar com nosso grãozinho de areia.

Davi, perdoa a seu inimigo Saul, tendo podido eliminá-lo sem maiores contratempos. Paulo, nos chama a viver no espírito pacífico e de reconciliação do novo Adão. Jesus, convida a viver o perdão como um exercício permanente do compromisso cristão. Só através de um testemunho de perdão e reconciliação contínuos, pessoais e coletivos, conseguiremos derrotar as forças da violência, do ódio e da destruição da vida, em todas as suas formas e manifestações.

Obs: Lendo a Bíblia hoje, tendemos a considerar que a religião do tempo apostólico era regida pela Bíblia Hebraica. Equívoco de grande importância: as leis religiosas eram determinadas no Mishinah, e comentadas, avaliadas, pelo Thalmud. De fato, alguns dos textos bíblicos véterotestamentários estavam à disposição, não dos sacerdotes do culto, mas nas escolas rabínicas que preparavam dirigentes para as sinagogas. O povo ignorava por inteiro as querelas com os letrados, escribas, intérpretes das leis religiosas. A referência bíblica à Lei, na verdade, traz à memória o Pacto da Aliança, o Código Deuteronômico e o Código de Pureza do Levítico.

5o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Deuteronômio 30.15-20;
Salmo 119.1-8;
1Coríntios 9;
Mateus 5.21-37  – Os que perdoam, serão perdoados    

jesus sermão montanha (2)

“A FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

Facebook – 26 de janeiro de 2014 às 20:50
4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Gravura: Cereza Barredo

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar? 

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio

Gravura: Cerezo Barredo

FELICIDADE, A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS

Destacado

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.
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As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).
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Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, políticos, ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.
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Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.
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Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.
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“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar?
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A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.
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Derval Dasilio
Gravura: Cerezo Barredo

“FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

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4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar?

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio
Gravura: Cerezo Barredo

VOCAÇÃO E VOCAÇÕES

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[Domingo Litúrgico: Anos A - B - C] Teologia & Liturgia e Culto Cristão

entra e sai igreja http://wp.me/p3ZZIG-5M

Precisamos conversar com os jovens sobre testemunho cristão nos lugares onde estarão os cristãos vocacionados para servir a Deus, na missão do Reino, compreendendo claramente o missionário Jesus de Nazaré, através dos ministérios da igreja e na vida cotidiana. Pedro Lysias, um jovem aluno no seminário teológico, num debate: “Vivemos numa sociedade segmentada e dividida. Nossas vidas são pressionadas pelos golpes que sofremos do sistema (ou sociedade autoritária). Ficamos preocupados por não ter que passar por crises. Na nossa vida eclesiástica, acabamos não dispondo de tempo para dedicação ou tomar iniciativas para servir ao Senhor nosso Deus. Encaro que a vocação só é descoberta quando aceitamos que os maiores sonhos que temos devem ser o que Deus sonha para nós: o sonho de Deus é influenciar nossa vontade para vivermos sempre movidos por sentimentos bons, buscando preparação para a missão, para a execução da missão (de Deus), e para…

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ANO A – CALENDÁRIO, CICLOS E DOMINGOS LITÚRGICOS

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[Domingo Litúrgico: Anos A - B - C] Teologia & Liturgia e Culto Cristão

CALENDÁRIO LITÚRGICO 2013-2014-2015-2016-2017

CICLO DO NATAL
1.1 ADVENTO
1.2 NATAL
1.2.1 EPIFANIA

1.3 CICLO DO TEMPO COMUM – 1a.Parte(Depois da Epifania)

2. CICLO DA PÁSCOA

2.1 TRÍDUO PASCAL

2.1.1 QUARESMA

2.1.1.1 DOMINGO DE RAMOS
2.1.1.2 QUARTA-FEIRA DE CINZAS

2.1.1.3 QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.4 SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.5 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

2.1.2 TEMPO PASCAL

2.1.2.2 ASCENSÃO

2.1.2.3 PENTECOSTES

3. CICLO DO TEMPO COMUM – 2a.Parte (Depois de Pentecostes)
3.1 TRINDADE
3.2 AÇÃO DE GRAÇAS
3.3 REFORMA
3.4 CRISTO REI DO UNIVERSO

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A LEI RELIGIOSA E A DEUSA DE PEDRA…

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A LEI RELIGIOSA E A DEUSA DE PEDRA

Quem não quer um “deus” domesticado, preso e alimentado em gaiolas religiosas, cada uma mais certa de sua segurança doutrinal? Gaiolas de arame, de prata ou de ouro, não importa, têm uma finalidade: impedir os vôos do pássaro livre (Deus?). O pássaro preso chora, achamos que está cantando. Até as crianças sabem que não podem prender um pássaro, sem lhe tirar a beleza essencial que, vista em liberdade inspira os melhores valores do “ethos” divino, transcendências onde se observam o cuidado, a misericórdia, o respeito e a exigência de dignidade humana para todos os homens e mulheres. Mais que nunca, a felicidade está no espírito da Lei de Deus, onde a cláusula áurea é o amor.

lei de pedraAs origens da fé bíblica, no entanto, apontam o Deus que convoca para a liberdade e os direitos a serem conquistados passo a passo, diante da camaleônica cultura religiosa (já se fala em bricolagem religiosa, hoje), que quer também ser chamada de “mais cristã” que as outras tradições. Diante do henoteismo moderno — aceitar uma divindade entre outras divindades! –, passamos pela bibliolatria fundamentalista, e chegamos à religião de mercado. No entanto, o preço da liberdade da fé passa também pelos conselhos bíblicos, pedagógicos, da “shemah” (“ouve, ó Israel…”), e pelo Pacto da Aliança (leis de proteção do homem e da terra). Estes exigem a compreensão da natureza do pecado em sua forma e estrutura histórica e social, e da obediência às exigências do Deus.

De que tratam os vários sermões deuteronômicos (lei bíblica reeditada no século 6º a.C.), aos quais se referem Jesus? São mensagens que insistem em fortalecer relações inter-humanas baseadas na justiça. A Lei não é um compêndio de decretos isolados, cada preceito defende a vida e a dignidade de cada pessoa da comunidade; a Lei expressa a vida íntima da comunidade, no sentido de que cada pessoa disponha do mínimo para sobreviver, e que ninguém viva em situação de opróbrio e miséria (“Não existirá pobres entre vós” – Dt 15,4-5). A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora, uma outorga de Deus (Yahweh) para todo o povo. Envolve a atenção e cuidado com a terra (ecologia), moradia, trabalho, responsabilidade para com os deserdados.

Por que a tentação da gente religiosa em forçar e manipular a sabedoria divina, quando se transforma a Bíblia em leis religiosas, em semelhança à voz autorizada de Deus? Por que eu preciso para minha vida de um “deus” que é imagem e semelhança do que fazemos uns com os outros, de acordo com nossas conveniências pessoais, ou institucionais? Voltaire disse, irreverentemente: “Se é verdade que o homem é imagem e semelhança de Deus, é também verdade que (seu) deus é imagem e semelhança do homem”. Comparativamente, a Bíblia tem sido apresentada como espelho das piores e mais injustas leis humanas, justificando, em nome de Deus, a escravidão, o latifúndio improdutivo, o direito consuetidinário sobre a propriedade; a homofobia impune, o androcentrismo; o abandono da criança, do jovem e do idoso, por exemplo.

No entanto, a experiência vem dos púlpitos, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável. Sentimentalismos à flor da pele, por um lado, e razão instrumental, pragmática, do outro. A razão deve predominar sobre todo sentimentalismo, dirá um ortodoxo racionalista. A razão instrumental ensina que não se deve dar atenção ao sentimento, “as coisas importantes da vida excluem os sentimentos”… Assim se introduz o perigo das sociedades ideologicamente fascistas, autoritárias, também calcadas em sentimentos semelhantes, nacionalistas ou cabotinos, como modelo legalista e ideológico. Quem não se interessa por “slogans” falso-moralistas roubados do fundamentalismo? Quantos se interessariam por aspectos mais importantes, na raiz dos comportamentos, quando sentimentos profundos de compaixão, cuidado, dignidade, são reclamados, para além da moralidade piedosa evocada pela religião autoritária?

A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus (Marcos 1,21-28). Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, ele respondia com a verdade simples e cristalina. Jesus estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas sob impedimento da liberdade, no tormento do controle das consciências que impediam a espontaneidade da fé. Este interesse não encobria uma ideologia política ou religiosa. Declarou-se, Jesus, abertamente contra a idolatria da letra morta (“a lei do sábado não é mais importante que o homem”). Ou seja: a Lei, exigências a respeito de costumes, prescrições religiosas, engessa a misericórdia, o cuidado, a solidariedade, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião legalista sem misericórdia e compaixão [foi exatamente contra tal religião que Schleiermacher, teólogo e pastor protestante do liberalismo teológico do séc.19 “criou” o novo pietismo, onde o sentimento, na experiência de Deus, ocupa o primeiro lugar].

Precisamente por isso, a luta contra os demônios, espíritos imundos: sistemas de pensar sobre a religião, política, economia, cultura, justiça civil. Atualizemos, pois é uma luta contra ideologias instaladas nas sinagogas e no Templo, iguais em todos os tempos e lugares – iguais no cristianismo, islamismo ou judaísmo, para ficarmos no âmbito das religiões abraâmicas –, nas igrejas e na sociedade (Marcos 1,21-28). O profeta de Nazaré está preocupado com coisas como manter vivo o espírito da Lei, tema recorrente no Deuteronômio (seguramente: direitos humanos, econômicos, ecológicos, etc.). Para que? Para que a Lei religiosa não se transforme em formalidade, e sim em meio para atender às necessidades essenciais da comunidade de fé, e de cada ser humano.

Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas, ou ouviremos os encantadores de multidões fascinadas com o brilho grosseiro das ideologias gananciosas de poder e de mercado, evocando a Bíblia? O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: é o Reino de Deus que está diante nós, e não uma “lei de pedra”, que incita à adoração de preceitos religiosos imutáveis. Aos pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “Bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23), disse Jesus.

Temos, aí, o centro, núcleo energético, da mensagem de Jesus. Isso significa que ele sabia das palavras do profeta Jeremias: “…cada um levará a Lei no coração”. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo e o mundo inteiro. Envolve o cuidado com a terra, moradia, trabalho, responsabilidade para com os esmagados deste mundo. Não é a Lei que salva, e sim o Cristo de Deus como Palavra de Deus.

Derval Dasilio 

4ºDOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DA EPIFANIA|ANO “B” Deuteronômio 18,15-20 – A Lei é dádiva concedida pela misericórdia | Salmo 111 – As leis do Senhor são a verdade e a justiça | 1Coríntios 8,1-13 – “… pecam golpeando a consciência fraca dos irmãos” | Marcos 1,21-28 – “Que temos contigo, Jesus Nazareno”?

CRISTO, UM REI ENTRE MENDIGOS

Destacado

CRISTO, REI ENTRE MENDIGOS?

quando-te-vimos

Disse Jesus: “Meu reino não se compara aos reinos deste mundo”.

O senhorio de Cristo é libertador de toda forma de opressão e submissão. Desde a liberdade de espírito, que devolve à filiação divina obscurecida por nossos medos, fragilidades e pecados, à liberdade para a verdadeira unidade dos cristãos. Cristo Rei é, pois, o anti rei aos olhos do “mundo”. É incrível que seja também anti rei na Igreja. Dentro da Igreja, nos esforçamos por reproduzir os modelos de “reinado” do mundo, e não os do reino de Deus em Jesus Cristo!

Quantas vezes estabelecemos relações de poder autoritárias, com o próximo e a próxima, ao invés de relações fraternas? Quantas vezes entramos em concordância com os poderes dos sistemas religião, política, economia, enquanto agimos contrariamente — ou quando nos omitimos — sobre a pregação da Justiça? De que maneira nos beneficiamos da organização sob “absolutismo hobbesiano” (“o poder absoluto do Estado é necessário, por causa do egoísmo intrínseco ao homem”)?

Machiavelli (séc.16), mais cedo, defendia a utilização de todos os meios ao alcance dos governantes para a centralização e manutenção do poder. Thomas Hobbes defendia o absolutismo necessário para a organização social, o Estado acima da defesa do interesse do indivíduo e da sociedade. Para J-J Rousseau a função do Estado, noutro rumo, assegurando a democracia, o poder deveria garantir a sobrevivência contra a anarquia, e manter a ordem social. Somente quando falham outras formas aparecem os Estados paralelos. Mas Rousseau, sobre o poder, trataria também da importância do mesmo para a família e a educação, como base de uma sociedade organizada no sentido de garantir-se a dignidade social e humana.

À luz da liturgia com o tema “Cristo, o Rei do Universo”, perguntaremos se o que pensamos sobre Cristo baseiam-se na dominação/subserviência, ou na promoção da mútua liberdade responsável entre familiares e membros de nossa comunidade? Como são as relações de poder nesse meio? Valemo-nos da autoridade para impor uma certa maneira de exercer autoridade?

Justificamos, em nome de uma certa “autoridade”, abusos de poder, maltrato físico ou verbal, quando protagonistas da violência comum em tantos sociedades, contra deficientes, contra a mulher e a criança? As relações entre os membros da igreja comunitária concreta seguem o modelo cristão, ou seguem o modelo autoritário, repressivo, impositivo, excludente, próprio do “príncipe deste mundo”?

O pecado fundamental do ser humano é, pois, um pecado de “poder mal administrado”, mal assumido. E esta é a origem de todos os outros pecados: a avareza, a ganância, que conduzem a uma ordem econômica injusta; a soberba, que impede ver com clareza erros e pecados; a mentira, que leva a manipular ou a deixarmos manipular; o sexo utilizado como instrumento de poder, para “possuir”, oprimir; o medo, que impede de levantar-nos e caminhar com nossos próprios pés.

Poderíamos dizer que Jesus é o anti-rei segundo os modelos dos sistemas opressores: ele não quer dominar as demais pessoas. Pelo contrário, quer promover, convocar, “suscitar o poder” (energia) de cada ser humano, de modo que cada um assuma responsavelmente o peso e a alegria da liberdade. Jesus não recorre à violência de nenhum tipo, nem sequer à violência divina. Não recorre ao Deus dos Exércitos e suas milícias celestiais – não há nenhuma batalha espiritual em jogo, em éons superiores –, pois isso seria perpetuar as regras do jogo do “príncipe deste mundo” (Jo 12,31), o dono de “todos os reinos deste mundo e sua glória”. E por isso, pode dá-los a quem quiser (Lc 4,6: dou-te autoridade (exousia) sobre quem eu quiser, disse o diabo…).

Na cruz Jesus derrota e substitui total e radicalmente o demônio do poder concebido como violência e pressão por uma parte e como dependência, submissão e alienação, por outra dependência (Leonardo Boff). Jesus se recusa a ser coroado rei ao estilo do “mundo político” logo após a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6,15). A tentação do poder, entendido no estilo dos sistemas opressores persegue Jesus. E desde o deserto até a cruz Jesus rechaça este modelo denunciando-o com toda clareza: o poder procede do diabo, pertence ao “príncipe deste mundo”. Jesus não cai em suas armadilhas.

Perguntado sobre o lugar onde pode ser encontrado, como rei (esperavam que confirmasse seu poder e autoridade entre reis, príncipes e imperadores com poder ostentado), Jesus responde: Sou encontrado quando estou entre mendigos; quando estou nú; quando tenho fome e sede; quando sou exilado, desamparado, explorado; quando estou preso, vítima da injustiça (Mateus 25).

O custo desta resistência, ou dessa visão de poder, não só valente, mas lúcida, é muito alto. A miséria é escamoteada para fora da realidade concreta. A cidade, por outro lado, onde se manifesta com o máximo exemplo de modernidade, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis. “Possessos do mal”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas, traficantes de drogas, estupradores, pedófilos, drogaditos violentos; assassinos, espancadores de mulheres e crianças, homófobos, agressores, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos sociais de crianças; homossexuais, mendigos, doentes mentais… não aparecem em manifestações de comoção coletiva, ocasionalmente.

Estes comportamentos se apresentam abaixo dos clamores por educação, ou nos confrontos com os sistemas de justiça aplicada à coletividade. Por mais modernos e eficientes que sejam. A cidade é o mundo do homem tomado por males reais, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana. Especialmente camuflados no falso “repúdio” e “vergonha” da sociedade insensível à essência imunda e maligna da miséria e da desigualdade. No entanto, é essa sociedade que reclama por tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto.

“Ninguém que, tendo posto a mão no volante, olha para trás, pra dar marcha-a-ré, é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62: paráfrase do autor). O Juiz das causas humanas, e das desigualdades, vem agora ao encontro dos homens e mulheres, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência assim anunciada, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro do projeto de realeza de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz na cidade. Assim, entendemos a pessoa de Cristo como o Rei do Universo, para reinar em nome de Deus.

Jesus, rei segundo a vontade de Deus, se apresenta na contramão das ações resistentes ao bem, à misericórdia, à solidariedade. À Salvação. Acolhe o doente, o marginalizado, cura-o e expulsa o que causa a doença. Acolhe o oprimido e o marginalizado. Não o manipula para garantir prestígio. Cura-o e expulsa o que causa a doença. Do esgoto ao arranha-céu, chama-o de volta para um mundo novo e saudável, mental e socialmente, recusando o conformismo e indignando-o quanto à injustiça e desigualdade de tratamento na distribuição dos bens sociais. Sugere que é preciso ir ao miolo do furacão, nas crises e nas convulsões que tomam a coletividade e a desnorteiam. Experimentamos tudo isso no Brasil de hoje. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas que dominam e tomam conta da sociedade.

Derval Dasilio

O DINHEIRO DA OPRESSÃO

Destacado

Cópia de ganancia principal
Lucas 20, 27-38
Outra armadilha para Jesus: Assim, os espiões (do templo) lhe perguntaram: “Mestre, sabemos que falas e ensinas o que é correto, e que não mostras parcialidade, mas ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. É certo pagar imposto a César ou não?” (Lucas 20,21-22). A moeda do tributo era um sinal da dominação econômica e política (20,20-26). É lícito ou não pagar esse tributo? E, se Jesus responde que sim, ficará desmoralizado como aliado do poder opressor. Se responde que não, será acusado de sedicioso e anarquista.

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O Templo é também o lugar onde o sistema fazendário tem sede. As autoridades do Templo estão encarregadas de repassar aos romanos a parte que lhes cabe da arrecadação dos impostos. Pode-se indagar se o “dízimo”, imposto religioso remanescente do judaísmo formativo, está incluído. Há indicações de que também esse dinheiro era usado para melhorar relações entre o dominador e o dominado (Estado e Religião). Mas Jesus escapa da armadilha.
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A frase “deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” revira totalmente a questão. Jesus reconhece que o Estado tem uma função, mas esta não é a de tomar posse do povo. O povo não deve ser considerado como mercadoria, seja nas mãos do Estado nacional, seja nas mãos do Estado estrangeiro. Trata-se de um dilema do qual não se possa escapar. Uma questão capciosa. Posto entre a espada e a parede, terá que fazer uma declaração que o comprometeria gravemente ante as autoridades romanas. De fato, o tema do tributo soará no processo perante Pilatos (Lc 23,2).
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O dilema da autoridade imperial romana se coloca no terreno econômico, que todos sentem, e não deixa saída. O judaísmo político religioso, atrelado, subserviente, é levado em consideração. A adulação serve de entrada (Pr 6,24; 26,28). Podem insinuar que Jesus se apresente com imparcialidade entre o povo judeu – primeiros cristãos e judaítas contemporâneos que servem o templo – e o poder romano. Parece-nos claro que o mais importante se destaca: “o que é de Deus não pode ser manipulado nem pela religião e nem pelo Estado”, parafrasearíamos o Evangelho.
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O povo pertence a Deus, e Deus o liberta para a vida em plenitude cultural, social, econômica e religiosa sob imperativos éticos que regem a solidariedade e a partilha. Embora pertença a Deus, nem mesmo Deus toma posse dele ou o explora. Não exige bajulação religiosa, adoração interesseira, nem sacrifícios, senão justiça social (Mt 9,13; Os 6,6). Deus quer pontes sobre os abismos das desigualdades entre homens, mulheres, povos e raças. Deus faz as pessoas viverem como povo da fé histórica e como cidadãos (cf. Pacto da Aliança, Código Deuteronômico, etc., verdadeira Lei de Deus, biblicamente).
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É isso que o Estado deveria compreender, e também a religião. Sua função é salvaguardar a liberdade e a vida do povo, para que este possa exercer sua fidelidade (emmunah) à Lei de Deus (“Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” [Jeremias 31,33]). A lei de Deus não é propriedade do Estado ou da Religião. A lei de Deus ao pobre e seus direitos fundamentais: trabalho e remuneração justos, alimento, moradia, saúde, e tudo que concerne à igualdade diante da vida.
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Contudo, quando o Estado — do mesmo modo a Religião –, compromete a liberdade e a vida do povo, ele (ou ela) perverte a sua função e se torna intrinsecamente mau, e deve ser combatido em seu propósito de oprimir e subjugar. A continuidade entre o “agora” e o “então” está em Deus e na sua Gratuidade (hesed). E Jesus faz uma excursão mais profunda na “Tanah” (Bíblia Hebraica depois da época talmúdica [iniciada desde 2oo a.C.]), e na “Torah“, lembrando-os do que Moisés disse a respeito de Deus como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. É preciso lembrar, nas palavras de Lucas, que Jesus não assegura o “direito” da Religião de manipular a Lei de Deus. E ponto final.
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32º. Domingo do Tempo Comum [depois de Pentecostes]
Ageu 1,5b-2,9 – Minha é a prata e meu é ouro: meu povo
Salmo 98 – Os céus anunciam a justiça de Deus
2Tessalonicenses 2,1-5;13-17 – Ninguém vos engane…
Lucas 20, (9-19; 20-26)27-38 – Apoderam-se do povo de”deus”…

DEUS E A REFORMA PROTESTANTE

Destacado

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Durante longos anos, a espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, ideia de João Calvino, e dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a ideia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja.
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Assim, o Papa (séc.16!) estaria no topo da hierarquia da Igreja, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local. O papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como o primeiro da igreja universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer, Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos, papa e sacerdotes, reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona” (como também pretendem ser pastores evangélicos pentecostalistas de hoje). Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (Eucaristia), ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram “procuradores” de Deus, com plenos poderes em questões de Fé e de Culto.
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Os reformadores disseram: só Jesus Cristo por si mesmo nos justifica, e ninguém mais. Jesus pode dizer: “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem…”. O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: “Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa”. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, homens e mulheres, sacerdotes ou leigos. Deus é transcendente, imutável, infinito, inominável, indescritível, como também dizia Karl Barth.
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Deus que conhece o ser humano, porque se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, na busca de elevar seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor… obrigado porque não sou como os pecadores”.

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Deus não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como quem vive a vida de fé — são os fiscais cobradores da Graça como retribuição –, em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade interesseira e do esforço de santidade e avivamento espiritual.
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As respostas poderiam ser estas: “a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às necessidades pessoais”. Oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, dispostos a exigir retribuição pela dedicação, e sempre prontos a recorrer a um “deus-quebra-meu-galho”, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé.

A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido do aflito para que o Senhor nos livra do mal e do sofrimento. Inclusive, nos liberta da presunção e arrogância. Antes, porém, deveríamos “orar com fé”, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos ao Pai: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
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Lutero dizia: “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A gratidão traz paz! Acrescenta Lutero: “na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível de Deus. O crente se reconhece objeto da Graça. Apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho. Não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32).
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Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se, corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a transmissão da fé, no cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana, por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política, nas relações sociais, comerciais, e tudo que cabe à dignidade humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus Cristo.
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O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser ele o que é: Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para rebaixar o Deus a uma divindade qualquer, tornando-O um “deus-quebra-meu-galho” a nosso serviço.

“…Seja feita a tua vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E também demos graças aos reformadores e à Reforma, os quais, dentro do princípio protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a comunidade do povo que Deus elegeu e ama.
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Leituras:
Isaías 62,6-7;10-12 – Yahweh te desposará como a uma virgem
Romanos 3,19-28 – Obra alguma nos justifica diante Dele!
Lucas 18,9-14 – Tem piedade de mim, pecador!

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

Destacado


A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA
Lucas 12,32-48
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A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos, abandonados, da saúde com qualidade. Dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado, são também alcançados por Deus. Têm direito à salvação.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas. O Reino é uma dádiva anunciada por Jesus aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores; aos que são perseguidos por juízes iníquos; aos que se negam a justiça e a verdade. Embora contrarie a sociedade excludente.
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“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

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Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, através de representantes das sociedades autoritárias. Flageladores de crianças, diferentes sexuais, mendigos e doentes mentais as representam.
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A fé representa a consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana excluída reclama, e Deus não nega a salvação. O desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte, são sinais da presença do reinado de Deus.

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Investir nos fracos, despossuidos, discriminados, abandonados por homens e mulheres autoritários, fascistas, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
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Derval Dasilio

O AMOR É UM PESO QUE NOS FAZ INCLINAR…

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Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos

lucas-o-proximo Nos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por esse conjunto autoritário. O legalismo, imposto, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei.

Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não se sujeitava ao conjunto jurídico religioso autoritário, não podia entrar no templo, e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, um “anti-próximo”, mas passa a ser modelo exemplar do “próximo” oferecido ao religioso cristão.

Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor… O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: “não farás…”) sobre como “amar a Deus e ao próximo” sob a lei deuteronômica… Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com o Pentateuco – os cinco primeiros livros, conforme a versão grega Septuaginta; e também na Torah, versão hebraica (Tanach): Devarim (Deuteronômio) e Vaiycrá (Levítico) –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano, além de compassivo e solidário, é um homem rico. Contudo, um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais). Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich. A justiça sem amor ignora a solidariedade, a misericórdia ou a compaixão.

O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo, diria Rubem Alves: o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça, ou o cérebro.

Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo no outro o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

Muitos agnósticos, e até mesmo ateus, deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra: “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.

Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

Derval Dasilio

29º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedada e sem misericórdia
Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo

JUÍZES INÍQUOS NO PAÍS DAS VIÚVAS

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||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se comemorariam as vitórias contra a corrupção. Especialmente aqui, onde juízes togados protegem políticos corruptos como se lhes devessem favores, enquanto escolhem como alvos os demais que querem tirar do seu caminho. Seja a que custo for. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc.

O Brasil estava na 69ª posição entre os países mais corruptos. Crescendo, no ranking mundial da corrupção, nos dias atuais. A contribuição de evangélicos pentecostais, representados por aproximadamente 30% da população, também fez crescer esta posição. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar. Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

A zona cinzenta onde atua a justiça humana, que parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade — com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa, midiática, politicamente partidária, em nosso país –, fica bem longe longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Andrés Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção — dos adversários, fique claro.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes sequestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. […] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz não temer a Deus nem respeitar homens fracos e sem força institucional que os proteja. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito. Dignidade e cidadania!

Derval Dasilio

Leituras:

28º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano / Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite / 2Timóteo 3,14- 4,5 – A Escritura é útil para educar na justiça /

||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

INTOLERÂNCIA

Destacado

armaras-o-proximo

Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).

Lucas 17, 11-19 – Quem é puro, ou melhor que os demais?

Chocante, já decorridos dois mil anos desde que Deus, humanizado, tornou-se vítima da intolerância. Ingressou no mundo das misérias, conflitos, preconceitos e ilusões sobre superioridades, religiosas, morais, raciais ou de classes sociais. Justificam-se, desse modo, ideologias autoritárias, pró-fascistas, as quais se manifestam muitas vezes através da fúria irracional e compulsiva contra minorias e indivíduos socialmente fracos e sem defesa institucional.

A miséria humana, assim, é escamoteada para fora da realidade, como aparência de impureza, de imundície e de marginalidade, atribuídos a indivíduos fora do padrão da sociedade autoritária. Inspira-nos uma boa leitura do Hannah Arendt, que escreveu sobre a força do ódio e do poder exclusivista das classes abastadas.

Um candidato a prefeito de São Paulo, a maior  cidade da América do Sul, propunha um programa de isolamento da Cracolândia, no centro. A ideia é colocar “agentes humanitários” com guardas armados ao fundo, para isolar a parte contaminada da cidade do restante da população. Uma vontade perigosa e esmagadora de exclusão, para satisfazer, ao mesmo tempo, o pungente impulso de falsa retidão moral da sociedade, como diria Zigmunt Bauman.

Os portadores do estigma da miséria seriam mantidos à distância por sua “humanidade inferior”. Na verdade objetivando sua desumanização física e moral, confessam o autoritarismo exclusivista da sociedade que reclama cidadania preferencial para classes sociais privilegiadas.

Intolerantes, via de regra. Podem até mesmo alçar candidatos aos principais cargos da nação, ou no mínimo compor um congresso nacional para defender seus interesses, com exclusividade. Um setor da nossa política é chamado de BBB (Boi-Bíblia-Bala), representando pecuaristas, evangélicos pentecostais e industriais armamentistas. Por nada?

Intolerantes também parecem depender de superstições, crendices e crenças de relativa superioridade sobre os demais, não raro exigindo privilégios e exclusividade. A sociedade religiosa, moralmente autoritária, imagina indivíduos “diferentes” como responsáveis pelo mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis: fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, alcoolistas, traficantes, por exemplo.

Mas é do autoritarismo que emergem estupradores, espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mulheres, crianças, mendigos e doentes mentais; traficantes… As vítimas, certamente, estão no cotidiano das metrópoles e pequenas cidades, camuflados no falso repúdio e “vergonha” moral da sociedade autoritária, classista e exclusivista. No entanto, segundo o Evangelho, Jesus Cristo preferiu a companhia das vítimas.

Ideias, atitudes, atos, são gerados em ambientes ideológicos, ou políticos, que afirmam superioridade moral,  social, religiosa, sexual e racial. Estes, que se consideram reservas morais da sociedade, que vão às urnas para eleger políticos com propostas de repressão, discriminam, agridem, acusam “diferentes” de inferioridade. Não raro, apontam aquelas pessoas como nocivas e perigosas; indivíduos com conduta socialmente reprovável; praticantes de atos degradantes.

Prostitutas, homossexuais, indígenas, moradores de rua, doentes mentais, portadores de doenças transmissíveis, deficientes, engrossam a lista. São os alvos preferenciais da sociedade intolerante, em primeiro lugar. Em segundo, são apontados os que defendem e exigem programas governamentais para socorrer “esses excluídos”. Mas a Escritura inteira aponta aquelas vítimas com escolha prioritária de Deus, entre todos os demais.

Não faltam grupos representativos autoritários, de ideologia fascista, julgando atender a um direito de “justiça particular”, pretendendo a “limpeza social da nação”. Dizem defender a coletividade, agem em bandos, agredindo ou linchando pessoas doentes e sãs. O que justificaria a violência contra homossexuais, alienados mentais e moradores de rua indefesos? O narcisismo coletivo não suporta o “lado feio”, repulsivo, desagradável, dos marginalizados ou estigmatizados. Em bandos – em casos especiais, politicamente, em multidões expostas na mídia –, agem para exterminar “indesejáveis” à comunidade e ao país.

Colocar-se aos pés de Jesus, no entanto, ouvir seus ensinamentos sobre a tolerância, sobre o cuidado com os desprotegidos social e economicamente, é uma postura do discípulo que está disposto a aprender sobre tolerância e vida de fé. Poderíamos perguntar também se nossas comunidades, “igrejas evangélicas”, têm a mesma disposição, bem como o direito de excluir aqueles que Jesus Cristo cura, acolhe e incluiu. Mesmo depois de “curadas” e salvas por recomendação de Jesus Cristo. Acrescentaríamos perguntando se comunhão com Cristo dependeria da comunhão como autoritarismo ideológico, e regras sociais vigentes, implícitas na religião. Igrejas têm alguma autoridade para separar quem Jesus chamou e juntou à sua comunidade de protegidos?

  • A ética de Jesus, inclusiva, motivada pela misericórdia, compaixão e solidariedade, nos fará observar os problemas da intolerância em seu tempo (Lucas 17, 11-19). Entre samaritanos e judeus – habitantes do centro e sul de Israel, respectivamente – havia uma antiga inimizade, uma forte rivalidade racial e cultural. A palavra “samaritano” constituía uma grave injúria na boca de um judeu. Equivale a dizer, entre cristãos: termos impronunciáveis, umbandista, espírita, e outros xingamentos preconceituosos do dia-a-dia, no cotidiano religioso (Carlos Mesters).
  • Jesus, ao ver os “impuros” acolhe, cura, e envia-os para se apresentarem aos sacerdotes de plantão, guardiões da comunidade religiosa, cuja função, entre outras, era em princípio a de diagnosticar certas enfermidades, que, por serem contagiosas, exigiam que o enfermo se retirasse da vida pública e do culto.
  • Mas, Jesus ainda exige da religião atitudes concretas de inclusão. E disse também a quem o tinha convidado: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).
  • Jesus ensina: devemos assumir a fragilidade das pessoas discriminadas. Ele se fez servo de todos; nós também devemos servir aos irmãos; amar sem preconceito, sem reservas, sem nos omitir quanto à necessária compaixão pelo fraco e excluído. Ele fez dos fragilizados socialmente seus companheiros, protagonistas da salvação, e deu-lhes liberdade e autonomia para a vida de fé.

Derval Dasilio

Leituras:
27º. Domingo do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 29,1-4; 7 – Procurai a paz da cidade, rogai por ela
Salmo 66, 1-12 – Reconhecidos da salvação, vinde e contai
2Timóteo 2,8-15 – A graça de Deus se manifestou para todos!
Lucas 17, 11-19 – Quem é puro?

COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO?

Destacado

“O futuro me preocupa, porque é o lugar onde pretendo passar o resto de minha vida” (Woody Allen).

Nota: * As fortunas dos três mais ricos do mundo são superiores ao PIB de 48 países. No planeta em que vivemos 25 mil pessoas morrem de inanição todos os dias, e 16 mil crianças de subnutrição. Passam fome 852 milhões. Dos 7 bilhões do planeta, 5% ganham 114 vezes mais do que os mais pobres (2 bilhões). Há 64 favelas no Rio, e 20 a 25 pessoas morrem por dia de forma violenta, nem merecem uma menção destacada no noticiário. É um drama dantesco (inferno?). Das 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba). Mais de 10 milhões de brasileiros, de 39 milhões de miseráveis, vivem com menos de 39 reais por mês (Eduardo Hoonaert – 2013).

lazaroA parábola está presente dentro de uma unidade literária (Lucas 16,19-31). O contraste é grande e impressionante: de um lado luxo e festas diárias e, de outro, úlcera e dependência humilhante. Utilizar esta mensagem bíblica como uma paráfrase do Inferno, de Dante, e dos horríveis fantasmas utilizados para escravizar consciências, e legitimar um poder religioso,  é um equívoco. Contradições  quanto à própria liberdade concedida aos homens de escolher seus caminhos. Uma parábola reflete o tempo dos homens e das mulheres, a realidade cotidiana não foge à regra.

Deus não está na parábola, e sim o pai Abraão, fundador da fé do chamado povo de Deus. O assunto, aqui, é a ausência de solidariedade, cuidado, misericórdia num mundo sem compaixão. O inferno de sempre. Um mínimo de senso realista nos remeterá aos corações humanos e suas complexidades. Como dizia Sartre, “o inferno são os outros”.

Trata do assunto de sempre, inspirando revolta pela indiferença e pelo narcisismo e da inveja. O desgaste na sedução da prosperidade inútil e infrutífera, considerada um ideal social de sedução permanente, influenciando individualismos e usufruto da riqueza sem responsabilidade social. Ou ausência de cuidado existencial pelo outro.

Paráfrase: “Havia um homem rico que gostava de exibir sua riqueza e luxos aos outros (Lucas 16,19-31). Sabia que seus amigos eram invejosos e gananciosos, e por isso os convidava para festas e banquetes suntuosos, em desperdício capaz de alimentar muitas famílias; oportunidade para a cobiça – gozos da riqueza –, mesa farta, bebidas, bajuladores refestelados em luxo, e climatização perfeita. O rico experimenta o lazer caro, as festas, a exuberância dos bens disponíveis, das roupas caras, e os convidados parasitários, enquanto invejosos aproveitavam o que lhes era oferecido do bom e do melhor. E Lázaro come com os cães o que cai da mesa.

A casa do rico era como a mansão de Sodoma, a cidade do pecado (Gn 19,24-25). Ele goza dos bens da vida opulenta, caros planos de saúde, medicina de ponta ao dispor, educação sofisticada para seus filhos, lazer e conforto; carros importados, serviçais para todos os fins domésticos, e pode viajar para qualquer paraíso fiscal, para acrescentar à sua fortuna protegida de impostos nacionais. Era pra satisfazer um economista da União Europeia, hospeda-se em hotéis cinco estrelas ‘A’, cercados por favelas na avenida Niemeyer, em busca de prazeres na noite carioca; acha o país dos ‘centavos do real’ maravilhoso*. Um cronista, como Chico Buarque, descreve-os:

No baticum lá na beira do mar / Aquela noite / Tinha do bom e do melhor / Só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca / […] Foi a GE quem iluminou / E a Macintosh entrou com o vatapá /[…] O Carrefour, digo, o baticum / Da Benetton, da beira do mar / Enquanto isso come do bom e do melhor.

Não lhes importava o gozo da riqueza sem justiça, sem partilha, sem compaixão. Nada de socorrer o pobre (Dt 15,1-11); o sofrimento dos desgraçados, os que passam fome; que não têm casa, nem eira nem beira; que não têm saúde, desnutridos que morrem como moscas nos bolsões de miséria; os atormentados pela miséria não são convidados aos banquetes, à mesa farta, aos bons vinhos e comidas finas.

Enquanto isso, Lázaro sofre, não há virtudes em sua pobreza. Suas chagas são lambidas pelos cães. Lázaro experimenta os tormentos da vida e da miséria, veste andrajos, e disputa comida com os cães sem dono. Um dia os dois morrem. O céu e o inferno fazem parte do enredo, que pode ser levado à Marquês do Sapucaí durante o Carnaval, e o gozo lhe é reservado, mas como recompensa pelo sofrimento da fome, do corpo ferido e lambido por animais de rua.

Inversamente, o rico experimentará o mesmo inferno de quem comia as migalhas que sobravam de seus banquetes. Este não tem nome, não têm existência nem dignidade. Esgotados os usufrutos da riqueza, nada mais lhe restou, senão o desespero da vida sem sentido. Não há razões para viver, instalou-se o desespero, as cenas do drama existencial passam a fazer parte de seu cotidiano; os atores têm as máscaras do sofrimento, alguns se atiram de edifícios altos, de pontes, em mares bravios, ou se jogam com seus carros em despenhadeiros mortais, buscando alívio”.

Porém, o pobre faminto, doente e miserável, chama-se Lázaro, que quer dizer: “aquele que é amparado por Deus”. Deus se lembra do pobre, do sofredor, do que tem a dignidade roubada. Lázaro despertará para eternidade, gozará da chegada ao Reino, das bem-aventuranças, da justiça, e da igualdade, os bens junto aos amigos de Deus. Novos horizontes para a vida, a conquista da esperança definitiva. A aura da serenidade envolve o bem-aventurado nos braços do Pai. Ainda há tormentos? Sim, mas a confiança na Graça (misericórdia = hesed), na realização das promessas de salvação, permite vislumbrar as ressurreições, a eternidade da vida com Deus que começa agora. Deus conduzirá seu barco pelos mares bravios, e o levará ao porto seguro.

Derval Dasilio

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LEITURAS – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Jeremias 32,1-3a, 6-15 – Resgate do melhor da fé …
Salmo 91,1-6;e 14-16 – Imbecilizados não compreendem
1Timóteo 6,6-19 – E crime tirar a esperança dos jovens
Lucas 16,19-31 – No Reino, moradores de rua têm dignidade…

IGREJA: FAROL PARA NÁUFRAGOS?

Destacado

familia brasileira

 

⊕ VENHAM A MIM, DISSE JESUS

Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: “O trabalho liberta!”. Por outro lado, numa igreja frequentada pelo populacho pobre, no centro da Cidade do México,  o  cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite lendo os Evangelhos, e viu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. O Evangelho requer atenção diferente.  Atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, e eu lhes darei alívio” (Sl 40.18; Mt 11.28).

Um exemplo para a paz na Igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, até pelo fato de estarem vivos, incomodando o mundo hostil com sua pobreza e miséria. Se a identidade coletiva prevalece, como muleta para atrofiados, escudo para temerosos, cama para preguiçosos, diversão e entretenimento para irresponsáveis, bem poderia ela ser albergue para os desabrigados, porto para náufragos, nova família para órfãos, utopia para os socialmente inconformados, terra para os despatriados, curral seguro para os desgarrados, mãe nutriz para o crescimento das novas gerações.

Poderíamos recorrer à poesia de Herbert Vianna: Quando tá escuro / E ninguém te ouve / Quando chega a noite / E você pode chorar / Há uma luz no túnel dos desesperados / Há um cais de porto / Pra quem precisa chegar / Eu estou na lanterna dos afogados / Eu estou te esperando / Vê se não vai demorar / Uma noite longa / Pra uma vida curta / Mas já não me importa / Basta poder te ajudar / E são tantas marcas / Que já fazem parte / Do que eu sou agora / Mais ainda sei me virar / Eu tô na lanterna dos afogados… (Lanterna Dos Afogados).

Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo, o Filho, de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus num texto de louvor e gratuidade tão expressivo. De Jesus, ouvimos as palavras audazes e dominantes: “Venham a mim!”. Essas palavras articulam a experiência de Deus na forma de acolhimento mais profundo existente. Não é a toa que a palavra pater, pai na língua grega – daí a expressão “pátrio poder” – se sobreponha ao termo aramaico. Abbá, na língua de Jesus, tem um sentido doce: “Paínho”, no jeito baiano de expressar o carinho. Ocorre o contrário do que a autoridade do nome pater sugere.

 A experiência filial, humana, de Jesus, se harmoniza com o que homens e mulheres mais procuram: cuidado, ternura, solidariedade amorosa. Exatamente porque isso lhes é negado. Jesus é o homem que ama seus semelhantes como Deus, Pai de Misericórdia que ama a todos sem eleições preferenciais. A igreja, se evoca seu fundador, tem o dever de imitar ou reproduzir o amor de Jesus pela humanidade.

A interiorização recomendada pelo Evangelho trata de absolutos éticos que escapam e distanciam-se da inteligência prática. A práxis de Jesus nos remete ao mundo prosaico dos simples, mansos, humildes deste mundo, a quem faltam recursos mínimos para a sobrevivência, enquanto expostos à ganância egoísta do mundo que sobrecarrega de privilégios quem já é privilegiado.

Derval Dasilio

23o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Jeremias 2.4-13; Salmo 81.1,10-16; Hebreus 13.1-8, 15-16; Lucas 14.1,7-14 [23o. domingo] /  []  Salmo 139.1-6, 13-18; Filemon 1-21; Lucas 14.25-33 [24o. domingo]

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ELE BUSCA OS ESQUECIDOS NOS GROTÕES DA VIDA

Destacado

    o pastor

Quem buscará o ser perdido nos profundos abismos, ou nas vias erráticas na vida; quem procurará incansavelmente aquele que não pode retornar sozinho, com suas forças, pelo caminho da salvação? Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo sob o nazismo, ajudando-nos a entender as implicações da espiritualidade cristã a respeito do perdão e do resgate de quem se desvia nos caminhos da vida, diferencia-as da psicologia terapêutica. Diz o mártir da fé incondicional: “a psicologia conhece a miséria, a fraqueza e o fracasso das pessoas… mas não conhece a impiedade humana”! Duras palavras dirigidas à psicanálise. Porque a mesma informa: “o resgate está na pessoa capaz de perdoar-se a si mesma”.

Não é assim o evangelho de Jesus. Em parábolas, ele descreve a alegria do pastor que achou a ovelha perdida, desviada do caminho certo; a alegria da mulher que achou a “dracma” perdida, concluindo: “Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu (isto é, em Deus) por um pecador resgatado, do que por noventa e nove justos que não necessitam de resgate” (Lc 15,7-10).

A existência humana também conhece a esperança da segurança plena e definitiva, quando consegue o apoio no fundamento último, Deus que salva sem estabelecer condições; Deus que salva por amor, em gratuidade, na direção da salvação plena. A presença terrível do Mal ronda as ovelhas nos caminhos da vida. A luz da esperança, mostra que a sombra inquietante do Mal não conseguirá eclipsar completamente a salvação, que “é iniciativa de Deus, e não do homem” (Karl Barth).

O desafio é total, porque o Mal continuará criando esse vazio obscuro, conforme Andrés Queiruga, criando incertezas, apresentando soluções parciais, às vezes camufladas pela terceirização salvacionista humana; contaminando o sentido da vida, e pressionando no sentido da dúvida sobre a gratuidade total que vem de Deus. Sem dúvida, uma aposta de vida ou de morte sobre uma fé que não se submete à razão sobre si mesma, justificando o pecador disposto a aceitar a oferta de Deus.

Deus é transcendência cristalina. Ele quer a salvação dos esquecidos nos grotões da vida, presos nos abismos das escolhas erradas ou por imposição fatalista, determinista. Quer resgatar os incapacitados de concorrer, deixados para trás, excluídos, abandonados nos despenhadeiros das desigualdades, do racismo, das diferenças sexuais, das castas e dos guetos. E Jesus diz que eles pertencem a Deus, e o seu errar lhe causou preocupação, e ele vai buscá-lo, no mais fundo abismo existencial, com ternura e cuidado. O pastor alegra-se na volta do que errou o caminho seguro para voltar à casa; alegra-se por proteger os esquecidos. Trata-se da alegria “soteriológica” de Deus, expressa em Jesus.

Porque Deus é assim, de misericórdia incompreensível, a tal ponto que o ato de perdoar e resgatar é sua maior alegria, por isso o encargo do redentor é arrancar o desviado das presas “satânicas” do erro; é trazer de volta para casa os perdidos no emaranhado ideológico do fatalismo que envolve e seduz o homem. De novo temos Jesus, o representante de Deus, assumindo a missão de vivência do evangelho integral do Reino. Deus vai atrás dos tresmalhados, tomando a iniciativa, para salvar e reconduzir ao redil aquele que necessita de cuidado, de segurança, enquanto comunica que o perdão incondicional é parte essencial do evangelho de salvação e libertação, pronunciado por Jesus Cristo.

“Há um pastor que me protege. / Ele me leva aos lugares de grama verde / e sabe onde estão as fontes encachoeiradas de águas límpidas. / Uma brisa fresca refresca a minha alma. / Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. / Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro como a morte /eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranquilizam. / Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. / Passa óleo de copaíba perfumado na minha cabeça / para curar minhas feridas, e me dá água fresca para sarar o meu cansaço. / Com ele não terei medo, eternamente…” (Rubem Alves – Sl 23: paráfrase)

Derval Dasilio

LEITURAS – 23o. DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 4,11-12; 22-28 – A terra chorará em toda parte
Salmo 14 – O Senhor é o refúgio de quem se perdeu
1Timóteo 1,12-17 – Sou o principal, dos que Ele salvou
Lucas 15,1-10 – Em busca da ovelha perdida

FAMÍLIA – APENAS A CHAVE DA MESMA CASA

Destacado

[LEIA TAMBÉM:]

https://lucigama.wordpress.com/2016/09/11/pedagogia-da-ganancia/

chave vermelha
Temos hoje uma discussão importantíssima sobre o discipulado cristão, em exigências para os filhos da fé, como o rompimento com a “família” simbólica referida pelo humorista famoso (família: apenas os que têm a chave da mesma casa), enquanto estrutura de domínio. Igrejas, tantas vezes apontadas como “famílias da fé”, defrontam-se com a necessidade de construir alternativas de vida eclesiástica sem hipocrisia e sem autoritarismo, como a proposta por Jesus na comunidade de seguidores e seguidoras, discípulos e discípulas.

O treinamento para o consumo começa a ser desmascarado. As crianças aprendem a pesquisar, e isto as colocará à parte do controle social exercido pela família tradicional e pela escola, as duas em velocidade defasada quanto às possibilidades do mundo no século 21, informatizado, pronto para uma revolução nas comunicações, desde a política, a educação, a economia… E o que se deve esperar da religião, como baluarte das antigas formas da sociedade do lucro e da acumulação? Podemos esperar por uma sociedade cooperativa, solidária, relacionalmente dedicada à igualdade?

Não é romper com a família, que Jesus ensina, mas “romper com uma forma específica de ser família”, aquela que acentua o autoritarismo sócio-jurídico-cultural da família apoiada na religião moralista. Tida por muito tempo como refúgio nas instabilidades meteorológicas contra a dureza do mundo, a família é o espelho da moralidade hipócrita sustentada a qualquer custo (como Nelson Rodrigues já denunciava).

No mundo bíblico, a exigência cristã tinha a ver com a transformação da própria vida. Tratava-se de mudar a forma de viver segundo a mentalidade do mundo dominador. Para os oprimidos pela violência intrafamiliar, que sustenta valores pétreos, construídos pelo administrador de bens, capataz do poder econômico, o sentido do que viviam correspondia ao que a ideologia dominante impunha. Mas, o que Jesus indica é romper com a tradição dominante (é preciso deixar pai e mãe, e irmãos corrompidos), e que o discípulo venha a assumir o sentido de vida para todos, pais, mães, filhos, filhas, como proposta para vivenciar o Reino de Deus na família.

Assim, Lucas aponta que a primeira exigência no caminho discipular é romper com o modelo de organização familiar hipócrita-autoritária-patriarcal, antes de qualquer coisa. No início do cristianismo, apregoava-se o relacionamento interpessoal íntimo e intenso dos membros da família. “Tendo dado à família o caráter da comunidade cristã, os lares de seus membros proveram atmosfera mais propícia para o amor e a solidariedade, na qual eles puderam dar expressão aos laços que tinham em comum” (Robert Banks). Para as Escrituras Sagradas, a família é um dos bens mais preciosos da humanidade. O primeiro e último amparo é encontrado no ambiente caloroso e aconchegante da família. É essa a proposta de Jesus.

FAMÍLIAS ENTREGUES AO DESMORONAMENTO DA SOCIEDADE ATUAL

A típica família bem-posta brasileira vem sendo reduzida ao conjunto de “indivíduos que possuem a chave da mesma casa”, disse Ary Toledo, com humor rasante. Quem sabe, então, está na hora de trocar a fechadura? Cada vez mais intolerantes uns com os outros, alimentando enredos de novelas, onde homens e mulheres se debatem pelo “direito à felicidade, sob a compulsão da ganância”. É o tempo do “ter-sem-ser-humano”. O exercício da solidariedade é dinamitado – do topo à base, como um velho edifício –, em eficiente tecnologia de demolições, para que os andares restantes desmoronem.

É urgente exercitar dentro da família o diálogo que a libertará dos antivalores divulgados na mídia, na educação, no trabalho (fatos que não dão sentido à liberdade, à produção coletiva, à participação na construção social). Na escola a educação para a esterilização, a pretexto de experiências inconsequentes, sem criatividade; na economia, a família exposta e submissa a interesses inconfessáveis do sistema bancário-financeiro (cf. cartão de crédito & juros bancários); na política, distorcem-se os direitos humanos e cidadania, direitos fundamentais, induzindo-se à irresponsabilidade para com a coletividade, pelo ato de votar corporativamente ou por interesse pessoal. E uma infinidade desprotegida de condenados à morte social nem é lembrada como parte da família humana em questão.

O ataque à “geração internet”, onde muitos acusam o mundo virtual de inculcar a irresponsabilidade e a depreciação moral da família, não procede. Há uma família nova amadurecendo, enquanto experiências críticas são exercitadas como nunca. Tablets, smartphones, computadores, são meios. “O meio é a mensagem”, já dizia Marshal McLuhan nos anos 70. O que se observa é que uma ferramenta das mais poderosas pelas quais passou a humanidade é utilizada principalmente pelos jovens. Esta geração é a que alcançou o maior número de opções e tarefas para o bem-viver, em todos os tempos (Tapscott).

Há um desafio diferente que o consumismo que tem sido ensinado aos jovens: “ter-sem-ser-gente”, pedagogia da ganância. Esses valores estão em cheque, porque não preenchem a vontade de ser gente, ser humano, ser como os demais em suas carências e lutas pela sobrevivência. O novo brota num terreno virgem.

E o que é velho? A sociedade humana é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis de fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, traficantes; espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mendigos e doentes mentais; traficantes… É o mundo do homem tomado por situações reais, concretas, expostas no cotidiano. O mal radical não poupa as famílias. Enquanto na igreja, ensina-se um cristianismo sem Cristo, sem misericórdia, sem compaixão e sem solidariedade. A família necessita de salvação.

Derval Dasilio

LEITURAS
22ºDOMINGO do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 18,1-11 – Convertei-vos, consertai os vossos caminhos / Salmo 139,1-6 (13-18) – Livre desde o ventre da mãe / Filemon: 1-21 – Tirei-lhe as algemas da hipocrisia / Lucas 14,25-33 – Rompam com a hipocrisia da família

A CEIA DOS DESGRAÇADOS E CONDENADOS

Destacado

A CEIA DOS DESGRAÇADOS E CONDENADOS

21º.DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO C]
Jeremias 2,4-13 – Que injustiça acharam em mim?
Salmo 81,1 (e 10-16) – Ah, se meu povo me escutasse!
Hebreus 13,1-8; 15-16 – Com hospitalidade, acolhendo anjos
Lucas 14,1(7-14)  –  Não procurem lugares de destaque…

samaritano lc 14Quem se disporá, na instrução para a celebração litúrgica da Santa Ceia, a indicar as condições de participação; a perguntar individualmente a cada um, se cometeu quaisquer dos pecados dos listados, “paulinamente”, que supostamente tornariam alguém indigno da comunhão eucarística, incorrendo no perigo de esvaziar-se imediatamente a assembleia, e não restar nem comungantes ou celebrantes para o ritual prescrito?

Uma discussão sobre a ética cristã se interpõe, enquanto debatemos sobre a inclusão eucarística à luz do Evangelho. Arriscando um exemplo, as questões e assuntos entrelaçados de confusões e preconceitos, antes que de tratamento teológico sobre excluídos, segundo a proposta inclusiva do Senhor Jesus Cristo, hoje, não se observam, irmãos bêbados contumazes, ou glutões locupletados, reivindicando a participação da mesa e do pão eucarístico?

Como se denunciava existir na igreja de Corinto, imaginamos nas celebrações frequentadores de cultos pagãos à fertilidade, blasfemos, bígamos, incestuosos, sexualmente imorais, bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos sociais e trabalhistas; empresários, homens públicos, políticos, envolvidos com corrupção, defraudadores, sonegadores de impostos?

Evocaremos, celebrantes e comungantes, para todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a Eucaristia, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos das igrejas gentílicas (cf. as epístolas e também Atos dos Apóstolos): violentos, mentirosos, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, ladrões, corruptos em todos os níveis, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas; bêbados, injuriosos, participando da celebração, impondo-lhes restrição à comunhão? Ou, silenciosamente nos declararíamos incapazes de reprovar os outros, levando em conta nossos próprios pecados, inclusive o preconceito e a intolerância, uma vez que as Escrituras, no Novo Testamento, não definem graus de pecados, ou qualificam pecadores, para negar-lhes a comunhão? Porque excluir homoafetivos, por exemplo, e privilegiar os demais?

Eles e elas são membros de nossas igrejas. Alguns são pastores, padres, presbíteros e diáconos, professores na escola dominical. Quem os apontaria se convidados na instrução para a celebração da comunhão? Se não se lhes nega a comunhão, quais seriam os critérios para negar a eucaristia aos demais? Critério sociológico-cultural-homofóbico-racista? O critério teológico de eleição à vida de fé não acompanha esse estreitamento. Em nenhum momento. Ao contrário, humildemente nos inclinaremos diante dos critérios de Jesus.

No Reino da justiça e da solidariedade, porém, a festa para a qual Deus convida a todos, quem oferece a honra dos primeiros lugares é o próprio Deus, e ele já determinou que esses lugares são reservados aos pobres e humilhados pelas desigualdades, ao contrário do costume. Lucas faz uso da voz passiva, é para substituir o nome de Deus. Portanto, é um julgamento: “a justiça de Deus consiste em se inverter aquilo que costumamos chamar de direito, dignidade da autoridade convidada”.

Não é certo, justo, louvável, o que é para a maioria, que diz: “manda quem pode, obedece quem é inteligente”. Dizem os gaúchos dos pampas: “Quem está de fora não adianta granar o catete; quem não tem, não adianta querer…”. O conselho que Jesus dá ao fariseu que o tinha convidado é inversão do senso popular: “não convide amigos, irmãos, parentes e ricos; convide pobres, aleijados, mancos, cegos. Os quatro primeiros são os convidados que podem retribuir o convite, ou que ficam obrigados a fazê-lo; os quatro últimos nada têm para retribuir”. Os “sem-tudo” são os primeiros, no banquete da vida. A atenção de Jesus se volta para prostitutas e todos discriminados – por conseguinte, por sua inclinação sexual –; vítimas de distúrbios mentais; doentes de toda ordem, deficientes físicos.

Na primeira fila os pobres e deserdados da sociedade de seu tempo. Um cristão qualquer poderia dizer: “o dia em que minha igreja, no momento da celebração da Ceia mandar os diáconos ir buscar os mendigos na calçada em frente, crackeiros, alcoolistas, prostitutas, para participar  da celebração em igualdade com os demais, terei certeza de que escolhi a comunidade certa. Para o resto da vida”.

É o Apocalipse que dará o toque final da inclusão proposta por Jesus Cristo: “Felizes os convidados para a festa do Cordeiro de Deus” (Ap 19,9). Jesus pergunta, desafiando, comentando, argumentando, sobre o que é maior, em favor da vida; do atendimento das necessidades vitais do próximo; do cuidado com os despojados de cidadania, os afastados intencionalmente dos bens sociais. Os discípulos de Jesus são desafiados a assumir as mais escandalosas quebras protocolares, infringir regras sociais e religiosas, para atenderem ao clamor da Graça. A sustentação do dom de Deus: comunhão com a Vida, sempre em primeiro lugar.

Derval Dasilio

UM POBRE NÃO PEDE, EXIGE JUSTIÇA

Destacado

Reblogado. Publicação de 2014.

Derval Dasilio * "Eu e a Política"

Deu na revista Ultimato. Faz dois anos. Uma reportagem sobre a Cracolândia — ou seriam “cracolândias” –, na cidade que mais nos fascina no Brasil, S.Paulo. Elben César, pastor presbiteriano septuagenário, entra na pele do “Mineiro Matuto”, pseudônimo que adotou para divulgar assuntos variados de interesse para a população evangélica tradicional. Entre as “cracolândias”, teve que escolher uma área mais adequada à observação, nas imediações do centro histórico. Mas poderia ter optado pela Barra Funda, Higienópolis, Campos Eliseos, elevado Costa e Silva, no cardápio perverso das piores concentrações de pobreza em S.Paulo, muito mais merecedora de atenção que as gigantescas favelas da Capital.

O tripé pentecostal cura, exorcismo, prosperidade, ruiria se houvesse qualquer cuidado quanto a aspectos da doença e da morte que ronda a todos os viventes. Drogadismo, compulsões patológicas, alcoolismo, jogo. Noutro grupo: hipertensão, câncer, aids, pneumonias, alergias, viroses, compõem o imenso repertório das doenças a que estamos…

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É PROIBIDO VIVER LIVRE…

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mulher negra e direitos fundamentaisDOMINGO LITÚRGICO – 20° – TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO C]

Lucas 13,25-33 – Jesus e a religião da justiça

Hoje, poderíamos falar do fundamentalismo enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Jaime Wright, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas dos dias de hoje. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu uma placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”.

O legalismo sempre está próximo da sociedade autoritária, do fascismo, do preconceito e do exclusivismo religioso. A palavra “equidistância”, no entanto, é bem frequente na igreja, exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, com base, supostamente, em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”. Cristãos evangélicos, a favor do apartheid, reagiam contra a cessão de direitos para todos os cidadãos e cidadãs negros, que ainda existe como em outras tantas, pelo mundo. Estes se lembrariam de que o fundador da nação, George Washington, possuíra escravos, e teve concubinas negras com as quais gerou vários filhos?

No Brasil, o pastor Jaime Wright teve pedidos formais de dirigentes eclesiásticos para ser afastado da luta em defesa de prisioneiros políticos, de banidos, abduzidos, torturados, sob a ditadura militar. Ia aos ditadores com dom Paulo Evaristo Arns. Nas palavras de Leonardo Boff, diziam: “vocês estão destruindo a imagem de Deus, quando permitem e estimulam a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores, o puro e simples assassinato na clandestinidade”.

Podemos imaginar um precedente em Isaías (Is 5,20), que coloca a ação concreta no campo do amor justo, “ahavah”, amor visceral e misericordioso de Yahwé. Amor que vem das entranhas. Isaías aponta a religião dos que não buscam a justiça: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo”. Segundo a perspectiva do Novo Testamento, porém, o amor pela justiça é maior que o amor humano, é “agape”, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustentam a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e os direitos fundamentais.

Não é sem fundamento a crítica que se faz da religião sem amor e sem justiça, nos dias de hoje. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, do cuidado com a coletividade, além do outro, o próximo; ela é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos pelo ministério público, em todo o país); é dogmática, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se e isentar-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia.

Ela supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, mas na verdade alienado quanto às realidades concretas a seu redor; é individualista, porque olha somente para si, sustentando caminhos próprios para a salvação dos demais “concorrentes”; ela compactua com o imperialismo patriarcal, negando a participação feminina, embora as mulheres constituam a maior parte da população do planeta. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, desde as profundezas da alma religiosa fanática ou obsessiva. E outros atributos, defeitos morais, que merecem atenção à parte: é racista, homofóbica, repressiva, fechada, supersticiosa… Como nos livraremos dessas críticas?

Jesus desvenda a hipocrisia (hipocrysis = máscara) de uma religião que não só não liberta as pessoas dos seus fardos, mas também lhes impõe um fardo extra nas costas. Como? Um animal vale mais do que uma pessoa humana? Se o animal pode ser liberto em dia de sábado, por que não uma pessoa oprimida na vida toda? O que pensar de uma religião que se apresenta como representante de Deus, mas que, na prática, escraviza e mata as pessoas, esmagadas e exterminadas por sistemas políticos, econômicos, sociais? Essa “religião” não estaria justamente a serviço desses sistemas? (I. Storniolo).

Derval Dasilio .

TERRA INCENDIADA PELA JUSTIÇA…

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fogo - meteoro

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM [ANO “C” DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 5,1-7 –  Deus amou Judá e Israel, um dia…| Salmo 80,1-2;8-19 – Quando gritavas sob opressão eu te libertei | Hebreus 11,29 -12,2 – Ninguém, no entanto, logrou a realização da promessa | Lucas 12,49-59 –  Como gostaria que a terra toda já estivesse incendiada pela justiça…

Lucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos mediterrânicos que já estavam sendo perseguidos quando a primeira parte da sua obra fora escrita. Ele, simpaticamente, fala aos romanos, pessoas comuns que frequentavam as primeiras comunidades cristãs da história (século I do cristianismo), ao dar a entender que eles ignoravam o que estava por trás de tudo, da realidade do governo imperial, das elites em torno do mesmo. “Melhor é infiltrar do que confrontar-se com força cultural muitíssimo superior”, sugere Jesus. Fala a partir da experiência comum dos homens e das mulheres com a vida social e política de todos os tempos.  

Uns dizem que Jesus foi um homem submisso, indiferente aos poderes reinantes. Que sua única função na terra teria sido a do homem dócil, submisso, servil, subordinado aos poderes do mal, até ressuscitar e ascender ao céu. Imagens sempre associadas ao distanciamento das questões essenciais, como a escravidão, a exploração humana, a exclusão e a liberdade. Para pietistas, o Jesus contemplativo dos embates emocionais, entre mártires feridos, tomado de êxtases sentimentais, e como inspiração da adoração do sangue salvador, definiriam a razão dos evangelhos. Outros, contudo, definiram-no como incrementador de uma revolução política que mudaria a história do mundo.

Não, Jesus não é apenas um  espiritualista piedoso, ou um ativista que veio fazer uma revolução política, econômica e social. Faz muito mais que isso: como um meteoro descido do espaço, subverte os valores criados pela ideologia da ganância, abundância e desperdício; do poder político, da riqueza e do prestígio, da corrupção histórica, colocando em seu lugar os valores da fraternidade, solidariedade, dos bens e da partilha nos bens comuns que geram liberdade e vida para todos.

O capital abandonou seus territórios originais, tornando-se leve, desembaraçado, independente, solto no ar. Protegido pela velocidade da informação que percorre o espaço virtual em tempo real. Seu nível de de mobilidade é suficiente para controlar, sob chantagem, a política e os políticos, que ainda dependem de territórios, e fazê-los dependentes e submissos às suas demandas. O capital dá ordens, a política cumpre, sugere Zygmunt Bauman.

Um governo dedicado ao bem-estar dos cidadãos pobres, ou rebaixados na escala social, não tem a menor chance de sobreviver, se não bajula, implora, ajoelha-se, aos pés do capital. Resta-lhe ajustar-se às regras da “livre empresa” (eufemismo para a subserviência escrava ao capital). Dar credibilidade ao poder do capital, persuadir os detentores do capital para os investimentos necessários, é a pior das tarefas de um governo. Se não consegue, pela corrupção, o capital derruba-o. Não há golpes de estado sem sua participação e financiamento.

Para o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, o sistema judicial brasileiro está longe de ser ideal e não funciona da mesma maneira para todos. “Nós criamos uma sociedade cheia de ricos delinquentes, que sonegam, fraudam licitação, subornam, fazem lavagem de dinheiro”. Foi o que disse o magistrado em entrevista para Roberto D’Ávila, da GloboNews, também falando na necessidade de criar uma Justiça que “valesse para todo mundo”. Estamos falando de justiça econômica?

Avenidas, com financiamento público e proteção policial, têm sido ocupadas com paradas gays – e estes tão somente fazem uma farra massificada e divulgada na mídia, sem nada reivindicarem em direitos fundamentais para os demais grupos sociais. Acordo feito também com evangélicos pentecostais, amantes de uma estranha teologia da ganância (exibindo vantagens numéricas, econômicas, falsa prosperidade material), que nada dizem dos problemas da cidade, nem falam de opressão política nas “marchas-com-jesus” que realizam. Controlados, bem comportados, absolutamente sem consequência, em ambos os casos, não houve — no espaço público que ocupavam — tensão entre a polícia e as multidões  esquecidas pela mídia no dia seguinte.

Questionado pelo público manifestante, sobre o que estava acontecendo na cidade, abusos nas privatizações referentes à mobilidade urbana, no entanto, o governo optara pela repressão, gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassete a torto e direito. Ao invés de proteger manifestantes, como fez nas manifestações anteriores, autorizadas, optou por reprimir, porque as reivindicações agora faziam sentido, impertinentes, perturbavam e até hoje incomodam os governantes. O movimento Occupy desencadeara, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada, pouco tempo atrás. Basta tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos (David Harvey).

Aqui, não sabemos quantos Jovens estão protestando contra a privatização dos bens da cidade, ao invés de reivindicarem um credicard, shopping centers fabulosos, complexos dedicados aos consumidores do luxo. Em minha cidade, a Assembleia Legislativa foi ocupada durante duas semanas, em 2013, e desprezaram o gigantesco shopping à sua frente, fachada com fachada. Querem o espaço para se relacionar com os poderes políticos, mas com política nobre, para se reunir, para existirem como cidadãos, como fazem outros jovens em muitas cidades do planeta, e não querem que a casa legislativa seja um lugar de negociatas inconfessáveis; que defende interesses de corporações e de partidos sectários.

Mas nos empolgamos com magistrados que julgam um “mensalão”, ou “petrolão”, condenam políticos escolhidos e não tocam nos seus preferidos, enquanto “ensinam” como evadir divisas aplicando recursos pessoais em paraísos fiscais ou em mercado mais rentável, no exterior (cf. Panamá Papers). O papa, porém, pergunta ao jovem, entre os que o ouvem num encontro mundial de 3 milhões de fieis, sobre  hipocrisia, política de baixa categoria; subserviência ao mercado, dos que não servem nem à justiça nem à população: “E você, jovem, o que está fazendo? Se não faz nada, grite!”.

DE FREUD À VIOLÊNCIA DA POLÍTICA AUTORITÁRIA

A frase de Freud denuncia: “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não que deseje aboli-los, mas porque quer monopolizá-los”.  O modelo de sociedade autoritária se exaure, dissolvido numa força que aparece quando governantes abdicam da justiça, da nobreza da ética, dos valores, da alta política. Aquela nobreza da política voltada para os direitos cidadãos, o direito à dignidade, vida com qualidade repartida igualitariamente. A razão principal da gente comum, nas manifestações, poderia ser a insegurança geral, expressa com mais evidência na saúde e na educação. Mas não é.

Neste momento, o Brasil passa por um golpe de estado com orientação parlamentar, sob exceção constitucional. O grande empresariado, atrás dos recursos do país, organizado em cartéis secretos, atrás de concorrências bilionárias, encontra-se sob investigação insistente do ministério público. Por trás do mesmo está o núcleo chantagista do poder político. O que todos querem é o dinheiro público loteado entre eles. Mas, o que os trabalhadores desejam mesmo, ardentemente, no Brasil, é a volta do emprego, e com ele sua função social: saúde, alimentação, habitação, mobilidade urbana. Querem seus direitos históricos garantidos, sem quebras ou retrocessos nas leis trabalhistas. Atrás de cada trabalhador tem uma família que “precisa morar dignamente, alimentar-se, ter acesso à saúde, à mobilidade urbana, etc.”, todos sabemos. Mas precisamos saber também quanto o dinheiro da corrupção, que escorre dos setores mais abastados da economia privada, poderia significar para a igualdade na economia popular. Por exemplo, o consumo de bens sociais e bens duráveis.

Aumentar os custos da máquina pública, hábito do Estado corrompido, como se faz celeremente no governo provisório, pode satisfazer aos políticos e seus séquitos na aristocracia das casas parlamentares. Mas não atende às  grandes necessidades de um povo inteiro, referentes à saúde pública, saneamento básico (mais de 100 milhões não dispõem de água limpa e esgotos sanitários). Sem falar dos direitos fundamentais de moradia, escola, ensino universitário, mobilidade urbana, atendidos precariamente em todo o País. Até uma década atrás, antes do combate frontal à pobreza e miséria, hoje em retrocesso. Por que políticos, que estão a perigo com a seca temporárias das fontes onde a corrupção se abastece, têm o direito de esquecer a população e suas grandes necessidades?

O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades da natureza cíclica, a chuva, a seca, a previsão de colheitas…), e não sabem interpretar a conjuntura (política) presente?” Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo — que acusam os adversários e absolvem seus companheiros –, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los.

Derval Dasilio

O ELOGIO DA GANÂNCIA

Destacado

18º. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Oséias 11,1-11 – Meu povo é obstinadamente apóstata/ Salmo 107, 1-9 (40) – Alguns extraviaram-se por desertos afora / Colossensses 3,1-11: Fazei morrer em vós os maus desejos / Lucas 12,13-21 – Meu Pai entregou-lhes o reino como tesouro…
Cópia de ganancia principal

Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza” (atribuído a Oscar Wilde) . Quantos deixaram passar por suas vidas a grande oportunidade de ouvir a mensagem do Reino de Deus, de justiça para todos, e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos? “Onde está teu dinheiro, aí está o teu coração”, sugere o Evangelho… A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração…”.

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Então Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável para com os demais? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”?

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Calcada na ideia acertada de Nietsche sobre o poder, que poderia lembrar-nos os motivos anteriores, dos que preparam “o cerco das multidões”: trata-se do inato impulso em direção à posse, à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações. Estamos sitiados pelo dinheiro. Previu que o mal-estar maior que a modernidade conheceria seria a exacerbação, o elogio da “ganância”, por trás das tragédias. Tragédia como a situação  política da nação, nestes dias em que as ruas estão incendiadas em manifestação e crítica direta aos governantes do país inteiro.

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Essa fonte vertiginosa de atitudes é profundamente influente na determinação de valores que diferenciam as coisas, embotando o poder de discriminar o que vale e o que não vale, o importante e o sem importância na construção da vida, dizia Georg Simmel (A Metrópole e a Vida Mental).  O dinheiro, e a ausência de cores e indiferenças que contém, torna-se denominador comum de todos os valores essenciais, como referência antiética, quando se passa a perguntar sobre o “quanto” vale  uma pessoa. E não os valores que cercam a vida de alguém. O dinheiro arranca irreparavelmente a essência das coisas, a importância da individualidade pessoal, tornando a mesma pessoa um objeto de troca, no escambo da vida.  O Estado, a religião, a vida cotidiana, as corporações, os partidos políticos e demais grupos da sociedade humana, estabelecem-se e se desenvolvem dentro da equação monetária que deve ser deslindada e resolvida.

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A construção do painel vertiginoso da vida moderna, tomada pela ganância de poder, de ter, de dominar a vida e a morte, encontra na obra de Goethe, “Fausto”, um parâmetro estarrecedor. E verdadeiro. Essa obra foi construída à luz de grandes turbulências políticas, como a revolução francesa, e a revolução industrial gerada na Grã Bretanha. A moderna democracia, assim como a industrialização capitalista, predatória, excludente, determina a vida das pessoas, especialmente no mundo ocidental. Temos no Fausto a síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo.

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Fausto vendia ao diabo (Mefistófeles) sua alma, pela fortuna e pelo poder. Mefistófeles trava com Fausto um debate sobre como sobreviver, onde a acumulação do capital, dos bens, explora fundamentalmente a mente gananciosa: “Entendamo-nos bem, não ponho a mira na posse do que o mundo apelida de gozos; o que eu quero é atordoar-me; quero a embriaguês de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubo das mais altas aflições. Estou curado da sede de saber (…). As sensações todas da espécie humana em peso, quero-as dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde minha mente e vontade são aplacadas. Assim me torno eu próprio a humanidade e, se por fim a perder, me perderei com ela”, resumiu Marshal Bermann.

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OS JOVENS E A PEDAGOGIA DA GANÂNCIA

Por que falamos tanto de corrupção, quando se ensina a ganância a todo momento? Sejam quais forem os motivos, ou eufemismos como a “ambição”, a característica fundamental do que se apresenta para os jovens de nosso tempo refere-se ao elogio da ganância, pedagogia que transforma em virtude o grande pecado da sociedade hipermoderna.

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A vida e a alma estão situadas nas coisas; a alma do mundo é o dinheiro e os bens acumulados. Mal que nos acompanha desde as sociedades arcaicas, ou primitivas. Sucesso é “ouro”, ser dono de tesouros e bens; ser portador de “credicard”, passaporte para a felicidade do consumo. Portanto, a desumanização da vida está em alta, e em baixa o espírito, valores que sustentam o corpo, a partir do cultivo da misericórdia; da compaixão e da solidariedade. O dinheiro é o coração do novo complexo de acumulação. Patrimonialismo.  Capacidade de gerar falso bem-estar (juros) e energia, enquanto o corpo vai recebendo os influxos da civilização moderna em torno do capital (Norman O. Brown).

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A própria sociedade custa a reconhecer sua responsabilidade quando elege políticos notoriamente corruptos, ou tantos outros que irão reforçar o “direito natural à corrupção”. Assim, como se perguntou recentemente a José Ugaz, da Transparência Internacional, qual seria o caminho para uma política sem corrupção? E o próprio Ugaz respondeu: “Existem cartéis de crime (alusão ao Congresso Nacional e  Governo, em conluio com grandes empresas estatais e privadas, nacionais), é preciso formar “cartéis de integridade”, um plano para o bem comum, para mobilizar a população e obter o seu respaldo”. Mudar a cultura política e aprofundar a consciência ética nacional, em sentido amplo, no todo social, seria pretender muito, ou já desistimos de combater a corrupção?

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Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, suas perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. A vida é um tesouro real e duradouro. Sonhamos com paraísos, igualdade entre homens e mulheres; construímos utopias sobre o bem-estar coletivo, habitação digna, saúde pública moralmente aceitável, escolas verdadeiras e humanizadas, pão em todas as mesas. Como os sons e as tonalidades do universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

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Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da criança recém-nascida. Que mundo e que humanidade a esperam. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.

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“Sim, e quantas vezes precisará um homem olhar para cima,/ Antes que ele possa ver o céu?/ Sim, e quantas orelhas precisará ter um homem,/ Antes que ele possa ouvir o lamento das pessoas?/ Sim, e quantas mortes ele causará, até saber/ Que tantas pessoas morreram?/ A resposta, meu amigo, está soprada no vento” (Blowin’ in the Wind, Bob Dylan).

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Derval Dasilio

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

Destacado

ógicos liberdade aos cativos

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

17o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 1,1; 10-20 – O povo perdeu a fé…
Salmo 50,1-8 – Escuta, meu povo, vós prostituístes a fé de Israel
Hebreus 11,1-2.8-19 – Insatisfação com esperanças imediatas
Lucas 12,32-48 – Vocês também, fiquem preparados!

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman, meu cineasta preferido desde a juventude, disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. O fundamentalismo assassino, no nascedouro, celebra os resultados nefastos aplicado ao mundo evocado no filme “O Sétimo Selo”,  exatamente nos primeiros momentos posteriores à II Guerra Mundial. Supostamente vitoriosa sobre o nazismo, mas absolutamente envolvido pelo stalinismo controlador da Cortina de Ferro, a Europa parece em perplexidade e agonia.
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A atomização do nazismo e do fascismo, a realidade do socialismo estatal, síntese do totalitarismo que sufocou as democracias do século 20, apresentava refúgios ideológicos irrevogáveis, e as seguranças das sociedades autoritárias pareciam garantidas na aceitação das tiranias modernas. O Brasil experimentou, por duas décadas, uma ditadura aprovada por grande parte da população. Hoje, os filhos e herdeiros daquele regime de força parecem saudosos e manifestam anseios autoritários pelo retorno da mesma.
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O cristianismo simbólico, entre estes, dispensa a fé na justiça de Deus, e desconhece a esperança de uma nova humanidade, um novo céu e uma nova Terra, envolvido com o propósito estatístico, patrimonialista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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Falou também da justiça formal, jurídica, quando juízes honestos são pressionados pelo capital, o meio empresarial que corrompe, comprando favores, distribuindo propina para concretizar concorrências fraudulentas, enquanto toma dos governos o dinheiro público que compensaria as carências dos fracos, quanto à saúde, a escola, a habitação. Juízes que aplicariam a justiça para a dignidade humana são pressionados por corruptos, debilitando a democracia participativa, tornando-a degenerada. Enquanto privilegiam poucos contra as perdas de muitos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física, morte social e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; fracos, marginalizados, os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas, sustendo uma espécie de democracia degenerada, perversa, para os necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores ideológicos, fascistas ou nazistas — representantes da sociedade excludente, que apoia a “limpeza social” —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais; aos milhões de desempregados, e suas famílias, sem saúde, sem habitação, sem esperança.

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidade e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época, em suas tendências de aprofundamento da miséria. Diálogo sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.
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Defesa da vida, é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica,cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana, se acompanha o mapa da fé, reclama pela salvação do pobre e oprimido, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte.

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Os males de governos políticos perversos, que negam direitos fundamentais, não podem permanecer num beco sem saída, sem justiça e sem salvação. Todas as mortes são refletidos na ausência de políticas que não estabeleçam como prioridade o pobre oprimido. O autoritarismo patrimonialista, egoísta, no entanto, é uma espécie de “mala onda”. Um movimento perverso contra a dignidade dos mais fracos. Abraça toda uma sociedade das entranhas para o cérebro, enfraquecendo a democracia igualitária, solidária, enquanto envolve as pessoas como um movimento ensurdecedor de combate falso à “corrupção”. Não é possível acreditar na veracidade desse clamor, quando os mesmos que clamam não se afligem com a injustiça imposta ao pobre e oprimido.
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Investir nele é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, que a ele é destinado, segundo o evangelho de Jesus Cristo. Quando a Justiça deixa a venda em seus olhos descer para boca, tornando-a uma mordaça, está escolhido o roteiro inverso para se chegar ao Reino de Deus, segundo o Evangelho de Jesus Cristo: “preparem-se para proclamar a justiça”. Para tanto, consideremos a fé: “Vinde aflitos, oprimidos, cheios de tristeza e dor”, o Reino está perto.


Derval Dasilio

EM TEMPOS DE ESTUPRO COLETIVO JESUS SOCORRE A MULHER

Destacado

 o próximo.

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Amós 8,1-12 – Corrupção transformada em funeral…
Salmo 52 – Os justos haverão de ver e ouvir tudo
Colossenses 1,15-18 – Nele são reconciliadas todas as coisas
Lucas 10, 38-42 – Bem-aventurado o que ouve sobre a violência social…
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“Et Dieu créa la femme”, lembrava o cineasta Roger Vadin em 1956. Por onde andariam as mulheres, no início da era cristã? Na segunda geração da igreja inicial, pós-apostólica, as mulheres tinham funções diminutas (Elza Tamez). Isso se deve à forte pressão da cultura patriarcal judaico-cristã na Igreja. Inventa-se uma outra forma de domínio para submeter a mulher: o “patriarcado amoroso”. Que não deixa de ser patriarcado.
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Lucas, depois, nos apresenta finalmente um caso pertencente às tradições recebidas pelo evangelista no círculo de seus discípulos, especialmente as mulheres, faz-nos contemplar um quadro familiar, no qual Jesus faz uma visita a amigas. Marta e Maria recebem-no em sua casa. Marta se multiplicava para atender o hóspede. Jesus a repreende: “por que andas inquieta com tantas coisas, tantos afazeres, e não ouves o que tenho a dizer”?
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A vida das mulheres era, no antigo Israel, bíblico, bem próxima da escravidão, se consideramos a exclusão da vida pública. Não menos na Judeia contemporânea de Jesus. Seu papel era servir os homens. Em tempos remotos, filhas podiam ser vendidas como escravas. Mulheres menstruam, parem filhos, têm sangramentos naturais, conforme determinam seus corpos e organismos, era repugnante a um judeu ser tocado por uma mulher nestas condições. Para a religião isso é “impureza”. Sua desqualificação, pela forte imposição da religião, separava-as no templo e na sinagoga.
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Cristãos ortodoxos e islâmicos, no Oriente, continuam com prescrições semelhantes até os dias de hoje. Segundo a lei judaica, mesmo diante do direito romano que o favorecia, o divórcio não lhes era facultado. Só as mães eram elogiadas. Noivas, desde a pré-adolescência, podiam ser repudiadas se desvirginadas ou apresentando gravidez. Mulheres estupradas, violentadas, mães solteiras, eram apedrejadas. Risco que correu a mãe de Jesus, não houvesse José aceitado ser seu “pai adotivo”. Jesus não acompanhou a cultura autoritária e codificada de seu povo, nas prescrições do “halacah”, ou na “Torah”.

Provavelmente, porque as prescrições sobre o “impuro”: bastardia, enfermidades, pessoas com deficiências deficiências físicas, em geral, também não estavam em sua relação de interesses, a não ser quanto à exclusão religiosa e social de tais pessoas. Na contra-mão dessa crueldade, Jesus anunciou que elas eram preferenciais no Reino de Deus (Mt 27-36).
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Maria, frente a Jesus, prefere ser uma mulher educada, cortês, “receber Jesus”, oferecendo hospitalidade no seu espaço interior, secreto. Na profundidade dos sentimentos, das percepções, e das sensações e anseios do coração. Espaço colocado para ouvir e refletir. Marta, porém, oferece coisas a Jesus. Maria se oferece para ver e ouvir com o coração, quando se pode constatar a Grande Realidade salvadora. Mesmo quando em pequenos fatos e pequenas realidades, como a atenção e escuta das promessas divinas (J-Y. Leloup). Quais são as demandas, as necessidades e os sonhos libertários que Marta não intuiu?
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Provavelmente Jesus queria lhe dizer que a sociedade autoritária, seus valores, aspirações de poder e de mando, funcionava contra a vida. E, que mitos sobre supremacias sexuais, raciais, econômicas, culturais, confirmam criações e afirmações sobre absolutismos, determinismos políticos e culturais tidos como irremovíveis, agregados às crenças na fatalidade e irreversibilidade do mal estrutural. Desigualdades impostas, com ingredientes de preconceitos, intolerância, hegemonia sobre indivíduos e classes, comparecem como excrescências acumuladas nas sociedades autoritárias [atitudes e informações sobre estupro e violência contra a mulher, nos últimos dias].
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E, quem sabe, outras coisas mais, das criações humanas para justificar a exclusão, oprimir, estigmatizar, alijar e exterminar seres humanos. Jesus poderia dizer à amiga judia que a vida criada por Deus, entregue às criações humanas da ganância, de supremacia, de poder, era corroída por um interesse espúrio de dominar as pessoas em lugar de Deus, substituindo-o.
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Em nossa sociedade, são homens que estigmatizam mulheres, e absolvem estupradores. A revista CartaCapital (15.junho 2016), relata: “É no Brasil conservador que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Estupros coletivos, ataques familiares e de pessoas próximas da família das vítimas, oferecem um diagnóstico da perversidade masculina. A ideologia do patriarcalismo, cultura do machismo, alimenta as diversas formas da violência contra a mulher, entre elas o estupro. Mulheres são colocadas como objeto de domínio, ou como propriedade do homem. E, no universo perverso da violência contra a mulher, cresce o número de vítimas mortas. No Brasil, 13 homicídios femininos por dia, segundo o Mapa da Violência, 2015”.

ESCOLHAS À DISPOSIÇÃO DAS MULHERES


Segundo o julgamento de Jesus, Maria escolheu imediatamente “a melhor parte”, que é refletir e tomar conhecimento das realidades imediatas, um mundo e uma sociedade que necessitam de transformação, de justiça e de igualdade e dignidade na partilha dos bens sociais e culturais. Há necessidades, além do que se exige da mulher: paixão, abraços, carícias, sorrisos; intimidade sexual, trabalho remunerado em desigualdade com o homem, além das coisas que dão prazer estético que se quer da mulher (como na canção de nossa juventude: “Una mujer debe ser soñadora, coqueta, ardiente./ Debe darse al amor / Con frenético ardor / Para ser una mujer…”).

Marta, submissa às convenções sociais, desgraçadamente, não quer que nada falte ao importante hóspede. Pretende dar tudo, e deixa passar inconsequentemente “a única coisa necessária”: ouvir as intenções de Deus (shemah Israel: ”Ouve, ó Israel, diante de ti coloco dois caminhos” – Deut 6,4).
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Não se podem ocultar as causas que fazem indivíduos humanos sofrer, homens ou mulheres, além das pressões sociais. Fracassos, desequilíbrios, desajustes, como a violência, a luta por supremacia, e tantas mais, atuam contra os mesmos. Além das estruturas antagônicas do medo, do pavor diante da natureza, tempestades, furacões, terremotos. E a angústia sobre o mal abstrato na superstição, na magia religiosa, da submissão à fatalidade. O evangelho de Jesus expõe os males concretos no campo das realidades econômico-sociais: trabalho, moradia, saúde pública, fome e miséria, no elenco perverso que traz sofrimento.
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A ética de Jesus dá apoio à ânsia por transformar a sociedade, pressionando-a por mudanças além das legislativas. Mudanças culturais na família, nos grupos sociais, na coletividade, se fazem necessárias com urgência. “Quando usamos o corpo de uma mulher para vender mercadorias, na publicidade, estamos colocando-a como mais um produto vendável, mais um objeto à disposição do mercado masculino. Isso deixa a mulher ainda mais vulnerável a todos os tipos de violência. Ensinamos às meninas, desde cedo, que o valor da mulher está na aparência, e que elas somente serão desejadas se corresponderem às espectativas dos homens. Que a principal realização da vida de uma mulher é o casamento e a aprovação masculina. E elas, assim, nem percebem que estão sendo vítimas da violência cultural admitida em nossa sociedade”, afirma Maíra Liguori.
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Marta, solteira, marcada pela sociedade de seu tempo — que exige dela submissão ao trabalho escravo, procriação numerosa para reforçar o mercado de trabalho — reclama de Jesus, e não sabe o que ele quer. O problema é precisamente este: descobrir pouco a pouco o que Jesus quer falar. A palavra de Jesus é a Palavra de Deus!
*
Maria compreendeu que estas palavras, que aos olhos da eficiência codificada da lei religiosa pode parecer superficial e inútil, é “condicio sine qua”, condição fundamental para alguém chegar a ser autêntico discípulo de Jesus. “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não será julgado (por não ouvir), mas passou da morte para a vida” (João 5,24). “O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (1João 1,3). Maria compreendeu. Que mais deve ser dito?
Derval Dasilio

O PRÓXIMO, EU E TU

Destacado

o próximo em diagrama

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedade e sem misericórdia
Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo
Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos?

[*]Nos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por essa estrutura. O legalismo, imposto pela estrutura religiosa, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei.

[*]Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não podia entrar no templo e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, mas passa a ser modelo exemplar oferecido ao religioso cristão.

[*]Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor…  O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: não farás…) sobre como “amar a Deus e ao próximo”sob a lei deuteronômica…Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com a Torah, pentateuco – os cinco primeiros livros. Conforme a versão grega Septuaginta, também –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

[*]O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

[*]Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano compassivo e solidário é um homem rico. Um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

[*]A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais).  Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

[*]O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich.  A justiça sem amor ignora a solidariedade, misericórdia ou compaixão.

[*]O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo. Diria Rubem Alves: “o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça  o cérebro”.

[*]Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo o outro, o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

[*]Muitos agnósticos, e até mesmo ateus,  deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

[*]A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra:  “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.”

[*]Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

[*] Derval Dasilio

A FELICIDADE, O SORRISO E A FLOR

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13º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
2Reis 5,1-14 – O profeta curou Naamã sem exigir pagamento
Salmo 30 – Pela tarde o pranto, pela manhã alegria!
Gálatas 6 (1-6); 7-16 – Tormento das tristezas doentias
Lucas 10,1-12;16-20 – Sem vergonha de viver com alegria e entusiasmo

A alegria deve ser celebrada, não de forma egoísta, mas envolvendo a comunidade. Por isso, quando o pastor chega em casa, reúne amigos e vizinhos, dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, porque já achei a ovelha perdida (Lc 15,6). A mulher, após encontrar a moeda perdida, convoca amigas e vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, achei a moeda perdida (Lc 15,9). A validade, o poder do compromisso, na reivindicação de Jesus não se limita, por essa razão, à uma única expressão relacionada ao reconhecimento fiel da ação salvadora de Deus. A espera da realização plena do Reino envolve prazeres.   Não se exclui a alegria nessa espera (George Kümmel).

O convite para participar da alegria reaparece (Lc 15, 22-24), após a volta do filho perdido e pródigo. Nas aplicações das parábolas, percebemos que festa na terra sinaliza festa no céu (o Céu é o lugar de quem vive com Deus), quando um pecador se converte. O tom de alegria, fundamental na parábola da ovelha perdida e na da moeda perdida, refere-se explicitamente ao próprio Deus, e sua alegria, nos versículos conclusivos de ambos os relatos (Lc 15,7; 10,16ss). A ética de Jesus, portanto, sugere alegria, não obstante ele anunciar a proximidade do reino de Deus e o julgamento da sociedade autoritária, carrancuda, de má-vontade com a novidade — que é o rompimento com as relações perversas, com as desigualdades; novidade é viver sob a justiça de Deus –, e novos relacionamentos. Não pode ser entendida como uma “ética de ínterim” e deve ser caracterizada mais corretamente por “ética do tempo da graça” ou “ética da Nova Aliança”.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Ética a Nicômaco, e Jesus Ben Sirac (Eclesiástico  – BJ), ensinaram que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13). Antes de contrair a doença mortal da ganância, quando o homem se sentia feliz, tranquilo e seguro sem honra e poder, e nem pensava num deus comercializável, que se vende, movido por bajulação; ou que permite vender graça num balcão; que se encastela em honra, prosperidade, e poder. Um poeta hebreu, salmista já dizia: A ira de Yahweh dura um momento, e seu favor dura a vida inteira. Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria (Sl 30,6).

O mais alto ideal cristão está aqui: a felicidade, bem-aventurança eterna. A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um pássaro azul que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, lembra um ensinamento budista. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da apropriação, da potência, da sabedoria, buscamos ser felizes… Um equívoco. Dificilmente alcançamos esse fim (Luiz Carlos Susin). Atravessamos a vida como uma noite escura, e manhã nunca chega, por esses meios.

O que desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o abstrato “ser em si mesmo”. O que queremos mesmo é ser “felizes”, sempre. Concretamente. Dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida: o prazer de uma boa comida, não importa se churrasco, feijoada, muqueca, tambaqui, pato ao tucupi.

O prazer de uma música, que pode ser de Mozart a Debussy, Pixinguinha. O repertório lírico de José Carreras e Kiri Te Kanawa. A MPB de Tom Jobim, Edu Lobo e Gonzaguinha. Lutero dizia, feliz: “faz escuro, mas eu canto”. Um “crente” pode e deve ser feliz com a música: “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser massacradas e desaparecer”, queixava-se do iconoclasta Zwínglio o grande reformador, que proibia instrumentos musicais no culto. O iconoclasta Calvino reafirmou as teses de Lutero, mas depois proibira a arte e paramentos litúrgicos no templo.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia, ou como minha neta que risca com giz de cera as portas do quarto. Ela pressente que é, já, um esboço do que vai ser o “ser (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora”, dizia William Blake. Ela nem se imagina que é uma gota de orvalho numa pétala de flor (Rubem Alves). Tantos conteúdos da “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz.

Aí está a primeira liberdade, e o primeiro amor à vida. A primeira consciência da honestidade e do dever na coletividade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse. Haverá outras formas de se expandir a felicidade como, por exemplo, a felicidade de se dedicar, de trabalhar, de aprender, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa amada. Mas, como degraus sobre esta estrutura básica do prazer, a alegria primeira de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão; a busca da justiça, não dispensa, mas exige o prazer (Luiz Carlos Susin). Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética começa e finaliza, portanto, no bem, no desejo do bem, na felicidade e no prazer de viver pela justiça e a liberdade.

Em todo o evangelho (Lucas 10,1-12, 16-20) os personagens são possuídos de uma estranha alegria. Podemos concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus (sugxárete moi = alegrai-vos comigo, festejemos o reencontro da ovelha, da moeda e do filho perdido). Em Lucas, para que não se vangloriassem como exorcistas, prestidigitadores e milagreiros, Jesus os alertou: “Não vos alegreis porque os espíritos se sujeitem a vós; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20).

“Eu morreria feliz se visse o Brasil cheio de marchas (pela felicidade). Marcha para os que não tem escola, dos reprovados pela sociedade autoritária; marcha dos que querem amar, e não podem; dos rebeldes a uma obediência servil; dos que querem, mas são proibidos de ser gente; dos andarilhos históricos correndo o mundo, em favor das liberdades” (Paulo Freire, adaptação).

Derval Dasilio

DO ESGOTO AOS ARRANHA-CÉUS

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12o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

2Reis 2,1-2;6-14 – Eliseu é vocacionado para a obra profética
Salmo 77,1-2;11-20 – Minha alma está inquieta com a injustiça
Gálatas 5,1;13-25 – Somos vocacionados para ser livres
Lucas 9,51-62 – Mão no arado, não olhar para trás!

Começa a longa caminhada das periferias para a metrópole, onde estão os centros de poder, da Galiléia para Jerusalém. Para os discípulos trata-se de uma grande catequese que mostra como enfrentar as dificuldades e também como entender a vida e complexidades das sociedades humanas no seguimento de Jesus. Também é importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão.

É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns, e contra a desigualdade. E também denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares.

A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, Aids, dengue, para além das representações figurativas. Violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O sofrimento cidadão economicamente motivado apresenta muitas formulas. Pode resultar de estruturas socioeconômicas injustas e na exploração de trabalhadores: “Eis que o salário dos trabalhadores que cultivam os vossos campos, pois lhes sonegastes, e os clamores dos diaristas alcançaram o ouvidos do Senhor” (Tg 5,4). Ele também é visto na privação das condições básicas de vida, de sorte que se chega ao ponto do “pobre Lázaro” à porta de alguém “que se banqueteia ricamente, todos os dias”, enquanto o mendigo come migalhas que caem da mesa e precisa disputá-las com cães de rua (Lc 16,19 ss). Há injustiça, desigualdades, fome, doença e epidemias na cidade.

O exercício do poder ou a opressão adquirem um componente mais social nas cidades, quando, na Bíblia, os cristãos são lembrados de suas más experiências  com os privilegiados e bem-postos. Estes os tratam com desprezo e violência (cf. Tg 2,6). Escravos dos tempos apostólicos, expostos a açoites e maus-tratos (cf. 1 Pe 2,19 ss), são lembrados. Mesmo no caso de meras ameaças de desemprego ou venda (Ef 6,9), torna-se evidente até que ponto trabalhadores dependiam do arbítrio e poder de seus senhores. Como clandestinos bolivianos, coreanos, haitianos e orientais variados, hoje, nos centros urbanos.

Mas a miséria é escamoteada para fora da realidade concreta. A cidade, por outro lado, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis de “possessos do mal”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas, traficantes de drogas, estupradores, pedófilos, drogaditos violentos; espancadores de mulheres e crianças, homófobos, agressores, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos sociais de crianças; homossexuais, mendigos, doentes mentais… A cidade é o mundo do homem tomado por males reais, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha da sociedade insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto.

“Ninguém que, tendo posto a mão no volante, olha para trás, pra dar marcha-a-ré, é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62: paráfrase do autor). O Juiz das causas humanas, e das desigualdades, vem agora ao encontro dos homens e mulheres, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência assim anunciada, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro do projeto de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz na cidade.

Jesus se apresenta na contramão das ações resistentes ao bem, à misericórdia, à solidariedade. À Salvação. Acolhe o doente, o marginalizado, cura-o e expulsa o que causa a doença. Acolhe o oprimido e o  marginalizado. Não o manipula para garantir prestígio. Cura-o e expulsa o que causa a doença. Do esgoto ao arranha-céu, chama-o de volta para um mundo novo e saudável, mental e socialmente, recusando o conformismo e indignando-o quanto à injustiça e desigualdade de tratamento na distribuição dos bens sociais. Sugere que é preciso ir ao miolo do furacão. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas que dominam e tomam conta da sociedade (Ivo Storniolo).

Derval Dasilio

PERDOAR É LIBERTAR OFENSOR E OFENDIDO

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11º DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
1Reis 21, 1-10 (11-14) – Profecia contra a prepotência
Salmo 5,1-8 – Acode os meus gemidos, Senhor
Gálatas 2,15-21 – A injustiça das leis que oprimem
Lucas 7,36-50 – Perdão pelos pecados impostos por outros

DOIS IRMÃOS - ESCULT BARRONas palavras de Lutero, “o cristão é ao mesmo tempo justo e pecador” (“simul justus et peccator“). Portanto, pecamos quando insistimos na discórdia. O perdão, porém, é um dom, uma graça que procede do amor e da misericórdia de Deus. Há, porém, a exigência de se abrir o coração, de se criar um espírito de conversão, de mudança, de transformação, entre as partes envolvidas na discórdia. Na comunidade se buscará a paz, sugere o Evangelho. Onde não reina a paz prevalece a ofensa. Portanto, a reconciliação torna-se imprescindível, acreditamos, sem restrições, avançando na direção do perdão mútuo e incondicional. As instâncias, nesse caso, são definidas no Evangelho: primeiro em caráter pessoal; segundo, na forma deuteronômica, social (Dt 19,15), com testemunhas.

Pensadores como Jacques Derrida, não religioso, têm insistido: “A verdade começa com o perdão”. Inspira-se em Mandela e Desmond Tuto nos resultados do apartheid na África do Sul (e não se trata aqui de perdoar a seleção racial fracassada). Sul-africanos reconhecem 11 línguas como legítimas, em todas se estimula a tradução do evangelho do perdão: fraternidade, humanismo, bondade, misericórdia. Interessado, Derrida descobriu com eles que na tradição cristã há dois conceitos para o perdão: perdão incondicional (o culpado por todos os seus crimes, mesmo sem pedir perdão é perdoado). A tradição contraditória, em vigor, é do perdão condicional (o perdão exige a transformação do pecador). Alguns, no entanto, diriam que basta pedir perdão a Deus, mas dessa maneira o processo fica incompleto, torna-se necessária a ação pública, a confrontação e o diálogo. Qual deles é evangélico? Penso que nenhum.

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Perdão e amor são inseparáveis, pois resultam em reconciliação. No texto bíblico encontramos um enorme contraste: uma mulher “pecadora” e um fariseu. Vejamos os termos. “Pecador” é o infrator da lei religiosa; “fariseu” é o religioso de vida “santificada”, um pretensioso purista moral, como diz o termo (fariseu = perushim = separado dos outros, “santo”). Fariseus eram peritos em catalogar pecados, e classificar os 630 preceitos religiosos que não estão na Bíblia, mas no Halacah (mais de quatrocentos começam com “não farás…”). Aqui, nesta passagem, pecadora é a mulher “desclassificada”, chamada “mulher da cidade”. Em outras palavras, “mulher da rua”, ou “mulher da vida”, “mulher da zona”… uma prostituta.
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Mas ela trazia um frasco de perfume para Jesus, um tipo de óleo afrodisíaco, comum. Igual aos que aparecem na tv com imagens de sedução feminina, para atrair compradores. E Jesus aceitou! Talvez lhe agradasse os cheiros do almíscar, da alfazema, de óleo do cravo e da canela. Ou quem sabe do extrato de jasmim, bergamota, óleo das rosas de Sharon, lembrado nos salmos bíblicos. Ou no Cantares: “Como o teu perfume é agradável! Como o teu nome é doce…” (Ct 1,3).
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Isso causou tremendo escândalo entre os fariseus. Homens santos não podem sucumbir à sensualidade dos cheiros maravilhosos extraídos da natureza, nem se estiverem nos poemas bíblicos sobre o amor erótico. Jesus percebe, e pergunta a um deles: “quando um credor perdoa duas pessoas que lhe devem valores diferentes (500 ou 50 reais), dessas, qual lhe será mais grata? Quem terá mais amor”? E o fariseu responde acertadamente: “aquela cuja quantia maior foi perdoada” (Lc 7,36-50). E Jesus lhe disse: “muito bem”! Bingo…
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Com um pouco mais de atenção, veremos que a mulher não pede perdão a Jesus. Por nada. Na verdade, Jesus diz  que ela já fora perdoada. Sua declaração (v. 47) é sobre algo que já aconteceu: “seus numerosos pecados lhe estão perdoados” (BJ); ou “os seus pecados tão numerosos foram perdoados” (TEB), “os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados” (Pastoral) ou conforme traduz muito bem a BLH: “o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados”.


PERDOAR É LIBERTAR OFENSOR E OFENDIDO AO MESMO TEMPO


O Evangelho de Jesus Cristo aponta, ainda, como se deve resolver o problema que está afetando profundamente a vida e a humanidade de todos nós: é imperativo aplicar a compaixão e a própria misericórdia aprendida, ao próximo devedor. Ou ao próximo ofendido por nós. E não devemos esquecer o ensinamento de Jesus, entre os muitos que não nos permitem olvidar a necessidade do perdão e da reconciliação, acima de todos os julgamentos. As represálias e as retaliações que nos tentam, sempre quando somos ofendidos, ou quando ofendemos alguém, devem ser suplantadas com a ternura do Amor. O evangelista João também disse: “Deus é amor”. Quem ama perdoa.
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A ofensa toma um significado econômico, quando Pedro indaga: “… quantas vezes?” E a resposta de Jesus aponta: “infinitamente” (70×7, na matemática do amor). Reserva-se, neste último exemplo do Evangelho, uma demonstração de que o homem  e as comunidades de fé são alvo da imensa Misericórdia, destinatárias da Graça infinita e ilimitada do perdão (Sl 86,7: “Escuta minha súplica, Senhor; dá atenção ao pedido da tua Graça”).  O ensinamento simples e sem adornos, na oração que o Senhor ensina, completa: “… perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Versa a respeito do que devemos aprender com a misericórdia de Deus.
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Excelente terapia espiritual, boas exortações sobre a necessidade do perdão: “Quem lança uma pedra no ar, lança-a para cair na própria cabeça”; “quem abre uma cova, nela cairá, e quem arma uma cilada nela será apanhado”; “o mal que o homem comete retorna contra ele, sem que ele saiba donde veio…” (Eclo 27,25;26;27). Perdoar é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode simplesmente reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa.
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Perdoar significa libertar o ofensor de sua dívida, mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. É permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; é compreender que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.
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Seria isso que Jesus indica, além da necessidade dos discípulos dirigirem-se aos excluídos e tresmalhados do grupo religioso que se acha protegido para julgar? Jesus fala da alegria de perdoar, para salvar e libertar (no NT o vocábulo “afíemi”, perdoar, tem o sentido de soltar, libertar…). É esta a apologia que Jesus faz do evangelho do Reino: porque Deus é assim, de misericórdia incompreensível, a tal ponto que a alegria de perdoar é imensa. Embora os maníacos da santidade falsa não queiram assim..

JUSTIÇA QUANDO NÃO SE FAZ JUSTIÇA…

Destacado

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viúvas da justiça

Gravura de Cerezo Barredo

10o DOMINGO DO TEMPO COMUM (APÓS PENTECOSTES)
1Reis 17,8-16 (17-24) – Opressão aprovada pelas elites
Salmo 146 – O Senhor faz justiça ao oprimido.
Gálatas 1,11-24 – A liberdade do Espírito, em Cristo.
Lucas 7, 11-17 – Ressuscitar é impedir a exclusão.

JESUS EM DEFESA DAS MULHERES VIOLENTADAS


O Tempo Comum depois de Pentecostes reflete os acontecimentos próprios da Igreja Inicial, no discipulado dos cristãos para a “vida de fé”, a orientação do Espírito Santo, e não por ditames doutrinários da religião (Lc 7,11-17: a viúva e a ressuscitação do filho mais velho). A religião combatida por Jesus legitimava uma cultura patriarcal, domínio masculino absoluto, onde uma viúva, por exemplo, sem nenhum filho homem estaria condenada à morte social, assim como uma jovem violentada sexualmente. Lembremos da menina estuprada, cujo vídeo  foi divulgado na internet. Interrogada sob tortura moral, o delegado lhe pergunta: “Você está acostumada a fazer programas com sexo grupal?”, transformando a vítima em “culpada” do ato que revoltou a nação inteira. Todas as mulheres seriam responsáveis pela agressão que sofrem?, perguntaria a ministra Rosa Weber, do STF.

A mulher exercia um papel secundário na família, na comunidade e na sociedade. Porém, o órfão e a viúva são símbolos do cuidado que merecem, por indicação de Deus (“Não haverá pobres no meio de vocês” – Dt 15,4). Legitimava, também, a religião, o abandono dos fracos e oprimidos pelo sistema de exploração que garantia às elites, bem-postos, o gozo de direitos econômicos e sociais em detrimento dos restantes. As desigualdades eram admitidas como destino natural para os que não conseguem superar a pobreza, miséria e fome.

A fé bíblica implica em fidelidade (heb.“emmunah”, gr. “pistis”, acompanham o sentido: “o justo viverá pela fé”, Hb 2.4, Rm 1.17, Gl 3.11; não se pode traduzir como sentimento de favorecimento subjetivo e íntimo). A fé incondicional constitui o essencial da atitude de Cristo diante da cruz, no sofrimento ético contra o desespero e a angústia diante das injustiças. Cristo reconhece-se como parte do povo bíblico e seu sofrimento quando entregou-se à fé (“emmunah” = fidelidade), na esperança do cumprimento das promessas de realização do desígnio divino contra o domínio da morte. Um mundo novo é possível.

Jesus teve fé no que anunciava! Viúvas e órfãos são uma categoria especial em Israel, o bíblico, sem dúvida, cenário do povo de Deus. São os necessitados, aqueles que reclamam atenção social e política (Eclo 4,10, TEB). Compõem o grupo de classificação social mais baixa entre os pobres (anawin). Tiago, no Novo Testamento, lembra-se deles com dedicação ética exemplar aos pobres (ptochos) (Tg 1,27 e seguintes). E os Salmos bíblicos destacam poeticamente a denúncia inevitável da sinonímia (…Yahweh se ocupa deles pois “é pai de órfãos e protetor das viúvas”).

Jesus, mais incisivo, pois é portador das ressurreições, e restaurador da vida, vai ao encontro dos que estão no caminho do cemitério. A comitiva fúnebre para, e o cortejo presencia uma intervenção extraordinária. O arrimo da viúva pobre é ressuscitado fisicamente. Ou seja, a ressuscitação do jovem morto aliviará a maior das dores humanas, das que ferem e destroem as esperanças. É um ato de compaixão, de Jesus: solidariedade, cuidado e atenção, para com uma família que sofre uma grande perda. Jesus estende a mão, e num toque de vida retém e suspende a força da morte (thanatos). A fé incondicional constitui o essencial da atitude diante do sofrimento físico ou moral da morte; contra o desespero e a angústia face às injustiças e do iminente abandono, por causa da morte.

Cristo é parte do povo bíblico e seu sofrimento, quando entregou-se à fé e fidelidade (“emmunah”) na esperança do cumprimento das promessas bíblicas, presenciando o aparente domínio da morte. Um mundo novo é possível. A vida é possível. Jesus apresenta-se na luta da vida contra a morte. O reino chega através dos sofrimentos, da indignação, da recusa da injustiça. Jesus teve que amargar o fracasso total de seu empreendimento, na morte, para juntar seu povo na missão de Deus, na luta pela salvação e libertação da humanidade em todos os tempos. Jesus teve fé no que anunciava!, e ressuscitou.

Portanto, Jesus participa da ressurreição, que vai contra os princípios de dominação e submissão. Um mundo religioso, uma sociedade onde mulheres, homossexuais, prostitutas, deficientes, diferentes, coxos, cegos, leprosos, nada valem. Por conseguinte, são rejeitados. E outro, no campo político, lugar em que a morte exemplar pretendia calar os insubordinados contra a opressão, o tratamento desigual de homens e mulheres, os privilégios econômicas e sociais para as elites e bem-postos.

A ressurreição – afirmação da vida, garantia de plenitude em bem-aventurança para os fracos, oprimidos, esmagados e abandonados socialmente –, estava ao alcance de todos. É lançada a base da nova religião de justiça, de indignação contra o mal estrutural iniciada por João Batista, no NT, e fortalecida pelo movimento pedagógico de Jesus. Contra a religião que assume a morte, ou não lhe dá importância; como poder dos que a utilizam para dominar os outros. Essa deve ser substituída pela religião da vida, e da justiça de Deus. Religião que afirma a dignidade inviolável da pessoa que sofre, assegurando a companhia de Deus aos oprimidos, que ninguém pode roubar (Queiruga).


“ESTUPRO DE UMA JOVEM É UM CRIME CONTRA TODAS AS MULHERES”


Outro aspecto importante da narrativa é o fato de que as pessoas que acompanhavam o cortejo, ao verem que o cadáver havia ressuscitado, ficaram com medo. Mas louvaram a Deus e proclamaram a Jesus como um grande profeta para a salvação. Aqui, a atividade salvífica de Jesus começa a ser percebida. As pessoas que assistem ao milagre da ressurreição são tomadas de um sentimento de êxtase, medo, alegria e salvação. A morte enfim foi vencida pelo gesto de Jesus. O que parece espesso e insuportável, a escuridão da grande crise, a morte, é atravessado e iluminado pelo gesto de Jesus. Sabemos agora que o medo — assombro diante das escuridões políticas, dos eclipses da violência, da ganãncia e imediatismo –, é vencido na confiança radical da companhia de Deus nas lutas contra a morte.

O próprio ato de viver revela-me a morte e a ressurreição a cada momento. Ela faz parte do meu passado, presente e futuro. E você sou eu, e eu sou você, como na equação de Martin Buber, “Eu|Tu”. A presidenta Dilma Rousseff, quando manifestou-se solidariamente em favor das mulheres violentadas diariamente, com assentimento da sociedade que prefere esconder os crimes contra a mulher, expressava-se exatamente o que o grande filósofo pontificava: “O crime cometido contra essa jovem é um crime praticado contra todas as mulheres”.

“Como se depreende, a ressurreição é um processo que vai ocorrendo ao largo da vida. Vamos lentamente ressuscitando, à medida que lentamente também vamos morrendo”, disse L.Boff. Na morte, a ressurreição explode, e implode, e permite à vida humana a realização impossível da vida em liberdade, liberta dos limites do “aqui” e do “agora”. Não, obviamente, fora do mundo, mas assumindo o mundo e levando-o para um além onde se dá a comunhão inefável com a Vida e Fonte de toda vida.

Até então, no tempo de Jesus, a morte era entendida como o fim de tudo e de todas as coisas. A morte tinha o poder de domínio extraordinário nas mentes das pessoas. Conformismo, quietismo, fatalismo, dominavam os pensamentos. Estabeleciam os limites da vida, contra a esperança. Mas Jesus vence a morte, amplia os horizontes da vida, ao ressuscitar o filho único da viúva. Destarte, morrer não é caminhar para um fim-limite. É peregrinar para um fim-meta alcançado. “Mesmo que já se tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer” (Dásio José dos Santos, cit. Agostinho). Por isso, nós não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar” (cf. João, no evangelho: “Se não morrer fica só…”). Para viver mais e melhor.

Derval Dasilio

UMA TRINDADE SEM JESUS?

Destacado

trindade cerezo

TRINDADE – Cerezo Barredo

DOMINGO DA TRINDADE
Provérbios 8,22-31 – Antes, a Sabedoria já concebia.
Salmo 8 – Ó Senhor , grande é teu nome no universo!
Romanos 5,1-5 – Cristo, no amor difundido pelo Espírito.
João 16,12-15 – Tudo o que o Pai possui é meu.

A realidade religiosa, estatística, demonstra o equívoco. Hoje, não inspira relevância a entrega do Espírito Santo, em nome do Pai e do Filho, para que os cristãos parem de falar desconexamente sobre a relevância da fé (Jo 17,21: “que sejam um, como eu e tu somos um, para que o mundo creia”). Negando a História da Salvação, assumindo a ganância no tempo hipertenso, nervoso, descontrolado, maníaco por velocidade até na leitura virtual, sem reflexão, e na experiência religiosa, pergunta-se se alguém vai deter-se num tema como o da Trindade. Num tempo de fúria e velocidade nas comunicações, no trânsito, nas compras, nos relacionamentos, no trabalho, nas férias e no lazer, e na religião, o que representa para nós a presença trinitária de Deus?

Perplexos, vemos partidos políticos designados como partido da Assembleia de Deus, ou partido da Igreja Universal — representantes do ódio ideológico, contra os direitos humanos fundamentais; adversários da democracia popular e do estado de direito –,  não distinguindo o sentido bíblico-teológico nem do Pentecostes (Atos 2), nem da Trindade, em comunhão íntima. E temos que perguntar pelo Filho: “por que aparece em quinto lugar em pesquisas sobre as personalidades mais importantes do mundo evangélico, entre os jovens” (Ultimato, set./out. 2010). Em primeiro lugar, na pesquisa e no interesse da juventude, estão os expoentes pentecostais da teologia da ganância.

No entanto, narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios e eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica contemporânea. Colocariam homens e mulheres face a face com o transcendente. Mas o transcendente está em baixa na religiosidade da ganância, e com ela a importância da Trindade. E não é somente no cristianismo incipiente que se viu tal interesse por símbolos primários, uma vez que, na religião popular evangélica, espetáculos, amuletos e objetos de magia religiosa preenchem a zona cinzenta entre os símbolos sagrados e os profanos.

Talvez porque não creiamos mais no Pentecostes como epifania permanente de Deus; que o Pai, Filho e Espírito Santo estão presentes com energia contra o mal, em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E que essa presença traz consigo verdadeiros milagres, conversões extraordinárias que operam mudanças num mundo violento e impiedoso. Nas lutas contra a dor, contra a opressão da consciência, contra a falta de sentido salvífico, nesse tempo, e nessas lutas, o cristão não discute a Trindade, dá testemunho da mesma.

As “soluções” para cada situação de desespero, e os abusos que se generalizam na intermediação da pastorada gananciosa, noutro rumo, apontam o pentecostalismo vitorioso na prática da religião mágica, de superstição, de truques de prestidigitação, de misticismo e de abuso sobre a consciência – individual e social –; envolvendo evangelical shows, campanhas, marchas e concentrações públicas contra a liberdade e o estado de direito. E falsas promessas. São o retrato cultural de crenças populares sempre existentes e permanentes, em facilidades para se encontrar a felicidade sem o Reino de Deus e a sua justiça. Especialmente originadas em religiões paganizadas, aculturadas e assimiladas, presentes no pentecostalismo contemporâneo.

A TRINDADE É UM MISTÉRIO, ANTES QUE UMA DOUTRINA

O mistério da Trindade, antes de ser estruturado como doutrina, foi um evento salvífico afirmativo! O Pai, Filho e Espírito Santo estiveram sempre presentes na história da humanidade, doando vida e comunicando amor, tolerância, compaixão, misericórdia, solidariedade. Introduzindo e transformando o porvir da história em salvação, na comunhão divina das “Três Pessoas Sagradas” da fé cristã. A tendência “pentecostalista”, de outra maneira, como prática religiosa que reduz o Espírito Santo em divindade única, já se manifestava desde o mundo mediterrânico dos séculos iniciais do Cristianismo.

A vontade de Deus, no entanto, se manifesta na Escritura — como testemunho presencial da encarnação –, e através de seu Espírito, que se apresenta no Filho, e transforma-se numa realidade interior, transcendente ao ser humano. A Trindade é a esperança de um mundo transformado pela fé! Desta forma a reflexão sapiencial bíblica supera a simplificação panteísta ou dualista, pagã, em sua concepção de Deus: “O Senhor me criou no início da criação, antes de suas obras mais antigas… quando não havia os oceanos, fui engendrada, quando não existiam os mananciais ricos de água”. Como um hino, este texto chegou à tradição cristã como um pré-anúncio da encarnação da Palavra (A Palavra se encarna [davar, logos], que “no princípio estava junto de Deus, tudo foi feito por ela e sem ela nada foi feito”  – Jo 1, 2-3), e que no final dos tempos “se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, a glória própria do Filho Único do Pai, cheio de graça e de verdade” [vs 14]).

Richard Shaull dizia: “a experiência do Espírito Santo com a presença e o poder do Cristo ressurreto, como fonte de vida e esperança, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com a garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. (…) O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”. E Shaull perguntou: “Poderíamos criticar o alcance das multidões pelo neopentecostalismo e os movimentos carismáticos quando o sofrimento das massas permanece inalterado e apenas abordado no sentido de uma experiência sem profundidade”?

Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e vo-lo anunciará (João 16,12-15). Por isso Jesus diz: “o Espírito não falará por sua conta, mas que diria unicamente o que ouviu… tudo o que lhes dá a conhecer, o receberá de mim”. Jesus será sempre o Revelador do Pai, o Espírito da Verdade, ao contrário, faz com que a revelação de Cristo penetre com profundidade no coração do crente. O pentecostalista evangélico ou carismático não concordará, porque seu alicerce espiritual é paganizado, influenciado pelas religiões que negam o transcendente.

A luta contra o sofrimento das massas recorda-nos a solidariedade de Deus com os sofredores (através do Pai, Filho e Espírito Santo: um único rosto diante de três espelhos). Mas a solução pentecostalista recente trata a mesma massa com imediatismos gananciosos, apresentando a Graça do Espírito num balcão de negócios. Mas o Reino não se realiza somente na forma paliativa e individual (Jürgen Moltmann). Os fiéis ingressam na transcendência em comunhão com Jesus, Filho trinitário, na comunhão, como irmão de todo aquele que sofre.

Devemos compreender essa comunhão na luta contra a injustiça e todos os sofrimentos: opressão política, opressão da consciência, negação de direitos fundamentais. Que dignidade traz a graça negociada nos balcões dos mercado da salvação? Não é a participação da cruz, do envio em missão de transformar o mundo, e do seu destino e martírio em favor da salvação (martyria). Seguramente, não é o Espírito Santo sem o Pai e sem o Filho, em comunhão libertadora.

Derval Dasilio

 

O DIA DE PENTECOSTES: CELEBRAÇÃO DA UNIDADE

Destacado

DIA DE PENTECOSTES E A UNIDADE DA FÉ

Atos 2,1-21 – O Espírito impõe unidade à Igreja
Romanos 8,14-17 – A criação geme no parto da esperança
João 14,8-17 (25-27) – Igreja é a comunidade instrumental da salvação

Há momentos em que o confronto entre pessoas que pensam de maneira diferente se dá, nas redes sociais. Isso é bom, se estimula o crescimento da consciência crítica sobre o todo. Em tudo isso o Espírito Santo se manifesta, tecendo os fios da unidade na imensa diversidade humana na internet, como nos ensina o teólogo Afonso Murad. Formando uma consciência do Pentecostes, presença permanente do Espírito; uma corrente do Bem, e não o ajuntamento dos desesperados na farra da vida virtual, hoje tomada pelo ódio político ou ideológico.

O evangelho de Pentecostes nos diz que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, e que sua comunicação com os discípulos se faz através do Espírito que traz a ressurreição para o mundo. É ele que outorga alegria e discernimento do que significa a ressurreição de cada dia, enquanto concede capacidade, força e energia para o perdão dos pecados, e a reconciliação permanente dos homens e das mulheres. Pentecostes é a representação de um programa para a Igreja nascida da Páscoa, do êxodo, da ressurreição, da fé libertadora na Aliança, aberta para todos os homens e mulheres.

Estamos diante de um relato germinal, decisivo, programático. O programa de Jesus de Nazaré, proferido numa sinagoga da Galiléia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a boa nova libertadora aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18). Lucas retoma o programa inicial (Atos 2,1-21).

Assim, expressando a ação livre e renovadora de Deus, a tradição do Pentecostes dispõe de uma linguagem de símbolos desde os relatos bíblicos onde Deus intervém na história humana. “A salvação está perto dos homens e das mulheres”. Nada mais clássico nessa manifestação que a história da fé do “povo de Deus”, a partir do(s) êxodo(s), enquanto culminam nos fundamentos da Aliança (imperativos, prioridades, mandamentos para a vida: justiça, direitos fundamentais, igualdade entre povos e raças, solidariedade): “Ama a Deus sobre todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo”. Impõe-se aqui a Nova Aliança, em Jesus Cristo, alicerçada na misericórdia, na gratuidade, na compaixão e solidariedade para com todos os homens e mulheres da terra. O Pentecostes  assim deveria ser entendido nos encontros virtuais.

Pentecostes é reconhecimento da epifania permanente de Deus, através do Espírito Santo. O cristão, portanto, não discute. Dá testemunho do Pentecostes. “Quem não está contra nós, está a nosso favor” (Mc 9,40). Mas, “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino” (Mt 7,21), se não se sentir alertado e convocado para testemunhar a fé. O problema do Mal encontra sua solução radical na prática amorosa dos que lutam,  afirmando assim o sentido da realidade positiva do Reino de Deus no mundo: “Venham vocês que são abençoados por meu Pai…”. Porque lutaram contra a fome, a sede, a nudez, a discriminação, o preconceito, a intolerância, a enfermidade e a opressão” (Mt 25, 34-36).

O Pentecostes é um fenômeno absolutamente transcendental, além da mídia, do espaço cibernético, inalcançável pela razão, inatingível pelo conhecimento empírico, descrevendo a ação espontânea e gratuita de Deus. O Espírito transforma os homens e as mulheres, os jovens e os idosos, fazendo com que eles e elas falem da justiça, enquanto se promovem novas relações libertadoras entre homens, culturas, raças e povos. E ao mesmo tempo anuncia o evangelho de renovação da Criação: um mundo novo é possível…

Nas redes sociais, há palavras e imagens em excesso, não há tempo para que as pessoas reflitam e interiorizem a mensagem. Não dá tempo para ecoar nem ressoar a mensagem de Jesus. Informações demasiadas se perdem, contaminadas pela mediocridade e pela ignorância. Há quem se exponha excessivamente, no anonimato. Há quem coloque momentos íntimos em vídeos, como o parto de uma criança e relações amorosas de um casal. O obsceno obtém licença e permissão para substituir a ética no relacionamento humano. A felicidade depende dessas manifestações?

Preocupam-se demais em fotografar, gravar e filmar, sem saborear relações humanas, momentos sublimes da vida em toda a sua amplitude. Uma coisa sobre a qual não se pode formular um conceito científico, porque intangível, transcendente, mas essencial do ser humano. O fundo sólido da existência, diria Carl Jung, está no limite extremo que não se alcança através de uma fórmula. Esta fórmula não será encontrada no espaço cibernético, mas na existência profunda, onde se encerram os mais importantes apelos e fatos da experiência e convivência humana real e concreta.

Ao invés de se cultivar a interioridade secreta, a mais ampla e vasta personalidade humana, pessoas expõem sentimentos corrosivos, intolerantes e desprezíveis. Antifeminismo, homofobia, racismo, fundamentalismo, ódio político, por exemplo, se manifestam a todo momento, sem direito ao contraditório. Corre-se, também, o risco da superficialidade e do efêmero, sem resultados para o futuro da própria humanidade. Em termos de direitos humanos, direitos sociais e ecológicos. Consciência de cidadania. Bastaria viver em intensidade as alegrias íntimas, e não esvaziá-las, substituindo-as imediatamente por novas expectativas. Esta é a mensagem do Pentecostes nesta semana e no próximo domingo, enquanto celebramos a Semana de Oração pela Unidade do Povo de Deus.

Derval Dasilio

JESUS: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS…

Destacado

PÁSCOA – 5º. DOMINGO – ANO C
Atos 11,1-8 – Diziam deles: eles se amam tanto!
Salmo 148 – Louvai-o, céu dos céus
Apocalipse 21,1-6 – “…a quem tem sede, darei amor, água da Fonte da Vida” |||||João 13,31-35: “Amai-vos os uns aos outros, assim como eu vos amei”…
DOIS IRMÃOS - ESCULT BARRO
Quando perguntamos sobre crianças mortas em Beslam, Newtown e Columbine, ou mortas quando esquecidas dentro de um carro, ou desnutridas, depauperadas pela fome das mães que nem leite produzem mais, numa favela de nossa cidade, na Índia ou no Afeganistão; quando uma bomba explode numa avenida de Boston, no aeroporto de Bruxelas,  ou quando jovens enlouquecidos pelo sistema matam crianças inocentes numa escola, estamos perguntando sobre o quê? Sobre o desespero que imputa à humanidade inteira o mal-estar no mundo? Sobre o ódio e o amor? J-P Sartre dizia que o homem, a vida humana, o nascer e o morrer, são absurdos (O Ser e o Nada).
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Seres humanos adoecem num ambiente de desconfiança e de medo, de manipulação política, econômica e cultural, sob exploração ou instrumentalizados para finalidades inomináveis e inconfessáveis, como a medida jurídica de imputar ao jovem adolescente a responsabilidade dos crimes hediondos que se cometem impunemente. O que está por trás disso é de fato ódio político, social, vingança, ou é violência animal? O evangelho, no entanto, recomenda o conselho de Jesus Cristo para a entrega sem medo ao amor, confiantemente, incondicionalmente, gratuitamente: Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Há outra saída para quem não tem fé no amor?
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Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, aids, mendicância (moradores de rua, em Curitiba, estão sendo exterminados com a aprovação da população, enquanto grupos organizados exigem dos poderes públicos a “higienização”, ou limpeza social da cidade – CartaCapital 13.abril.2016), delinquência, legislação frouxa quanto ao aliciamento da criança e do adolescente, antecipação da maioridade penal, e outros, são ameaças sobre o jovem. Estas ameaças em que sentido podem colocar em risco severo o projeto de Deus de vida plena para o mundo? Políticos mal-intencionados, especialmente da bancada evangélica no Congresso, pensam em resolver o assunto com um decreto de punição preventiva da criança e do adolescente, ao invés de ampará-los.
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De fato, o que se busca é um culpado, enquanto adiamos a exigência de mais severidade e eficácia para com o crime adulto, instrutor do crime juvenil. Uma lei estatal que possa transferir essas execuções contra menores, legalmente, para o Estado merecerá os agradecimentos do crime organizado quanto à ajuda desses legisladores. A criança e o adolescente permanecem no rol dos mais desamparados socialmente. E não nos indignamos com isso. Não prevenir danos biográficos psicossociais na infância, adolescência e juventude – na criminalização da criança e do adolescente –, é determiná-los duplamente vítimas permanentes da sociedade e do crime organizado. Eis o foco da questão.
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João é o evangelista que tratou com mais profundidade esse momento de exortação sobre o sentido do amor, indicado por Jesus. Jean-Yves Leloup, comentando escritos joaninos, sugere que na tradição cristã o valor da palavra amor (ahavah), como elemento chave da revelação, indica que este é a luz de Deus revelada neste mundo, e não apenas uma representação de palavras, que é trabalho para exegetas e hermeneutas. É uma questão de representação do mundo, do homem e suas culturas.
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O mitzvah (exercício ou mandamento) do ahavah (amor), no encontro de culturas do Judaísmo e do Cristianismo, sob o helenismo mediterrânico, no Oriente ou no Ocidente, leva imediatamente à compreensão da integridade da vida humana. Trata-se da inteireza da criança, do homem e da mulher. Sem amor, a sobrevivência no mundo da morte (thanatos) equivale a viver “amando como animais”, como lembra Alceu Valença, na canção: “… um cão vagabundo e uma onça pintada /se amando na praça como dois animais”.
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Paulo, “helenizando” a fé cristã, exalta as qualidades de agape, o amor que assume todas as realidades humanas; que integra, faz sujeitos inteiros, e não-divididos. Amor possível sob o mandamento divino. Enfim, o caldo delicioso que resulta das receitas que nos foram passadas desde o início da criação (bereshit), que nos convida ao sentido libertador do amor. Agape é superabundância e plenitude no amor.
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Principalmente, é gratuidade, generosidade, misericórdia, compaixão, solidariedade, capacidade de entender a Graça que vem entranhada e entrelaçada com o amor de Deus. Envolve o exercício do perdão, da reconciliação, do cuidado, da misericórdia, da compaixão, da solidariedade e da salvação do outro e da outra. Martin Buber atualizaria a fórmula platônica do amor numa equação sobre a alteridade Eu|Tu para a concretude exigida no amor: “Eu” sou como “Tu”, e “Tu” és como “Eu” sou. Alteridade reconhecida em igualdade possível somente através do amor. Fernando Pessoa diria: “Cara a cara, olho no olho, eu te olharei com teus olhos e tu me olharás com os teus”.
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Do evangelho uma palavra de Jesus ressalta-se acima das outras. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. João a coloca na boca de Jesus. Por quê? Como negar que, às vezes, as realidades fazem-nos cair no pior dos pessimismos e pensar que não há amor: “este mundo não tem solução”… Precisamente, as palavras do evangelho de hoje são determinantes: versam sobre a batalha do amor contra o caos da moral e da ética atrofiadas.
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Situações duras e difíceis de assimilar, vistas das janelas dos espectadores privilegiados. E nem isso faz sentir-nos afortunados. Somos induzidos a competir e a violentar o outro. Vimos há poucos anos o treinador de natação olímpica espancando diante da câmera uma jovem nadadora australiana, sua filha. Agredimos e violentamos nossos filhos para vencerem custe o que custar.
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Será que a chama enferma de um amor que não é amor, mas ódio, intolerância, inveja, ganância; corrupção de valores essenciais, medo e desconfiança do outro — experimentamos, no Brasil de hoje, o pior momento de nossa jovem democracia, assumindo antivalores como se fossem essências para o  rompimento do estado de direito –, é que nos move? Por que agimos como se o próximo fora nosso inimigo potencial, adversário que precisa ser abatido a qualquer custo? O outro é o próximo, como a criança e o adolescente, neste momento onde se engendram esforços para que paguem pelos pecados da sociedade impiedosa, hedonista, sem misericórdia, dos nossos dias? O que nos impede de compreender o imperativo divino: amai-vos como eu vos amei?

Derval Dasilio

COMO CÃES QUE NUNCA SE FARTAM

Destacado

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PÁSCOA – QUARTO DOMINGO – Ano C
Atos 9,36-43 – Pedro orou e curou Tabita
Salmo 23 – O Senhor é meu Pastor!
Apocalipse 7,9-17 – Seu Pastor vos conduzira a fontes de águas vivas
João 10,22-30 – Deus dá sua vida aos homens através do Bom Pastor

o bom pastorEm regiões desérticas como na Palestina bíblica, a vida ou a morte do rebanho dependia do cuidado do pastor. Levar as ovelhas para campos verdes da primavera, ou para a vegetação seca comestível no verão, e alimentá-las, é sua função. Especialmente quanto às sobras da ceifa já realizada nos campos próximos das vilas e cidades. Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, pois feras do deserto, e eventualmente salteadores, rondam e podem atacá-lo.
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O pastor deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de defesa ou ataque, se necessário for. Dá-lhes segurança ao atravessarem depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de pedras soltas e perigosas onde ovelhas possam resvalar. Sabe a exata distância entre os oásis; conhece as fontes de água onde se pode permanecer para se refazerem as forças… Tudo isso pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência do pastor não mercenário (cf. Jo 10, 12-13; Zc 11, 15), no exemplo do salmista e poeta. O bom pastor continua cuidando de suas ovelhas, busca a ovelha ferida, trata de seus machucados. Busca a que se extraviou, chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a com doçura e carinho.
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O pastor é companheiro. Liga seu destino ao destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as perseguições ferozes. É solidário, mesmo com sol ardente, ou o frio intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas, debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre riscos de agressão pelas feras, ou é ferido e até morto pelos ladrões escondidos à beira da estrada.

O pastor é diferente do mercenário, ele dá a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 15). Ele mantém uma relação de afeto profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem a sua voz” (10, 4.27). As ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão protegidas e cuidadas. Sabem disso (L.Boff).
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É um escândalo, o Bom Pastor dos evangelhos, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “lógica” religiosa. Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele, “veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele, Jesus, escuta nossas súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz Deus por nós.
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Não estamos ante uma ficção com estas palavras. Algo concreto se apresenta: estamos diante do “Doador da Vida”, que também se dá para “manter a Vida”. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! A cruz não é sofrimento inútil. A parte mais difícil, porém, continua sendo as renúncias necessárias e a entrega total à Causa do Bom Pastor! (cf. Jo 10, 3). Jesus conhece os problemas da suas ovelhas. Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos substitutivos que pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.
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Mas a crítica é dura, sempre, aos pastores perversos, como os envolvidos com a ganância, e justificadores de dirigentes e comunidades milionárias. O povo é pobre, mas os pastores e as igrejas são ricos. Perverteram a natureza do pastor –- e da igreja -–, que é de apascentar as ovelhas. Eles se apascentam a si mesmos, com arrogância e desfaçatez (Ez 34, 2.8.16). Consequentemente as ovelhas dispersam e se tornam vítimas da pilhagem, e de “animais selvagens” (Ez 34, 8; Jr 10, 21; 23, 3; 50, 6). O castigo virá sobre eles: “Gemei, pastores, e gritai. Revolvei-vos no pó, chefes do rebanho! Sereis dispersados e caireis como vasos preciosos; não há refúgio para os pastores nem escapatória para os chefes do rebanho” (Jr 25, 34-35; Zc 11, 16-17).
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Esses textos parecem mostrar situações atuais, como as descritas pela revista de negócios Forbes (cit. Pastores Evangélicos mais Ricos). Como se pode avaliar, bíblica e teologicamente, a figura do pastor suscitaria arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança, à confiança que deve caber aos guardiões do povo. Não ao que se vê a olho nu, hoje. O mais implacável crítico dos pastores do povo de Deus é o profeta Ezequiel. Todo o capítulo 34 do livro de Ezequiel é uma peça acusatória contra os pastores, condutores, dirigentes de Israel, “que se apascentam a si mesmos” (v. 2).
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Em discurso direto o profeta invectiva: “Bebeis o leite das ovelhas, vestis sua lã e sacrificais os animais gordos… Não fortalecestes a ovelha doente nem enfaixastes a ovelha quebrada. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com dureza e brutalidade” (vv. 4-5), (L. Boff, O Senhor é meu Pastor, Sextante,2004).
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Pastores notórios, midiáticos ou presenciais, fazem muito dinheiro com a religião, como se a parábola das moedas escondidas resumisse o Reino de Deus (Mt 13,44). Não é a toa que a recente força evangélica pentecostal, que mais influencia a religião histórica, dedica-se tão intensamente à mídia e ao potencial mercadológico das multidões, ou da política*(1). Eduardo Cunha, pentecostal que representa, como presidente da Câmara Federal, mais de setenta pastores-deputados, sabe lidar muito bem com o poder que seus eleitores evangélicos lhe deram.

Mas nem tudo são flores para os pastores que se transmudam em lobos. Platão entendia que o “pastor” humano, o governante, é um esboço (schema) do pastor divino, e deve governar com o senso de justiça, equidade e benevolência própria do Ser divino. Por esta razão se entende porque, segundo o profeta Isaías, Deus chama Ciro, rei pagão da Pérsia, de “meu pastor”. Porque cuidou do bem-estar do povo judeu exilado, permitindo que regressasse à Palestina e reconstituísse o Templo (Is 42, 28).
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Há, no entanto, uma nota de grande realismo, aqui. Quando se faz referência aos soberanos e reis hebreus como pastores, predominam críticas severas e ressaltam-se os traços negativos dos governantes. O profeta Isaías, por exemplo, os chama de “cachorros que têm enorme apetite, nunca se fartam, pastores que não sabem discernir… cada um visa ao próprio lucro, sem limites” (Is 56, 11-12). Por que não perguntamos sobre isso, e aceitamos o modelo predominante dos dias de hoje?

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*(1). Eleito para novo mandato, estando há 22 anos dirigindo a Assembléia de Deus no Brasil (Mapa das Religiões da FGV: 10.300 milhões de fieis), o pastor presidente declarava: “A igreja evangélica (AD) sai fortalecida em todos os sentidos. Não só como igreja, a religiosa, mas também (a igreja evangélica) no próprio momento político (assunto em destaque: manutenção do dep. Marco Feliciano na presidência da CDHM no congresso nacional, e eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara Federal). Nós estamos mais unidos, mais fortes e dispostos a continuar vencendo”, disse o pastor, praticamente confirmando que sua denominação representa uma facção política nacional coesa, “evangélica”, pronta para assumir seu papel na “condução moral” da nação.

Nenhuma palavra foi dita sobre a frequência de pastores e dirigentes da AD às páginas policiais, presos ou investigados pelo Ministério Público em escândalos financeiros. Mas a lembrança do apoio ao bloco evangélico pentecostal no Congresso não deixou de ser feita. Entre as principais plataformas dos mesmos encontra-se o “direito constitucional” de manter indevassável as contas eclesiásticas e inimputabilidade fiscal de pastores e igrejas, por enriquecimento ilícito. Este é um momento importante, uma vez que uma das maiores denominações pentecostais do país tem dirigentes levados à prisão, processados por sonegação fiscal, improbidade, lavagem de dinheiro eclesiástico, enriquecimento ilícito, enquanto ameaçam testemunhas, promotores e juízes.

Derval Dasilio

Relacionado

PÁSCOA – 4º DOMINGO – ANO “B” (2012)Em “Sem categoria”

SEM SER RECONHECIDO ESTAVA NO MUNDO

Destacado

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PÁSCOA – TERCEIRO DOMINGO – ANO C
Atos 9,1-20 – Prendam os que invocavam o nome de Deus…
Salmo 30 – Porventura o pó te louvará?
Apocalipse 5,11-14 – O Cordeiro que tira o pecado do mundo.
João 21,1-19 – Estava com eles, mas eles não o reconheciam…

pao_da_vida-10Este capítulo do NT está transferindo a atenção dos ouvintes e leitores da narrativa dos que viram Jesus para uma experiência de vida (João 21,1-14). Os que não viram, mas creem (20,29), são acolhidos com respeito. Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste num sentido: “Cristo é alimento para as multidões” (Jo 6,1-11).

Porém, há também uma multidão que diz que não necessita do pão que sustenta a vida. Compactua com as forças subterrâneas donde emerge o autoritarismo, apelando para medidas extremas, totalitárias. A massa evangélica absorve as manifestações gregárias mais paganizadas que nunca. Participa ou apoia movimentos antidemocráticos, como que convocadas por uma iluminação divina, estabelecendo sentenças condenatórias, como se já fossem representantes do Juízo Final, a quem se coloca, também em nome da fé, em favor do pão para alimentar as multidões famintas de justiça.

Mas Jesus diz: “eu sou o pão da vida”; “ninguém vai ao pai senão por mim”… enquanto a multidão quer coagi-lo ao estilo religioso predominante; a realizar portentos e dar-lhe bens materiais: “…em verdade me procurais porque comestes dos pães e (não) vos fartastes… deveis buscar, no entanto, por outro tipo de comida, a que conduz à vida eterna (Jo 6,26-27). Jesus não se presta em servir à igreja gananciosa (antiekklesia).

Nas últimas décadas consolidou-se o modelo fundamentalista pentecostal de igreja  bem-sucedido estatisticamente –, fortalecendo-se o espírito de intolerância (e ganância), e até da ideologia consumista de ‘produtos’ religiosos. Estes, sempre bem-vindos em grandes e pequenas comunidades, justificam ladrões, estelionatários, encastelam-se no Congresso Nacional, formam quadrilhas que roubam o erário, envolvem-se com o ministério público e a polícia. Propõem insistentemente o rompimento do Estado de Direito, ameaçam a democracia e a República. No entanto, reclamam impunidade, privilégios e exceções constitucionais.

Além de se acharem no direito de pressionar a “nação permissiva” em nome da “religião”. Querem leis autoritárias sobre criminalidade juvenil, orientação sexual, pedofilia, homoafetividade, entre outros aspectos, enquanto ignoram a realidade concreta. Tornam-se também um espaço de intolerância, malgrado o cultivo da diversão e recreação religiosas em comum, no pentecostalismo. A Câmara Federal, com a bancada evangélica assumindo até 75 cadeiras de  deputados, consegue colocar na presidência um deputado acusado de lavagem de dinheiro, manter contas secretas no exterior, sonegação de impostos, e outros crimes contra  a fazenda.

No cotidiano eclesiástico, exigem espetáculos e reality-shows convincentes para os novos fins. Da inspiração fundamentalista, passamos também às ideias da recente igreja e maioria pentecostal brasileira; ao pluralismo litúrgico exorcista que agrega também elementos religiosos afro-brasileiros irreconciliáveis com o cristianismo apostólico, agora negado na religiosidade popular nos milagres duvidosos, curas, quebra-de-maldição, descarrego, invocação de demônios, caboclos, preto-velhos. Não espanta, ao contrário, concilia o que acontece há séculos — ou milênios –, assimilando as superstições e a religiosidade primitivista, ou paganizada, da Idade Média.

Os desafios de uma Igreja cristológica, conforme a tradição apostólica, tomada pela Graça (diferença fundamental nos nossos dias, contra a Reforma Protestante). Contudo, essa comunidade não busca fundamento na religiosidade “moralista”, ou popular, no espetáculo religioso do culto pentecostal comum. Parte das indagações sobre Ministérios, Missão e Serviço, teológicos, embora eclesiásticos. Se buscam as origens, terão o foco na declaração de Jesus sobre seu próprio ministério, missão e oferta de serviço (Mc 10,45), tema gerador dos elementos que orientam a Ação Pastoral da Igreja para as demandas do Reino de Deus, até agora “impropriamente deslocado para o além, para um mundo espiritual interior, ou um paraíso celestial abstrato”. O “paraíso eclesiástico materialista”, a religião mercadológica, confundido com magia e superstição, é uma distorção do culto cristão.

Porém, Jesus disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim, eis que me consagrou pela unção a apresentar a notícia nova aos pobres; enviou-me para publicar a libertação dos cativos (prisioneiros de determinismos e fatalismos) e aos cegos a recuperação da visão (sobre as realidades humanas opressivas), para restituir a liberdade aos oprimidos (pelos sistemas de pensar, a sociedade, a economia, a política e a religião), e para proclamar um ano de graça do Senhor [Lc 4,16ss/ Isaías 61,1e11: ano sabático; jubileu de justiça social, remissão, alforria, libertação de contratos injustos, perdão das dívidas; cf. Deut 15,1-18; Is 61 .1 ss].

Desde a Igreja dos Apóstolos, histórica e teológica, sempre se buscou a totalidade da comunidade de Deus testemunhando a Graça (ekklesia katholica). Se o assunto “ekklesia” é mundo, “oikumene” (mundo em comum); a comunidade é o lugar da “koinonia”, comunhão. Pois só no mundo e na comunhão a Igreja é assunto eclesiástico e ecumênico. Para a existência teológica da Igreja – além da existência histórica ou social, ou econômica, ou política –, “kosmos” e “khaos” são termos extremos e antagônicos, e nunca elementos integrantes (João 3,17: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”).

A antiigreja, porém, foge desse antagonismo, procurando salvar-se, mimetizando-se na paisagem profana de um mundo sem coordenação quanto à ação salvífica do Cristo (“soter ton kosmon”), e beneficiando-se dessa identificação, mergulhando no consenso dispersivo e desviante (“khaos”), propagando e vivenciando religiosidades excêntricas exuberantes, exibicionistas, que caracterizam a “antiekklesia”.

Outras vezes, pensando a igreja como ante-sala do céu, em falsa prosperidade estatística ou material, ou como sobrevivente do inferno – igreja como as comunidades mundanas, “ekklesia tou kosmou”, “igreja do mundo” — iguala-se às assembleias profanas não-cristãs do mundo gentílico, ou greco-romano, onde se expandia a igreja histórica e sociológica em crítica e diferença quanto ao comportamento geral. Prenúncio do que viria ser nos dias de hoje, tão profana quanto as demais.

Por isso, diferentemente, a Igreja era convocada a ser comunidade de testemunho autêntica — conforme a missão, anunciando a justiça de Deus –, centro fundamental da fé nas comunidades restantes (Paul Tillich). Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste num sentido: “Cristo é alimento para as multidões” (Jo 6,1-11). À Igreja cabe testemunhar que  Jesus Cristo é o Pão da Vida.

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NOTA

A narrativa, aqui, está cheia de símbolos vivos. Ela se assemelha à pescaria narrada em Lucas (5,11ss). Primeiramente, sua Epifania (presença divina) não foi reconhecida. (Jesus) estava na praia e não foi reconhecido. Com a interpelação: “tendes alguma coisa a comer?” E a ordem: “lançai a rede…”, o discípulo foi levado a reconhecê-lo. Há uma relação com o acontecimento de Emaús (Lc 24,30): então, quando estavam à mesa, […] partiu o pão e deu-lhes; então se lhes abriram os olhos e o reconheceram. Presença eucarística em comunhão. E por fim: Eis que estarei convosco até o fim dos tempos… (Mt 28,20).

Os textos apontam a presença real de Jesus entre seus seguidores e acolhida à mesa, até que o Reino complete a salvação do mundo, alimentando a justiça de Deus. Os que tiveram a esperança frustrada, na crucificação, sentindo-se abandonados, excluídos e oprimidos, sendo estes estreitamente associados à comunhão da mesa, experimentam a comunhão da comunidade de salvação. No partir do pão está a fidelidade ao princípio cristológico simultaneamente apostólico.

Derval Dasilio

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