POST DE RECUPERAÇÃO

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AMAR O INIMIGO, É POSSÍVEL?

arrmarás o próximo.Ruy Barbosa disse: “Precisamos de leis que protejam o meu inimigo. Se elas não o protegem, também não protegem a mim”. Um grande pensamento, demonstrando que nossos adversários, opositores, e até detratores, habitam o mesmo mundo onde nos encontramos. Mundo da coletividade humana. No entanto, o Evangelho de Jesus vai além, quando nos lembra que os limites de nossa existência são demarcados para além das distâncias do meu grupo social ou familiar; para além dos nossos interesses de classe social, de etnia ou nacionalidade; além das escolhas e opções e orientações sexuais, por exemplo.
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Jesus diz que não há vantagem nenhuma em amar “iguais”. Aqueles que parecem não merecer amor, respeito, dignidade; adversários, opositores e inimigos, desafiam nosso “orgulho próprio”. A perfeição do amor  é encontrada no Pai, em cuja expressão não há discriminação nem mesmo dos que nos excluem de seu círculo. A “lei de Talião”, no entanto, dirá o contrário: “olho por olho, dente por dente”. A “resposta à altura da ofensa”, vingança, represália, retaliação, contudo, não cabem nos ensinamentos de Jesus. Ao contrário, a justiça, a compaixão, a misericórdia, a solidariedade nas desgraças, marcam o amor verdadeiro, à semelhança do amor do Pai.
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O ser, homem ou mulher, é fundamentalmente distinto do ser natural percebido na visão comum, que os vê tão somente como uma parte dos seres naturais. Devemos designar o “ser”, especificamente humano como existência, como ensina Heidegger. E aí o termo “existência” não será entendido como mero “ser”, entre plantas e animais. Mas, como a forma de ser especificamente humana.
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O ser humano tem que assumir sua existência, privilegiado pela liberdade de escolhas e consciência de ser responsável por si mesmo. Amar significa conceder  tempo e espaço à vida do outro. Sem espaços de liberdade, a liberdade individual nem pode desenvolver-se (Jürgen Moltman). Isso significa que a vida humana é história, e faz história. Sua história, por meio de decisões, em cada caso, permite um futuro no qual o ser humano escolhe a si mesmo, e sua liberdade. As decisões são tomadas de acordo com a maneira como uma pessoa entende a si mesma, de acordo com aquilo no qual ela vê a realização de sua vida. Incluem o próximo, seja ele quem for.  O adversário, o opositor, o inimigo, é também um “próximo”.  Mas ele não pode impedir que eu seja livre, inclusive para amá-lo. Devo amá-lo, como ensina o Evangelho. Ele faz parte de minha própria história, queira eu ou não.
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Na realidade, se admitimos essa afirmação, a experiência de Deus não deveria ser outra coisa senão a tentativa – magnífica tentativa! – de fazer vir à luz nossas inclinações imediatas, diante da ofensa, da perseguição, desqualificação, ou difamação, da parte de alguém. E, no final das contas, o evangelho afirma que o próprio Deus é amor.  A realidade humana, no testemunho da fé, é amor. Ser “humano” é esforçar-se por viver no amor (Andrés Queiruga). Por isso nos humanizamos quando fugimos do ódio, da ira, da desqualificação do inimigo. Amando-o, nós o humanizamos.
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Eis a mensagem do evangelho de Mateus. E mensagem não simplesmente deduzida por artifício lógico, usando a razão, mas expressa, múltipla e infatigavelmente repetida: desde o resumo solene, no  programa e no discipulado de Jesus: – “nestes dois mandamentos consistem a Lei e os Profetas” (Mt 22,40) –, passando pela proclamação entusiasmada de Paulo – “…o maior dos dons é o amor” (1Cor 13,13) –, até as consequências surpreendentes de João.
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João relata a experiência mais íntima de Jesus, situando-nos no caminho justo, sob a condição humana. Num longo itinerário reflexivo, alimentado por uma profunda e calorosa convivência comunitária, tantas vezes difícil, iniciou uma tarefa que nunca deveríamos ter deixado de lado. Nele já está iniciado tudo: o amor, origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade, é critério da vida humanizada.
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Porém, a força simbólica e o calor humano permitem entrever magnificamente a força irradiante dessa afirmação fulgurante: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras, de verdade…”, sem dissimulações. Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade; e diante de Deus poderemos tranquilizar nossa consciência; e isso, ainda que a nossa consciência nos condene, porque Deus é maior do que a nossa consciência, e ele conhece todas as coisas” (1Jo 3,18-20). Por tudo isso, as palavras de Jesus nos desafiam: “Amem os seus inimigos”.
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Amar e perdoar, é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa. Perdoar significa libertar o ofensor, o detrator, o perseguidor, de sua dívida. Mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. Pelo ódio, pela ira, pela pulsão incontrolável de ferir, de matar, de destruir o outro. Amar é permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos como Jesus ensinou: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.
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SEXTO DOMINGO do Tempo Comum depois da Epifania
Levítico 19,1-2, 9-18;
Salmo 119,33-40;
1Coríntios 3,10-11, 16-23;
Mateus 5,38-48

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PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

O perdão é a expressão máxima do verdadeiro amor (Lucas 6, 27-38). Quem ama, entende a pessoa que o agrediu, até o extremo quase absurdo da desculpa do Crucificado: porque não sabem o que fazem (Lucas 23, 34). Quem ama, é também capaz de reconhecer seus erros, reparar o dano causado e reconstruir a comum+união avariada. Contudo, como é difícil perdoar! Parece que no fundo do coração humano predomina a tendência à violência, à vingança, que, ao se afastar, é intrínseca ao dinamismo genético que não nos deixa vivenciar a experiência do amor em plenitude. O perdão é um processo de conversão. Para chegar a ele é preciso viver uma profunda experiência de Deus. Somente Deus é capaz de perdoar e nos habilitar para o perdão. Por isso, o perdão é a graça por excelência, de Deus para com seus filhos (Comentário abaixo).

“Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão” (Mateus 5,23-25).

Vem, em seguida, a reparação pelo dano causado. Em alguns lugares se diz que “o que quebra, paga e leva os pedaços”. Ficaria incompleto o caminho se não se reparasse moral ou materialmente o mal que se fez. Do contrário, o processo penitencial não produziria os efeitos desejados na pessoa arrependida. E na vítima e na comunidade não se cumpriria com o princípio básico da vida social, que é a justiça: dar a cada um o que lhe corresponde.  

Requer-se, por último, o compromisso de não se reincidir na mesma falta. Isto não quer dizer que absolutamente não se volte a falhar. A condição humana é muito frágil e incerta. A fraqueza, a sedução e as tentações nos podem surpreender e arrebatar. Mas a decisão de não voltar a cair em falta deve ser inteiramente sincera. O mundo, dividido pelas guerras, ódio e miséria, necessita de remédios estruturais profundos e relativamente definitivos. E é aí onde os cristãos somos chamados a colaborar com nosso grãozinho de areia.

Davi, perdoa a seu inimigo Saul, tendo podido eliminá-lo sem maiores contratempos. Paulo, nos chama a viver no espírito pacífico e de reconciliação do novo Adão. Jesus, convida a viver o perdão como um exercício permanente do compromisso cristão. Só através de um testemunho de perdão e reconciliação contínuos, pessoais e coletivos, conseguiremos derrotar as forças da violência, do ódio e da destruição da vida, em todas as suas formas e manifestações.

Obs: Lendo a Bíblia hoje, tendemos a considerar que a religião do tempo apostólico era regida pela Bíblia Hebraica. Equívoco de grande importância: as leis religiosas eram determinadas no Mishinah, e comentadas, avaliadas, pelo Thalmud. De fato, alguns dos textos bíblicos véterotestamentários estavam à disposição, não dos sacerdotes do culto, mas nas escolas rabínicas que preparavam dirigentes para as sinagogas. O povo ignorava por inteiro as querelas com os letrados, escribas, intérpretes das leis religiosas. A referência bíblica à Lei, na verdade, traz à memória o Pacto da Aliança, o Código Deuteronômico e o Código de Pureza do Levítico.

5o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania
Deuteronômio 30.15-20;
Salmo 119.1-8;
1Coríntios 9;
Mateus 5.21-37  – Os que perdoam, serão perdoados    

jesus sermão montanha (2)

“A FELICIDADE É A MAIOR DAS BEM-AVENTURANÇAS”

Facebook – 26 de janeiro de 2014 às 20:50
4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Gravura: Cereza Barredo

4o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os empobrecidos, alcançarão a paz

Jesus alerta para as escolhas, as “eleições” que seus seguidores devem fazer no caminho, e na vida de fé. A busca da felicidade, para vocacionados à missão de Deus, têm em Jesus aquele que anuncia as bem- aventuranças da compaixão, misericórdia, cuidado, aos desprotegidos e afastados do bem comum coletivo. O texto é   vocacional, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus.

As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub- desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitastes na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; em dimensões éticas apontadas para a vida de fé; no reconhecimento  da dignidade do nome “cristão”. O seguidor seguro, em paz, é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo, ou religiosos, religioso ou das igrejas de mercado. E não é um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência social na qual nos encontramos. E não é um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade.

Na verdade, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: “shalom”, que no hebraico quer dizer “inteireza”; “shalom” aponta para plenitudes, bem-aventuranças, direito alcançado em todas as formas de bem-estar. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pelas bem-aventuranças proféticas. Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. É preciso trazer a teologia de Jesus aos dias de hoje.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Passa a ser exterior ao crente, paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas) com um halo, um círculo luminoso indicando uma espiritualidade acima das realidades terrenas.

“Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico,  podia vender-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram co-participadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas mas jamais compradas – virtude, amor, opinião, ciência, consciência etc. – em que tudo passou para o comércio. O tempo da corrupção geral, da venalidade universal ou, para falar em termos de economia política, o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, uma vez tornada valor venal é levada ao mercado para receber um preço, no  seu mais justo valor”… (Karl Marx, cit. L.Boff, grifos meus). Que mais se deveria acrescentar? 

A Graça (hesed) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias são saboreadas, vividas em plenitude. A Graça — que é também bem-aventurança –, brotada das realidades interiores profundas, exige transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” (o ser interior, alma) é o ser-humano inteiro. Corpo e alma. “Shalom” é a inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana num mundo sem compaixão.

Derval Dasilio

Gravura: Cerezo Barredo
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Trindade Solidária

Gravura de Cerezo Barredo

CRISTO, UM REI SOLIDÁRIO
(2Samuel 23,1-7) Daniel 7,13-14 – O Filho do Homem reina / Apocalipse 1,5-8 – Jesus reina acima de  todos os reis / João 18, 33-37 – Disse Jesus: “Tu o dizes: eu sou Rei”

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Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
acreditam nas coisas lá do céu
Muita gente se arvora a ser deus
e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria,
e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem,
meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento,
cá na Terra isso tem que se acabar.
(Gilberto Gil)


“Na Bíblia, o povo eleito sempre está do lado dos reinos deste mundo”, disse Rubem Alves. Não é difícil ler isso: o povo bíblico sempre se encontra às voltas com bezerros de ouro, ídolos de pés-de-barro, divindades surdas, cegas e mudas. São ídolos que não trazem salvação e bem-estar senão para si mesmos — os construtores de imagens paliativas, como placebos espirituais  –, diante dos quais inclinam-se povos e raças. Jesus Cristo está sendo julgado pelos poderes deste mundo. O evangelho, nesse momento, proclama: “o Reino de Jesus não é deste mundo”. Não há, neste mundo, reinos que busquem em primeiro lugar a justiça, a misericórdia, a compaixão e a solidariedade. Que, juntas, constituem a Paz.

Ainda presos aos padrões dominantes, imaginamos um rei sobre a economia mundial; um governante ao estilo de Barak Obama, comandando um império mundial de interesses que vão da indústria de armamentos à garantia de acesso aos mananciais petrolíferos do Golfo Pérsico ao Mar Negro, berço das mais importantes civilizações do mundo antigo, manipulando e influenciando impositivamente políticas de nações islâmicas como o Irã, Iraque e Síria, neste momento.

Esse povo, bíblico, subserviente às potestades deste mundo, também é chamado de “prostituta”. Diz a Bíblia: como Deus, o profeta Oséias amava uma prostituta. Esta, por sua vez, amava a prostituição. Parábola da perversão popular, aplica-se também aos falsos profetas, bajuladores do rei. Diziam mentiras doces: há paz, comida, habitação, trabalho… Os profetas verdadeiros, porém, contavam verdades amargas, falando dos frutos azedos da miséria e das opressões reinantes, enquanto “reina o rei”. Festa para o falso, morte ao verdadeiro. E o povo?

O povo é uma prostituta de barranco, como se diz no Nordeste, oferecendo-se a preço baixo, “quarqué dois real”. É bíblico, esse povo? Sim. Porém, é uma gente prostituída. Pronta, inclusive, a dizer, conforme a oportunidade: “Crucifica, crucifica! César é o nosso rei”. Os romanos também sabiam disso: o que o povo gosta é de panis et circences, pão e circo. Outras vezes, o povo aprecia os entretenimentos perversos, diversão, gladiadores e leões ferozes nas arenas, sangue derramado em profusão, mártires destroçados porque não abjuram a fé… É muito divertido para o povo, o banimento dos mártires, enquanto aprova a tortura, a humilhação ou o “desaparecimento” dos mesmos. Pois, é só ler a Bíblia… não custa muito. Só a teologia ingênua idealiza o comportamento popular que não existe.

João 18, 33-37 – Categoricamente, o povo que sobrou do antigo e infiel, Israel, em plebiscito público declara: “César é o nosso rei”. Hoje, que posição tomamos? Ao lado de César, Pilatos, Caifás (poder político, judiciário, religioso) e do Templo (= religião)? Tratamos de consciências vendidas aos poderes dominantes? Utilizamos os avanços tecnológicos como desculpa de atualização necessária aos nossos fins? Queremos participar do “espírito” imediatista e consumista do mundo globalizado e dele tirar tudo “que temos direito de consumir, culturalmente”, inclusive no ambiente eclesiástico ou religioso?

Absorvemos sem questionar a ética e a “espiritualidade” do mercado global, pós-industrial? Submetemo-nos sem resistência ao poder e valores da cultura global; ao modo de pensar do mercado? Nossas igrejas vão se tornar simulacros do reality show e de toda a obscenidade e imitação cultural que se propaga como uma praga litúrgica no meio da Igreja Evangélica? Dobramos nossos joelhos aos reis deste mundo (mercado, economia, política), enquanto simulamos dobrá-los a Cristo, na liturgia corrompida que tomou o pseudo culto dos nossos dias?

No relato da Paixão, no quarto evangelho, não temos dúvidas: afirma-se que Jesus é o “rei dos judeus”. Por 6 vezes esta expressão aparece, e a palavra “rei” (basileus) é encontrada por 12 vezes. O contexto é o “julgamento de Pilatos”, o representante político de César na Palestina. O julgamento é político, sem dúvida. Claramente, Jesus define a sua realeza. No entanto, uma negativa se evidencia: “meu Reino não é deste mundo”. Se fosse um reino comum, para os judeus, ele não seria combatido ou preso por sua própria gente. A realeza de Jesus não está em função do reconhecimento público da sua gente (que, como hoje, prefere declarar outros como seus reis: “…César é o nosso rei, crucifica-o!”), menos ainda do poder reinante. A realeza de Jesus é de outra ordem, não acompanha a violência do poder político, não se submete ao mesmo. 

O Reino do qual é Rei está sobre todos os reis deste mundo, inclusive o César. Pilatos representa César, o rei de todos os reis deste mundo. A inscrição sobre a cruz é irrefutável: “Rei dos Judeus”. Não havia engano possível: César não admitia e mandava crucificar aquele que se apresentava com “poder” concorrente com o dele. Pilatos, preposto, é advertido: “Se o soltas, não representas a César, ele enfrenta o imperador. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo19,12e15). As opções por César, de um lado, e a opção por Jesus, por outro, são incompatíveis. Há conflito, de finalidade e de reconhecimento relativo à autoridade de cada um. Um reino “deste mundo” representa a dominação, massacre cultural, morte de tradições e princípios da fé genuína. O Reino de Jesus representa a Verdade e a Vida, Salvação e Libertação, a solidariedade com os pobres e miseráveis; com os oprimidos, pelas dominações e realezas que governam o mundo. Jesus representa a libertação das cadeias culturais impostas.

Apocalipse 1,5-8 – O Evangelho de João apresenta Pilatos como a besta romana; Jesus, o Filho do Homem, é representante daqueles que não adoram a besta, todos os santos. João coloca na boca de Pilatos as palavras: “Eis aqui o Homem”.  É o Filho do Homem que reina, porém sua coroa é de espinhos, colocada em sua cabeça pelos soldados da besta. Todos os povos e nações  adoram o Filho do Homem revelado. Seu império é eterno e seu reino jamais terminará. Esta figura, chamada Filho do Homem, está em oposição aos 4 impérios que têm oprimido o povo de Deus (1-8) (cf. Daniel 7,13-14). Assírios, babilônios, persas e helenos, seqüencialmente. Se as bestas representam a opressão do povo santo do Altíssimo, o Filho do Homem é a figura coletiva do povo eleito. As bestas são destruídas e o Filho do Homem recebe todo o poder, bem como o império. Podemos atualizar, em cânon aberto, hoje, uma “quinta besta” em oposição do Filho do Homem aos impérios do nosso tempo? Certamente não. Haja espaço e teologia simbólica para as dominações (bestas) que sucederam a César. Não há museu histórico capaz de comportar tantos poderes bestiais na história do Ocidente cristão.

No Apocalipse de João, Jesus saúda a comunidade, porque o Messias é fiel “testemunha” (martyria); é o “primeiro” nascido dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra. Para uma comunidade perseguida o importante é confessar Jesus como o Messias; como o Mártir, testemunha do Reino de Deus; como o primeiro ressuscitado (aquele que anuncia que todos ressuscitarão) e como aquele que tem poder sobre todos os reis da terra. A comunidade responde a partir de sua própria experiência, reconhecendo-se como constituída de sacerdotes do Reino de Deus. Todo o povo participa da realeza de Jesus é um povo sacerdotal. Não preenchendo o papel testemunhal de intercessores e interventores para a reconciliação com o projeto do Reino de Deus, que povo sacerdotal é esse, que não se reconhece na resistência aos poderes e potestades, enquanto se ajoelha diante dos deuses deste mundo; e protesta falsamente sua fidelidade ao Rei do Universo?

Derval Dasilio

 

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POR QUE AS IGREJAS NÃO SONHAM MAIS?

campo de trigo van gog_0

Ao examinar estes textos (Gen caps 37 e 40), imediatamente lembrei-me do filme “Sonhos,” do cineasta japonês Kurosawa, onde várias histórias são contadas. Sobre sonhos. Um deles deixou-me impressionado por toda vida: Um visitante de museu depara-se com um quadro de Van Gogh, não lembro o título, mas poderia ser “O Campo de Trigo”, tal a beleza. O observador, contemplando a pintura do mestre, sonha e entra virtualmente na realidade da paisagem de caminhos e trigais, “caminhando dentro do sonho”. Começa uma linda aventura. É preciso ver o filme, podem-se tirar várias conclusões, mas o que fica, mesmo, é a possibilidade de se ingressar na realidade dada através de um sonho.

Desse modo, o sonho torna-se cósmico, enquanto foge do fragor do mundo imediato. O mundo real é inquieto, incômodo. No mundo dos sonhos os homens e as mulheres têm asas, é neles que os poetas e os sonhadores e sonhadoras libertários querem ingressar. Há exigências com relação à realidade inevitável. Existe nesse mundo a miséria, a violência, a desigualdade, a exploração do outro e da outra. O sonho, porém, introduz utopias libertárias contra toda forma de dominação, de opressão, de violência contra os demais. O sonho devolve-nos a confiança no mundo (Bachelard).

José não se identifica com um pretenso “rei”, na cultura pastoril de seu tempo. Não é próprio, mas o narrador quer justificar, talvez, o que o livro de Juízes ignora: Israel sonha com um rei! Quer alguém com autoridade para governar (1Reis 8;9;10). José, ao contrário de Davi, e diferentemente de Jonas – o profeta do falso exclusivismo do “povo eleito”; que não aceita a salvação e a libertação dos pagãos, que passam pelas mesmas crises religiosas, econômicas, políticas e sociais –, aceitará  ser um agente de transformação social e econômica ofertada a um povo pagão. Representa o amor, a salvação, a graça sem preço.

O Deus de José, Deus da Bíblia, convida à fé e à esperança de salvação. José, traído, vendido como escravo, e finalmente ministro do Faraó, representa o grande salto do patriarcalismo pastoril para a economia agrícola exemplar, cumulativa, provisional: O sonho do possível, com a segurança do armazenamento de soluções para a sociedade inteira, sendo José um escravo-ministro em um sistema paganizado, um servo de Deus decisivo para se manifestar a intervenção salvadora do Deus de Israel. Há alimentos para todos nos domínios do faraó, graças à economia orientada para provisionar e distribuir equaninimente alimento para o povo. O Deus de José age na história da humanidade porque quer salvá-la de todas as fomes, inclusive a fome de justiça econômica. Deus inspira e ampara José.  

O segundo sonho de José salta do mundo agrícola para o universo estelar, algo de astrologia se destila num sonho. A crença de que povos e chefes têm no céu uma constelação que marca seu destino não é estranha à Bíblia Hebraica, nem ao Segundo Testamento (Nm 24,17 e Ap 12). Para José a salvação alcança o mundo.

Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso para nós? Quando se falará da pós-fome, pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-desemprego em massa? Até lá, viveremos a cultura da violência institucional, paralela à do crime organizado e corrupção dentro das próprias instituições que nos governam, enquanto comentamos o fracasso da última copa mundial. Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade eclesiástica; a massa tão interessada em espetáculos religiosos e templos pentecostais. CPIs promocionais e hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria um povo que não ouve e nem vê além das encenações que encobrem a realidade dolorosa da miséria das massas populares (conhecemos políticos evangélicos que vendem a alma por um mandato).

Que novidades temos, desde José, sobre o mundo religioso povoado de necessidades falsas, teologias da ganância; “igreja-com-propósito” de enriquecer a todo custo?  Temos igrejas ricas, membresia de ricos e bem-postos, alta arrecadação, templos de 650 milhões com utensílios litúrgicos folheado a ouro. José não é um exemplo para essas igrejas. Ele tem a boa-nova de Deus, como afirmaria o apóstolo João: Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho para a salvação do mundo (cf.João 3,16).

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um observador atento que me escreveu. Pergunta: Há solução para este país? “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo?” Já observou o que se tem deixado de fazer nos bolsões de miséria deste país, enquanto um governador, candidato à presidência da república constrói aeroporto em propriedade de sua família, com recursos públicos? Igrejas roubam,  juízes também, pastores aparecem na lista das maiores fortuna; e políticos vão roubar até do crime organizado, se houver oportunidade.

Derval Dasilio

LEIA UM CONTO DE  ARIANO SUASSUNA, AQUI .

Der

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MISTURA DE INDULGÊNCIAS E ILUSIONISMO

Triunfar na vida parece ser o desejo de todo ser humano. Alcançar poder, fama, comodidade, riqueza, é a meta da maioria das pessoas. Igrejas também não escapam desse desejo de “triunfar” em missões semelhantes às citadas. Mas, Jesus nos avisa: “Aquele que quer ganhar a sua vida vai perdê-la e aquele que perde a sua vida por amor de mim, a encontrará”. Como queremos vencer na vida, ao estilo de Jesus ou ao estilo do paganismo trazido para dentro das comunidades cristãs, protestantes, católicas, evangélicas, pentecostaiS.

 

A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia Richard Niebuhr. A fé apostólica sobreviveria sem se pregar sobre Satanás nos calcanhares da multidão (também chamado de Lúcifer, Cão, Capeta, Capiroto, Cramulhão, Pé-de-bode, Sete-peles, etc.)? Triunfar na vida parece ser o desejo de todo ser humano. Alcançar poder, fama, comodidade, riqueza, é a meta da maioria das pessoas. Igrejas também não escapam desse desejo de “triunfar” em missões semelhantes às citadas (ignorando a resistência ao poder, à ganância e a soberba justificada no evangelho – ver Mateus 4). Mas, Jesus nos avisa: “Aquele que quer ganhar a sua vida vai perdê-la e aquele que perde a sua vida por amor de mim, a encontrará”. Como queremos vencer na vida, ao estilo de Jesus ou ao estilo do paganismo trazido para dentro das comunidades cristãs, protestantes, católicas, evangélicas, pentecostais.

 

multidão pentecostal 2Temos consciência de que são estilos reconciliados, na adoção das indulgências religiosas, da magia ritual, para derrotar o movimento dos reformadores protestantes? Um “paradoxo” célebre no Evangelho neotes-tamentário. Paradoxo é uma “contradição aparente”, a expressão parece encerrar uma flagrante contradição, mas não é realmente uma contradição. Ao contrário, trata-se de uma verdade profunda: cristãos nominais comportam-se sob as regras do mundo não cristão, tantas e tantas vezes que se esquecem do que realmente são, católicos ou evangélicos. Temos consciência de que são estilos reconciliados, na adoção das indulgências religiosas, da magia ritual, para derrotar o movimento dos reformadores protestantes? Um “paradoxo” célebre no Evangelho neotes-tamentário. Paradoxo é uma “contradição aparente”, a expressão parece encerrar uma flagrante contradição, mas não é realmente uma contradição. Ao contrário, trata-se de uma verdade profunda: cristãos nominais comportam-se sob as regras do mundo não cristão, tantas e tantas vezes que se esquecem do que realmente são, católicos ou evangélicos.
As exigências da cruz mudariam para cada geração de fiéis. Hoje, contudo, estas exigências não fazem sentido. Na época de Jesus existia a ameaça iminente da morte ignominiosa, através da cruz, da degola ou do apedrejamento. A recusa dos preceitos da religião da magia e do mercado se evidencia, contrariando a cruz, através de Simão, o mágico (Atos 8,9-13: Simão praticava prestidigitação religiosa, fazia falsos milagres, encantava a multidão com mágica…). Mercado pressupõe vendedor e comprador. As exigências da cruz mudariam para cada geração de fiéis. Hoje, contudo, estas exigências não fazem sentido. Na época de Jesus existia a ameaça iminente da morte ignominiosa, através da cruz, da degola ou do apedrejamento. A recusa dos preceitos da religião da magia e do mercado se evidencia, contrariando a cruz, através de Simão, o mágico (Atos 8,9-13: Simão praticava prestidigitação religiosa, fazia falsos milagres, encantava a multidão com mágica…). Mercado pressupõe vendedor e comprador.
As multidões de hoje frequentam novas e borbulhantes igrejas, entrando na porta de uma, saindo pelos fundos, e buscando sucessivamente novas portas, sem fixar-se em nenhuma, atrás de “São Simão”, seus milagres e encantamentos religiosos, ao estilo gospel. No Censo 2010 do IBGE mais de dez milhões de pessoas disseram estar na Assembleia de Deus, de Silas Malafaia. Não se esclareceu onde caberiam tantos retalhos pentecostais? Márcio Valadão, Valnice Milhomens, Neuza Itioka, Edir Macedo, R.R.Soares, estão “desempregados ou inativos”? As multidões de hoje frequentam novas e borbulhantes igrejas, entrando na porta de uma, saindo pelos fundos, e buscando sucessivamente novas portas, sem fixar-se em nenhuma, atrás de “São Simão”, seus milagres e encantamentos religiosos, ao estilo gospel. No Censo 2010 do IBGE mais de dez milhões de pessoas disseram estar na Assembleia de Deus, de Silas Malafaia. Não se esclareceu onde caberiam tantos retalhos pentecostais… Márcio Valadão, Valnice Milhomens, Neuza Itioka, Edir Macedo, R.R.Soares, estão “desempregados ou inativos”?
O que pensariam dos shows onde se cobram ingressos para oferecer aquilo que deveria ser graça e bem-aventurança? Será que desejariam, no lugar de pastores de ovelhas, gerentes de marketing? Seriam escravos da “Estatística”, essa deusa pagã das novas igrejas cristãs evangélicas? Seriam olhos que enxergam números e não vidas cristãs dedicadas à fé apostólica? Vendedores de milagres e igrejas, e os novos vendilhões no Templo, mercadores da fé, estão com a palavra! E os compradores também… Claro. O que pensariam dos shows onde se cobram ingressos para oferecer aquilo que deveria ser graça e bem-aventurança? Será que desejariam, no lugar de pastores de ovelhas, gerentes de marketing? Seriam escravos da “Estatística”, essa deusa pagã das novas igrejas cristãs evangélicas? Seriam olhos que enxergam números e não vidas cristãs dedicadas à fé apostólica? Vendedores de milagres e igrejas, e os novos vendilhões no Templo, mercadores da fé, estão com a palavra! E os compradores também… Claro.
A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia Richard Niebuhr. A fé apostólica sobreviveria sem se pregar sobre Satanás nos calcanhares da multidão (também chamado de Lúcifer, Cão, Capeta, Capiroto, Cramulhão, Pé-de-bode, Sete-peles, etc.)?
O que é e o que não é “tomar a cruz”, então? O que é e o que não é a “cruz”, da qual se refere Jesus? Ainda achamos que os evangelhos foram escritos para evangelizar os “de fora”, gentílicos, helênicos, ou já entendemos que os evangelistas se dirigem aos cristãos e suas próprias comunidades, em via de corrupção religiosa? Por que não vemos os exemplos de quem não comunga conosco, do ponto de vista ideológico-religioso, ou politicamente, ou teologicamente? Por que não indagamos sobre o papel das multidões que ouviam Jesus (oxlos), e logo o abandonavam, indispostas às exigências da cruz? Jesus exerceu seu ministério desde a Galiléia até a Judéia, tão somente. O que é e o que não é “tomar a cruz”, então? O que é e o que não é a “cruz”, da qual se refere Jesus? Ainda achamos que os evangelhos foram escritos para evangelizar os “de fora”, gentílicos, helênicos, ou já entendemos que os evangelistas se dirigem aos cristãos e suas próprias comunidades, em via de corrupção religiosa? Por que não vemos os exemplos de quem não comunga conosco, do ponto de vista ideológico-religioso, ou politicamente, ou teologicamente? Por que não indagamos sobre o papel das multidões que ouviam Jesus (oxlos), e logo o abandonavam, indispostas às exigências da cruz? Jesus exerceu seu ministério desde a Galiléia até a Judéia, tão somente.
Enquanto anunciavam a universalização da obra salvadora, respeitando-se diferenças culturais dos povos e raças, curavam os enfermos, realizavam a diaconia da fé (Tiago 2,25: “como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também acontece com a fé sem as obras”). Cultivavam o símbolo (symbolo = sinal que une, no grego) do batismo como rito de iniciação e compromisso (batismós), e da Ceia do Senhor, comunitária (eucharistia). Enquanto anunciavam a universalização da obra salvadora, respeitando-se diferenças culturais dos povos e raças, curavam os enfermos, realizavam a diaconia da fé (Tiago 2,25: “como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também acontece com a fé sem as obras”). Cultivavam o símbolo (symbolo = sinal que une, no grego) do batismo como rito de iniciação e compromisso (batismós), e da Ceia do Senhor, comunitária (eucharistia).

Finalmente, poder-se-ia retomar às opções fundamentais de Jesus, torná-las vivas, presentes, visíveis, em todos os rincões do império romano. Mateus, quando nos diz que quem ama seus parentes mais que a Jesus não é digno dele – referia-se aos grupos religiosos, “famílias” denominacionais em esboço no seu tempo? –, revela um problema da comunidade conformada ao seu tempo e cultura. Corrupção nos fundamentos.
O cristão, diz o evangelho, que não for capaz de transcender aos estreitos limites da família, da raça, da cultura ou da nação, ou religião, não está habilitado para experimentar e dar o amor solidário que nos propõe o evangelho. E, por esta mesma razão, o amor a Jesus não se reduz à pura dimensão íntima, individual ou particular. Seu amor aponta para a humanidade inteira e o mundo criado; homens, mulheres, raças, povos, ambiente, natureza, e tudo que se deseja para um mundo novo, transformado por sua causa. O Reino de Deus e a Justiça. O cristão, diz o evangelho, que não for capaz de transcender aos estreitos limites da família, da raça, da cultura ou da nação, ou religião, não está habilitado para experimentar e dar o amor solidário que nos propõe o evangelho. E, por esta mesma razão, o amor a Jesus não se reduz à pura dimensão íntima, individual ou particular. Seu amor aponta para a humanidade inteira e o mundo criado; homens, mulheres, raças, povos, ambiente, natureza, e tudo que se deseja para um mundo novo, transformado por sua causa. O Reino de Deus e a Justiça.
Amar a Jesus é amar o que ele amou, seu projeto, sua causa, seu ideal para a verdadeira vida. Amar a Jesus também é amar as pessoas que ele amou, e suas causas por direitos sociais, cidadania, justiça ecológica e dignidade democrática em igualdade. Pobres, marginalizados, deficientes, excluídos, enfermos, abatidos, endemoninhados, estrangeiros, sexualmente oprimidos, mulheres, prostitutas, coxos, cegos, são preferenciais ao Reino de Deus. Porque são as primeiras vítimas das estruturas injustas. Amar a Jesus é amar o que ele amou, seu projeto, sua causa, seu ideal para a verdadeira vida. Amar a Jesus também é amar as pessoas que ele amou, e suas causas por direitos sociais, cidadania, justiça ecológica e dignidade democrática em igualdade. Pobres, marginalizados, deficientes, excluídos, enfermos, abatidos, endemoninhados, estrangeiros, sexualmente oprimidos, mulheres, prostitutas, coxos, cegos, são preferenciais ao Reino de Deus. Porque são as primeiras vítimas das estruturas injustas.
O amor de Jesus é tão grande que se estende, inclusive, àqueles que se declararam seus inimigos. Um amor que hoje nos pode parecer fora de órbita, não natural, extremo, impossível, mas que, para alegria e espanto de todos nós, é o amor com o qual Deus nos ama. Também somos parte do grupo descrito acima. Convidados da mesma maneira à conversão e salvação da intolerância, do preconceito, da indiferença para com os que Jesus ama. Um amor sem o qual não podemos ser chamados discípulos de Jesus, como dirá o evangelista S.Mateus. O amor de Jesus é tão grande que se estende, inclusive, àqueles que se declararam seus inimigos. Um amor que hoje nos pode parecer fora de órbita, não natural, extremo, impossível, mas que, para alegria e espanto de todos nós, é o amor com o qual Deus nos ama. Também somos parte do grupo descrito acima. Convidados da mesma maneira à conversão e salvação da intolerância, do preconceito, da indiferença para com os que Jesus ama. Um amor sem o qual não podemos ser chamados discípulos de Jesus, como dirá o evangelista S.Mateus.
13o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A” 13o.

DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”
Gênesis 22,1-14 – Holocaustos humanos abomináveis
Salmo 13 – Senhor, resta-me confiar somente na tua salvação Salmo 13 – Senhor, resta-me confiar somente na tua salvação
Romanos 6,12-23– Oferecei-vos a Deus como ressurretos não assalariados
Mateus 10, (37ss)40-42 – Quem não toma a sua cruz não é digno de mim Mateus 10, (37ss)40-42 – Quem não toma a sua cruz não é digno de mim

Padrão

TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “A”

O PÃO DA COMUNHÃO JOGADO NO LIXO

pão e vinho ceiaNo momento em que esta declaração é pronunciada (Lc 24,13-35), Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.

Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos, protestantes e católicos? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?

Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial da Eucaristia, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com o carnaval, o futebol, as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem, já perdida no tempo histórico. E, nesse momento,  pensamos no Pão da Vida, o pão da Eucaristia…

Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta. No momento em que a maior parte destas declarações é pro­nunciada, Jesus Cristo ainda está corporalmente presente, o que exclui evidentemente toda confusão de uma Santa Ceia exclusiva, oposta a uma Ceia do Senhor inclusiva. Não é próprio “confundir” numa identidade meramente doutrinária o corpo e o pão, o sangue e o vinho. Também não é necessário dissociá-los da oferenda maior: o Corpo de Cristo, pois o Cristo não é apenas representado para nós na Eucaristia, ele também ali está presente para nós. Ele não nos é apenas relembrado, ele também nos é comunicado: Aquele que come da minha carne tem parte comigo, e eu estou nele… (Jo 6,56). Sua presença também não é simplesmente de ordem espiritual (Ramseyer), pois ele está ligado aos elementos materiais, o corpo, a carne, as dádivas do pão e do vinho.

A Ceia do Senhor não é irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão. Por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as instruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?

“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem.

A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” (negação da Graça) contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido.  Enquanto isso, a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil. O avivamento pentecostal  seguia o mesmo roteiro, entre católicos, protestantes e evangélicos recentes.

Desde os anos 80 (séc.20), se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir dos séculos iniciais. Falava-se, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo e fundamentalista. 

A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. 

A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.

Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial, entre si e com o Senhor, reunidos à mesa comum, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé na unidade foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127,2), mas “com alegria” (Ecles 9,7). Em Eclesiastes 8,15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2,25). A Eucaristia cristã busca tão somente a alegria da comunhão em torno das oferendas para a comensalidade que anuncia e já comemora a vinda do Reino de Deus.

Páscoa – Terceiro Domingo – Ano A
Atos 2,14;22-41 – Não era possível que a morte o subjugasse.
Salmo 116,1-4 (12-19) – Sofria… horrores supulcrais me tomavam!
1Pedro 1,17-23 – Resgatados pelo precioso sangue do cordeiro
Lucas 24,13-35 – Reconheceram-no ao partir o pão: Ele está no meio de nós!

LIVRO: O EVANGELHO DE MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO  

(Fontes Editorial, Em Preparo). *************************************************************                                                   

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